Introdução
O ser humano busca dentro de si ser o melhor. Busca ser o melhor para conquistar um pequeno ou um grande espaço na sociedade, um espaço dentro de cada um, o reconhecimento alheio.
  Essa busca desesperada é facilmente modificada da ambição para a ganância. Esse erro é o causador de todas as contradições sociais, da sua insegurança na madrugada, do seu medo de por um filho no mundo, da premeditação perante uma arma de fogo, da arrogância do ser humano.
  O medo de viver como se deve viver, o risco de tentar e não conseguir o que se planejou. Que esse plano seja ser rico, ser famoso, consagrado, pai, mãe, noivo, noiva, magro, feliz, enfim, amado.
  Portanto, antes que você dispare sua
 arma de fogo em minha direção e acabe com minha vida porque quero salvar a sua eu imploro para que essa noite não.
Essa Noite Não
  
  Amanheceu chorando no campo, porque o vendaval levou para bem longe o que tinha de mais precioso. O combustível de sua vida. Vendo a chuva que dava saudade e o sopro frio da solidão eu a flertei e disse essa noite não.
 
  Correndo para uma caverna fria e escura, esqueceu-se de dizer adeus, apenas algumas palavras, como volto logo ou um até mais, porém no fundo sabia que ali não era seu lugar e que jamais iria voltar.  Entrou na caverna, chorou, dormiu, acordou e viu que o sol ainda estava lá. Brilhei em seu peito, suspirei bem fundo e disse essa noite não.
 
  Tinha nos cabelos algumas folhas secas presas, a tempestade se foi mas deixou marcas. O contraste do cabelo comprido e negro com a folha seca e parda, lembrava-me uma pintura antiga que era muito bonita, porém o tempo levou sua beleza, mas deixou os traços. Lhe mostrei a beleza que jamais morreu fixada na menina dos meus olhos. Quando ela chorou eu disse para não se matar pelo menos essa noite não.
 
  Sozinha, carente, desesperada e angustiada ela chora, ela se droga, ela viaja, ela grita, ela esperneia, mas ela não sai do mesmo lugar. Sou o vício da dor que pairou em sua mente, te enlouqueço calmamente e lhe dou a sensação de prazer quando você está em depressão, mas digo do fundo do meu coração, trincado, partido e com vertigem obsessiva perante a menina dos meus olhos que ficou no campo admirando o girassol. Eu ainda reúno forças das milhares de meninas que tentam substituir a dos meus olhos e digo essa noite não.
 
  Quando sonha não quer acordar, quando acorda se vê em um pesadelo e quer novamente voltar para o leito e tentar sonhar com o que não conseguiu a vida inteira. Não ouve seus queridos e se entrega tornando-se novamente um tiro no escuro. Deita no sofá e se cobre com a frieza que ela mesmo criou. Hoje ela não me deixou dizer que essa noite não, mas eu disse baixinho.
 
  Quando o calor passou e ela levantou-se do tronco e deixou de admirar o girassol, foi porque ele murchou de tanto que ela o admirou e o acariciou. Então ela levanta-se arrancando o girassol da terra e jogando ao lado para que ele seque e morra, para que seja surdo, cego, mudo e nunca mais viva para que outra pessoa o acaricie. Ela corre pelo campo, acha outro girassol, senta-se novamente e recomeça a acariciá-lo.
Não pude dizer essa noite não, porque eu era o girassol.
 
  Mas uma rosa finca seu espinho no girassol caído e quase sem vida. Sentindo uma dor insuportável e lutando contra o espinho ele tenta de todas as formas viver. Mas a rosa é persistente e faz com que o girassol se entregue dizendo: "Essa noite não".

  Hoje o girassol está dourado, brilhante e mais vivo do que nunca, porque o espinho daquela rosa tinha os minerais necessários para que o girassol resistisse até encontrar um novo lugar para fincar suas raízes, recuperar-se e ser admirado, e quem sabe, ser arrancado do solo novamente.
 
Álvaro Henrique 
Desculpem-me pelo texto, mas amar é um dom.
21/04/03

Resenha
As pessoas não sabem, mas quando estão solitárias e desesperadas, existe outras que continuam caminhando ao nosso lado.
Porém quando estão felizes e saltitantes são sugadas por "vampiros" de todas as espécie, que roubam sua alegria em troca da companhia. As vezes amamos essas pessoas, mas quando o mundo gira e a dor volta, percebemos que todos os "vampiros" que chamamos um dia de amigo, namorado ou noivo se vai com o giro da vida.
Então descobrimos que os que ficaram quando desesperados são os que realmente se importam. Geralmente descartamos essas pessoas, e quando se damos conta do valor que elas possuem, pode ser tarde demais...
 
Um tapa na sua carinha, "beibe".