The Economist
Equipamentos baseados em sat�lites puseram fim, este m�s, no modo de comunica��o ancestral da Internet
"Chamando a todos. Este � nosso �ltimo grito antes do nosso eterno sil�ncio." Surpreendentemente essa mensagem que se espalhou pelas ondas de r�dio em pontos e tra�os do C�digo Morse em 31 de janeiro de 1997 n�o foi uma transmiss�o desesperada de operador de r�dio em um navio prestes a afundar. Em vez disso foi uma mensagem que sinalizava o fim do uso do C�digo Morse para pedidos de socorro nas �guas francesas. Desde 1992, os pa�ses ao redor do mundo v�m desativando seus equipamentos de Morse com despedidas (embora menos po�ticas), � medida que a navega��o mundial migra para um novo sistema, baseado em sat�lites, o Sistema Global de Emerg�ncia e Seguran�a Mar�tima (GMDSS). O prazo final para a troca para novo sistema foi 1� de fevereiro �ltimo, data considerada "fim de uma era".
Os pontos e tra�os n�o morrer�o por completo - eles continuam a ser usados por operadores de r�dio amador, espi�es e alguns membros das for�as armadas, mas a troca pelo GMDSS marca o fim da �ltima utiliza��o internacional significativa do Morse. O c�digo, entretanto, teve per�odos de sucesso. Desde suas origens em 1832, quando um inventor americano chamado Samuel Morse come�ou rabiscando em seu caderno de anota��es o c�digo se transformou no padr�o mundial para o envio de mensagens por cabo e posteriormente por ondas de r�dio. O C�digo Morse foi, com efeito, o protocolo de rede para a primeira Internet do mundo: a rede internacional de tel�grafo, cujos cabos envolviam o globo na segunda metade do s�culo XIX.
Para uma tecnologia normalmente associada a operadores de r�dio em navios amea�ados de afundar, a id�ia do C�digo Morse teria ocorrido a Samuel Morse quando estava a bordo de um navio que cruzava o Atl�ntico. Na �poca, Morse era pintor e inventor ocasional, mas quando outro dos passageiros do navio o informou sobre recentes avan�os em teoria el�trica, Morse foi tomado repentinamente pela id�ia de construir um tel�grafo el�trico.
Outros inventores vinham tentando fazer justamente isso durante a maior parte do s�culo. Morse conseguiu e agora � lembrado como "o pai do tel�grafo", em parte gra�as a sua obstina��o - levou 12 anos, por exemplo, antes que conseguisse dinheiro do Congresso americano para construir sua primeira linha de tel�grafo, mas tamb�m por motivos t�cnicos. Comparados com os projetos concorrentes de tel�grafo el�trico, como o tel�grafo de agulha desenvolvido por William Cooke e Charles Wheatstone na Inglaterra, o projeto de Morse era muito simples: exigia pouco mais do que uma "chave" para enviar mensagens, um receptor ac�stico para capt�-las e um cabo ligando os dois. Mas, apesar do equipamento de Morse ser simples, havia um problema: para poder us�-lo os operadores tinham de aprender um c�digo especial de pontos e tra�os que ainda leva seu nome.
Originalmente, Morse n�o pretendia usar combina��es de pontos e tra�os para representar letras espec�ficas. Seu primeiro c�digo, esbo�ado no seu caderno de anota��es durante a viagem transatl�ntica, usava pontos e tra�os para representar algarismos de 0 a 9. A id�ia de Morse era que as mensagens consistiriam em s�ries de n�meros correspondentes a palavras e frases em um dicion�rio especial numerado. Mas Morse abandonou posteriormente esse plano e, com a ajuda de um associado, Alfred Vail, criou o alfabeto Morse, que podia ser usado para soletrar mensagens letra por letra.
No come�o, a necessidade de aprender esse c�digo aparentemente complicado fez com que o tel�grafo de Morse parecesse dif�cil, em compara��o com outros projetos que facilitavam a opera��o. O tel�grafo de Cooke e Wheatstone, por exemplo, usava cinco agulhas para picotar letras em uma malha com formato de diamante. Mas tamb�m exigia cinco cabos entre as esta��es de tel�grafo. O tel�grafo de Morse precisava de apenas um. E algumas pessoas tinham uma facilidade natural pelo C�digo Morse.
