Palavras Finais
Uma das idéias centrais dessa resenha foi tentar mostrar que a pedra angular da modalidade de trabalho psicológico de tempo delimitado, que lhe define a sua origem e especificidade, é o manejo técnico do enquadre psicoterápico, especificamente na disposição espaço-temporal. A insistência nessa idéia se justifica na medida em que a maioria dos autores, pesquisadores e mesmo professores dessa disciplina em cursos de terapia breve, parecem desconhecer ou subestimar o valor dessa variável.
Quem colocou essa questão em evidência foi Edmond Gilliéron, através de um método específico de pesquisa, que foi o estudo comparativo da literatura e das práticas especializadas em psicoterapia breve. Dessa forma, Gilliéron mostrou que não é o uso de artifícios técnicos que caracterizam ou especificam a psicoterapia breve. Por exemplo, não adianta querer caracterizar a psicoterapia breve como uma técnica baseada na focalização, atividade e planejamento, pois (1º) existem outras modalidades de trabalho psicoterápicos que não são psicoterapias breves e utilizam também esse conjunto de técnicas, logo isso já é suficiente para dizermos que elas não conferem especificidade à psicoterapia breve, mas além disso (2º) é possível realizar-se psicoterapia breve, com resultados igualmente satisfatórios, sem utilizar-se por exemplo, da focalização, da técnica ativa, etc. Isso não quer dizer que tais técnicas não devam ser usadas. Um bom planejamento certamente é um bom auxiliador do processo, e a técnica focal, quando bem dominada pelo terapeuta pode ser um recurso interessante de ser usado. O que se está enfatizando é que elas não conferem especificidade à psicoterapia breve, nem lhe são imprescindíveis. De todas apenas a “técnica ativa” se mostrou ultrapassada, com exceção em casos muito excepcionais.
Embora exista um certo ecletismo técnico no campo da psicoterapia breve, conforme salienta Gilliéron (1986), se voltarmos nossa atenção para o fenômeno central da relação terapêutica, poderemos definir certas constantes na psicoterapia breve. Assim, do ponto de vista psicanalítico, as regras internas de funcionamento do tratamento desempenham uma espécie de fronteira abstrata que delimita o campo analítico do campo cultural. São essas regras internas que conferem a base do caráter terapêutico e analítico a qualquer forma de psicoterapia, incluindo a psicoterapia breve. Entretanto, e aí se encontra o ponto chave da questão, a disposição concreta do tratamento breve (face-a-face em vez de divã-poltrona, a temporalidade delimitada) modifica a dinâmica da relação paciente-terapeuta de forma expressiva. A principal tarefa se torna evitar que a relação terapêutica se transforme uma relação “real” (como outra qualquer) e complementar à sintomática do paciente.
Tradicionalmente, os psicoterapeutas breves para não correrem esse risco adotaram o ecletismo técnico baseado em diversos recursos: focalização, aumento de atividade, promoção de experiências emocionais corretivas, etc. Não se discute a eficácia de tais técnicas. E de certa forma isso transformou a psicoterapia breve, também, num campo de pesquisa sobre as técnicas mais eficazes no campo da psicoterapia clínica, com a tentativa de condensa-las todas na terapia de tempo delimitado. Porém, isso fez que os aspectos humanos e existenciais ficassem à deriva da literatura especializada, e a variável fundamental (enquadre psicoterápico) fosse esquecida.
Gilliéron (1986) redefiniu a psicoterapia breve como um campo de pesquisa sobre as conseqüências do manejo do enquadre espaço-temporal, sobre o paciente, o terapeuta e a relação entre ambos. Com suas pesquisas experimentais na Universidade de Lausanne, na Suíça, pretendeu mostrar que uma atenção aguçada voltada para a especificidade da transferência em psicoterapia breve permite evitar todas as técnicas ativas, e substituí-las exclusivamente pela interpretação, provavelmente a técnica mais sofisticada que um psicólogo pode dispor para operar sobre o campo mental do paciente, sendo metaforicamente, essa técnica o seu “bisturi psíquico”. Pesquisa mais intensa buscando os parâmetros de uso da interpretação precisam ser realizados, portanto.
Isso não anula, porém, a contribuição das técnicas tradicionalmente utilizadas pela psicoterapia breve, como a focalização, o planejamento, a experiência emocional corretiva, etc. Como afirma Jung (1957), o que importa é a técnica na qual o terapeuta acredita e deposita a sua fé. Seria aliás, um desrespeito ético e um abuso querer que um terapeuta trabalhe com um conjunto de referenciais do qual ele não acredita.
Para aqueles que preferirem trabalhar com as técnicas mais tradicionais da psicoterapia breve, a compilação de Vera Lemgruber (1984) é uma das melhores. Ela esmiúça detalhadamente a técnica focal de David Malan, a técnica da experiência emocional corretiva de Franz Alexander, e discorre sobre a técnica ativa de Sandor Fereczi, todos nomes clássicos da história da psicoterapia breve. Mas, a autora peca em algumas sutilezas técnicas: supervaloriza a técnica da experiência emocional corretiva, como sendo o “fundamento” da psicoterapia breve, algo que Gilliéron mostrou que não é verdade (até porque a experiência emocional corretiva também é um recurso de técnicas de terapias que não são breves), e valoriza a técnica ativa, sendo que ela já era considerada ultrapassada pelo próprio Sandor Ferenczi. Essa última falha é bastante comum nos cursos de psicoterapia breve; esses ultrapassadamente enfatizam a importância da técnica ativa, e infelizmente, ainda são maioria na área.
Na verdade, a técnica ativa é ultrapassada e ineficaz se for considerada como sinônimo de diretividade, mas não como simbolizando algo contrário à “técnica da abstinência” em psicanálise clássica. Irei explicar isso melhor agora.
Durante dois aos realizei uma pesquisa na Universidade de São Paulo (USP), sobre a problemática da Diretividade em Psicoterapia. Foi uma pesquisa baseada num estudo comparativo sobre a literatura específica sobre diretividade, nas abordagens comportamental, psicanalítica e rogeriana. Os resultados foram divulgados em dois congressos internacionais, um deles na USP, e outro no Rio de Janeiro.
O conceito de diretividade varia um pouco na literatura consultada. Para alguns é sinônimo de dar conselhos, ordens, prescrever tarefas, etc. Outros confundem diretividade com dar direção à terapia, o que na verdade é uma função indispensável do enquadre psicoterápico, sem o qual não há o delineamento de processo psicoterapêutico, com a característica que lhe é inerente de ser progressivo e acumulativo.
Mas, o melhor conceito encontrado foi o seguinte: a diretividade ocorre quando o insight ou a clarificação parte do terapeuta e é depositada linearmente, através de uma intervenção direta, sobre o paciente, e a não-diretividade é a intervenção psicoterapeutica que busca facilitar ao paciente, a partir dele mesmo, o insight e a clarificação sobre determinada questão psicológica.
