Um dia eu fui Punk...
 
Um dia eu me levantei e percebi que, não tinha leite, não tinha margarina, não tinha telefone porque eu e minha família não tinhamos emprego para comprar nossa sobrevivência e dignidade. Olhei para a rua e vi um adolescente em um carro importado jogando um latinha de alumínio pela janela para meu vô coletar e comprar o pão do dia seguinte. Nesse dia eu chorei até ter o Olho Seco, ao inferno fui, do inferno voltei rasgado e com os cabelos verdes, ódio nos olhos e revolta no coração, nesse dia eu descobri o que é ser punk.
 
Do inferno para casa eu parei em muitos recintos onde conheci pessoas como eu e a libertação da revolta de todos os dias em uma dança frenética e agressiva, eu furava as orelhas e me entorpecia para esquecer que eu era um Deserdado e teria que no fim de tudo voltar para o meu lugar, o inferno.
 
Alguém falou Anarquia, e acreditei cegamente que ela poderia fazer com os valores de todo ser oprimido e esquecido fosse lembrado e honrado, também acreditei que até um pobre e Replicante como eu teria o direito de sair de seu lugar, o inferno. 
 
Minha casa era repleta de Restos de Nada e Ratos de Porão, diante disso eu gritei, eu chorei, eu gozei, eu me libertei. Eu só queria ser livre, eu só queria me libertar, mas eu não entendia e tampouco sabia como, a solução era a revolução em minha própria casa, a revolução das Mercenárias.
 
Amadureci e fiz de minha Phobia a esperança para movimentar, criar e expandir o que retirei do inferno. A sociedade igual Zumbis do Espaço jamais esteve apta e preparada para sentir o que tínhamos a lhes dizer, o que queríamos lhes mostrar, bombardeavamos suas mentes com Hinos Mortais de uma geração cansada de apanhar e esconder a dor.
 
Tinha então me tornado o Invasor de Cérebro da família ortodoxa brasileira. Taxado de Lixo Social recrutei-me e decidi seguir somente o que minha mente achava ser o certo. Explodi a tv e sua Lobotomia alienativa. Desliguei o rádio e me limpei-me com jornais, as informaços que precisava estavam nos livros que não eram de autoria de Agatha Cristhie* e Paulo Coelho**. A atualidade eu filtrava da imprensa marrom.
 
Nas Passeatas e manifestações que participava eram tidas com ênfase a Injustiça Social e a capacidade do ser humano de libertar-se dos dogmas políticos e sociais. A Histeria Coletiva dos estudantes alvejados por policiais munidos de Calibre 12 e suas munições de borracha era o pavil que precisei para sentir o sangue ferver e o ódio jorrar pelos meus olhos. Estava em aberto o "Dezikilíbrio Social".
 
A Cólera que sentia pelo estado crescia a cada dia e nada mais para mim tinha sentido senão a Autogestão. Vaguei por cemitérios trombando gatos brancos, vampiros e Condutores de Cadáveres. Perdido, no escuro fiquei, o poeta gentil e risonho transformava-se no rebelde caído e a alegria parecia não mais me querer.
 
A Psicose crescia e ao inferno voltei, vi a fome de perto e senti a Força Macabra que ela causa em um estômago faminto de uma família com bolso vazio. Reuni jovens e selamos um Pacto Social, em que arrancávamos nosso próprio olho, perfuravámos nossos tímpanos e cuspíamos nossa língua.
 
Os Garotos Podres nos perseguiam e tentavam a todo custo nos exterminar. Diziam a sociedade que eram Inocentes e vítimas da Guerrilha Urbana. A Horda Suburbana era nosso refúgio, nada ali nos atingia, exército, polícia ou gangue. Unidos e lutando em função de uma única causa, a Anarquia.
 
Mas um dia tudo isso acabou, no dia em que minha anarquia era diferente da sua, minha liberdade infringia na dele e a Marta era melhor do que votar nulo. Eu já não era mais um Condutor da Revolta e  não mais acreditava na Pátria Armada, queria apenas viver e também conquistar meu pequeno espaço no mundo dos grandes.  
 
A moralidade imposta pela sociedade devastou minhas vontades como Agrotóxico perante pragas e perdi minha identidade. Mas ainda existe uma Voz Ativa no fundo de minha mente que não deixa o que tive de mais precioso em minha vida morrer, a liberade.
 
A Ação Direta já não é mais objetivo e prática, porém a Menstruação Anárquica está mais embaixo do que se pode imaginar.
 
Hoje não sou mais Punk porque prefiro me jogar morro abaixo com minha bicicleta laranja do que ouvir asneiras de socialistas laranjas.
 
Mas um dia eu fui Punk...
 
Foda-se, porque nada muda mesmo!
 
E viva a Gaita de Folie!
 
Notas
* Literatura barata, lixo.
** Idem a Jô Soares, pseudos intelectuais que se auto-promovem perante a ignorância popular e a indução do "bom" pela mídia aberta. Suicide-se, mas não leia auto-ajuda de hipócritas como Paulo Coelho, pois viverá sua vida toda em função de seus livros e irá se tornar um notável mentecapto.
 
Resenha
Eu escrevi essa porra porque tava sem sono, agora deu sono e não vai ter porra de resenha nenhuma. Fiquei empolgado para escrever esse texto após perceber como as pessoas mudam e progridem e outras seguem a mesma linha sempre e nunca saem disso. Eu mudei e fiquei mais perdido do que quando tentava seguir algo, mas foda-se, o negócio é se jogar.