Bakunin,
o mais brilhante entre todos os anarquistas, pertencia a
uma rica família de proprietários de terra na Rússia. Alguns
membros da família de sua mãe tinham participado do levante
decembrista de 1825, mas de início a rebelião de Bakunin
teve caráter filosófico, quando ele descobriu Hegel e Fichre.
Foi Herzen que iniciou a sua conversão as radicalismo e
mais tarde, em 1843, quando completava seus estudos filosóficos
na Europa, ele se tornou um revolucionário graças à influência
de Wilhelm Weirling e Proudhon.
Durante os anos de 1848-1849, tomou parte ativa nas rebeliões
que ocorreram em Paris, Praga e Dresden; capturado após
o fracasso da rebelião de Dresden, esteve preso em prisões
da Saxônia e da Áustria, tendo sido entregue posteriormente
à polícia do Czar. Depois de um longo período de internamento
na fortaleza de Pedro-e-Paulo, onde o escorbuto provocou
a perda de seus dentes, foi enviado para a Sibéria, conseguindo
mais tarde fugir para o Japão e de lá, para os Estados Unidos
e Europa.
Participou de uma fracassada revolta na Polônia e, tendo
abandonado definitivamente suas idéias pan-eslávicas, desenvolveu
uma série de teorias anarquistas e fundou uma organização
política secreta, a Aliança da Social Democracia. Em 1868
juntou-se à Internacional e liderou a corrente que se opunha
a Marx;
foi oficialmente expulso da Internacional em 1872, mas muitos
membros oriundos da Itália, Espanha, França, Bélgica e Suíça
saíram com ele, fundando uma organização independente, a
chamada Internacional St. Imier. Na década que se iniciou
em 1870 Bakunin tomou parte nas revoltas de Lyon e Bolonha,
acabando por morrer em Berna, onde foi sepultado.
Sua obra escrita é vigorosa mas muito mal organizada; o
próprio Bakunin confessou a Herzen que não tinha qualquer
noção de arquitetura literária, e só muito raramente conseguia
concluir qualquer trabalho mais longo do que um artigo.
Era um ativista e talvez a sua mais importante contribuição
à causa tenha sido como fundador do movimento anarquista
histórico, que acabaria com a destruição das organizações
anarco-sindicalistas espanholas em 1939.
Algumas
frases de Bakunin.
"O Estado
é uma abstração devoradora da vida popular, disse-o já;
mas para que uma abstração possa nascer, desenvolver-se
e continuar existindo no mundo real, é necessário que exista
um corpo coletivo interessado na sua existência. Este não
pode ser a grande massa popular, que é precisamente a vítima
do Estado. Esse corpo privilegiado, é o corpo sacerdotal
do Estado, a classe governante e possuidora, que é no Estado
o que a classe sacerdotal da religião, os padres, é na Igreja."
"O Estado,
como já disse, é, pelo seu próprio princípio: um imenso cemitério
onde vêm sacrificar-se, morrer e enterrar-se todas as manifestações
da vida individual e local, todos os interesses parciais de
cujo conjunto deriva a sociedade."
"A Liberdade
do outro estende a minha ao infinito."
"A liberdade
sem o socialismo, é o privilégio, a injustiça. O socialismo
sem a liberdade é a escravidão e a brutalidade."
"Antes
morrer em pé do que viver de joelhos."
"O Estado,
como já disse, é, pelo seu próprio princípio um imenso cemitério
onde vem sacrificar-se, morrer e enterrar-se todas as manifestações
da vida individual e local, todos os interesses parciais,
de cujo conjunto deriva a sociedade."
"A liberdade
política, enquanto não existir igualdade social e econômica,
será uma mentira."
"Em vista
da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas, pensamos
ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos
devolvê-los à terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em
cometer um último roubo religiosamente heróico, desejariam
restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo o que a humanidade
tem de maior, de mais belo, de mais nobre. É a vez dos livre-pensadores
pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise científica."
"Numa palavra,
rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência
privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do
sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir
em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra
os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no
qual somos realmente anarquistas."
"Minha
própria vida é um fragmento."
"A justiça
humana substituirá a justiça divina."
