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VERSOS ÍNTIMOS Vês?! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo, Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja esta mão vil que te afaga, Escarra nesta boca que te beija! início A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como estalactites de uma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas, Que, em desintegrações maravilhosas, Delibera, e depois, quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe, Chega em seguida às cordas da laringe, Tísica, tênue, mínima, raquítica ... Quebra a força centrípeta que a amarra, Mas, de repente, e quase morta, esbarra No molambo da língua paralítica! início O MORCEGO Meia-noite, ao meu quarto me recolho. Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho " Vou mandar levantar outra parede ..." - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre minha rede Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh’alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A consciência humana é este morcego! Por mais que a gente faça, à noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto. início CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão, e, nele, inclusas, Cinzas, caixas cranianas, cartilagens Oriundas, como os sonhos dos selvagens, De aberratórias abstrações abstrusas ! Nesse caixão iam talvez as Musas , Talvez meu Pai ! Hoffmânnicas visagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas ! A energia monística do Mundo, À meia-noite, penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio ... Era tarde ! Fazia muito frio. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio ! início O ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum, Amo o coveiro - este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o trancendentalíssimo mistério! É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum, É a morte, é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio, como o filósofo mais crente, Na generalidade decrescente Com que a substância cósmica evolui ... Creio, perante a evolução imensa, Que o homem universal de amanhã vença O homem particular que eu ontem fui! início BUDISMO MODERNO Tome, Dr., esta tesoura, e ... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo meu coração, depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo; Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétua grades Do último verso que eu fizer no mundo! início PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epgênesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco, Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que escapa da boca de um cardíaco. Já o verme - este operário das ruínas - Que o sangue podre das carnificinas Come, e à vida em geral declara guerra, Anda a espreitar meus olhos para roê-los, E há de deixar apenas os cabelos, Na frialdade inorgânica da terra! início
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