Assim, quando um terapeuta realiza um conselho ou uma ordem, podemos deduzir que o insight originou-se de uma percepção dele – o terapeuta – que está tentando fornece-la diretamente ao paciente, sem que necessariamente, ocorra um movimento de reflexão e análise por parte deste último.
Já a intervenção não-diretiva, segundo o conceito aqui arrolado, implica que o terapeuta esteja realizado questionamentos (geralmente os mais abertos possíveis) e outras intervenções, para extrair do paciente os seus próprios insights. Como tal, a intervenção pode partir de uma percepção do terapeuta, mas esse busca provocar um movimento de reflexão no paciente, ao invés de lhe fornecer o seu “insight de graça”.
A intervenção diretiva está relacionada a uma série de problemas ou questões técnicas e filosóficas. Tomarei como exemplo, um trecho da obra “A prática da psicoterapia” de C. G. Jung (1957), livro que na minha opinião todo psicólogo clínico deveria tomar como leitura obrigatória, independentemente da escola teórica que adote. Segundo o autor,
“Se na
qualidade de psicoterapeuta, eu me sentir como autoridade diante do paciente e,
como médico, tiver a pretensão de saber algo sobre a sua individualidade e
fazer afirmações válidas a seu respeito, estarei demonstrando falta de espírito
crítico, pois não estarei reconhecendo que não tenho condições de julgar a
totalidade da personalidade que está lá à minha frente. Posso fazer declarações
legítimas apenas a respeito do ser humano genérico, ou pelo menos
relativamente genérico. Mas como tudo o que vive só é encontrado na forma
individual, e visto que só posso afirmar sobre a individualidade de outrem, o
que encontro em minha própria individualidade, corro o risco, ou de violentar
o outro, ou de sucumbir por minha vez ao seu poder de persuasão. Por
isso, quer eu queira quer não, se eu estiver disposto a fazer o tratamento psíquico
de um indivíduo, tenho que renunciar à minha superioridade no saber, a toda e
qualquer autoridade e vontade de influenciar. Tenho que optar necessariamente
por um método dialético, que consiste em confrontar as
averiguações mútuas. Mas, isso só se torna possível se eu deixar ao outro a
oportunidade de apresentar seu material o mais completamente possível, sem
limitá-lo pelos meus pressupostos. Ao colocar-nos dessa forma, o
sistema dele se relaciona com o meu, pelo que se produz um efeito dentro do meu
próprio sistema. Esse efeito é a única coisa que posso oferecer ao meu
paciente individual e legitimamente” (grifos meus).
Assim, podemos observar que a intervenção diretiva tradicionalmente, seja explícita ou implicitamente, pode estar relacionada com o desejo controlador e até autoritário do terapeuta, em influenciar o seu paciente, segundo os seus pressupostos particulares. Do ponto de vista filosófico, a intervenção diretiva supõe o psicólogo ou terapeuta como possuidor do “suposto-saber”, enquanto o paciente é visto como alguém incapaz de tomar decisões por si mesmo, ou de dirigir o seu próprio caminho de vida. Às vezes, esse tipo de visão pode ser consciente, no terapeuta, mas como tal, é muito mais perigoso quando essa é uma tendência inconsciente do profissional, o que infelizmente é o que ocorre na maioria dos casos.
Esse tipo de profissional, normalmente possui uma série de “justificativas” para a sua abordagem diretiva. Costuma citar que em casos de tentativas de suicídio ou de similar gravidade, o terapeuta deve assumir uma posição diretiva, até por questões éticas, a favor de se preservar o paciente, e que não há nenhum mal em ser diretivo, se não for em proveito próprio, ou para realizar o “mal” para o paciente. Segundo tenho observado, é verdade que em casos de suicídio, ou em situações que o paciente está se dirigido claramente para o seu próprio prejuízo, o terapeuta deve ser mais direto. Porém, as justificativas seguintes que foram arroladas são evazivas para o terapeuta deixar de pensar os pressupostos de sua própria atuação terapêutica.
Na intervenção diretiva, além do problema filosófico de que o paciente é visto como alguém que não é capaz de se conduzir, por si mesmo, do ponto de vista técnico, constatei que as intervenções diretivas são as que menos exigem intelectualmente do profissional. São simplistas e ineficazes. Oras, basta observarmos que ninguém precisa fazer cinco anos de uma faculdade de psicologia para dar conselhos, ordens e tarefas... Basta colocar um militar, um padre ortodoxo e dogmático, ou um gerente de uma empresa qualquer, que eles farão até um trabalho melhor nesse sentido.
Jung (1957), ainda salientou que esse tipo de intervenção diretiva – ao qual ele denominava de terapia por sugestão – desrespeitava a consideração da subjetividade do outro, especialmente quando era baseada no tecnicismo[i]. Para ele, apenas uma atitude predominantemente não-diretiva (no sentido conceitual que foi delineado nessa resenha), se justifica cientificamente.
Já vimos a ineficiência de outras técnicas diretivas, quando tomadas como recursos únicos (a neuroligüística, a hipnose, etc). A intervenção não-diretiva, por sua vez, foi postulada especialmente por Carl Rogers, fundador da psicologia humanista, e adotada pela corrente que segue a filosofia fenomenológico-existecialista. Parte-se, assim, do pressuposto de que o indivíduo possui um elemento psíquico interno de auto-regulação, que lhe permite ser capaz de decidir por si mesmo, qual o melhor caminho a seguir. Quando o paciente inicia um processo de “auto-boicote”, isso pode estar relacionado a alguns desajustes nesse processo de auto-regulação, que é função da intervenção psicoterapêutica localizar e propiciar meios para que o paciente se aproprie novamente do melhor ajuste auto-regulador ativo, adaptativo e criativo que seja capaz de efetuar.
Filosoficamente, a intervenção não-diretiva exige do terapeuta que ele seja capaz de suportar as suas próprias ansiedades, no sentido de confiar que no interior do paciente existam energias construtivas que podem ser estimuladas, e que no momento certo, elas irão se expressar, no ritmo do seu próprio processo (e não necessariamente, no ritmo do terapeuta). Exige o respeito ao livre-arbítrio do outro, e também uma certa humildade epistemológica. Do ponto de vista técnico, a intervenção não-diretiva, exige muito mais da intelectualidade, da criatividade e da capacidade técnica do terapeuta, justificando a existência de uma formação universitária em psicologia.
