O campo de estudo das Relações Internacionais
Comissão para a Reforma Curricular
O fracasso histórico dessa visão utópica e idealista que presidiu o surgimento das Relações Internacionais como ciência conduziu à prevalência de uma visão interpretativa realista, que consagrava a disputa de poder como elemento fundamental para a definição do comportamento dos Estados na arena internacional e que passou a influenciar significativamente tanto o estudo quanto à condução da política exterior, seja das superpotências, seja de um significativo número de outros Estados. Conseqüentemente, o estudo das Relações Internacionais privilegiou, no período correspondente à Guerra Fria, os temas estratégico-militares, as relações e o equilíbrio de poder e a atuação dos Estados como atores principais no sistema internacional. Do ponto de vista metodológico, observou-se o embate entre tradicionalistas, afeitos à tradição da narrativa histórico/jurídica, e os cientificistas, que propugnavam a aplicação de instrumentos analíticos oriundos principalmente das Ciências Sociais, bem como a utilização de métodos quantitativos ao estudo da política internacional.
Com a emergência da multipolaridade a partir dos anos sessenta, em especial no campo econômico, os temas relacionados ao desenvolvimento econômico e social e o surgimento de novos atores internacionais – sobretudo empresas e organismos internacionais governamentais e não-governamentais – alteraram tanto a realidade como o estudo das Relações Internacionais. Passou-se a conferir maior atenção não somente ao ponto de vista dos interesses dos Estados e de suas políticas externas, mas também a um espectro mais amplo de atores, inclusive atores domésticos que se movem em função de interesses não circunscritos ao campo da segurança internacional. Assim, sob uma abordagem pluralista, o estudo das Relações Internacionais incorporou o estudo dos processos decisórios – com os choques e competições entre agências burocráticas domésticas –, da atuação de atores não-estatais e de novas formas de regulação e cooperação internacional.
Dos anos setenta aos oitenta, o estudo das Relações Internacionais desenvolveu-se com base no aprofundamento das vertentes realista e pluralista e do debate teórico entre ambas. Além disso, estabeleceu-se um diálogo com ciências e disciplinas afins, refletindo a maior complexidade do cenário internacional, marcado à época por crises econômicas e políticas coadjuvadas pelas grandes potências e pelos esforços (ao cabo mal sucedidos) dos países periféricos em prol de um novo ordenamento internacional. Nessas duas décadas, o tema do desenvolvimento econômico e social, aliado a outros que despontaram na agenda internacional – como meio ambiente e direitos humanos –consolidou-se no âmbito também do estudo das Relações Internacionais.
As grandes transformações estruturais do cenário internacional ocorridas durante década de oitenta, particularmente em sua segunda metade, e os anos noventa (notadamente o fim da guerra fria com a implosão do império soviético e da própria União Soviética, as transições políticas na América Latina e no Leste Europeu, a emergência dos grandes blocos regionais e a revitalização da crença nas forças de mercado como elemento orientador das economias nacionais em grande escala) impactaram profundamente o estudo das Relações Internacionais. Em primeiro lugar, por terem desafiado os paradigmas teóricos tradicionais que haviam se desenvolvido, em grande medida, em função da estrutura e da evolução do próprio cenário internacional a partir da Segunda Guerra; em segundo, porque o arcabouço teórico-conceitual disponível mostrava-se insuficiente ou, por vezes, inadequado para a análise de novos temas e problemas trazidos à tona, como aqueles relacionados à governabilidade global, sustentabilidade ambiental, direitos sociais e comércio internacional, dentre outros.
Desse modo, no presente, o estudo das Relações Internacionais, de forma geral, atravessa um momento de particular riqueza, tanto porque os paradigmas e o arcabouço teórico-conceitual existentes se vêem confrontados com a necessidade de revisão e de reafirmação frente às mudanças do cenário global, como pelo surgimento de novas concepções e formulações, que procuram valorizar elementos e questões não adequadamente tratadas nas abordagens tradicionais. O objeto de estudo ampliou-se, extrapolando, mas não ignorando, o domínio da ação dos Estados – tal como preconizado pela corrente realista – e os temas de segurança e os afetos ao desenvolvimento econômico. Segundo Fred Halliday, pesquisador da London School, considerado hoje um dos maiores especialistas na área:
"Os três elementos constitutivos das Relações Internacionais, o interestatal, o transnacional e o sistêmico, permitem muitas especializações e várias abordagens teóricas. Hoje, as RI abrangem como subcampos somados à teoria internacional (isto é, a teorização destes três elementos), os estudos estratégicos, os estudos de conflito e paz, a análise de política externa, a economia política internacional, a organização internacional e um grupo de questões normativas pertinentes à guerra: obrigação, soberania e direitos. A estes subcampos, analiticamente distintos, pode ser somado o das especializações regionais nos quais as abordagens teóricas são aplicadas aos estudos de Estados individuais e de grupos de Estados. Tais subcampos podem não envolver diferentes perspectivas teóricas, mas variam consideravelmente na ênfase relativa atribuída às questões, por exemplo, de ideologia e direito, de economia ou de poder militar. Só nos anos 1980, várias novas questões internacionais foram incorporadas ao âmbito analítico da disciplina e ensinadas em cursos separados: o uso e do mar e política de oceanos, mulheres e a arena internacional, as relações internacionais no Terceiro Mundo, as questões ecológicas, as dimensões internacionais da comunicação, dentre outras.".
Perfil do Profissional
No Brasil, a profissionalização no campo de Relações Internacionais tem avançado significativamente na década de 90. Ao contrário da perspectiva voltada apenas à formação do diplomata, hoje há um leque enorme de atividades nas quais o internacionalista vem atuando. Neste sentido, poderíamos destacar as seguintes áreas de atuação:
O curso de Relações Internacionais pretende, portanto, formar um profissional que possa atuar como pesquisador, professor, conselheiro, assessor, consultor ou executor nas mais diversas instituições, públicas ou privadas. Para tanto, o curso tem como objetivo preparar o aluno para exercer as seguintes habilidades:
O estudo das Relações Internacionais, do ponto de vista científico e conformando campo distinto de conhecimento, é relativamente novo, tendo recebido impulso a partir da Primeira Guerra Mundial. Desenvolveu-se inicialmente em centros de estudos norte-americanos e europeus, atendendo, inclusive, à preocupação de evitar a recorrência de conflitos bélicos por meio da consagração de princípios, normas e instituições que regulassem e intermediassem os conflitos de interesse, encaminhando sua resolução por meios pacíficos.
Câmaras de Comércio, Consulados e Embaixadas estrangeiras, prestando assessoria a respeito da atuação política e comercial do Brasil no contexto internacional;
Comissão para Reforma Curricular do curso de Relações Internacionais da PUC/SP: Cláudio Couto, Fernando Abrúcio, Henrique Altemani, Lúcio Flávio Rodrigues, Reginaldo Nasser.
Artigo extraído do Projeto de Reforma Curricular do curso de Relações Internacionais da PUC/SP, elaborada pela Comissão para a Reforma.