Pedro Marques

     CAMALEOA

      Co’ ardentia cristã, ó bela ninfa,

    bebias na matriz a salmodia.

 

    Eu que nunca fui religioso,

    esperava saíres rodeada de mais anjinhos.

 

    Tua juventude minha lenda particular:

 

    A camaleoa de coroa moura,

    uma Cruzada pelo desencanto.

 

 

    Bandolim

 

    Do pulmão fumaça e canto

    desenham coração e canção

                                        Imensos.

 

    A tosse afinada na voz que paira.

 

    Os olhos raiam complexos como um solo

    enquanto come as unhas cansadas

                                          insistentes

    na volta a reflexão:

 

    Esse bandolim é uma cascata!

    Canta, canta bem-te-vi!

 

    Eu era arteiro e o carinho depois da palmada era certeiro.

 

    Nas horas que ele folgava a mãe dizia:

 

    Olha a sombra!

 

    Não sei. Eu seguia sua luz segura.

    Ele consertava tudo -- tudo tinha jeito!

    – e às vezes me solicitava:

 

    Cadê aquele dedinho?

    Vê se pega a tampinha de pasta que caiu

                                                                no ralo.

 

    Eu pegava me sentindo importante.

 

    Improvisos não eram temidos.

 

    Também a gente se negava,

    cada qual caia para o seu canto desafinado

    até que nossos ombros se perdoassem.

 

    Hoje, nossas sombras cobrem o mesmo chão.

    Suas piadas são minhas.

    Suas histórias sobre o vô Pedro são nossas.

    Estes versos são seus.

 

    E o violão soa:

 

    Nosso coração para sempre no mesmo compasso.

 

    Porque não há tato ou visão

    que quando morrem levem consigo tudo que ouviram.

 

    O peito estático recebe o pó,

    mas um sentido maior

    mantém a proximidade sem relógio.

 

    Intacta no amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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