As rádios comunitárias estão expandindo suas transmissões para muito além das favelas, vilas e periferias das cidades brasileiras.
Com o auxílio da internet, as emissoras têm viabilizado transmissões ao vivo e programação compartilhada, articulando a comunicação local com alcance global.
Tudo começou com a parceria entre a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e a Rádio FaE - um projeto experimental da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) -, baseada na web. A iniciativa resultou na Rede Abraço de Rádios Comunitárias, que vem contribuindo com a organização dos movimentos sociais e com o intercâmbio entre as diversas emissoras espalhadas pelo país.
A Rede Abraço, via Rádio FaE ( http://www.radio.fae.ufmg.br) - que funciona como uma espécie de cabeça de rede virtual, já realizou diversos programas e coberturas de atividades políticas e culturais transmitidas para centenas de emissoras comunitárias do Brasil e também do exterior.
Em 2003, a comemoração do dia de Portugal, Camões e das Comunidades de Língua Portuguesa, realizada no Brasil, foi transmitida ao vivo, do auditório da Faculdade de Educação para rádios em Macau, Angola, Venezuela, Moçambique e Portugal. "A Rádio FaE busca estabelecer uma relação dialógica entre Universidade, sociedade civil e movimentos sociais", afirma o professor Wemerson de Amorim, idealizador e coordenador da Rádio FaE. Amorim trabalha agora para buscar a institucionalização da rádio, e tem a expectativa de que, cada vez mais, as rádios comunitárias se organizem e os movimentos sociais se apropriem da tecnologia. "O que a gente faz é absolutamente legal, no sentido de dar voz, de democratizar a comunicação", destaca.
Além de disponibilizar áudio ao vivo na internet, a Rede Abraço também pretende gerar, atualizar e disponibilizar banco de dados com programação gravada de boletins, reportagens, entrevistas, vinhetas de campanhas públicas, músicas e cobertura de atividades políticas e culturais. "Estamos construindo uma grande rede de comunicação de massa dos movimentos populares", afirma o dirigente da Abraço/MG, José Guilherme Castro, um dos idealizadores do projeto. "Com a tecnologia digital, o estúdio é algo cada vez menos importante, pois até um telefone público pode ser cabeça de rede", diz Castro. Assim, é possível aos movimentos sociais se comunicarem de forma simples e sem custos. Atualmente, entre duzentas e trezentas rádios formam a rede, que envolve 200 municípios brasileiros e só não se expandiu mais, porque encontra, ainda, limitações na ANATEL, na Polícia Federal e o acesso limitado à banda larga.
Além das transmissões em rede nacional, a Abraço também vai produzir conteúdos regionais e estaduais. De acordo com o coordenador da Rede Abraço no RS, Josué Franco Lopes, as emissoras do Estado poderão contar com cinco equipes regionais, responsáveis pela produção do conteúdo, que será disponibilizado em áudio e também em texto para as rádios e jornais comunitários. "No Rio Grande, vamos iniciar o projeto com 55 rádios espalhadas por 47 municípios", conta Lopes.
Para Castro, a Rede Abraço de Rádios também serve como um instrumento de denúncia contra a Lei 9.612, da radiodifusão comunitária, que ele considera uma violência contra o movimento, porque proíbe a formação de rede. "No Brasil, quase tudo na comunicação está à margem da lei, como a própria concentração da propriedade nosetor. É aquela história: para os amigos, tudo, para os inimigos, nada", compara Castro.
Conforme Jerry de Oliveira, da coordenação nacional da Abraço, essa rede vem possibilitando ainda lutar contra a repressão. Em Campinas-SP, por exemplo, foi possível chegar a 40 emissoras conectadas durante atividades de protesto contra o fechamento de rádios na cidade. "A Rede Abraço quer transmitir a visão dos movimentos, quer ser resistência contra a repressão e mostrar a diversidade cultural a partir da realidade local", diz.
Para a Abraço, qualquer proposta democratizante e descentralizada de comunicação popular é contrária aos interesses dominantes no mundo contemporâneo, em que a construção da identidade social e a própria luta política se dão, mais do que nunca, pela mídia. Por isso, acredita que cabe aos movimentos populares ocupar os espaços disponíveis para a disputa de versões sobre essa mesma realidade.
Obs.: Matéria publicada na Revista do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação,
Revista MídiaCom Democracia,
referente ao mês de Setembro de 2006.
Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: [email protected]
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Publicado em 17 de outubro de 2006
Atualizado em 17 de outubro de 2006