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Herança O mar leste descende desta
voz. Lançamos âncoras para reparar nossos
remos partidos. Haverá segurança nos braços
suspensos como facas, cortando o mar horizontal que
se abre como clareira ao homem
pressentido? Mancham o cintilar das águas
com suas dobras. Mas não posso reter senão o espectro
solar fundo em teus olhos, o
silêncio contrariando o múltiplo, o
indevassado. Há um homem construído
em teus desígnios. De que tempo virá este outro
homem? Estas pedras que afundam no
longínqüo?
Convívio Eles se extinguem em nós,
chuva na casa. Porque o silêncio desbasta-os
e as dobras do olhar, e a inflexão das vozes duras
na pedra. Com suas funduras
exangues nunca apreendidas, desenvoltura dos homens no
oceano. Eles se extinguem em nós. E mais puros que nós, talvez
jamais nos tenham freqüentado senão em alma, figuração do
pântano. E no extermínio dúbio em que
coubemos, tanto
nós quanto eles: terna redenção no último.
___________________________________________________ Pablo Simpson nasceu no Rio de Janeiro (1976). Publicou Flor
suspensa (1998) e organizou, com Luiz Dantas, a edição Espumas
Flutuantes e Os Escravos de Castro Alves (Martins Fontes). Editor da
revista Duas Águas, com Roberval Pereyr, tem poemas publicados em
inúmeras revistas. É atualmente doutorando em literatura comparada no
Instituto de Estudos da Linguagem, com a dissertação Rastro, hesitação e
memória: o lugar da temporalidade na poesia de Yves Bonnefoy. Publica
semanalmente no site do autor, sobre fotografia: http://www.eutrapelias.blogspot.com/.
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