O Vagão

Eu sou um vagão que possuí um vagão. Estamos fora dos trilhos e desesperadamente procuramos uma locomotiva para mover-nos... 

Meu vagão é feito de madeira e possuí uma estrutura em lata, as rodas são de aço e a pintura está bem batida. 

Meu vagão pode ser puxado e empurrado. Ele é leve e possuí duas portas corrediças nas laterais onde seres e sentimentos podem adentrar. Seu espaço é razoável e proporcional aos seres e sentimentos, ás vezes ele parece vazio, e as vezes carregado. 

Meu vagão parece algumas vezes mais pesado quando vago, e muito mais leve quando carregado. O oposto também acontece, com mais freqüência, porém com menor intensidade. 

Meu vagão pode percorrer uma linha de trilhos infinita ou finita, onde diversos lugares são transpostos. Horripilantes e maravilhosos, caminhos lentos repletos de obstáculos ou trilhos livres e velozes, tudo é proporcional para meu vagão. 

O início

Por um tempo eu puxei um vagão leve e vazio, onde ele ainda era esbelto e vistoso, não dei valor ou talvez não percebi que estava com uma correia de couro na cintura que fazia de cada passo meu o movimento do vagão. 

O Carregamento

Aos poucos fui carregando esse vagão, de amores e ódio, rancor, felicidade e tristeza, angústia, medo, solidão, vitórias e derrotas, conquistas, dores e prazeres, lágrimas e sorrisos. 

O transporte

No vagão também entraram alguns seres, amigos que empurravam o vagão, mas que jamais o puxavam. Amigos que entravam no vagão e ficavam ali sentados fazendo peso. Inimigos que entravam no vagão para falarem com meus amigos e fazerem mais pesos, inimigos que apedrejavam meu vagão e tentavam bloquear a nossa passagem. 

Os caminhos

Os caminhos que meu vagão passou foram ruins...

Em lugares desertos em que espinhos perfuravam meus pés descalços, terras ermas onde a luz é negra e a paisagem que são os restos de nada. Caminhos estes que possuíam os trilhos danificados e era muito lenta a passagem, senão quando não descarrilávamos e ficávamos por lá mesmos. Nesses caminhos, o vagão geralmente ficava mais pesado, pois muitos dos amigos que empurravam o vagão desistiam ou entravam dentro do vagão para serem carregados e chorar enferrujando a lataria de meu vagão e o tornando ainda mais lento.

Muitas pessoas desconhecidas surgiam destes lugares, a maioria apedrejava o vagão e tentavam desesperadamente entrar e serem carregadas, eram raras as que se dispunham a empurrar. 

Os caminhos que meu vagão passou foram bons...

Em lugares arborizados, repletos de pássaros, irradiados pela luz do sol, onde o sentimento de prazer dominava-me. Caminhos estes que possuíam os trilhos perfeitos e era extremamente rápida a passagem, onde nunca podemos parar e jamais descarrilamos. Esses caminhos deixava o vagão muito leve, a maioria das pessoas que estavam dentro do vagão descia para empurrar e ficar por lá. Todos se empenhavam em empurrar, pessoas desconhecidas surgiam a todo momento e se dispunham a empurrar. Alguns dos amigos desistiam de empurrar e ficavam nestes lugares para sempre, mas não faziam falta nestes lugares, pois não faltava ajuda para empurrar. O meu esforço era o contrário, era o de diminuir a velocidade do vagão e até mesmo descarrilar e ficar por lá mesmo, porém a força das pessoas em empurrar meu vagão era muito maior, e o que eu podia fazer era somente entrar dentro do vagão e sentar, tentar olhar o máximo a paisagem e quem sabe encontrar alguém para puxar. 

A descoberta

A pouco descobri escondida na parte frontal de meu vagão, uma segunda correia de couro, seminova. Descobri também que sempre que eu ia atrás com meus amigos empurrar o vagão ele parava. Tentei após essas descobertas fazer com que alguém dos que empurravam o meu vagão me ajudassem a puxar. Infelizmente não encontrei ninguém que quisesse, porém as mulheres eram as que mais demoravam a se decidir. No meu vagão somente duas pessoas podem puxa-lo, sendo eu obrigatoriamente uma delas, e uma quantidade infinita pode empurra-lo.
A locomotiva seria duas pessoas puxando e um número considerável empurrando, ou quem sabe somente duas pessoas puxando-o, porém o combustível da locomotiva está mais que comprovado que são os que empurram.
Descobri também que muito do que carrego dentro deste vagão afasta ou atraí pessoas, de personalidades relativas com a carga. A depressão afasta as pessoas alegres e suas bagagens com alegria e atraí as pessoas tristes com suas bagagens repletas de tristezas. Assim segue a rotina de meu vagão e novas descobertas acontecem a todo o momento.
 

O auxílio

Há algum tempo meu vagão descarrilou em um dos lugares mais ermos que passamos, um lugar onde a todo o momento preciso de ajuda para recolocar o vagão nos trilhos, pois os trilhos estão muito danificados e a ação do tempo está fazendo que meu vagão enferruje e apodreça. Atualmente a porta não fecha mais e as rodas dianteiras estão emperradas, devido a isso o vagão está sendo carregado de insegurança, desespero, tristeza e ódio. O teto está repleto de furos que deixam a água da chuva ácida corroer a parte interna do meu vagão destruindo a carga esperança e amor.

Infelizmente não posso movimentar meu vagão neste lugar e nestas condições.
Por esses motivos e muitos outros eu peço ajuda aos senhores para recolocar meu vagão nos trilhos.
A recompensa será uma viajem inesquecível...

Álvaro Henrique
04/11/02