Por que Relações Internacionais?

Reginaldo Matar Nasser

Os primeiros cursos de Relações Internacionais apareceram no período do entre-guerras com a preocupação de melhor compreender a grande tragédia humana que havia sido a Primeira Guerra Mundial. No Brasil, o primeiro curso apareceu na década de 70 em Brasília (UNB) e vinculava-se, principalmente, à preocupação de se preparar os alunos para a carreira diplomática.

Quais as transformações ocorridas na sociedade brasileira que levaram, inicialmente, à criação e à conseqüente expansão do número de cursos de Relações Internacionais nos anos 90?

Pensem como o mundo é diferente hoje do que era há dez anos atrás. Nós testemunhamos a desintegração da União soviética, o fim da Guerra Fria e o ressurgimento das identidades étnicas e religiosas de forma inesperada. Produção, finanças e comércio tornam-se cada vez mais mundializados; os efeitos devastadores dos danos ambientais, o tráfico de drogas, o novo terrorismo e a possibilidade da guerra bacteriológica se espalharam pelo mundo. Avanços tecnológicos têm revolucionado constantemente o modo como vivemos e trabalhamos juntos.

De um dia para o outro todos queriam saber sobre os processos de integração (Mercosul, Alca, Nafta), mas também queriam informações sobre os conflitos da Bósnia, Kosovo, Chechênia, Timor etc. Porque a crise da bolsa na Ásia nos afeta? Passamos a ouvir com freqüência as autoridades mencionarem as siglas OMC, Banco Mundial e FMI.

Na verdade, todos nós precisamos estar preparados para responder o que fez com que aparecessem os novos tipos de conflitos e as crises econômicas, eles poderiam ter sido previstos? Como atuar diante desse emaranhado de problemas mundiais que nos afetam cada vez mais?

Enfim, perguntas e mais perguntas surgem naturalmente destas mudanças e podemos dizer que o melhor caminho para compreender adequadamente essas questões é estudar relações internacionais.

Como nosso mundo é interconectado cada vez mais e interdependente, as pessoas com um conhecimento mais vasto sobre sistemas internacionais representarão um papel importante, não só definindo, mas também criando novas relações. Como acontece a colaboração internacional? por que as nações vão para guerra? o que assegura que algumas nações são ricas e outras são pobres? e quais são esses poderes que, em última instância, afetam todas as nossas vidas? Compreender a complexidade desses assuntos de caráter multifacético revela como o mundo funciona e, mais do que isso, como pode ser mudado? RI é uma ferramenta que pode nos ajudar a transformar o cenário internacional, tornando-nos atores dessa história. Os resultados podem ser a criação de uma ordem mais justa ou caótica, violenta ou pacífica, mas não podem se antecipar desafios futuros sem a habilidade para analisar e entender os sistemas mundiais que os controlam.

O campo de Relações Internacionais está preocupado como os governos se comportam estudando a diplomacia, a guerra, o comércio, as alianças, a dependência e cooperação internacional entre os Estados.

Porém, os governos nacionais não são os únicos participantes das relações internacionais. Poder e persuasão também são utilizados pelos grupos intergovernamentais (ONU, OEA, Mercosul, OPEP), organizações não-governamentais (Greenpeace, Anistia Internacional), corporações multinacionais (Citibank, CocaCola). Portanto, o poder para afetar as relações internacionais não está apenas nas mãos de diplomatas stritu sensu, mas também dos "diplomatas" das empresas, sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais, organizações governamentais e não governamentais. Todos estes "atores" estão usando o cenário mundial; como e por que eles interagem através da cooperação e/ou conflito é o eixo fundador de relações internacionais.

Sejam bem vindos a esse mundo fascinante!!!


Reginaldo Mattar Nasser é Coordenador do Curso de Relações Internacionais e Professor de Política da Faculdade de Ciências Sociais da PUC/SP.

Home

Hosted by www.Geocities.ws

1