Por: Demian Melo*"A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam" é tema central da obra de José Saramago, "Ensaio sobre a cegueira", Nóbel da literatura em 1998. E é exatamente neste espírito que este ano milhares de ativistas, das mais diversas correntes de pensamento, das mais diversas organizações da esquerda latino-americana, e setores da Igreja progressista, realizarão um plebiscito para que a população decida se o sub-continente deve aderir ou não à ALCA.
O plebiscito será realizado na "Semana da Pátria",
e pretende mobilizar os povos da América Latina no sentido de impedir que este
ataque do imperialismo sobre o continente seja efetuado.
É bem verdade que muitas pessoas tem assistido os noticiários globais e
acreditado nas falácias propagandeadas por estes meios, como se a ALCA fosse
trazer benefícios para os povos latino-americanos. Tal cegueira é resultado
por um lado da falta de informação que a maioria da população tem em relação
ao tema, e por outro, da escandalosa informação distorcida que a mídia têm
veiculado sobre o assunto. O que os EUA pretendem com a ALCA é submeter econômica,
política, militar e culturalmente todo o nosso continente a sua hegemonia. O
secretário de estado do governo Bush, General Colin Powell, sintetizou assim :
" O nosso objetivo com a ALCA é garantir para as empresas
norte-americanas, o controle de um território que vai do Pólo Norte até a Antártida
e livre acesso, sem nenhum obstáculo ou dificuldade, de nossos produtos, serviços,
tecnologia e capital em todo o Hemisfério!".
É de uma cegueira absurda a comparação que muitos tentam fazer entre a
integração ocorrida na Europa, a União Européia, com a ALCA. A Alemanha,
principal economia européia, representa 26% daquele continente, seguida pela
França, 20%, enfim, há um equilíbrio relativo entre as economias; enquanto
que os EUA representam 76% da economia do continente Americano. Assim, não pode
haver acordo entre desiguais, e sim a submissão total de todos aos interesses
norte-americanos.
Não iremos ser cidadãos americanos, com livre circulação nos EUA, como
ocorre na comunidade européia, e quem tiver qualquer dúvida é só lembrar do
"Muro da Vergonha", que separa toda fronteira do México da
"terra da liberdade".
A mesma mídia que faz a propaganda eufórica da ALCA é a mesma que noticia o
protecionismo ianque contra o aço, laranja, soja etc.
A ALCA vem acompanhada da submissão financeira com dolarização das economias,
da militarização do continente e do intervencionismo político. O pequeno país
da América Central, o Equador já teve a sua moeda extinta em detrimento do dólar.
Não podemos esquecer da Argentina, que praticamente dolarizou a economia no
começo da década passada e, para utilizar o linguajar neo-liberal, "fez o
dever de casa". O resultado todos estamos vendo.
Na Colômbia os ianques intervém militarmente com o famigerado Plano Colômbia;
sob a alegação de combate ao narcotráfico, os EUA (maior consumidor de cocaína
do mundo) garantem os lucros de sua indústria armamentista através da colaboração
do subserviente governo de Pastrana.
Aqui no Brasil, tentam colocar os seus tentáculos com uma base militar em Alcântara
(MA), com a ajuda, é claro, do governo do "príncipe da sociologia".
Na Venezuela, um golpe articulado na embaixada americana, com o apoio da mídia
e da burguesia venezuelana, quase pôs abaixo o governo de Hugo Chavez, não
fosse a mobilização do heróico povo venezuelano.
A nossa responsabilidade como estudantes de História de uma universidade pública,
paga com os impostos do povo, é cada vez maior. A dívida social que temos deve
ser paga com o não-conformismo, com o engajamento, com a ação prática, e
principalmente, com a responsabilidade dos que tem "olhos" devem ter
para com os cegos.
Demian Melo é coordenador de formação política do CAMMA