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.::Colunistas\Álvaro Henrique::.

O Autor 

        Hoje enfrento mais um dia da batalha que travei comigo mesmo, e parece que não vai acabar mais. Mas hoje, quero ser claro nesse texto e tentar não usar metáforas.
        Estou preso em um mundinho pequeno, esse mundo é a conseqüência do capitalismo mau sucedido em minha família. Não existe nestes dias e neste exato momento nenhuma tarefa, no qual agrade-me e possa praticar. Minhas Nobres companheiras de jornadas depressivas, minhas bikes, estão todas desmembradas, (olhem, estão tocando Sympatic Devils), meu violão que minha revolta quebrou suas cordas doces foi levado embora e não tem previsão de voltar, a mídia comprada, tv à cabo não mais existe, telefone já não é mais barulhento como antes e se torna um empecilho sem linha, o computador já saturou, sem rede não há expressão e lazer, nem mesmo posso falar com quem mais amo, isso é bem mal. Os livros foram todos lidos, os discos foram todos escutados, os amigos "verdadeiros" estão incomunicáveis, os falsos eu bani, não tenho irmãos e minha família está constantemente em guerra.
        Nestes dias, a incerteza do amanhã causa pânico e a depressão inevitável, a solidão é maleável e a dor é sentida como lâmina ma carne. A verdade é que nunca fui claro em textos, hoje estou sendo, talvez para decretar uma futura despedida, ou sei lá o que, creio que este não é um bom sinal, sinto um estágio terminal.
        Adolescentes falam demais em depressão, se queixam demais da vida, mas nem ao menos sabem se limpar das bostas que fazem, pois é, eu tenho ainda 19 anos, estou no fim da adolescência e a vida "bostérica" está inutilizada.
        Você tem na família, uma pessoa com 2 faculdades e não consegue empregar-se ou suceder-se em suas atividades, daí pergunto: Qual a minha perspectiva? Fico horas na frente de um pc, estudando cada cantinho, desmontando peça por peça, isso quando não me prezo a intelectual e devoro 1 dezena de livros por semana, pra que isso? Para entender como a vida funciona, como o capitalismo manipula, como a ferida aumenta? 
        No ensino médio, sinto-me inteligente demais, na vida real sinto-me um asno, que só tem teoria, e na prática é um fracasso. 
        Ainda sinto-me bem quando escrevo, faz o tempo passar, adia o possível suicídio, isso mesmo, estou sendo claro ao usar esta palavra, sempre disse que é a alternativa dos fracos, dos perdedores, mas porra, eu sou um fraco que perdeu tudo!
Quando usava metáforas, ela somente dava-me a entender que a morte voluntária seria adiada, sendo claro, não descarto essa possibilidade, isso é doloroso, algumas pessoas vão sofrer, outras vão sorrir, mas todas vão lembrar-se..., está se tornando despedida, vou mudar a temática, ou não vou salvar o texto, e vou morrer sem ficar famoso. Foi uma piada que ninguém riu. 
        Agora um detalhe importante sobre minha escrita. Nos meus textos são encontrados inúmeros erros ortográficos e de concordância e discordância também. O motivo desse, é que se eu releio o que escrevi eu o deleto todo, porque o acho uma porcaria, então ao acabar de escrever, simplesmente salvo e nunca mais leio. Mas hoje será diferente, pois estou com as "Memórias de um Fracassado" no chão. Isso é um livro que escrevi quando cursava pela 4ª vez a sexta-série e me encantei por uma garota que de encantada não tinha nada. Bem, escrevi 240 páginas, nas quais ela leu todas e só entendeu 2. Tá, minha letra é bem feia, mas ela não compreendia minhas metáforas e por esse motivo nunca ganhei seu beijo, pensando bem até que foi bom, carne batida demais é de segunda. 
        Hoje sinto uma vontade de foliar estas páginas, mas somente em abrir o livro o atirei no chão, é de fato eu sou paranóico, mas meu passado causa-me terror. Realmente, é estranho certas atitudes dos seres humanos.
        Veja, que você dorme cedo, para acordar cedo, ontem fiz isso e acordei tarde, está um tempo estranho em São Paulo, o tempo aqui sempre é estranho, hoje senti vontade de ligar o som, deitar no solo frio do quintal de casa e esperar a morte chegar, é resolvi entregar-me. Que coisa estranha, quando senti fome eu fui almoçar, mas voltei, porque eu sabia que a morte iria chegar. Passaram-se 1 hora e nada de chover, eu achava que deitado no quintal em um temporal eu poderia afogar-me, é sério, seu corpo estremece e você quer nadar. A chuva demorou, mas veio, em um ato de desafio aos pingos da natureza eu a provocava e ela aumentava sua fúria, até que fiquei molhado, levantei e fui tomar banho quente. Ao sair do banho, o sol apareceu lá no alto e abriu uma luz enorme, talvez fosse os dentes dele que brilhavam por estar rindo da minha cara, confesso que fiquei muito zangado. 
        Na verdade esse era pra ser um texto bem depressivo, mas estou me divertindo com esse novo tipo de escrita que padronizei hoje, a sátira de si mesmo. É tão grave esse conflito psicológico que as vezes penso em ser um escritor, acredito que sou bom em escrever e que um monte de otário como você vai ler. Francamente eu não sei onde estou com a cabeça.
        Recomendo vocês a escutarem a música Cruzader do Saxon.
        A minha maior inspiração é a música, pois ela mexe com seu inconsciente e faz com que sua mente transmita transparentemente suas mensagens e as convertam em psicodelias.
        Tenho uma vontade enorme de sair correndo pelo bairro da maneira que estou aqui, empunhando a bandeira do Ernesto e gritando Revolução, mas sei que irei a um hospício se o fizer, o mesmo dará se as pessoas do meu bairro lerem o que escrevo. Eles me acham estranho e tem uma ligeira impressão que sou maluco, acertaram. Não é todo dia que um robô passeia de bicicleta.
        Seus amigos, que não são tão amigos assim, lhe procuram quando precisam fazer "trabalhinhos", quando não tem o que fazer em casa e procuram distração. Há sempre um idiota como eu de braços abertos e quando precisa dos mesmos lhe ignoram ou fingem não ver sua situação, quero dizer a este inútil, que é um imbecil e se conhece quem conhece, se tem uma perspectiva profissional traçada é porque o trouxa aqui atravessou seu caminho, ou você estaria até hoje preso na Paciência.
        Com a notória impressão de que não me despedirei mais e que a "despedida-suicida" foi somente Marketing para a boa reputação funerária de um neurótico.
        E agora, o texto acabou.

Álvaro Veríssimo

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