05 - 10. 11. 99
 

        1.

        Freio-de-mão
        na velocidade-prosa
        Aqui é preciso calma

        Desabituar-se
        da olhadela,
        do ritmo-jornal.

        Sem o trânsito da pressa
        (que desinteressa)

        Adotar os passos
        do inspetor de rua
        (da paciência):

        A cadência de quem atua
        reiniciando
        a partir do ponto final

        A coexistência de dois
        caminhos -
        o específico e o mais geral.
 

        2.

        Receber a coisa então
        como quem traspassa o apuro
        assimilá-la o murro
        e torná-lo embrulho
        da própria indagação

        Dar a cada passo
        o valor da conquista -
        que não se marca em velocímetro
        que não se cronometra ou se lista
        Mas como faz o alpinista
        que a mede por centímetro
        (em sua arte-equilibrista)
        seja a rocha de água ou aço

        Como o alpinista,
        que em cada falha incrusta
        o planejamento e a ferramenta,
        um movimento que se ajusta
        ao ar rarefeito
        ao seu cansaço

        Receber a coisa então
        com cautela de cirurgião
        (quando termina o parto)
        com fórceps, oxigênio e exaustão
        Dar a ela a concretude
        de quem cria
        a atitude de quem fia
        a argamassa à fumaça
        o cimento à desgraça
        o adiamento à partida

        A sabedoria de se fazer do tempo
        a hora convertida
        no fermento derradeiro
        da inevitável conclusão.

        3.

        Reconhecer, por fim,
        a natureza do processo,
        infinita

        Que dado um final
        continua-se a trilha
        de um novo acesso

        Que não se transita aqui
        do cenho ao bocejo
        do tapa ao aperto de mão

        Assimilar a grafia do tapa
        (seu desejo de faca)
        como o ensejo da composição

        Que não se conforma na hora
        (no ponto banal)
        mas alimentada da paciência

        Da experiência
        que é só depois,
        quando surge o vergão.
 

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