A medida que a telegrafia el�trica decolava no come�o da d�cada de 1850, o tel�grafo de Morse se tornou rapidamente dominante. Foi adotado como padr�o europeu em 1851, permitindo liga��es diretas entre as redes de tel�grafo de diferentes pa�ses. (A Inglaterra preferiu n�o participar, mantendo os tel�grafos de agulha por mais alguns anos.) Por essa �poca, o C�digo Morse tinha sido revisto para permitir acentos e outros caracteres estrangeiros, resultando na ruptura entre o Morse americano e o internacional, que continua at� hoje. Nos cabos submarinos internacionais, oscila��es � esquerda e � direita de um feixe de luz refletido de um pequeno espelho rotativo eram usadas para representar pontos e tra�os.
Enquanto isso, uma subcultura telegr�fica distinta estava emergindo, com seus costumes e vocabul�rios pr�prios e uma hierarquia baseada na velocidade com que os operadores conseguiam enviar e receber C�digo Morse.
Os operadores de primeira classe, que conseguiam enviar e receber a velocidades de at� 45 palavras por minuto, conduziam o movimento da imprensa, obtendo os empregos mais bem remunerados nas grandes cidades. No fim da hierarquia estavam os operadores rurais lentos e inexperientes, muitos dos quais trabalhavam nas linhas como empregados de jornada reduzida.
� medida que seu C�digo Morse melhorava, no entanto, os operadores rurais descobriam que sua rec�m-obtida habilidade era o passaporte para sal�rio melhor em emprego na cidade. Os operadores de tel�grafo logo aumentaram as fileiras das classes m�dias emergentes.
A telegrafia tamb�m era considerada atividade apropriada para mulheres. Em 1870, um ter�o dos operadores no escrit�rio da Western Union em Nova York, maior escrit�rio de telegrafia nos Estados Unidos, era do sexo feminino. Assim como os operadores habilidosos conseguiam se reconhecer mutuamente atrav�s dos cabos por seu estilo de C�digo Morse, muitos operadores alegavam ser capazes de reconhecer as operadoras. Inevitavelmente, romances foram iniciados atrav�s dos cabos - assim como acontecem hoje, por e-mail. Houve at� um punhado de casamentos por tel�grafo.
Em uma cerim�nia dram�tica em 1871, o pr�prio Samuel Morse deu adeus � comunidade mundial de operadores de tel�grafo que ajudou a criar. Depois de um abundante banquete e muitos discursos aduladores, Morse sentou-se � mesa de um operador e, colocando seu dedo sobre uma chave ligada a cada cabo de telegrafia nos Estados Unidos emitiu com batidas sua despedida final diante do p�blico que o aplaudia de p�.
Na �poca de sua morte em 1872, o mundo estava bem e verdadeiramente conectado por cabo: mais de 1.040 quil�metros de linhas telegr�ficas e 48 mil quil�metros de cabos submarinos estavam pulsando com C�digo Morse; e 20 mil cidades e povoados estavam ligados � rede mundial. Assim como a Internet � hoje chamada freq�entemente uma "super-rodovia da informa��o", o tel�grafo foi descrito na sua �poca como uma "rodovia instant�nea do pensamento".
Mas, na d�cada de 1890, o auge do tel�grafo de Morse como tecnologia de ponta estava chegando ao fim, com a inven��o do telefone e a ascens�o de tel�grafos autom�ticos, precursores da teleimpressora (telex), nenhum dos quais exigia per�cia na opera��o. O C�digo Morse, entretanto, estava para receber nova extens�o de vida, gra�as a outra nova tecnologia: a telegrafia sem fio.
Depois da inven��o da radiotelegrafia por Guglielmo Marconi em 1896, seu potencial para uso no mar ficou rapidamente aparente. (* No Brasil, em S�o Paulo, em 1893 e 94, o genial Padre Roberto Landell de Moura realizava suas experi�ncias, com �xitos, da transmiss�o, sem fios, por ondas eletromagn�ticas e luminosas, da telegrafia e da fonia.)
