Amanheceu chorando no campo,
porque o vendaval levou para bem longe o que tinha de mais precioso.
O combustível de sua vida. Vendo a chuva que dava saudade e o
sopro frio da solidão eu a flertei e disse essa noite não.
Correndo
para uma caverna fria e escura, esqueceu-se de dizer adeus, apenas
algumas palavras, como volto logo ou um até mais, porém no fundo
sabia que ali não era seu lugar e que jamais iria voltar. Entrou
na caverna, chorou, dormiu, acordou e viu que o sol ainda estava
lá. Brilhei em seu peito, suspirei bem fundo e disse essa noite
não.
Tinha
nos cabelos algumas folhas secas presas, a tempestade se foi mas
deixou marcas. O contraste do cabelo comprido e negro com a folha
seca e parda, lembrava-me uma pintura antiga que era muito bonita,
porém o tempo levou sua beleza, mas deixou os traços. Lhe mostrei
a beleza que jamais morreu fixada na menina dos meus olhos. Quando
ela chorou eu disse para não se matar pelo menos essa noite não.
Sozinha,
carente, desesperada e angustiada ela chora, ela se droga, ela
viaja, ela grita, ela esperneia, mas ela não sai do mesmo lugar.
Sou o vício da dor que pairou em sua mente, te enlouqueço calmamente
e lhe dou a sensação de prazer quando você está em depressão,
mas digo do fundo do meu coração, trincado, partido e com vertigem
obsessiva perante a menina dos meus olhos que ficou no campo admirando
o girassol. Eu ainda reúno forças das milhares de meninas
que tentam substituir a dos meus olhos e digo essa noite não.
Quando
sonha não quer acordar, quando acorda se vê em um pesadelo e quer
novamente voltar para o leito e tentar sonhar com o que não conseguiu
a vida inteira. Não ouve seus queridos e se entrega tornando-se
novamente um tiro no escuro. Deita no sofá e se cobre com a frieza
que ela mesmo criou. Hoje ela não me deixou dizer que essa noite
não, mas eu disse baixinho.
Quando
o calor passou e ela levantou-se do tronco e deixou de admirar
o girassol, foi porque ele murchou de tanto que ela o admirou
e o acariciou. Então ela levanta-se arrancando o girassol da terra
e jogando ao lado para que ele seque e morra, para que seja surdo,
cego, mudo e nunca mais viva para que outra pessoa o acaricie.
Ela corre pelo campo, acha outro girassol, senta-se novamente
e recomeça a acariciá-lo.
Não pude dizer essa noite não, porque eu era o girassol.
Mas uma rosa
finca seu espinho no girassol caído e quase sem vida. Sentindo
uma dor insuportável e lutando contra o espinho ele tenta de todas
as formas viver. Mas a rosa é persistente e faz com que o girassol
se entregue dizendo: "Essa noite não".
Hoje o girassol está dourado, brilhante e mais
vivo do que nunca, porque o espinho daquela rosa tinha os
minerais necessários para que o girassol resistisse até encontrar
um novo lugar para fincar suas raízes, recuperar-se e ser admirado,
e quem sabe, ser arrancado do solo novamente.
Álvaro
Henrique
Desculpem-me pelo texto, mas amar é um dom.
21/04/03