Nesse sentido precisamos ter uma noção de evolução de pesquisa e tecnologia na ciência clínica em psicologia. Assim, segundo Jung (1957):
I) Nos primórdios da psicoterapia, enquanto o tratamento se limitava à sugestão diretiva, também se podia contentar com uma concepção teórica muito pouco exigente. Naquele tempo, julgava-se suficiente conceber os quadros neuróticos como “produtos da imaginação” de uma fantasia exacerbada. Deste modo de ver, decorria naturalmente a terapia que tinha por finalidade reprimir simplesmente tais produtos da fantasia, ou seja, os sintomas imaginários. Aquilo que se pensava poder eliminar facilmente – porque não passava de um “produto da imaginação” – na verdade, era apenas uma das formas possíveis da manifestação de um estado patológico específico, cuja sintomatologia é múltipla e mutável, como as metamorfoses de Proteu. Tanto que mal se reprimia este ou aquele sintoma, já se manifestava um novo. Isso porque não se havia atingido o cerne do distúrbio.
II) Mais tarde, com Breuer e Freud, o próximo avanço da ciência clínica em psicoterapia foi a teoria do trauma: aqui, o chamado método catártico procurava fazer com que os momentos traumáticos, que originam a doença, retornassem à consciência do paciente. Ainda que relativamente simples, a aplicação desse método e teoria já requeria do psicoterapeuta uma atitude técnica e humana mais sofisticada para com o paciente, do que a terapia diretiva por sugestão, até por que essa última podia ser aplicada por qualquer pessoa, contanto que ela tivesse a necessária energia. Não era necessário, para a sugestão diretiva uma formação técnica elaborada (Jung, 1957). O método catártico, porém, exigia um aprofundamento cuidadoso e individual de cada caso particular, uma atitude paciente e inquisitiva, toda ela voltada para os eventuais momentos traumáticos. Pois só pela observação e pelo exame minuciosos do material produzido pelo paciente era possível constelar os momentos traumáticos, de forma a chegar à ab-reação das situações emocionais causadoras da neurose.
III) Porém, não eram todos os casos de neurose que podiam ser explicados por um trauma de origem, como se constatou ao longo das pesquisas clínicas. O próprio Freud não tardou em superar a ainda simplista teoria do trauma (embora qualitativamente superior à terapia diretiva; aliás, qualquer método parecia ser superior a essa última), pela teoria do recalque. Esta teoria é bem mais complexa e, conseqüentemente, o tratamento passou a diferenciar-se. A impossibilidade de se chegar a resultados satisfatórios pela simples ab-reação tornou-se evidente, já que a maioria dos casos de neurose nem são causados por traumas. A teoria do recalque considera que as neuroses típicas são muito mais “distúrbios do desenvolvimento” propriamente ditos. Freud explicou a perturbação como um recalque e um passar ao inconsciente emoções e tendências sexuais da infância. Desta teoria resultou a tarefa para o terapeuta de rastrear essas tendências dentro do material do paciente. Mas, visto que essas tendências recalcadas são, por definição, inconscientes, a sua existência só podia ser comprovada pelo amplo exame da anamnese, bem como das atuais atividades da fantasia do paciente. A partir da descoberta de que as emoções infantis aparecem em regra e principalmente nos sonhos, Freud dedicou-se com seriedade, ao estudo deles. Foi este o passo decisivo que transformou a psicoterapia moderna num método de tratamento eficaz e confiável. Mas isso não é tudo.
IV) Até aqui, já contamos com um método e uma concepção muito mais complexa e abrangente do que supunha a concepção diretiva por sugestão. O método dialético introduzido por Jung se constituirá, então, no próximo passo evolutivo da clínica psicológica, por incluir a dimensão existencial decorrente da interação de dois sistemas psíquicos altamente complexos. As comunicações interrelacionais entre esses dois sistemas passam a ser vistas como se orientando em vários sentidos: de consciente para consciente, de consciente para inconsciente de ambos os lados (paciente e terapeuta) e em direção dupla, e por fim de inconsciente para inconsciente. A dinâmica da relação transferencial se torna mais complexa, e não se limita apenas a uma reprodução dos conflitos parentais iniciais, mas tem também um componente prospectivo, e uma característica de relacionamento humano autêntico e dialético, de mútua evolução de duas almas.
Coerentemente com a evolução da ciência clínica em psicologia, Gilliéron (1986), com seus procedimentos experimentais, mostrou que é possível realizar-se um procedimento não-diretivo em psicoterapia breve, trocando a escuta focal pela escuta livre, e a atitude ativa pela livre associação, coligando tais processos à sofisticada técnica da interpretação.
Todos esses argumentos refutam o uso da “técnica ativa”, se ela estiver sendo utilizada como sinônimo de diretividade. Porém, há outra maneira de entendermos o termo “atividade”: vimos que, Carl Rogers trouxe a contribuição de observar que em toda terapia bem-sucedida as qualidades de empatia, aceitação incondicional positiva e congruência devem estar presentes. Especialmente, a congruência, que diz respeito ao terapeuta ser ele mesmo na sua relação com o paciente, se mostrando mais legítimo, verdadeiro e “congruente” com seu estilo pessoal, vai denotar necessariamente uma atitude mais “ativa” do que a solicitada pela técnica de abstinência adotada pela psicanálise clássica.
Na verdade, a técnica de abstinência solicitada pela psicanálise ortodoxa já se tornou obsoleta dentro da própria psicanálise, e inclusive em termos de paradigmas vigentes de ciência na contemporaneidade. Desde a década de 60, que a escola argentina de psicanálise, uma das mais atualizadas, após efetuar uma significativa revisão dos conceitos psicanalíticos, propôs a atitude designada por José Bleger de “dissociação instrumental”. A atitude de abstinência exigia uma certo distanciamento afetivo, ou mais do que isso, a idéia de que o terapeuta se proclamasse “afetivamente não envolvido”. Ocorre porém, que até nas ciências exatas atuais como nas Matemáticas Superiores e na Física Moderna, a subjetividade não é mais considerada como um elemento que deve ser colocado à parte. Baseado nisso, Bleger propôs que o terapeuta deve procurar o melhor “campo de ressonância” no qual possa se manter envolvido com o paciente de maneira a permitir que se faça presente a empatia, mas deve também saber manter um distanciamento providencial nesse campo, de forma que não seja “invadido ou contaminado” pelas angústias do paciente. O terapeuta aprende a descobrir qual é o seu campo de “ressonância empática” (termo mais usado pelos junguianos), através de um processo particular de autoconhecimento, via psicoterapia individual, além de contar com o apoio técnico da supervisão (Jacoby, 1984). Assim, quanto mais o terapeuta se conhece, mais objetiva se torna a sua relação com o paciente, ou como afirma Bleger, a objetividade é obtida não excluindo a subjetividade, mas sim quando essa é incluída e entendida. Isso ocorre, também, porque através do entendimento da própria subjetividade, o terapeuta está atento a seus próprios vieses subjetivos, sabendo melhor discriminar o que é seu e o que é do paciente. Aliás, aí se encontra outro perigo da terapia por sugestão, quando o terapeuta aconselha diretivamente baseado em seus preconceitos (e sem o devido trabalho de autoconhecimento necessário), quando talvez o paciente estivesse mais certo do que o onipotente “profissional”.
