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Algu�m Mais No D�cimo Segundo Andar

Arrastei a cadeira at� a janela do canto e como de h�bito, sempre o mesmo ritual h� mais de um ano, deslizei a cortina apenas alguns discretos cent�metros. O bin�culo j� tinha as marcas gordurosas das minhas m�os, observei antes de coloc�-lo em frente aos olhos. Ela ainda n�o estava l�, eu estava ansiosamente adiantado. Conferi o rel�gio de ponteriros fosforescentes, ainda eram cinco para �s duas da manh�, mais cinco minutos de impaci�ncia, pelos meus c�lculos, ela raramente se atrasava. Acendi, ent�o, mais um cigarro amargo, traguei e deixei a fuma�a correr suavemente para dentro do meio peito e depois sair densa pelo nariz, chapando os meus olhos.

Na noite anterior, poderia lembrar eternamente, ela estava de sapatos pretos combinando com o vestido, tamb�m preto e para minha surpresa, como quem diz, olha o que tenho pra voc�, ela mostrou a cinta-liga. Pensei que ainda um dia conheceria a dona daquele sapato preto e de vestido da mesma cor at� chegar a cinta-liga. Poderia muito bem ir a algum daqueles bares que ela sempre vai, esbarrar na passagem para pegar uma bebidinha e dizer Oi, me desculpe. Espera, eu conhe�o...voc� n�o me � estranha, deixa eu ver... ah, j� sei, somos praticamente vizinhos, eu moro no pr�dio em frente ao seu, no d�cimo terceiro andar, na cidade baixa. Ela faria aquela cara de d�vida e depois de nifetinha no cio, aquela mesma que tinha visto v�rias vezes ela ensaiando no espelho, com beicinho e tudo. Ofereceria um drink, por minha conta, mas ela n�o deixaria e andaria na minha frente para pedir e pagar sua bebida, mostrando que ela tinha mais do que peitos e coxas carnudas, tinha tamb�m sua independ�ncia. E da� n�s conversar�amos sobre o trabalho dela, do meu inventaria algumas est�rias interessantes para impression�-la, ela contaria que vai ao analista uma vez por semana, eu que jogo t�nis no clube brit�nico e bem antes de se despedir eu ofereceria uma carona, afinal � s� do outro lado da rua, n�o tinha nada de mal pegar carona com o vizinho, t�xi aquela hora era perigosos, voc� nunca leu nos jornais, taxistas que estupram ou assaltam. S� uma carona ent�o, e eu faria cara de anjo, rir�amos juntos. A m�o resvalaria na perna, Me desculpe novamente, esse carro � mesmo apertado, uma m�o na perna de novo, um beijinho de despedida, e ela diria j� embriagada pela bebida e pelas minhas palavras, risadas, vamos subir, vamos tomar a �ltima? Eu ainda diria, voc� tem certeza, Claro eu tenho uma Budweiser gelada l� em cima. Esquecer�amos da �ltima j� no elevador, contra a parede de metal gelado, at� o d�cimo segundo, depois no corredor, beijo molhado no pesco�o, m�o �gil correndo pelo vestido macio, corpo quente quase pelando, onde est� sua chave? bolsa pequena para as duas m�os procurarem, abre porta, sala, sof�, joga a almofado pro ch�o, sapato preto num canto da sala, corpos enroscados deitados, vestido preto noutro lado da sala, cinta-liga, pau duro embaixo da cal�a, abre o z�per, m�o aqui e l�, vem assim, ser� que a gente deve? voz de gata manhosa, eu pegaria ela com for�a, ela no meu colo por cima, voc� gosta, � assim, assim que voc� gosta, gostosa, assim fala pra mim, bafo quente, suado saindo da boca ofegante, eu veria a silhueta azulada do seu corpo se movimentando sob a luz fraca da rua que entraria pela janela, vou botar uma m�sica, voc� � muito afoito, safado, e ela ent�o pegaria um cd do Sting e faria um charminho em frente ao aparelho de som enquanto eu esperava no sof�, pau duro, por que a gente n�o vai l� para dentro? me mostra o caminho e sairia seguindo seus passos felinos at� passar a porta do banheiro e entrar no quarto com uma luz fraca, meio tonta, cairia sobre ela, beijos molhados no pesco�o, na orelha, as unhas nas minhas costas, guarda aberta, vai-e-v�m, calor, suor nos seus cabelos escuros, �midos, lambidos, vai-e-vem. E at� que nossos corpos ca�ssem amolecidos, um ao lado do outro, sexos recolhidos, poucas palavras e ela adormecida na embriaguez daquela noite e eu sa�ria, escreveria um bilhete, voc� � �tima, um beijo e meu telefone. Depois ela me ligaria no outro dia, esquecemos de tomar aquela budweiser, porque mulher n�o gosta de ser descartada, s� umazinha n�o, n�o � bem assim. Ir�amos no cinema, l� atr�s, m�o na perna, desculpe, pau duro, cinta-liga. E tamb�m sair�amos pra jantar, vinho, peixe, algo mais requintado. Poder�amos at� ter uma relacionamento normal, mas n�o sei se poderia suportar nada tipo filme rom�ntico.

