Jack está tentando se levantar,
mas o "tv-show" não o deixa e a hipnose coletiva imprime
o relax. Locou pelo vazio ele se perde em um infinito
de informações vomitada pelos mecanismos alienativos da mídia.
Sorri, uma falsa sensação de prazer o faz sorrir, mas é somente
uma técnica subliminar barata e corriqueira.
A campainha da casa de Jack
toca, ao abrir esperançoso a porta esperando uma visita, ele
recebe a nova taxa de lixo da Marta Suplicy, mesmo assim abraça
o carteiro e agradece o contato. Jack lê a carta de cobrança
minuciosamente, repete 3 vezes a leitura, abandona os papéis,
pega o controle de sua tv, verifica todos os canais da tv aberta,
desliga a tv, abaixa a cabeça, pensa no frio, pensa na cama
vazia, pensa na sua vó, chora.
Jack é um rapaz solitário que
vive em um cubículo no subúrbio de São Paulo. Jack não recebe
a visita de amigos há anos, não possuí namorada, caso ou rolo,
tem um cachorro com quem divide o pouco de comida que
obteve ao vender o que mais amou nessa vida, sua bicicleta.
Jack tem muitas coisas em seu
cubículo, mas nenhuma delas funcionam, com exceção de sua tv
. Sua estante é repleta de livros que em grande maioria leu
somente a metade e os abandonou por não ter com quem discutir
seu aprendizado e suas conclusões. Na mesinha da sala-quarto,
onde dorme e assisti tv, tem dois álbuns de fotos, algumas cartas
velhas, canhotos de ingressos e passagens rodoviárias, uma peça
intima rosa e uma mecha de cabelo ruivo. Jack toca todos os
dias que acorda esse que é seu maior tesouro e viaja a um mundo
que não conseguiu chegar, chora, lava o rosto e assisti tv.
Jack não tem muitos objetivos
na sua vida, já que após a morte de seus avós por velhice e
a da mãe por câncer linfático ele decidiu correr atrás da dona
dos pertences que tanto zela e nunca jogou. Infelizmente
a dona o trocou porque não conseguiu esperar que ele fosse alguém
e fosse resgatá-la de seu mundo de angústia e dor.
Jack toda semana escolhe um
dia e saí para procurar trabalho ou um bico para que possa comprar
não essencialmente comida, mas cartões telefônicos, para saber
como está uma moça bonita, casada e mãe de 2 crianças. A moça
bonita sempre o atendeu, pois sabe que o dia que não o fizer
é porque Jack morreu.
-Jack, eu lhe
conheço meu bom e velho amigo, sei que você tentou e fez o que
pode pra que ela o esperasse, mas errou em não acabar com a
espera. Jack, você errou e não conseguiu superar esse erro,
era preferível que se matasse do que viver em função de alguém
que você teve um dia e nunca mais terá.
-Jack, meu
amigo, acorde para essa vida, faça sua barba, tome banho mais
freqüentemente, seja seu patrão e trabalhe, pare de chorar,
jogue essas velharias foras e procure alguém. Não seja exigente,
mas escolha bem, se cair novamente, levante-se.
Sou seu amigo, quero seu bem e sei do seu potencial, vá em frente
meu amigo, não desista e não a faça sofrer com o seu amor de
uma pessoa só.
Jack não dá
ouvidos a si mesmo, conheceu o amor, o perdeu e não o renovou
Infelizmente Jack viverá assim até os últimos dias de sua vida.