Lá, na via Anhangüera foram feitas as primeiras experiências, quando o Chaves chegou, dublaram lá o seriado mexicano. Inicialmente, os tradutores - chegaram a ter 10 - tiveram de fazer adaptações, até porque Chaves fora produzido na década de 70 e muitas piadas tinham relação com a política mexicana. Foi um belo desafio para a equipe de tradutores. Marcelo Gastaldi, que fizera a voz de Charlie Brown e do Super-Herói americano, foi escolhido para dirigir a equipe de dubladores e também para fazer a voz do Chaves. Naquela época, Gastaldi já trabalhava com dublagens há 20 anos. Ele incorporou o espírito do Chaves, nas entonações de voz, nos cacoetes.

Personagem

Dublador

Quem ele já dublou

Chaves Marcelo Gastaldi Charlie Brown, Super-Herói Americano, um dos Racoons, o protagonista de "A Hora do Espanto 1", a voz em off de "Campo dos Sonhos", Michael Palin em "A Vida de Brian", John Lennon em "John e Yoko, uma história de amor", um dos integrantes do staff do Spectreman
Quico Nelson Machado

Darkwing Duck, Jeff Goldblum em "Dupla Genial",
Paul McCartney em "John e Yoko..."
Chiquinha Sandra Azevedo Pat Pimentinha em "Snoopy"
 

Cecília Lemes

Fran Drescher em "The Nanny"
Senhor Barriga Mário Vilela Gyodai do Changeman, Ota do Spectreman, algumas pontas em Disney's Doug, Winspector e Solbrain
Professor Girafales Osmiro Campos Dick Sargent (A Feiticeira) , narrador de "Saber Rider", Karas do Spectreman (o ajudante do Dr. Gore)
Dona Clotilde Helena Samara Endora, na fase à cores de "A Feiticeira" , professora em "Disney's Doug".
Dona Florinda Maria Rosa narradora de "Guerreiras Mágicas Rayhearth", Hissae do Winspector
Seu Madruga Carlos Seibl o chefe do Clark Kent em "As Novas Aventuras do Superman"; Doutor Gore, vilão do Spectreman; Xuruder do Snoopy; Inácio da novela "Sigo te amando". Como ator: um dos advogados de Filomena Ferreto em "A Próxima Vítima"
Jaiminho Older Cazarré  

Marcelo Gastaldi

Boa parte da graça do Chaves e do Chapolin se deveu a seu dublador, Marcelo Gastaldi, mais conhecido por aí como "Maga" (falecido em 1995, aos 50 anos) que, entre outras coisas, também fez a voz do Charlie Brown (além do imitado "Sssnúpey..."), do Super-herói americano, do protagonista de "A Hora do Espanto 1", e de um personagem do desenho "Trio Calafrio" da Hanna Barbera, além de cantar a música The Bright Side of Life, do Monty Python, em português, no filme "A vida de Brian" (em breve você vai conferir essa em MP3).
Pelo que podemos notar, Gastaldi era mais ou menos como Márcio Seixas (dublador de Leslie Nielsen e Bill Cosby) no que se referia aos "cacos" engraçadíssimos que ele colocava nas dublagens, como esse diálogo hilário entre Júlio César (Chespirito) e Marco Antônio (Carlos Villagran), aqueles do Império Romano:
- Não te preocupes! Tens homens que te ddefendem! Senão, para que te servem os gladiadores?
- Estão todos atlás das glades!
- E para que te servem os centuriões? - Servem para que não me caiam os calçõees!
Outro exemplo: um dos vídeos de "Chaves" disponíveis na Internet é a cena em que Chaves está com uma bandeja de churros e começa a comprar todos com a mesma moeda. No original em espanhol não tem a frase mais engraçada da cena: "Seu Churro, tá aqui o Madruga".
Ao que tudo indica, "Maga" eram as primeiras sílabas do nome de Marcelo Gastaldi. E a dublagem desse estúdio era muito diferente das outras. Primeiro, o som tinha qualidade excelente para a época (1984). Usando efeitos especiais, a sonoplastia reproduzia as condições originais da acústica do som do filme, (até hoje ninguém fez algo parecido), e na maioria das vezes, cantava as músicas em português! Curiosamente, o único filme mais "mainstream" que o estúdio Maga dublou foi Campo dos Sonhos, com Kevin Costner - e Gastaldi aparecia como a misteriosa voz que dizia frases enigmáticas como "Se você construir, eles virão.". O resto eram ou filmes dos anos 70, como "Alligator", ou filmes produzidos fora dos grandes centros produtores dos EUA como dramas, suspense e até filmes evangélicos.


Estas informações saíram na Folha de São Paulo, em Março de 2000. Elas falam da dificuldade que os dubladores estão passando. Mais abaixo há uma parte sobre o dublador de Chaves.