Assim, se a técnica ativa for entendida como conseqüência do terapeuta ser congruente com seu próprio estilo pessoal de conduta (desde que apoiado por um processo de desenvolvimento pessoal) em contraposição à técnica de abstinência, então como tal, ela pode ser bastante útil na psicoterapia breve.
Devemos lembrar, que a despeito dos apontamentos levantados até aqui, o emprego da técnica de abstinência, no contexto não-diretivo assinalado por Gilliéron, também mostrou bons resultados, segundo suas próprias colocações. Porém, pessoalmente acredito que os resultados obtidos por Gilliéron não se justificam pelo uso da técnica da abstinência, tal como ele afirmou. Na verdade, o terapeuta nunca está “abstenho” de suas emoções, nunca está completamente “não-envolvido”. Acredito que Gilliéron obteve seus resultados, em parte, por saber coordenar seus supervisionandos em direção ao melhor ajuste de “dissociação instrumental” e “ressonância empática” (o que é uma explicação mais condizente com os paradigmas científicos mais modernos), embora ele não usasse esses conceitos. Nesse sentido Gilliéron até se contradiz, pois ele também utilizava de uma concepção sistêmica de ciência baseada nas modernas teorias de redes, sistemas, comunicação e “feedback ou retroalimentação” (Gilliéron, 1986). Talvez não tenha articulado tão bem esse conceitos com a psicanálise, como o fez os autores argentinos, ou contemporâneos como Jung.
Uma psicoterapia breve baseada na teoria junguiana é baseada no método dialético, que necessariamente é uma técnica mais “ativa” do que a técnica de abstinência psicanalítica, por exigir que o terapeuta interaja mais efetivamente com o paciente. Inicialmente o paciente deve ter todo um campo aberto e facilitador para expor seus conteúdos psicológicos da forma mais completa possível. Isso pode ser obtido por intervenções incluindo questionamentos abertos intercalados com questões mais fechadas (entrevistas semi-dirigidas), assinalamentos que demonstrem compreensão e empatia, etc. Ele não deve ser dirigido, mas sim ter seu campo de diálogo facilitado. Apenas, e só apenas, depois do paciente expor todos os seus conteúdos, é que o terapeuta pode começar a confrontar averiguações concordantes e discordantes, possibilitando o encontro alquímico e transformador de almas (ou das psiques de ambos).
Nesse momento pode-se objetar que o terapeuta então, passe a ser um pouco mais diretivo. Porém, a crítica levantada até o momento tem sido para as formas de terapia, ou para os terapeutas, que são predominantemente diretivos, em mais de 90% do tempo das sessões realizadas. Mas, pesquisas feitas com transcrições de fitas, análise de vídeo, e tabulação estatística das verbalizações efetuadas, mostraram que um grau técnico e estrategicamente manejado de diretividade pode ser produtivo para a psicoterapia, expressando-se na ordem de 5% das falas totais do terapeuta. Essas mesmas pesquisas mostraram que o “índice ótimo” para as intervenções diretamente relacionadas com a compreensão empática, em terapias bem-sucedidas correspondem a 80% (confirmando o postulado rogeriano da importância da empatia), a técnica da interpretação ficou com 10% e as manifestações de apoio emocional contabilizaram 20%. É claro que no momento de uma sessão, um terapeuta não vai poder ficar “contabilizando” as suas próprias intervenções, mas esses resultados mostram que o uso de diretivas e interpretações deve ser parcimonioso e tecnicamente bem orientado, que as manifestações de apoio e aprovação podem ser mais intensas, mas não devem ser a base da psicoterapia, e que a compreensão empática sem dúvidas, é a chave de qualquer processo psicoterapêutico breve ou não (Rangé, 1995).
Logo a questão, não é que o terapeuta não pode ser diretivo nunca (talvez isso nem fosse realmente possível), mas que essa não deve ser a base de uma psicoterapia, sendo o emprego de técnicas diretivas manejadas com parcimônia, cuidado ético, e no contexto do uso de outras variadas técnicas que já se mostraram cientificamente mais eficazes. É exatamente o que ocorre no método dialético de Jung, e segundo minha experiência pessoal, tenho obtido bons resultados com essa técnica em psicoterapia breve.
Para finalizar esse tópico, darei um exemplo metafórico: vamos imaginar três crianças, frente uma máquina de jogos eletrônicos totalmente desconhecida. Para a primeira criança eu posso empregar uma técnica totalmente diretiva, onde a partir do meu conhecimento eu vou ensinando a função de todos os botões, bem como o funcionamento da máquina, suas regras, etc., lado a lado com a criança, e acompanhando cada detalhe. Certamente a criança poderá aprender muito rapidamente a manusear a máquina, mas se o objeto for trocado por outro, com características totalmente diferentes, como a criança não foi estimulada a explorar por si mesma os mecanismos de uma máquina de jogos eletrônicos, talvez ela demore muito para manejar o novo instrumento ou simplesmente não consiga realizar uma nova adaptação e aprendizagem. Esse é o paradigma da terapia diretiva ou por sugestão: resultados práticos, rápidos, concretos, mas superficiais, sem duração, e ineficazes para promover o desenvolvimento das capacidades de autonomia do indivíduo, especialmente frente a situações novas e inesperadas. Apesar disso, pode ser a modalidade de trabalho preferida de uma sociedade imediatista e acrítica, como a nossa atual sociedade burguesa de consumo vigente. É também o método preferido da mídia capitalista – basta observarmos o pouco estímulo para o pensamento crítico na nossa mídia, bem como a pressão diretiva que os meios de comunicação utilizam para condicionar a população.
Vamos supor agora, que para a segunda criança, eu a deixasse descobrir todas as funções e regras da máquina sozinha, sem nenhum suporte ou intervenção. Poderíamos a princípio supor que essa seria o modelo da terapia não-diretiva, mas a rigor, não seria nem sequer um modelo de terapia, pois não houve interação nem qualquer medida facilitadora. A criança, inicialmente realizaria uma aprendizagem por “tentativa-e-erro” e depois, por si mesma, ela traçaria algumas relações e aprenderia como utilizar a máquina. Essa primeira aprendizagem, teoricamente seria bem mais demorada, mas caso o aparelho fosse trocado, essa criança talvez aprendesse mais rápido do que a anterior, por já ser capaz de antecipar algumas relações que a criança da aprendizagem diretiva não foi treinada a realizar. Nesse segundo modelo, podemos dizer que a abordagem foi não-diretiva no sentido de que os insights em sua totalidade vieram da criança, mas os resultados em um primeiro momento, pelo menos, foram demorados, e no fundo, como foi dito, não houve uma relação real entre a criança e seu tutor. Esse seria o paradigma da terapia em que o psicólogo fica literalmente “mudo” esperando que o paciente realize todas as suas relações.
