Reforma Curricular do Curso de Relações Internacionais da PUC/SP

Justificativa Geral da Reforma


A proposta de reforma aqui exposta tem dois objetivos: primeiro, reforçar os aspectos positivos de um projeto bem sucedido e, segundo, responder a várias reflexões e demandas que clamam pela realização urgente de algumas alterações substanciais no curso de Relações Internacionais.

As idéias de mudança nasceram ainda no mandato do coordenador Paulo Resende, quando professores de vários Departamentos da PUC e de outras universidades apresentaram palestras apontando diversos problemas na grade curricular. Depois, com a formação da primeira turma, os ex-alunos nos mostraram algumas insuficiências de nosso projeto para inseri-los melhor no mercado de trabalho – notadamente nas áreas teóricas e de integração regional, além da ausência de optativas que contemplassem um universo mais amplo de questões relacionadas às Relações Internacionais. Mais adiante, veio a avaliação do MEC, restritiva a alguns aspectos de nossa proposta pedagógica e propondo modificações substanciais, as quais, caso não sejam feitas, colocarão em risco à aprovação do curso. Tal aspecto foi nos alertado em conversas que tivemos com vários professores da área, inclusive com os membros da Comissão de especialistas, entre os quais está também um docente do Departamento de Política da PUC. Por fim, a insatisfação dos atuais integrantes do corpo discente com a grade curricular é outro fator que nos balizou na proposição de reformas de certos aspectos do curso de Relações Internacionais.

Neste sentido, a grade do curso recebeu algumas modificações, procurando compatibilizar o projeto interdisciplinar e pluralista do curso com aperfeiçoamentos necessários ao atendimento dos reclamos já externados pelos professores da PUC, alunos, ex-alunos, comunidade acadêmica de Relações Internacionais, mercado de trabalho e órgãos oficiais regulamentadores do Ensino Superior.

Acima de tudo, procurou-se manter a interdisciplinariedade. Na área mais próxima de Ciências Sociais, são cinco disciplinas de Sociologia, quatro de Antropologia, três de História e duas de Geografia, o que pode ser acrescido ainda de possíveis optativas que devem ser cumpridas pelos alunos. Esta situação só encontra paralelo no próprio curso de Ciências Sociais. Acreditamos que a existência de tais disciplinas constitui condição sine qua non para a formação do internacionalista.

Nas outras áreas de saber, também mantivemos um número grande de créditos obrigatórios, constituindo novamente uma situação sem paralelo em outros cursos da PUC. Destaca-se, primeiramente, a presença de três disciplinas de Economia e, igualmente, três de Direito, fornecendo o ferramental básico e conectando tais matérias especificamente às Relações Internacionais – o que não estava tão claro na grade atual –, além de serem oferecidas optativas, as quais poderão reforçar o conhecimento num ou noutro aspecto particular tanto da Economia – sistema financeiro ou comércio internacional, por exemplo – como do Direito – neste último caso, questões vinculadas aos Direitos Humanos, ao Direito Comunitário, ao arcabouço jurídico das Organizações Internacionais, entre outras, são prováveis conteúdos a serem oferecidos.

A manutenção das disciplinas de Filosofia e Serviço Social também constituem esforços para ampliar a formação dos alunos de Relações Internacionais. O conhecimento humanista presente na primeira e a preocupação com as questões sociais no âmbito internacional, cada vez mais marcado pela desigualdade, tal qual aparece na segunda matéria, são fundamentais à concepção de curso defendida aqui. Outras áreas que não têm disciplina obrigatória, em especial a de comunicação, podem ser supridas por meio das optativas, abrindo um leque mais apropriado a responder às demandas heterogêneas dos alunos e do mercado de trabalho, sem que com isso se enrijeça a grade do curso de Relações Internacionais.

Ponto fundamental da proposta é o espaço reservado às optativas, que preenchem 24 créditos do curso – seis disciplinas. A inclusão deste aspecto responde a várias considerações. A primeira já estava presente na concepção do curso, tal qual formulada pela comissão criadora: estabelecer uma dinâmica interdisciplinar e criativa de ensinar as Relações Internacionais. Acreditamos que este papel deve ser preenchido a contento pelas optativas, muito mais do que por uma grade que contenha apenas matérias obrigatórias. Além disso, o próprio ordenamento do ensino superior brasileiro caminha neste sentido, como bem mostra a nova LDB. É importante frisar que a comissão avaliadora do MEC reclamou explicitamente da ausência de disciplinas optativas – o não cumprimento deste quesito, como se sabe, pode gerar ônus para o curso. Por fim, a inclusão de optativas é uma reivindicação antiga dos alunos, que devem ter esta demanda atendida.

