Florbela Espanca


Vol�pia

Se tu viesses ver-me

Inconst�ncia

A nossa Casa

Tortura

Amor Que Morre

Exalta��o

Charneca em Flor

Teus Olhos

Saudades

Fummo

Ser Poeta





Vol�pia

No divino impudor da mocidade,
Nesse �xtase pag�o que vence a sorte,
Num fr�mito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido � morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A n�vem que arrastou o vento norte...
--- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de vol�pia e de maldade!

Trago d�lias vermelhas no rega�o...
S�o os dedos do sol quando te abra�o,
Cravados no teu peito como lan�as!

E do meu corpo os leves arabescos
V�o-te envolvendo em c�rculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas dan�as...


in�cio



Se t� viesses ver-me

Se tu viesses ver-me hoje � tardinha,
A essa hora dos m�gicos cansa�os,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus bra�os...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abra�os...
Os teus beijos... a tua m�o na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Tra�a as linhas dulc�ssimas dum beijo
E � de seda vermelha e canta e ri

E � como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus bra�os se estendem para ti...


in�cio



Inconst�ncia

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi � Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clar�o nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atr�s do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
�� igual a outro amor que vai surgindo,
Que h�-de partir tamb�m... nem eu sei quando...


in�cio


A nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte est� ela, Amor, que n�o a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Costr�i-a, num instante, o meu desejo!

Onde est� ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Ser� mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de m�os dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num pa�s de ilus�o que nunca vi...
E que eu moro - t�o bom! - dentro de ti
E tu, � meu Amor, dentro de mim...


in�cio


Tortura

Tirar dentro do peito a Emo��o,
A l�cida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do cora��o,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de ora��o!
-- E ser, depois de vir do cora��o,
O p�, o nada, o sonho dum momento...

S�o assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


in�cio


Amor que Morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clar�o, ao longe, j� desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
S�o precisos amores, pra morrer,
E s�o precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor imposs�vel que h�-de vir!


in�cio


Exalta��o

Viver!... Beber o vento e o sol!... Erguer
Ao C�u os cora��es a palpitar!
Deus fez os nossos bra�os pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!...
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!...
A gl�ria!... A fama!... O orgulho de criar!...

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos ext�ticos, pag�os!...
Trago na boca o cora��o dos cravos!
Bo�mios, vagabundos, e poetas:
--- Como eu sou vossa Irm�, � meus Irm�os!...


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Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O fr�mito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as l�grimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oi�o bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E j� n�o sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em �xtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!


in�cio


Teus Olhos

Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus an�is, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus pal�cios moiros,
Meus carros de combate, destro�ados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Al�m-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigm�ticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Ber�o vindo do C�u � minha porta...
� meu leito de n�pcias irreais!...
Meu sumptuoso t�mulo de morta!...

in�cio


Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque n�o?...
Se o nosso sonho foi t�o alto e forte
Que bem pensara v�-lo at� � morte
Deslumbrar-me de luz o cora��o!

Esquecer! Para qu�?... Ah! como � v�o!
Que tudo isso, Amor, nos n�o importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como p�o!

Quantas vezes, Amor, j� te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

in�cio


Fumo

Longe de ti s�o ermos os caminhos,
Longe de ti n�o h� luar nem rosas,
Longe de ti h� noites silenciosas,
H� dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos s�o dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham m�os cariciosas,
Tuas m�os doces, plenas de carinhos!

Os dias s�o Outonos: choram... choram...
H� cris�ntemos roxos que descoram...
H� murm�rios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os bra�os!
E ele �, � meu Amor, pelos espa�os,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

in�cio


Ser Poeta

Ser poeta � ser mais alto, � ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
� ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de �quem e de Al�m Dor!
� ter de mil desejos o esplendor
E n�o saber sequer que se deseja!
� ter c� dentro um astro que flameja,
� ter garras e asas de condor!

� ter fome, � ter sede de Infinito!
Por elmo, as manh�s de oiro e de cetim.
. � condensar o mundo num s� grito!

E � amar-te, assim, perdidamente...
� seres alma, e sangue, e vida em mim
E diz�-lo cantando a toda a gente!


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