Entre a luz e as trevas

Gilberto Dupas

Nossa sociedade está despreparada para os imensos desafios de concepção e regulação das novas realidades


A sociedade global coloca-nos simultaneamente na complexa situação de cidadãos locais e planetários. Parte importante de nosso destino passou a ser decidida por forças e interesses poderosos e mal definidos, operando em dimensões políticas e sociais muito amplas e cada vez mais distantes do indivíduo que vive, mora e atua em determinada cidade e em determinado país.

A globalização econômica e a autonomia das novas técnicas, irmãs siamesas, em cujo sangue circulam a tecnologia da informação, a automação radical e a engenharia genética, espelham bem o acirramento dessa tensão. Já temos todas as evidências de que os mercados globais e a concentração econômica, além das vantagens do brutal aumento da eficiência produtiva que realimenta a dinâmica capitalista, aumentam as desigualdades entre os países -e entre as pessoas de um país-, aumentam o trabalho precário e agravam a pobreza.

Por outro lado, o desenvolvimento desenfreado das novas tecnologias genéticas e informacionais está revolucionando os padrões de comportamento e de conforto da sociedade contemporânea. Mas, lideradas que são pelos laboratórios de pesquisa das grandes corporações transnacionais e orientadas unicamente para a criação de valor econômico e de competição mercadológica, essas técnicas podem gerar consequências graves no campo da contaminação alimentar e das mutações genéticas e ambientais que podem comprometer a vida do ser humano e de seu habitat.

Nossa sociedade e os seus mecanismos representativos e institucionais estão totalmente despreparados para enfrentar o imenso desafio de concepção e de regulação que essas novas realidades impõem com urgência. É justamente dessa temática que trato em meus dois últimos livros "Economia Global e Exclusão Social" e "Ética e Poder na Sociedade da Informação".

Felizmente alguns intelectuais estão cada vez mais atentos para o enorme desafio daquilo que Michel Callon, diretor do Centro de Sociologia da Inovação da Escola de Engenharia de Paris, chama de "criação de uma democracia técnica". Cientistas, empresários e cidadãos precisam ser capazes de um amplo debate público que defina o consenso sobre as precauções capazes de evitar que as consequências negativas do progresso científico -como a doença da vaca louca e a ameaça da radioatividade nuclear- superem as suas eventuais vantagens. Ele lembra que esse debate prospera melhor na Europa do que nos EUA, onde a classe política é mais fortemente influenciada pelos lobbies dos grupos de interesse privados.

A sociedade mundial precisa tomar conta de seus caminhos e decidir o quer assumir dos efeitos perversos dessa globalização desenfreada e aparentemente irreversível, que a todos afeta, procurando separar o seu joio do seu trigo.

Philippe Quéau, diretor da divisão de sociedade da informação da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em recente artigo no jornal francês "Le Monde", fala do desconforto de sua dupla condição de cidadão parisiense e de cidadão global, já que não pode votar em eleições mundiais. Sente-se, assim, submetido a esses fenômenos econômicos e tecnológicos como se estivesse entregue a "mãos invisíveis" que operam as realidades globais sem um projeto político ou um "mito fundador".

A Renascença européia foi possibilitada por uma tripla novidade: a imprensa, a América e a Reforma. Hoje temos a tecnologia da informação e a "Net América". Falta-nos uma concepção de bem comum mundial que permita a emergência de política e ética globais.

Quéau lembra alguns dos enormes desafios de uma nova classe política global: o que é domínio público (a "res publica") em escala mundial? O que deverá dizer um direito mundial? E em nome de quais interesses? Como bloquear a competição desleal em escala global? Como definir e regular a propriedade intelectual de forma democrática? Como regular e taxar os bens públicos globais que, por definição, devem pertencer a todos?

E eu acrescento, com um olhar que parte da periferia para o centro: como amenizar os desequilíbrios nas balanças externas que a abertura econômica ocasiona aos países mais pobres? Como evitar que a automação radical e o fracionamento das cadeias produtivas globais aumentem o desemprego e a precarização do mercado de trabalho? Em síntese, como fazer da globalização também uma oportunidade para os países não-centrais ao capitalismo mundial, que tendem a acumular seus efeitos negativos mais que suas vantagens?

Não tenhamos dúvidas de que encontrar soluções a essas questões será um fator decisivo que poderá nos levar ao florescer de uma nova e alvissareira Renascença ou ao mergulho nas trevas de uma nova Idade Média.


Gilberto Dupas, 58, é coordenador-geral do Gacint-USP (Grupo de Análise da Conjuntura Internacional, da Universidade de São Paulo) e autor de "Ética e Poder na Sociedade da Informação", entre outros. Foi membro do Conselho Diretor do IEA-USP (Instituto de Estudos Avanços).
Artigos extraído do Jornal Folha de São Paulo, edição de 02/03/2001.

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