Vamos supor um terceiro caso, em que a criança ao explorar a sua máquina, conte com um professor que não ensine tudo (aliás, muito pelo contrário), porém procure oferecer algumas instruções de maneira bem “econômica”, priorizando perguntas facilitadoras (questionamentos), apontamentos de relações estabelecidas (interpretações), assinalamentos de algumas possibilidades de uso de alguns dos botões da máquina, sem definir um botão específico a ser girado ou pressionado (apoio e motivação), e só em alguns momentos estratégicos, o terapeuta diretamente pode pressionar ou girar (e ainda assim, apenas pela metade) um ou outro botão (intervenção diretiva estrategicamente manejada). A prioridade, porém, continua a ser as tentativas realizadas pela própria criança, que deverá se sentir livre para tentar todas as opções. Pois bem, esse é o paradigma do método dialético de C. G. Jung, permitindo coligar a praticidade e rapidez do primeiro exemplo, com a não-diretividade e a liberdade de expressão do segundo método, sem que para isso a criança tenha que ser “abandonada” a si mesma (como no segundo caso), nem tenha a sua independência sobrepujada (como no primeiro caso). É uma abordagem basicamente não diretiva, com algumas diretivas estrategicamente colocadas, algumas em casos excepcionais (como em tentativas de suicídios, ou momentos cruciais de crise).
Atualmente encontro-me aplicando esse método, em caráter experimental, com dependentes de álcool em psicoterapia breve individual no Instituto Fraternal de Laborterapia (IFL), onde ministro aulas num curso de orientação e prevenção para o alcoolismo, e coordeno um grupo de estudos, pesquisas e de trabalho na área. Os resultados iniciais têm sido satisfatórios, e futuramente poderão servir de base para derrubar uma idéia predominante entre muitos profissionais que atuam com esse tipo de população, de que apenas as terapias diretivas é que são apropriadas para lidar com alcoolistas. Experiência semelhante estou pessoalmente realizando num centro de atendimento psicossocial (CAPS) da prefeitura de São Paulo, coligando psicoterapia breve, psicoterapia de grupo (por tempo indeterminado e de enquadre aberto) e psicodiagnóstico, também em caráter experimental. Nesse caso, tenho observado que a psicoterapia breve tem sido um excelente procedimento terapêutico para preparar o indivíduo para a terapia de grupo, enquanto esta parece ser um interessante instrumento para maximizar objetivos terapêuticos. Esse resultados, porém, são apenas iniciais e se encontram ainda em fase de hipótese para teste. Em todos os casos, tenho usado o método dialético proposto por Jung, dentro de uma visão sistêmica que simultaneamente considera as especificidades do sintoma manifesto (alcoolismo e outras dependências químicas), mas que também procura abordar o ser humano integral, holístico, bio-psico-sócio-espiritual. Trata-se de uma visão que relaciona as partes ao todo, e vice-versa, ou seja, trata-se de uma linha de raciocínio relacional (opondo-se à mera somatória “atomista” das partes, mas atendo-se sobre como as “partes” ou “sistemas” se relacionam), que caracteriza um paradigma de pesquisa e atuação científica.
Assim, retomamos a problemática do foco, em psicoterapia breve. Gilliéron,
já mostrou que a focalização não é imprescindível em psicoterapia breve,
nem tão pouco é uma especificidade dessa. Por exemplo, a maioria das terapias behavioristas,
mesmo que não adotem um enquadre de tempo delimitado são mais diretivas
(atividade de Ferenczi), planejadas, focadas no sintoma (manifesto), etc. Porém,
a focalização é bastante valorizada na literatura sobre terapia breve.
Lemgruber (1984) detalha todas as sutilezas técnicas
da focalização, na teoria psicanalítica. Eis alguns de seus conceitos-chave:
1.
Motivo da consulta = é o que costumamos chamar de motivo manifesto da
consulta, ou o motivo que traz o paciente à consulta.
2.
Situação-problema = se refere às situações expressadas que circulam
o motivo manifesto. Enquanto tal, também se situa no registro daquilo que é
manifesto, explícito.
3.
Hipótese psicodinâmica inicial = é uma tentativa de compreensão
global inicial da psicopatologia e da psicodinâmica do paciente, baseada na
concepção teórica e prática do terapeuta;
4.
Conflito Focal = delimitação dos aspectos centrais, ainda que parciais,
desta hipótese mais completa, através da delimitação do foco. Graficamente,
poderíamos representar a hipótese psicodinâmica inicial como um conjunto
maior no qual estivesse inserido um subconjunto menor representando o foco ou
conflito focal. Na teoria psicanalítica, o foco se situa na ordem daquilo que
é latente ou implícito.
5.
Conflito Primário = é o conflito nuclear ou conflito primário
infantil. Em Psicoterapia Breve, procura-se trabalhar somente com alguns
derivados do conflito nuclear, sendo que a escolha de quais conflitos derivados
se devam elaborar deve recair sobre os que prevalecerem por sua urgência ou
importância.
6.
Ponto de Urgência = pode ser intrafocal ou extrafocal.
a)
intrafocal ®
refere-se a uma situação que requer atenção especial, e que está vinculada
ao conflito focal.
b)
Extrafocal ®
é uma situação urgente e/ou traumática que por circunstâncias atuais passa
a predominar naquele momento da vida do paciente, mas que não está
necessariamente ligada ao conflito focal.
Para dar um exemplo da aplicação desses
conceitos em um caso clínico, vamos supor um caso em que um paciente aparece no
consultório com queixa de dificuldades de relacionamentos interpessoais no
trabalho, especialmente com seu chefe, mas também com a maioria das pessoas, não
conseguindo formar amigos, e também um parceiro afetivo. A queixa
manifesta ou motivo da consulta são as dificuldades
interpessoais. Tudo o que o paciente descrever diretamente relacionado a essa
queixa é a situação-problema. Assim, o paciente pode comentar
que ninguém quer namorar com ele, que ele se sente pouco valorizado, que o seu
chefe é um carrasco, que todo mundo faz fofocas dele, etc. Tudo isso é a situação-problema
ligada à queixa manifesta.
Se a abordagem teórica utilizada fosse a
comportamental ou behaviorista, esse conjunto de fatores seria o ponto de
focalização (ou seja, seria o foco ou conflito focal) da psicoterapia, pois a
terapia comportamental é bastante focalizada no sintoma manifesto e nos
elementos que circulam essa queixa, com ênfase na variáveis ambientais que
parecem manter esse sintoma. Pelo menos é assim no behaviorismo radical de B.
F. Skinner. Já a escola comportamental-cognitivista possui uma visão um pouco
mais ampla, e também irá focalizar o que eles denominam de “crenças
disfuncionais” do paciente, e que colaboram junto com os reforçadores
sociais, para a manutenção da problemática em ação. Há portanto, o acréscimo
de uma variável interna ou intrasubjetiva.
