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A cura

Luciano Vieira

  Não é minha vontade permanecer como não identificado, prefiro dar meu nome com meu testemunho para que não seja visto como um boato ou folclore. Meu nome é Fabio Fantoche e estou hoje aqui para dividir minha cruel experiência com as drogas. 

  Nasci suburbano, situação que ocupo atualmente, a classificação de pobre obrigou-me a fazer coisas que nunca imaginaria, e hoje curado percebo que mesmo oriundo de pais pobres e sem recursos eu poderia ter evitado tudo, as chances eram mínimas, mas ainda assim existia possibilidade e pessoas que tentaram abrir meus olhos. Não deu certo, os amigos que escolhi já eram usuários desses alucinógenos e mesmo em casa a influencia vinha de meus próprios país, pergunto a vocês então como não poderia transformar-me em um dependente? 

  Lembro-me vagamente que o inicio era até prazeroso, eu ria a toa e sem pudor algum sobre qualquer coisa e minha risada fútil descontraia a todos, afinal, usávamos a mesma droga. 

  O tempo avançou lado a lado com a idade, a maturidade jurídica havia chegado, mas nada mudou, exceto as doses que aumentavam vorazmente assim como os sintomas de realidade utópica que ditavam minha vida miserável. 

  Mamãe, Maria Manipulada, não tinha vergonha em utilizar todas as noites, acompanhada de papai, João Bobo. E ainda convidavam-me para que sentasse ao seu lado e participasse da corrosão mental. 

  Já em estado semivegetativo encontrei um dia um exemplar encardido jogado no bando de um ônibus coletivo. Curioso, folheei as paginas e junto a figuras desbotadas havia palavras como “Revolução”, “Comunismo”, “Igualdade Social”, termos desconhecidos até então. 

  Procurei um dicionário (minha primeira pesquisa) e as minúsculas páginas pareciam brilhar com os significados não menos ofuscantes. De repente, por um estalo, comecei a dizer não para a novela, o noticiário, o futebol, os programas sensacionalistas, ou seja, freei meu escasso investimento e meu tempo perdido das drogas televisivas e comecei então a procurar mais revistas, pessoas, meios que pudessem trazer-me de volta ao mundo real. 

  Amigos, hoje aqui com vocês eu vejo a verdade que as drogas ofuscavam-me e após mudar meu nome de Fantoche para Façanhoso, tento acordar outros como eu, abduzidos e sonâmbulos desta que é sem dúvida o pior de todos entorpecentes:
A droga de Mídia!

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