Na mesma linha pedagógica das optativas, pretendemos criar um número mínimo de seminários temáticos como atividade do curso (doze por semestre), nos quais podem estar incluídas palestras sobre diversos assuntos atinentes às Relações Internacionais, além de filmes, exposições e outras formas de ampliar a formação do internacionalista. Ainda no que tange a modalidades de ensino que não fazem parte da grade curricular, propomos aqui o fim da proficiência em português e a manutenção de outras duas, inglês e mais uma opcional, sendo que nestes casos aumentaremos o número de diplomas que podem preencher este quesito. Ao final do processo, será entregue também um regimento que regerá as proficiências, elaborado em parceria com os próprios alunos e discutido com os especialistas da Comfil.

Na grade de Política, algumas disciplinas tiveram suas ementas substancialmente alteradas, em alguns casos consolidando formalmente o que já ocorria de fato (antigas Política III e X). Algumas foram eliminadas (antigas Política III e IX), embora seja desejável que seus conteúdos venham a ser trabalhados em disciplinas optativas. Boa parte foi mantida, tendo recebido aprimoramentos ou ganho maior especificidade, o que implicou algumas mudanças de nome (antigas Política IV, V, VI). E, por fim, novas disciplinas foram criadas, visando fortalecer áreas que não estavam sendo atendidas a contento (novas Política II, IV, V, IX, XII e XIV). Do ponto de vista quantitativo, todas estas mudanças resultaram na criação de quatro novas disciplinas de Política.

Estas modificações foram realizadas em razão de quatro fatores, todos fundamentais para o aperfeiçoamento do curso:

Procuramos comparar nossa grade curricular a programas de Relações Internacionais de cerca de cinqüenta universidades estrangeiras, a fim não somente de nos colocar a par do melhor ensino superior do mundo como também para facilitar intercâmbios e ingresso dos alunos em graduação e pós-graduação no exterior. Já tivemos mais de vinte alunos fazendo intercâmbio e pelo menos quatro começarão a fazer mestrado fora, além de mais dois que estão trabalhando em organizações internacionais (OEA e ONU); todos eles, sem exceção, argumentaram ser necessária maior compatibilização entre o que oferecemos e o que é ensinado nestes centros de excelência e/ou exigido pelas Organizações Internacionais aos quais se dirigiam. Respondem a essa preocupação o reforço de Teoria das Relações Internacionais, a criação de uma matéria introdutória de RI e de uma que abarca a perspectiva essencialmente política, como estrutura de poder, da economia e desenvolvimento mundiais – tal como existe nas melhores universidades francesas, inglesas e norte-americanas –, e da incorporação de novos temas, como Processos de Integração Regional (em Política XII).

Buscamos também analisar, da forma mais pluralista possível, a pesquisa de ponta em Relações Internacionais. Os principais temas foram abarcados, incluídos aqueles que estavam ausentes da antiga estrutura curricular. O fato é que os alunos não tinham disciplinas que estudassem a fundo os blocos regionais, um dos temas com maior número de artigos em revistas nacionais e internacionais, porque só há uma disciplina de Instituições Políticas Internacionais, já com uma agenda repleta de assuntos. Exemplo disso é que tivemos vários alunos fazendo pesquisa sobre o Mercosul e, no mais das vezes, eles reclamaram de lacunas no curso.

Há também a ausência de uma série de autores de Relações Internacionais que estão publicando textos com grande impacto na área – por isso, a criação de duas disciplinas de Teoria das Relações Internacionais, com vistas a dar conta da produção clássica, assim como da mais recente na área. Além disso, a análise política da econômica internacional vem ganhando espaço na academia, seja na Europa continental, seja no mundo anglo-saxão, de modo que é essencial criar um locus para tal discussão (introdução da disciplina Política XIV). Por fim, está aumentando a pesquisa brasileira que procura enxergar a América como um todo, dando conta da realidade latino-americana, mas preocupando-se em problematizar o relacionamento com os EUA (mudança efetuada em Política X), tal como foi frisado por especialistas nos Encontros da Anpocs e da ABCP.