Entretanto na psicanálise breve quando se adota
a “técnica focal”, busca-se primeiramente uma hipótese psicodinâmica
inicial, para se compreender as variáveis latentes ou implícitas
“por trás” da queixa manifesta. A escuta clínica analítica baseada em
alguma escola de teoria psicodinâmica e a aplicação de variadas técnicas de
investigação psicológica (testes projetivos gráficos, TAT, ou outro), por
exemplo, podem garantir a execução desse diagnóstico. Na abordagem psicanalítica,
a identificação da queixa latente por trás do sintoma manifesto é, então, o
conflito focal.
Tomando o exemplo clínico citado, o diagnóstico
psicodinâmico pode apontar que o paciente possui uma personalidade muito
apegada à autoridade das figuras parentais, que por sua vez são personagens
muito invasivos e controladores. O paciente, por sua vez, parece não conseguir
estruturar-se de forma mais independente, limitando ou anulando essa ação dos
pais. Mais do que isso, ele pode possuir alguns “ganhos secundários” com
esse tipo de situação, pois ao se colocar como dependente dos pais, ele pode
garantir alguns confortos e regalias que não conseguiria se tivesse que ter o
“trabalho de ser mais independente”. Sem ter uma compreensão vivencial
dessa dinâmica, o paciente acabou gerando um sentimento de incapacidade que,
por sua vez, se tornou um sentimento de inferioridade crônico, onde o paciente
se mostra incapaz de promover suas próprias realizações. Com isso ele pode
despertar críticas e comentários dos outros conhecidos fora do círculo
familiar, fazendo com que através de algo como uma “profecia
auto-realizadora”, ele paciente se coloque numa situação em que seja
literalmente “perseguido” pelos “outros”. Obviamente, como o paciente não
é capaz de lidar com o autoritarismo dos pais, também não será capaz de
lidar com outras figuras de autoridade como o seu chefe de trabalho. Ainda que
seu chefe seja uma pessoa autoritária e “difícil”, o paciente não
conseguiu ao longo de sua história de vida criar recursos internos para buscar
uma maneira criativa de lidar com esse tipo de pessoa e situação. Por fim, com
seu acentuado sentimento de inferioridade, o paciente se coloca objetivos
compensatórios para recuperar a auto-estima, como buscar soluções idealizadas
num emprego que lhe ofereça riqueza e status imediato, ou então, através do
consumismo exagerado das “melhores marcas de roupas, serviços variados”,
etc.
Assim o latente da situação é a dependência
do paciente em relação aos seus pais e às opiniões alheias, bem como o seu
sentimento de inferioridade. Esse seria o foco do trabalho de
psicoterapia breve, em relação à queixa manifesta que é de dificuldades
interpessoais no ambiente de trabalho e na vida como um todo.
O conflito primário pode ser a
relação de dependência fusional com as figuras parentais. Um dos derivados
desse conflito a ser trabalhado pode ser a capacidade do paciente lidar com
figuras de autoridade. O ponto de urgência intrafocal pode ser os
conflitos que o paciente vivencia em relação a uma possível decisão de
querer sair de casa, para tentar a independência. Por fim, uma possibilidade de
conflito extrafocal, pode ser por exemplo, uma situação onde a mãe
do paciente tenha tentado cometer um suicídio, gerando a necessidade de dar um
novo rumo à direção da psicoterapia. Um conflito extrafocal quando se faz
presente em um processo psicoterapêutico deve ser lidado como uma situação
de crise, não sendo aconselhável prosseguir-se o trabalho de focalização
sem se dar atenção ao material urgente (Lemgruber, 1984).
O caso clínico que foi tomado como exemplo
nessa dissertação, corresponde a um atendimento breve que realizei, de duração
de 9 nove meses, sendo que os resultados positivos começaram a aparecer por
volta de 4 e 5 meses, sendo que no 6º e 7º meses, eles se estabilizaram. O
paciente foi capaz de estabelecer um bom vínculo comigo, o que foi um fator
essencial para o sucesso do trabalho. Ao longo do processo, o paciente foi se
tornando consciente de toda a sua dinâmica, conseguiu pouco à pouco se
individualizar mais em relação aos seus pais, superando suas angustias
persecutórias (onde ele se via como vítima das balburdias dos outros), e
inclusive lidando muito melhor com o seu chefe de trabalho. O paciente conseguiu
também se tornar mais espontâneo, conseguindo iniciar algumas “paqueras”
após um período anterior de alguns anos de “abstinência” na área
afetiva.
O paciente além de tudo o que foi falado, tinha
como principal mecanismo de defesa uma dinâmica obsessivo-compulsiva, com
utilização constante de racionalizações e com algumas tendências
masoquistas encobertas. Ele não empregava mecanismos de negação (o que
colaborou com o processo), mas a intelectualização era um recurso constante.
Para lidar com esse mecanismo de defesa, procurei intervir através de um
manejo muito especial do enquadre psicológico. Esperei que a
psicoterapia se tornasse, ela própria uma compulsão, para o paciente, e ele se
condicionasse ao modelo de enquadre adotado até o momento (sempre a mesma sala,
sempre o mesmo horário, etc). Como já foi dito, o fundamento de uma
psicoterapia breve é o manejo técnico do enquadre psicoterápico. Pois bem,
uma vez que o paciente possuía em seu psiquismo uma estrutura cristalizada e rígida,
por conta da natureza obsessivo-compulsiva, resolvi em um dado momento manejar
“aleatoriamente” a disposição espaço-temporal das sessões. Especialmente
a dimensão, localização da terapia. É claro que isso só é
possível em determinadas condições. Na clínica onde trabalho, é possível
trocar de sala quantas vezes se quiser, havendo várias salas com várias decorações.
Assim, procurei em pequenos períodos de tempo promover modificações de sala,
e quando possível de horário também, “confrontando” o paciente com a
necessidade de se adaptar a uma nova situação e ambiente[ii]. Quando o paciente fazia
algum comentário sobre a mudança de sala, o mesmo era utilizado como base para
a realização de uma interpretação (o “bisturi psíquico”
que possibilitava a realização de uma “operação no seu campo mental”,
nas palavras de José Bleger), através de uma intervenção que relacionava as
suas reações frente uma situação nova ou inesperada, e a sua estrutura psíquica
rígida e estereotipada.
Por fim, o término da psicoterapia também foi
manejado a partir de alguns ajustes realizados sobre o enquadre psicoterápico.
