O Brasil e o futuro das Relações Internacionais
Luiz Felipe Lampréia
Vinte a vinte e cinco anos que poderão assistir ao amadurecimento do Brasil como potência média, economicamente forte e socialmente mais sólida e coesa, com intensa presença regional e considerável intercâmbio com outras regiões, embora sem poderio estratégico e capacidade de influência global.
Ou vinte a vinte e cinco anos que poderão assistir à sua estagnação como país de desigualdades sociais e regionais, fechado ao mundo exterior e crente em uma falsa noção de "caminho próprio", que alterna ciclos curtos de desenvolvimento e espasmos de recessão e que se paralisa diante do
esfacelamento progressivo da base social, com sérios riscos para a sua integridade e soberania.
Ninguém discutirá que investir em educação e em melhoria dos indicadores sociais, por exemplo, é condição mínima indispensável para participar com vantagens do sistema internacional. Isso é verdade hoje e o será cada vez mais.
Há muito ficou evidente que o desenvolvimento social é condição para o desenvolvimento econômico e constitui a primeira linha de defesa nacional e de sustentação da soberania.
Projetado para o futuro, esse axioma indica claramente os caminhos a perseguir em sociedades em desenvolvimento, como a brasileira, marcada ainda por desequilíbrios, atrasos e grande carência de coesão social. Esse dado - uma evolução indiscutível no plano social, mas ainda estorvada por
muitos obstáculos e carências profundas, cujas conseqüências perdurarão ainda por muitos anos - marcará sem dúvida a nossa entrada no século XXI e a nossa capacidade de resposta a outros desafios que exijam coesão social e poder nacional baseado numa noção forte e autêntica de nacionalidade.
Ninguém discutirá que é preciso ter uma política de defesa atualizada e abrangente, não-ideológica e que leve em conta não só as relações entre Estados e os sistemas políticos regionais e internacionais, mas também a incidência cada vez maior de fenômenos como o narcotráfico, o tráfico de armas, e o crime organizado, ou a proliferação cada vez mais intensa de atores internacionais, como empresas multinacionais, Organizações Não-Governamentais, Igrejas, Federações sindicais e empresariais, grupos parlamentares.
Nossa situação atual em relação a alguns desses pontos é particularmente crítica, provavelmente porque a democracia brasileira já se fortaleceu o suficiente para que comece a expurgar muitos dos males crônicos que afetam a sociedade; mas não há como negar que ficamos mais vulneráveis ao crime organizado e que um dos grandes desafios do início do século XXI é a defesa interna do Estado e da sociedade, os núcleos vitais da soberania.
Tampouco haverá quem combata a integração regional como campo de provas para a globalização e como uma forma inovadora e eficaz de multiplicar e projetar o poder nacional de países que, isoladamente, teriam dificuldades ainda maiores para lidar com o fenômeno da globalização e suas
conseqüências. E não há dúvidas de que o Mercosul, nesta passagem de século, está enfrentando problemas próprios de um processo de integração regional que esgotou a sua primeira grande etapa criadora e busca alavancar uma segunda etapa, de maior coordenação de macro-políticas, e que irá
muito além da liberalização comercial interna e de uma tarifa externa comum.
O futuro, portanto, é muito menos algo que se adivinha e muito mais algo que se constrói a partir de premissas bem fundamentadas, cuja base empírica está presente aos nossos olhos nos dias de hoje. E em política externa não poderia ser distinto.
Por essas razões, o melhor é concentrar uma análise das perspectivas internacionais do Brasil naquilo que já hoje deve constituir a base para o desenvolvimento brasileiro: os primeiros vinte a vinte e cinco anos do século XXI.