Pela primeira vez, os navios podiam comunicar-se entre si, e com a terra, independentemente do clima, e mesmo quando estavam fora do alcance visual. Em 1897, Marconi conseguiu enviar com sucesso mensagens de C�digo Morse entre uma esta��o terrestre e um navio de guerra italiano � dist�ncia de 19 quil�metros. O primeiro resgate mar�timo ap�s um pedido de socorro enviado por radiotelegrafia ocorreu em 1899, quando um farol flutuante nos estreitos de Dover relatou o encalhe do Elbe, navio a vapor. Dois anos depois, Marconi mandou o primeiro sinal de r�dio transatl�ntico: tr�s pontos, a letra "S" no C�digo Morse. Em 1910, equipamentos de r�dio Morse eram comuns em navios.
O afundamento do Titanic em 1912, entretanto, ressaltou a necessidade de operadores de r�dio para ficar o tempo todo � escuta de pedidos de socorro. Ap�s o desastre, constatou-se que o navio Californian estivera a apenas alguns quil�metros de dist�ncia, e centenas de vidas podiam ter sido salvas se o operador de r�dio do navio estivesse de servi�o e, assim, pudesse receber o pedido de socorro "SOS" do Titanic. Na primeira Conven��o Internacional de Seguran�a de Vida no Mar (Solas), realizada em Londres em 1914, chegou-se ao acordo de que os grandes navios deveriam mais escuta de r�dio 24 horas por dia.
Esta regra permaneceu desde ent�o, com as subseq�entes conven��es Solas, introduzindo gradualmente novas regras para acompanhar o desenvolvimento de tecnologia como a radiotelefonia. O advento da tecnologia de sat�lite levou a Organiza��o Mar�tima Internacional a emendar a conven��o Solas em 1988 a introduzir GMDSS, um sistema autom�tico de comunica��es de emerg�ncia baseado em liga��es por sat�lite e r�dio.
Operando desde de 1992, o equipamento GMDSS � compuls�rio em escala mundial desde 1� de fevereiro em todos os navios que excedem 300 toneladas, transportam 12 passageiros (ou mais) ou naveguem em �guas internacionais. (Os propriet�rios de navios menores podem instalar o equipamento se desejarem.) Com o GMDSS, qualquer pessoa a bordo de qualquer navio em emerg�ncia precisa meramente apertar um bot�o para mandar um pedido de socorro contendo o n�mero de identifica��o da embarca��o e sua localiza��o precisa - n�o h� necessidade de operador especializado de Morse. Assim, depois de quase 170 anos, o C�digo Morse finalmente submergir� nas ondas.
No que diz respeito a protocolos de comunica��es, o C�digo Morse durou um per�odo surpreendentemente longo. Deste modo, como poderia seu descendente moderno, o protocolo da Internet (TCP/IP) , se compara a ele? O TCP/IP foi criado em 1973, por Robert Kahn e Vinton Cerf (um homem com prest�gio parecido com o de Morse, considerado "pai da Internet").
Assim como o C�digo Morse antes dele, o TCP/IP est� sendo melhorado para responder a novos desafios e tecnologias. Seu sistema de endere�amento est� sendo reformulado para abrir espa�o a bilh�es de liga��es adicionais e comportar os dispositivos sem fio que dever�o proliferar nos anos vindouros e permitir que at� os eletrodom�sticos se liguem � rede. Cerf tamb�m est� trabalhando uma forma de estender a Internet a outros lugares como a Lua e Marte, j� que os atrasos enquanto os sinais de r�dio viajam pelo espa�o, tornam o atual protocolo inadequado.
Melhorias adicionais vir�o: como � falado por computadores, e n�o por seres humanos, o TCP/IP pode ser adaptado com mais facilidade. Mesmo assim, no mundo da computa��o � improv�vel que o TCP/IP permane�a em uso cont�nuo por um s�culo e meio, como conseguiu o C�digo Morse, seu ancestral.
Obs.:
Mat�ria publicada no Caderno de Cultura do Jornal Gazeta Mercantil, em 12.02.1999.
* Esta lembran�a n�o faz parte da mat�ria, foi inclus�o nossa.Colabora��o de Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR
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Publicado em 19 de junho de 2006
Atualizado em 19 de junho de 2006