Como o paciente conseguiu transformar a própria psicoterapia numa compulsão, o
que era esperado pela própria dinâmica diagnóstica de sua personalidade,
optei por acelerar o término da psicoterapia. Isso trouxe à tona os
sentimentos masoquistas do paciente, pois ao se conscientizar que havia
transformado a própria terapia numa compulsão, ficou evidente que o paciente
se coloca em diversas situações da vida, numa posição de auto-sacrifício
desnecessária. Para realizar a terapia comigo, o paciente realizava uma viagem
de mais de duas horas, para dar andamento à sessão (já que ele mora no
interior de São Paulo), ao invés de buscar um profissional perto de sua casa.
Dialogamos que isso estaria a serviço de suas angústias e fantasias persecutórias
(pois ele tinha medo que um terapeuta de sua cidade falasse sobre ele para as
pessoas da região), bem como sua tendência masoquista de auto-sacrifício que
se expandia para outras áreas da vida (observe-se que experiências da vida
real eram incluídas na intervenção, que focava a maneira como o paciente se
relacionava com o processo terapêutico e com o próprio terapeuta – isso
possibilitou a realização de uma “experiência emocional corretiva” como
postula Lemgruber, e uma “tomada de consciência real” como propõe Gilliéron)
. O paciente passou a ter uma consciência bastante vivencial (e não apenas
intelectual) do seu funcionamento mental, e a terapia foi concluída com o
objetivo satisfatório de ter promovido mudanças significativas nesse padrão
de funcionamento psíquico – esse é o objetivo de uma psicoterapia breve,
e o paradigma desse atendimento corresponde tanto às propostas de Gilliéron
(1986) quanto Lowenkron (1993). O paciente foi então preparado para continuar a
tirar as “sua próprias pedras e obstáculos de seu caminho vital” por si
mesmo, a partir dessas novas percepções.
Vimos a diferença da questão da focalização
na abordagem psicanalítica e behaviorista. Na abordagem junguiana, teríamos
uma visão ainda mais sistêmica, como é próprio dessa abordagem, pois tanto o
sintoma manifesto, quanto os conteúdos latentes são vistos como uma totalidade
interrelacionada. O sintoma manifesto é visto como tendo uma função compensatória,
e de auto-regulação da psique, e a focalização na psicoterapia junguiana tem
o objetivo de fortalecer o ego (o centro da consciência) para que ele possa
lidar de maneira mais adequada com o psiquismo ou o Self como um todo.
Gilliéron (1986) propõe que o paciente realize
o próprio foco da psicoterapia, e não o terapeuta, uma vez que sua abordagem
é basicamente não-diretiva. Ele acredita que isso seja possível devido às
peculiaridades da própria relação. Nesse sentido, sua proposta seria
totalmente diferente da maior parte dos autores em psicoterapia breve (que
enfatizam a “atividade” como já comentamos), especialmente se essa for de
orientação comportamental.
A proposta junguiana se aproxima da de Gilliéron,
porém em função do método dialético, o terapeuta também realizará o seu
“foco diagnóstico particular”, e após um primeiro momento em que o
paciente tenha exposto o seu material, num momento posterior o “foco” de
atenção do paciente será confrontado (no sentido de um sistema que interage
com outro, e não necessariamente no sentido de choque ou oposição contrária
– busca-se muito mais a troca do que o choque de
opiniões) com o “foco diagnóstico” do terapeuta, e então dessa
“alquimia entre almas” no interior do campo dinâmico do enquadre espaço-temporal
breve, que as técnicas e a relação assumem seu valor terapêutico prático.
Além da dinâmica relacional como enfatizou
Gilliéron, acredito que a questão da focalização na terapia junguiana é
ainda melhor compreendida através da teoria dos complexos.
Segundo essa teoria, que depende de conceitos mais amplos como
inconsciente coletivo e arquétipos, os complexos são conteúdos psíquicos
(idéias, imagens mentais, conceitos, etc) carregados emocional e
sentimentalmente, que com o correr do tempo, se acumulam ao redor de
determinados símbolos psíquicos arquetípicos, em função de sua afinidade
temática e energética. Quando esses complexos se constelam (ou seja,
se ativam, segundo um padrão de energia específica, e se dirigem a uma ação
comportamental ou reação emocional bem definida), fazem-se acompanhar
invariavelmente pelo afeto, com uma ação manifesta relativamente autônoma, em
todos os casos (Pessoa, 2003).
Assim, o paciente certamente tenderá a expor a
sua queixa focalizando-a em função da sua própria organização
particular dos complexos a ela relacionados, sendo ela própria - a queixa
manifesta - um complexo que se
relaciona de maneira sistêmica, dialética e complementar aos outros complexos
do sistema psíquico do paciente, incluindo o seu Self, ou arquétipo
central e regulador da alma.
Mas o terapeuta, possui em seu conhecimento técnico
e sua experiência pessoal, uma cosmovisão particular que em si será o
complexo altamente sofisticado que condicionará a sua compreensão da problemática
do paciente num primeiro momento, e depois servirá para “confrontá-lo” num
segundo momento, do seu método dialético. Por isso, o terapeuta precisa passar
por um processo de desenvolvimento pessoal, também, para não “viesar” essa
compreensão de maneira prejudicial ao paciente, mas sim buscando caminhos
criativos para facilitar a “descristalização” dos complexos patológicos
do paciente, por ele mesmo. O terapeuta deve ser um facilitador para ajudar o
paciente a se instrumentalizar para dissolver os seus complexos disfuncionais,
em favor da formação de complexos construtivos, transformadores, mais flexíveis
e promotores da adaptação ativa à realidade, portanto da autonomia e do
livre-arbítrio. O modelo de psique na abordagem junguiana – assim como na
maior parte das abordagens humanistas e existenciais – postulam
necessariamente a existência de um processo regulador positivo com
potencialidades criativas, o que justifica filosoficamente a adoção de
um modelo terapêutico basicamente não-diretivo, ou melhor ainda, do método
dialético.
A
psicóloga junguiana Liliane Martins de Melo (1998), afirma que o processo de
psicoterapia breve vem a ser um procedimento terapêutico que tem como objetivo
básico, a resolução de situações emocionais mais emergenciais que estão,
como que sendo chamadas pelo Self, para assim o indivíduo buscar as
concretizações do desenvolvimento de suas potencialidades. Nesse sentido, a
psicoterapia analítica de C. G. Jung, nos fornece subsídios teóricos e técnicos
para o desenvolvimento da psicoterapia breve pela mobilização do processo
criativo da psique.
