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Sobreviventes do Dia a dia

A alguns dias atrás, após ser protagonista de uma cena patética do episódio  familiar, "Não saia de casa porque a cidade está sitiada ", causada pela mídia do caos, sai a andar pelas ruas calmamente e assistindo aos risos as cenas no mínimo de comédia em meio ao terror popular.
Dondocas ligando freneticamente para casa a fim de informar quais eram as lojas que fechavam suas portas, patricinhas se jogando dentro do primeiro táxi que viam pela frente atrapalhadas com seus saltos, polícias praticando figuração urbana passeando pra lá e pra cá, a ex -governadora Benedita do PT dando satisfações atropeladas na televisão,, Tudo causado pelo ladainha que virou moda - Traficantes mandam fechar o comércio da cidade.

Mas o povão mesmo não estava nem ai, sentados nos bares de sempre, tomando a cervejinha de sempre, curtindo o calor de sempre.
Cheguei até  a perguntar  pra um vizinho e amigo que mora num morro perto de casa, e ele disse que era tudo palhaçada, estava tudo calmo no morro, e que poderia ser ordem do Marquinho Niterói ( traficante  do CV) mesmo, que estava meio zangado no quartel onde estava preso, por não ser respeitado como pessoa e tal,estava proibido de ver os filhos e a mulher, até mesmo o advogado , e a sociedade nunca deu importância para os pobres...O pessoal do morro tava  revoltado, pq a polícia matou um moleque lá em cima na noite anterior, invadiu a casa dele pedindo droga e dinheiro, como ele num tinha, foi morto a tiros e paulada na frente da família....
E seguiu comigo batendo papo, e nós rindo daquelas ceninhas na rua  que mais pareciam esquetes de humor.

Cheguei ao meu destino, que era assistir uma palestra, exatamente sobre o assunto, Violência Urbana", que contaria com a presença do MV Bill (Rapper morador da Cidade de Deus) no qual particularmente eu curto bastante. E com a simplicidade de sempre, ele deu um show de cidadania sem nenhuma pretensão, falando o que  é exatamente o papel do negro, do favelado e do  brasileiro  neste contexto, O que trouxe de volta a minha infância., quando eu "fugia"pra brincar na favela, que era muito mais divertido, amarrava as saias de babado    que minha mãe insistia em colocar em mim, usava aqueles laços de fita que tanto me incomodavam para fazer de puxador nos papelões que a gente brincava de escorregar morro abaixo,
Com tudo isso foi que aprendi a me dar o respeito,e aprendi que era respeitada a partir do momento em que os tratava de igual para igual,mesmo morando no prédio ao lado,  Minha mãe me chamava de "ïmpossível",  mas eu hoje em dia sei que naquela época, eu era já uma cidadã , a partir do momento em que ignorava as teses separatistas das camadas sociais.
Acredito ter aprendido mais com eles, do que pude ensinar, por que também assisti muitas vezes o mistério que faziam  com que aqueles mesmos meninos que brincavam comigo, ao colocavam a toca e pegar as armas para assumir o posto na boca ou como chamavam, quando tava na hora de ser soldado no morro, mudavam completamente, e a violência tomava conta. Mas isso foi no início da adolescência.
Nos papos que a gente tinha antes da hora "do movimento" começar, as repostas eram sempre as mesmas - "eu queria tá na escola, que nem meus irmãos, mais num dá pra ver minha mãe a semana inteira esfregando chão, pra no final de semana num ter comida e meus irmãos ficam chorando, e também minha mãe ficou na fila do colégio a noite inteira, e eles dizem que não tem vaga, a não ser que ela pague uma grana por fora e tal...", aquilo me cortava o coração,mas na época eu mal podia entender a grande parcela de culpa que a sociedade tinha.
Na escola era a guerra, eu era a brigona que andava com os favelados, e a maioria tinha medo, os filhinhos de mamãe, de arrumar barulho comigo, minha coordenadora dizia que eu era a anarquista da escola, e que quando eu crescesse eu deveria ser assistente social, mas eu também nem sabia o que era, então não dava importância.

Ai  veio a moda dos funkão exaltando o tráfico, era comando vermelho pra lá, comando vermelho pra cá e todos aqueles mauricinhos queriam ser bandido pq era legal, era moda, as vezes eu os lembrava que sempre me jogaram na cara que eu andava com  moleque de morro, e agora queriam mais era ser patrão, coitados! Nem tinham idéias do que se passava nas comunidades....e ainda por cima quando eu não estava por perto, por causa de alguns desentendimentos a  cor da minha pele logo virava piada....agora eles queriam era ser os "pretos"que eles sempre zombaram, e eu logo dei um jeito de arrumar uma excursão ao ,morro não autorizada pelo colégio, que me rendeu uma semana de castigo, e a conscientização dos meus caros colegas de classe. Hoje em dias, muito daquelas crianças que cresceram comigo 'formaram na boca"e de soldado agora são chefes, outros faleceram, o que era de se esperar, outros foram estudar e se formaram no curso técnico da associação  de moradores do morro e hoje são professores de surf, tênis ou viraram pais e tão criando seus filhos, e na favela agora tem toque de recolher imposto pela polícia.

Foi então que eu vi, que não é só o fuzil que mata,a caneta dos nossos governantes também, a criminalidade é a resposta do coagido, proletário, ao descaso e arrogância da sociedade burguesa.

Stacy


Essa ai é um pedaço da letra de um som, que vale a pena ser lido..espero que curtam, é bem conhecida.


A Minha alma

A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego
Os pais sem voz, pais sem voz, não é paz é medo.
As vezes eu falo com a vida,
as vezes é ela quem diz,
Qual a voz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?

As grades do condomínio são pra trazer proteção.
Mas também trazem a dúvida se é vc que tá nessa prisão.
Me abraça e me dá um beijo.
Faz um filho comigo,
mas não me deixa sentar na poltrona, dia de domingo.
Procurando novas drogas de aluguel,
neste vídeo coagido.
É  pela paz que eu não quero seguir admitindo.

O Rappa           

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