"Dubladores exigem direitos sobre reexibição"
(André Barcinski - Folha de são Paulo)

Há cerca de um mês, 80 artistas se reuniram numa pequena sala no centro de São Paulo. Eram artistas ao mesmo tempo famosíssimos e desconhecidos. Explica-se: seus rostos não são conhecidos do grande público, mas suas vozes ajudaram a popularizar a televisão brasileira. Era uma reunião de dubladores. Lá estava Borges de Barros, o veterano que emprestou sua voz rascante a personagens clássicos como Moe Howard, de "Os Três Patetas", e Dr. Smith, da série "Perdidos no espaço"; havia José Soares, dublador de Mister Magoo e de Oliver Hardy, o Gordo de "O Gordo e o Magro". Estavam presentes também Helena Samara, voz de Vilma Flintstone, e Flavio Dias D'Oliveira, dublador de Pernalonga e Patolino. A geração mais nova era representada, entre outros, por Sérgio Moreno, que hoje dubla o Mickey, e Tatá Guarnieri, a voz do Pateta. O motivo da reunião era dos mais sérios: iniciar uma campanha pelo pagamento do chamado direito conexo, ou seja, os direitos sobre a interpretação. Os dubladores acreditam que seu trabalho representa um "acréscimo intelectual" à obra, e que, por isso, merecem receber como artistas. Na prática, isso significa receber toda vez que seu trabalho é exibido na TV, incluindo as reprises de antigas séries e desenhos animados dos anos 60 e 70. "Eu dublei toda a série dos Três Patetas, há mais de 30 anos", conta Borges de Barros, idade não revelada. "A série continua a ser exibida hoje com sucesso, mas eu não recebo um centavo. Me dá tristeza no  coração saber que todo mundo está ganhando -a emissora, a distribuidora, a família dos atores- e eu não recebo nada." Os dubladores afirmam que o pagamento do direito conexo é um direito garantido por lei, mas que no Brasil ninguém paga. O inciso XIII do artigo 5º da lei 9.610 garante o pagamento de direitos a "todos os atores, cantores, músicos, bailarinos ou outras pessoas que representem um papel". E os dubladores dizem que seu trabalho implica numa reinterpretação do original, não apenas numa simples tradução. "Você acha que, se não fosse pelo nosso talento, pela nossa capacidade de adaptar os personagens estrangeiros à realidade do Brasil, ao modo de falar dos brasileiros e às nossas gírias, as séries fariam tanto   sucesso?", pergunta José Soares, criador do bordão "Por São Jorge!", marca registrada do   personagem Mister Magoo. O advogado Rodrigo Salinas, especializado em direito autoral, afirma: "No Brasil não há tradição de respeito a esses direitos, mesmo porque os dubladores eram, até agora, uma   categoria muito desorganizada, que nem recibo exigia." O advogado foi contratado pela   Sonat (Sociedade Nacional dos Atores) para fazer uma pesquisa sobre as leis. Os dubladores também reclamam por não terem seus nomes nos créditos dos programas, outro direito garantido por lei. "Não temos direito a nada", queixa-se Flavio Dias D'Oliveira, 48, presidente da Sonat. "Não temos seguro, décimo-terceiro salário, nada. Quando um dublador morre, a família fica na miséria."   Alguns casos são chocantes: Antonio Casales, que por anos dublou a série de TV "A Ilha dos Birutas" ("Gilligan's Island"), terminou seus dias morando embaixo do viaduto do   Minhocão, depois ser atropelado e perder a capacidade de locomoção. "Os amigos se reuniam para levar comida para ele e a família," lembra D'Oliveira. Outro caso emblemático é o de Marcelo Gastaldi, dublador das séries mexicanas Chaves e Chapolin, cuja família passa por muitas dificuldade depois de sua morte (leia ao lado). Embora otimistas com o início da mobilização da categoria, os dubladores sabem que a batalha promete ser penosa. A lei tem várias brechas; ao mesmo tempo em que garante o   pagamento do direito conexo, não especifica quem deve pagar, se a empresa que faz a   dublagem, a distribuidora que vende os programas, ou a emissora que os exibe.   A diretora de comunicação do SBT, Ana Teresa Salles, diz que a emissora não realiza  dublagens, apenas paga uma empresa para fazê-las, e que por isso o pagamento de   qualquer valor devido aos dubladores deve ser feito pela distribuidora que negocia os   programas.   "É um trabalho de formiguinha," admite D'Oliveira. "Mas tínhamos de começar, para que no  futuro os dubladores não passem pelas mesmas humilhações que tantos de nós já  passamos."

Família de "Chaves" tem dificuldades
(especial para a folha - André Barcinski)

Poucas famílias se beneficiariam tanto do pagamento do direito conexo quanto os Gastaldi. Quando o dublador Marcelo Gastaldi morreu, em agosto de 1995, aos 50 anos de idade, deixou a mulher, Olga, e quatro filhos. Gastaldi era a voz oficial dos personagens Chaves e Chapolin, dois dos programas mais populares da TV mexicana, e que fazem sucesso até hoje no SBT. O SBT continua faturando alto com Chaves e Chapolin (cada comercial de 30 segundos em Chaves custa cerca de R$ 8 mil), mas a família Gastaldi ficou na pior. Olga diz que, se não fosse pela bondade de amigos, a situação estaria insustentável. "A faculdade Mackenzie e o Colégio Paulistano deram bolsas de estudo para meus filhos, e até a administradora de meu prédio abonou o pagamento de nosso condomínio. Ainda há muita gente de bom coração por aí."

 

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