Segundo o modelo de trabalho de Melo (1998),
atendo-nos ao estudo da tipologia psicológica de Jung, podemos avaliar as
atitudes da consciência e seu respectivo movimento da libido em extroversão ou
introversão. Assim, o caminho para o desenvolvimento do trabalho terapêutico
segundo a ênfase dessa autora, se dá através da teoria dos tipos psicológicos
de Jung, baseado nas clássicas funções da consciência propostas pelo autor
(sensação, pensamento, sentimento, intuição). O problema é que a tipologia
junguiana, embora seja uma teoria baseada em pesquisas empíricas, teóricas e
filosóficas extremamente sofisticadas, seu alcance recai predominantemente
sobre a dimensão da consciência e das funções do ego (o centro da consciência),
porém a experiência junguiana se situa no registro da psique total, em seus
aspectos conscientes e inconscientes, não podendo ter na tipologia o fundamento
e caminho diretriz da terapia, embora seja um aspecto muito importante a ser
considerado. O método dialético, como aponta Jung em seu livro
“A prática da psicoterapia”, por sua vez, é a própria essência do
conceito junguiano de psicoterapia, coerente com a sua inspiração fenomenológica,
abarcando a totalidade da dimensão da psique (consciente e inconsciente) e na
terapia breve, esse método é ajustado às peculiaridades do manejo espaço-temporal
do enquadre psicoterápico, elemento esse que é por sua vez , algo como
o “arquétipo estrutural” da concepção de qualquer modalidade de
psicoterapia breve, em qualquer escola teórica.
Melo (1998) ainda fornece como contribuição a
observação de que a utilização de técnicas criativas clássicas da clínica
analítica junguiana, como a Caixa de Areia e Argila centralizam
o indivíduo na tarefa terapêutica, e por isso, podem ser consideradas no
contexto espaço-temporal de uma terapia breve, como técnicas focais.
De minha parte, proponho que as técnicas
corporais de toques psicofísicos do pós-junguiano Dr. Petho Sandör, possuem a
mesma qualidade, com a vantagem de focalizarem mais diretamente o movimento de
interiorização e insight vivencial no self terapêutico. Técnicas de meditação
e “introspecção dirigida” podem ser adaptadas a essa modalidade de
procedimento terapêutico (complementar ao método dialético), incluindo por
isso, a variável transpessoal (ou espiritual) em contexto instrumental. Segundo
a minha experiência pessoal, é possível acessarmos o que eu chamo de “memória
corporal”, ou ainda melhor inconsciente corporal, através dos símbolos
e conteúdos que emergem desse movimento de auto-observação e instrospecção
psico-corporal[iii].
Por fim, como aponta Melo (1998), o objetivo
principal da psicoterapia breve é estimular o paciente a caminhar por si próprio,
“sozinho”, para a vivência posterior de sua tarefa de realização do Self,
que só pode ser continuada após a retirada de pelo menos uma parte dos obstáculos
que obstruem o caminho das “águas” do “rio de seu processo de individuação”,
obstáculos esses que se configuram muitas vezes, como situações de crise[iv].
A tarefa da psicoterapia breve consiste, então, na remoção de pelo menos
alguns desses obstáculos, podendo ser retomada quantas vezes se fizer necessário.
Referências Bibliográficas
Lowenkron, Theodor S. Psicoterapia Psicanalítica Breve. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1993.
Lemgruber, Vera B. Psicoterapia Breve: A Técnica Focal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
Gilliéron, Edmond. As psicoterapias breves. Tradução por: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
Braier, Eduardo Alberto. Psicoterapia breve de orientação psicanalítica. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
Melo, Liliane Martins de. Psicoterapia Breve. Uma abordagem junguiana. São Paulo: Instituto Pieron, 1998.
Arzeno, Maria Esther Garcia. Psicodiagnóstico Clínico: novas contribuições. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
Hammer, Emanuel F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.
Jacoby, Mário. O encontro analítico. Transferência e relacionamento humano. São Paulo: Cultrix, 1984.
Rangé, B. (Org.) Psicoterapia comportamental e cognitiva. Pesquisa, prática, aplicações e problemas. Campinas: Editorial Psy, 1995.
Zilli, Ercília. O Espírito em Terapia – Hereditariedade, Destino e Fé. São Paulo: DPL, 2001.
Pessoa, Adalberto Ricardo. Dissecando a
Alma Humana. Artigo publicado na internet: Site de Psicologia Espírita
(www.psicologiaespirita.rg3.net),
janeiro de 2003.
[i] São palavras de Jung (1957): “... À terapia por sugestão pertencem, os métodos que impõem e aplicam o conhecimento de outras individualidades e a interpretação delas. São terapias por sugestão, igualmente, todos os métodos técnicos, no sentido exato da palavra, na medida em que estes pressupõem que todos os objetos individuais são idênticos”. Deve-se ficar claro que Jung não desvalorizava a importância da técnica na clínica psicoterápica, mas sim o tecnicismo exagerado e estereotipado. Tais críticas se estenderam tanto por Jung, como por outros autores, aos exageros tecnicistas dos diagnósticos psiquiátricos, quando tomados como recursos exclusivos. Em termos ideiais, paralelamente aos diagnósticos psiquiátricos que são mais descritivos do que explicativos, e têm a função de ajudarem o médico a delimitar a queixa manifesta e a medicação apropriada quando necessário, são imprescindíveis também a realização de um diagnóstico psicodinâmico e compreensivo (portanto mais humano, relativo, existencialista, flexível e situacional). O diagnóstico psiquiátrico é um recurso diretivo necessário, mas que se torna um prejuízo, quando tomado como “rótulo” e recurso único.
[ii] Um psicólogo que quisesse fazer o mesmo, mas não dispusesse de outras salas alternativas para realizar tal manejo, poderia procurar variar o local das sessões propondo um ambiente mais aberto, como o jardim do consultório, ou outro espaço alternativo. O próprio Freud atendia alguns de seus pacientes no jardim de sua casa... Trata-se de uma questão de criatividade.
[iii]
É interessante observar que em algumas pesquisas iniciais, que realizei de
forma independente, tenho observado uma correlação entre os conteúdos
obtidos nos exercícios de “introspecção corporal” em ambiente clínico,
matériais de técnicas projetivas como o TAT , e por fim, relatos de
sonhos. O procedimento tem sido o de pedir que o paciente relaxe, realize
algumas respirações pausadamente, feche os olhos e focalize a sua atenção
paulatinamente em cada parte do corpo, dos pés à cabeça e vive-versa, sob
o comando do terapeuta que vai ajudando no caminho de ida e volta, durante o
percurso de auto-observação. Depois ambos dialogam sobre as imagens que
espontaneamente vêem na mente do paciente, buscando o seu significado.
Tem-se constatado existir uma correlação entre essas imagens, e os conteúdos
presentes nas histórias do TAT, bem como nas imagens oníricas. Essas
observações iniciais parecem apontar para a existência de um inconsciente
corporal. Também tenho observado que quando essas imagens
“psico-corporais” são assimiladas e elaboradas pelo paciente, elas
possibilitam um processo de ampliação da percepção consciente sobre si
mesmo, e abrem novas possibilidades de comunicação entre o ego e o Self,
no processo de individuação.
[iv]
Sobre isso, Vera Lemgruber (1984) traz contribuições interessantes sobre o
que é denominado de “Teoria da Crise”.