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Mortinhos também amam, ou deveriam...

Luciano Vieira

  Aquele foi um dia diferente. Mortinho finalmente deixaria seu trauma cair no esquecimento. Afinal de contas, havia encontrado neste dia o seu grande amor, mesmo sem que ele soubesse. 

  Mas antes de narrar este marco romântico na vida de nosso citado é conveniente elucidar algumas coisas, para que você leitor entenda a importância impar do acontecimento. 

  Mortinho, suburbano, não nasceu belo, nem bobo, mas de uma ingenuidade tremenda sobre mulheres, digna de um conto de Nelson Rodrigues. Alias, o apelido Mortinho, assim batizado por amigos, nada mais é que a definição do seu sucesso junto às garotas. 

  Talvez pelas piadas, Francisco (o chamaremos pelo nome de agora em diante) com seus dezessete anos, se relacionava cada vez mais com adultos, e um deles foi pivô deste trauma e ideologia de vida tomada por Francisco. 

  Arlindo sempre foi recatado e educado, isto enquanto se mostrava sóbrio, pois quando bebia em demasia se transformava, tornava-se um palpiteiro desagradável e declarava-se vidente, e foi uma profecia deste homem velho e embriagado que de certa forma abalou o ego do rapazinho que mesmo não dando atenção no momento profético, gravou esta frase como recalque em sua mente: 

-         Pois é meu garoto, nós homens não conseguimos viver sem as malditas mulheres. E você vai sentir isso quando se “ajuntar”. E vai se juntar é sempre assim, desta mesma maneira... 

Prenuncio este que seria normal se o homem que o proclamava não tivesse que em seguida contar todo seu trágico relacionamento e amaldiçoar por diversas vezes a ex-mulher, que ao conceito dele, foi a responsável por todas as desgraças e seu atual estado alcoólatra. Então começava a chorar incessantemente, anestesiado pelo efeito do álcool. Era sempre assim. 

  Se foi este o motivo, Francisco chamaria de resistência a profecia de Arlindo, mera desculpa. Na verdade, Francisco se corroia por não compartilhar com alguém todas as ações de carinho e ternura que ele acumulava de livros, filmes, casais que notava freqüentemente em seu caminho. E sentia ânsia de realizar os seus desejos também, até porque o tempo nunca parou, e não para nunca, tanto que Francisco agora com seus vinte e dois anos contaria em menos de cinco minutos suas experiências amorosas. 

  Mas aquele foi um dia diferente. Ignoro se chovia ou estalavam as estrelas naquela madrugada, mas sei que o tempo propiciava algum acontecimento, como uma profecia de um bêbado. 

  Francisco acordou e pela força do habito fez todas as ações matinais dos dias e anos anteriores. Relutou-se em levantar, tomou café, tomou os cuidados higiênicos e saiu. 

  Na estação de trem, a multidão já não o assustava, porque ele já se habituará com isto, não podendo dizer o mesmo quando uma morena repentinamente o agarrou com temor. E ele se assustou também, com a ação da moça e com a circunstancia ao redor, já que não é habitual mesmo no subúrbio, um flagrante policial armado contra meliantes no meio da multidão. 

  Francisco, assustado com toda a situação, assustou-se ainda mais ao perceber que o pavor da garota transformava-se em ternura, afeto e carinho por ele, que esquecendo todo o estigma que carregava e indiferente a toda a situação anormal retribuía. E foram vinte e sete segundos assim, sentindo seu corpo, perfume e alma junto a si, tempo de valor incondicional se comparado todos os bons momentos de sua maçante vida. 

  Toda a situação se normalizou, a correria urbana continuou como se nada tivesse acontecido. Mas aconteceu, aconteceu para Francisco que se apaixonou, foi fisgado por ela, e porque não dizer por ele mesmo, grande culpado de sua incubação durante toda vida. 

  Mas ela se foi. Sem ao menos dizer seu nome. O que por um instante o deixou mórbido. E triste seguiu seu caminho. 

  E, realmente, Francisco encontrou seu grande amor desde que se julgava humano, mas o perdeu logo em seguida. Assim como o homem do mar que ser perde no canto da sereia, canto sedutor e altamente conseqüente. 

  Mas quem além de Francisco Mortinho resistiria ao canto do amor?

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