"Três elementos
ou três princípios fundamentais constituem, na história, as
condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo
ou individual:
1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento;
3º) a revolta.
À primeira corresponde propriamente a economia social e privada;
à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade."
"A Bíblia,
que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo,
quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações
da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade,
de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original.
Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens,
foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz,
o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o
maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová
acabavam de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho,
talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente,
à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos
e todos os seus animais, e impôs um único limite a este
completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos
da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado
de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno
animal, sempre de quatro patas diante do Deus "vivo",
seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno
revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos
mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância
e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em
sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o
a desobedecer e a provar do fruto da ciência."
"O
Estado é a força, e tem, antes de mais nada, o direito da
força, o argumento triunfante do fuzil. Mas o homem é tão
singularmente feito que este argumento, por mais eloqüente
que pareça ser, não é mais suficiente com o passar do tempo.
Para impor-lhe respeito, é-lhe absolutamente necessária
uma sanção moral qualquer. E preciso, além do mais, que
esta sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente
que possa convencer as massas, que, após terem sido reduzidas
pela força do Estado, devem ser lavadas ao reconhecimento
moral de seu direito."
"Há
somente dois meios de convencer as massas da bondade de
uma instituição social qualquer. O primeiro, o único real,
mas também o mais difícil de empregar - porque implica a
abolição do Estado, isto é, a abolição da exploração politicamente
organizada da maioria por uma minoria qualquer - seria a
satisfação direta e completa das necessidades e das aspirações
do povo, o que equivaleria à liquidação da existência da
classe burguesa e, mais uma vez, à abolição do Estado. E,
pois, inútil falar disso. O outro meio, ao contrário, funesto
somente ao povo, precioso ao bem-estar dos privilegiados
burgueses, não é outro senão a religião. E a eterna miragem
que leva as massas à procura dos tesouros divinos, enquanto
que, muito mais astuta, a classe governante se contenta
em dividir entre seus membros - muito desigualmente, por
sinal, e dando cada vez mais àquele que mais possui - os
miseráveis bens da terra e os despojos do povo, inclusive,
naturalmente, a liberdade política e social deste."
"O
homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu
homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente
humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é,
pela revolta e pelo pensamento."
"Se
Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre,
portanto, Deus não existe."
"Quando
a multidão, hoje calada, como o oceano, se levantar, e para
morrer esteja pronta, a comuna se erguerá." (Palavras
escritas na tumba de Mikhail Bakunin)
"Enquanto
houver um amo ano céu, haverá um escravo na terra."
"O
maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico,
um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece.
Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e
a energia incômoda e selvagem que caracteriza a natureza
dos maiores gênios, sempre chamada a destruir os mundos
envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos mundos.
Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática,
o que perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se
corrompe."
"Reconhecemos
a autoridade absoluta da ciência, mas rejeitamos a infantibilidade
e a universalidade do cientista. Em nossa igreja - que me
seja permitido servir-me por um momento desta expressão
que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas
ovelhas negras; em nossa igreja como na igreja protestante
temos um chefe, um Cristo invisível, a ciência; e como os
protestantes, até mais conseqüentes do que os protestantes,
não queremos tolerar nem o papa, nem o concílio, nem conclaves
de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso
Cristo se distingue do Cristo protestante no fato de este
último ser um Cristo pessoal, enquanto o nosso é impessoal;
o cristo cristão, já realizado num passado eterno, apresenta-se
como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição
do nosso Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que
equivale a dizer que elas jamais se realizarão. Ao não reconhecer
outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta,
não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. Entendo
por ciência absoluta a ciência realmente universal, que
reproduziria idealmente, em toda a sua extensão e em todos
os seus detalhes infinitos, o universo, o sistema ou a coordenação
de todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento
incessante dos mundos. É evidente que esta ciência, objeto
sublime de todos os esforços do espírito humano, jamais
se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá
pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito
o orgulho de seus representantes titulados entre nós. Contra
este Deus, filho, em nome do qual eles pretendiam nos impor
sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a Deus
pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas
a expressão muito imperfeita, e do qual somos os representantes
imediatos, nós, seres reais, vivendo, trabalhando, combatendo,
amando, aspirando, gozando e sofrendo."
|