Confer� o rel�gio, os ponteiros fosforescentes de novo, no exato momento que ela abriu a porta do apartamento, duas e quinze. Levei lentamente o bin�culo at� meus olhos, como se a brisa que entrava pela janela tivesse dado um leve empurr�o nas minhas m�os geladas. Ela cruzou a sala em passos tortos e foi aparecer na janela do quarto. Deixou os sapatos pretos perto da porta e foi tirando o vestido por cima sem dificuldade deixando � mostra seus peitos carnudos, suas coxas, e todo o resto apenas encoberto pela renda da cinta-liga e pela calcinha preta. Ficou a olhar-se no espelho, passar a m�o pelo seu corpo, como uma garota que ainda est� tentando se descobrir. Acomodei meus cotovelos no parapeito da janela completamente entertido por mais show privado, agradecendo ao agente imobili�rio por ter me arranjado aquele apartamento, digamos, especial. Fiquei a observar aquela del�cia, perfei��o dos deuses, uma obra grega lasciva com prov�vel cheiro de flores nos cabelos e de pecado no corpo. Gargalhei baixo quando lembrei de um amigo que dizia "ela n�o � uma mulher, � uma bala perdida" e mexia as sombrancelhas de um jeito engra�ado. Ela continuava l�, m�os nos bicos dos seios, nas n�degas, deslizava suavemente como se ensaiasse uma dan�a interna, poderia te ajudar, ensinar novos passos, baby e continuava observando tudo pelo espelho, num tranze. Foi ent�o que o telefone tocou, primeiro eu nem ouvi, depois o som foi perfurando minha concentra��o, me deixando nervoso. Levantei e fui atender, quem seria o desgra�ado a uma hora dessas? vou desligar logo. Al�, al�, e ent�o escutei uns risinhos no fundo, risinhos al�? al�? uns gemidinhos tamb�m. Doces risinhos? Com o telefone na m�o corri t�o r�pido at� a janela que quase esmaguei meu rosto no vidro, o bin�culo, cad�? o bin�culo, peguei ent�o, estava sobre a cadeira, mas j� era tarde, ouvi o som do telefone desligando e a luz estava apagada, deixando sua janela igual a todas as outras do pr�dio, sem luz nem brilho. Dormindo.

