Auto-defesa
Starhawk
Tá certo, portanto agora eles estão de fato atirando nas pessoas com balas de verdade. E nada menos que na Suécia! Quero dizer, esse tipo de coisa seria esperado no terceiro mundo, mas a Suécia era onde se costumava ir quando não se suportava mais a guerra do Vietnã e se desertava, e lá se conseguia asilo.
O que isso quer dizer então ? Ando
lendo e-mails sobre a necessidade de se levantar fundos para roupas à prova de
bala para os ativistas, ou sobre quão nobre é se dispor a morrer nas ruas.
Morrer nas barricadas é uma dessas coisas que soa muito mais romântico do que de
fato é na prática, até porque você só pode o fazer uma vez, enquanto que vivendo
como ativista por muito, muito tempo, aprendendo com a experiência, crescendo,
mudando e se mantendo como tal, se tem o potencial de causar ao poder muito mais
problemas.
A verdade é que não há roupas, armaduras, escudo de vidro que
irá protegê-lo se começarem a atirar munição de verdade em uma manifestação.
(Por outro lado, suas chances de morrer continuam sendo maiores no tráfego do
fim de tarde).
Mas existe uma forma de evitar que se receba uma bala no
coração na próxima ação. E isso não tem nada a ver com a vestimenta que você
possa estar usando na rua. Tem a ver com a mobilização de seu apoio político
antes da ação sequer acontecer, fazendo com que o custo político de tal reação
se torne inaceitável para as autoridades.
Como que podemos alcançar isso
em um mundo em que a mídia é controlada por corporações? Converse com as
pessoas! Converse com as pessoas que não estão ainda no movimento! Encontre
aquelas que têm alguma simpatia pelo movimento, mesmo que vaga, e peça-as para
apoiá-lo.
Existe uma teoria sobre movimentos sociais que diz que os
primeiros envolvidos no movimento, aqueles que estão lá fora nas barricadas,
tendem a ser aqueles que tomam os riscos para si e que são geralmente os mais
radicais. Somos o que poderíamos chamar de primeira onda. Mas para ser bem
sucedido, um movimento precisa de uma segunda onda, formada por pessoas que têm
simpatia pelo movimento ou inclinadas a participar dele, mas que não são de fato
ativas, que seriam mais prudentes ou mais limitadas em seu envolvimento. A
tarefa da primeira onda é mobilizar a segunda onda. E dessa forma a segunda onda
pode mobilizar a terceira onda, a da opinião pública geral.
Isso quer
dizer que se você com dreadlocks, piercings, tatuagens, ou simplesmente com uma
espírito tão radical que não permite que você faça um contorno dentro das leis
de trânsito, não precisa sair por aí tentando convencer a Juventude do PFL da
correção da nossa causa. Você simplesmente tem que convencer aqueles que na
verdade não sabem o que de fato é o FMI mas querem saber porquê com seu diploma
do segundo grau e sua dívida de trocentos reais com a faculdade o único emprego
que consegue é fazer sanduíches e limpar a privada do Mc Donalds. Ou o
sindicalizado que vê os empregos sumirem, ou a mãe do interior que não consegue
mais atendimento de saúde e que não consegue mais encontrar uma escola decente
para as crianças. Ou aqueles rebeldes dos anos sessenta que agora trabalham
oitenta horas por semana para tentar mandar seus filhos para as mesmas
universidades que um dia eles tentaram por fogo e destruir. E você não precisa
convencê-los a morrer nas barricadas (o que, francamente, para a maioria das
pessoas só se conseguiria com muiiita persuasão!). É preciso apenas convencê-las
a fazer algo: escrever uma carta de apoio, ligar ou escrever para seus
deputados, levantar algum dinheiro para ajudar a ação, fazer com que seja
registrado de alguma forma que elas apoiam o que fazemos. De tal forma que as
autoridades sintam a pressão deste incipiente tsunami se eles forem longe de
mais com a repressão.
Com quem você deve falar? Sua família, pressupondo
que vocês se dêem bem. As pessoas com as quais você entra em contato no colégio
ou no trabalho. Aquele velho amigo que você conhece desde os onze anos de idade.
Seu vizinho que tinha o adesivo do Lula na janela nas últimas eleições. Você
pode até criar coragem e ir de porta em porta na região que se dará a ação:
"Olá, eu sou seu simpático vizinho anarquista, e eu quero que você saiba porquê
iremos protestar aqui mês que vem".
Ao invés de levantar fundos para
coletes à prova de bala, levante fundos para fazer belas bandeiras que as
pessoas possam agitar de suas janelas, de modo que na manhã da ação a cidade
inteira esteja cheia de bandeiras e faixas de apoio. Peça àqueles que te apoiam
para escreverem cartas aos editores, aos comandantes da polícia, às autoridades
locais e aos representantes eleitos antes da ação, afirmando seus direito de
protestar e expressar sua posição sobre o tema. Faça uma lista de e-mail com o
seu time de apoio e os envie informes diários sobre a ação: e os encoraje a
enviá-los para outros. Tenha um apoiador principal que notifique a todos caso
você seja ferido ou preso, e faça-os telefonar, escrever, enviar faxes e e-mails
e aparecer na cadeia com um café quente para a vigília.
Sim, isso é menos
glamoroso do que morrer nas ruas. É o trabalho que não aparece que fazem os
riscos que enfrentamos nas ruas servirem para alguma coisa. Sem ele, até mesmo o
martírio final ao qual algum de nós possa ser chamado a oferecer não será
efetivo: e o que poderia ser pior que isso?
Eu não tenho dúvidas que cada
um de nós neste movimento é muito mais valioso vivo do que morto. Eu coloquei
meu corpo e minha liberdade na linha de frente muitas, muitas vezes, e
continuarei a por, não importa quais sejam os riscos. Mas eu não quero ser uma
mártir : Eu quero vencer! E estar viva para gozar o incrível mundo que nós
iremos construir. Para tanto, temos que construir um movimento mais amplo. Ele é
nossa melhor auto-defesa, e nossa estratégia política vital. Nossas vidas
dependem
disso.