Férias para nós crianças sempre significavam a viagem para Joinville, visitar a vovó Mathilde e os tios. Um deles era todo especial e, sem ele saber, me influenciou muito. Sua casa grande, seu jardim enorme e os dois primos estão até hoje ligados a mil lembranças em um paraiso perfeito.
Mas, sem dúvida alguma, a maior atração foi aquele quartinho nos fundos da casa, sempre trancado e cheio de mistérios. De vez enquando o tio Rodolfo sumia, desaparecia no seu quartinho. Certo dia, provavelmente tínhamos feito menos arte, tínhamos nos comportados quase como anjos, foi nos concedida a graça de poder entrar neste recinto. O primo Rudi e eu sentamos atraz do tio Rodolfo, em cadeirinhas de italiano. Fascinados olhamos os aparelhos misteriosos em cima da grande mesa, ferramentas, fios, contatos e chaves na parede.
Calafrios me passaram pela espinha, ouvindo ruídos e estalos estranhos, vendo faíscas e escutando os murmúrios do tio Rodolfo. As mãos ágeis bateram sinais engraçados num aparelho mais engraçado ainda. Outras vezes a voz suave e sonora do tio falava para um outro aparelho, sem que descobríssemos com quem ele estava falando. No meio da conversa misteriosa deu um grande estalo e uma assustadora faísca... tch, tch, tch... e, tudo ficou em silêncio, no ar só o desabafo desesperado do tio Rodolfo.
Nós, nas cadeirinhas, atraz dele, tínhamos a absoluta certeza que não foi por nossa culpa que alguma coisa deu errado. Nós estávamos quietinhos...palavra de honra. O tio Rodolfo então começou a lidar com as ferramentas e, finalmente voltaram os queridos, misteriosos e esquisitos ruídos. Respiramos aliviados, na certeza que tudo voltava ao normal.
Anos depois descobri que isto foi o meu primeiro contato com o radioamadorismo. O tio Rodolfo foi um dos pioneiros brasileiros neste hobby fascinante, muito conhecido com seu indicativo de chamada PY2QD.
Minha vida correu normalmente. Escola, primeiro namorado, casamento e seis filhos. Os interesses mudaram um pouco e, no fundo do coração estava a certeza que o rádio, a técnica e a ciência era reservado para o sexo masculino.
Os tempos mudaram, os filhos cresceram e, um dia a mãe, já meio tarde, realizou um sonho: tornou-se radioamadora.
Hoje o primo Rudi (Rodolfo Alexandre Schlemm Júnior) - PP5EK, em Porto União-SC e Alda Schlemm Niemeyer - PP5ASN, em Blumenau-SC, estão em todas as faixas e freqüências.
Quando nós nos encontramos, tenho eu a absoluta certeza, o tio Rodolfo, lá do alto, nos dá suas bençãos eletrônicas.
Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
e-mail: [email protected]
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Publicado em 23 de abril de 2005
Atualizado em 05 de agoisto de 2005