As mudanças pautaram-se ainda pelas reivindicações de alunos e, sobretudo, dos ex-alunos, os quais hoje enfrentam o mercado de trabalho e são o cartão de visitas do curso de Relações Internacionais da PUC-SP. Os ex-alunos nos subsidiaram mostrando quais foram as principais lacunas em sua formação e quais impactos disso no terreno profissional. Neste sentido, há muitas reclamações em relação ao reduzido espaço de discussão sobre integração regional, fundamental para quem está numa empresa exatamente para auxiliar na definição de um possível investimento no Mercosul, ou para quem está numa empresa jornalística, como alguns de nossos ex-alunos atualmente. A ausência de uma disciplina que discuta mais profundamente o Estado brasileiro também foi sentida, não só porque isto é base para o estudo da política externa, mas em razão de o setor público ter um impacto enorme em qualquer área de atuação na qual possa trabalhar um internacionalista – por isso a inclusão desse conteúdo na disciplina de Política V. Aos que foram fazer pós-graduação, os principais problemas estão na falta de leitura de vários autores essenciais da área de RI e na exclusão de alguns novos temas que podem ser fundamentais para agenda de pesquisa.

Os atuais alunos, por sua vez, têm como principal reclamação a ausência de uma matéria de Introdução às Relações Internacionais, que possa mostrar, logo de início, os principais aspectos que envolvem esta área. Mas também sentem muita falta da análise da estrutura de poder da economia mundial. A lacuna de um curso sobre o Estado brasileiro contemporâneo suscitou no ano de 1999 a formação de um grupo de estudo sobre este assunto, que infelizmente se desmontou por conta da falta de tempo dos alunos para realizar esta atividade extra-classe. A insatisfação em relação a esta lacuna, no entanto, ficou maior.

O atendimento das exigências feitas pelo MEC na avaliação de 1999, reforçada pela opinião de outros internacionalistas brasileiros com os quais discutimos, foi outra motivação importante para as reformas em Política. Acreditamos ser necessário ter em conta as exigências do MEC para o reconhecimento do curso. É bom lembrar mais uma vez: o não reconhecimento do curso ou uma nota ruim poderá invalidar ou prejudicar o bom conceito do diploma dos atuais alunos, prejudicar a imagem dos recém-formados, atingir a reputação do curso de modo a reduzir os candidatos ao vestibular e enfraquecer nosso objetivo de consolidarmo-nos como um centro de excelência na área, capaz nos próximos anos de imprimir nossa diretriz original de ensino e pesquisa em Relações Internacionais. Ademais, realizar tais adequações coaduna-se perfeitamente ao projeto original do curso e aos aperfeiçoamentos percebidos como necessários pela própria comunidade puquiana – professores do curso, alunos e Coordenação.

O nosso desafio é, ao mesmo tempo, levarmos em consideração os parâmetros externos do MEC e da comunidade acadêmica nacional e internacional e imprimirmos ao curso uma perspectiva interdisciplinar, plural e original, tão cara à PUC.

Em outras palavras, a reforma deve atuar sobre nossa imagem e posição externas, sem que, contudo, percamos nossas especificidades e projeto acadêmico. Deve-se reforçar uma visão interdisciplinar da PUC que deve dialogar – e não se confrontar – com os currículos internacionais e as demandas de alunos e ex-alunos, do MEC e do mercado de trabalho. Tanto isto é verdade que a reforma global reduz muito pouco o número anterior de disciplinas da Faculdade de Ciências Sociais, em prol da interdisciplinaridade, podendo ainda, com as optativas, em número total de seis, reforçar tal perspectiva. Cabe ressaltar que a interdisciplinaridade do curso de RI é talvez a mais forte – e continuará sendo – dos cursos da PUC já reconhecidos.

Na verdade, as exigências do MEC de criar uma matéria de Introdução às Relações Internacionais, de aumentar o espaço de Teoria das Relações Internacionais, reforçar o estudo de Instituições Internacionais e Integração Regional, de colocar optativas no currículo e de focar as estruturas políticas que atuam sobre as transformações da economia e desenvolvimento mundiais, coadunam-se tanto com os programas das principais universidades estrangeiras como com as demandas dos alunos. Além disso, tais mudanças compatibilizam-se com a interdisciplinaridade, organizando-a de acordo com critérios acadêmicos fundamentais para a formação do bacharel de Relações Internacionais. No caso da disciplina específica de Introdução à área de estudo, note-se que essa é uma prática presente em outros cursos da PUC, inclusive no recém criado curso de Turismo.

Por fim, é importante ressaltar a tarefa que temos de continuar o projeto bem sucedido de curso proposto pelo Departamento de Política e sua comissão formuladora. O sucesso inicial é inegável, mas sua continuidade nos obriga a algumas reformulações, sem perder de vista o projeto original.

Comissão de Professores
Cláudio Couto
Fernando Abrúcio
Flávia de Campos Mello
Henrique Altemani
Lúcio Flávio Almeida
Reginaldo Mattar Nasser


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