Estava deitado na cama, o sapato preto, o vestido da mesma cor e a cinta-liga ainda passeavam pelos meus olhos fechados. Foi ent�o que o telefone tocou novamente. Deslizei os p�s pelo ch�o e alcancei o arm�rio onde ele ficava. Al�? e os risinhos estavam agora mais pr�ximos Al�? Quem �? Voc� sabe, disse uma voz rouca do outro lado. Por que voc� n�o vem, sweet? Como? eu disse - Voc� sabe, � s� atravessar a rua, vem no d�cimo segundo, eu preciso de uma companhia, e mais uns risinhos. A porta estar� aberta. A voz rouca me surpreendeu. Desligou o telefone antes mesmo de eu tentar balbuciar a resposta. Minhas pernas tremiam, uma rea��o nervosa, ela deveria ter mais coisas a me mostrar do que essa voz calorenta. Botei a roupa e sai em busca do elevador.

Pressionei t�rreo e encostei a cabe�a na parede met�lica enquanto olhava atento os n�meros que lentamente come�aram correr em contagem regressiva. Naquela eterna descida, lembrei dos beijos molhados do meu pensamento, coxas e peitos carnudos, a silhueta azulada se movimentando sucessivamente sobre o meu corpo. Plim. T�rreo. Sai sem cumprimentar o porteiro, cruzei a porta num turbilh�o fui atravessando a rua silenciosa ouvindo apenas meus sapatos raspando na areia que se depositara sobre o asfalto antigo. Quando estava chegando na entrada o zumbido do interfone j� destrancou a porta. Felizmente ningu�m estava ali, avancei meio sorrateiro procurando o elevador e minha imagem se distorceu num espelho manchado, pensei que minha barriga tinha mesmo ganho espa�o naqueles dois �ltimos anos, encolhi-a um pouco sem muito resultado, enchi o peito e encarei o desconhecido elevador do pr�dio dela. Ele parecia estar a minha espera, a porta escancarada faltando apenas uma placa de bem-vindo. Apertei o d�cimo segundo e come�ou a subida. Acompanhava os n�meros acomodando as costas na parede forrada de carpete marrom. A ansiedade fazia minhas costas ficarem desconfort�veis e minhas pernas meio falsas. N�o queria romance, se fosse preciso entrar nesse assunto, mas tamb�m preciso de companhia, diria. Esfregava a m�o no pau enquanto a luz ia iluminando andar por andar, e j� podia sentir nos meus dedos a maciez do vestido preto, da pele branca sedosa. Plim. O d�cimo segundo tinha se iluminado, era a janela aberta no meio das outras fechadas e escuras. Olhei a longa parede branca quando a porta abriu, esperei ouvir alguma voz rouca me chamando de algum lado, ent�o lembrei que a porta estaria aberta. Sai, o primeiro passo foi temeroso. Olhei para um lado e para o outro. Uma porta aberta, era o X no mapa que eu procurava e l� estava ela, discretamente aberta, uma pequena fresta. Me aproximei cauteloso, nervoso, esfregando a m�o no pau para deixar mais volumoso. Ela iria, tinha que notar. Arrumei a gola da camisa. Tudo estava escuro, tinha a luz de uma abajour no canto que deixava o ambiente um pouco descoberto. Dei duas leves batidas com o n� do dedo na porta, sem alarde, e entrei. Fechei a porta apertando bem a bola da fechadura, o clec foi bem suave, quase surdo, isolando-nos do mundo de fora. Pude ver o meu edif�cio atrav�s da janela entre-aberta, localizei minha janela, fiquei apenas com a impress�o de que fosse um pouco mais para o lado, uma janela adiante. Corri ent�o os olhos pela parede e n�o reconheci os quadros, o sof� n�o era o mesmo, virei o rosto para procurar a estante com o aparelho de som e o que tinha l� era uma velha tv de antena quebrada. Foi ent�o, quando percebi um bin�culo encostado ao lado da janela, que percebi meu erro. Tentei me virar para sair, mas era tarde, bra�os fortes me abra�aram por tr�s impedindo qualquer movimento, senti o h�lito pegajoso se aproximar da minha orelha e um assombroso volume come�ou a pressionar minha bunda.

E. Boldrini

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