Capítulo 3 - O manejo técnico do enquadre psicoterápico
Segundo Gilliéron (1986), boa parte da oposição da psicanálise clássica à modalidade de trabalho designada como psicoterapia breve, historicamente se deu em parte, porque Freud não dispunha, no momento em que fez nascer a sua ciência, de instrumentos teóricos que lhe permitissem levar em conta, na descrição do funcionamento psíquico, a influência da disposição do campo analítico (ou seja, do enquadre psicoterápico) sobre o processo psicoterapeutico[i].
O simples fato de que Freud recusou-se quase sempre a falar em relações intersubjetivas, e que suas elaborações teóricas e clínicas sempre disseram respeito à dimensão intrapsíquica expressam bem isso. Ao voltar seu interesse para o funcionamento intrapsíquico, ele desviou deliberadamente o olhar da dimensão interpessoal[ii]. Isso não impede que suas elaborações tenham sido inferidas da observação de uma relação intersubjetiva. O resultado foi que, durante muito tempo, não percebemos nem a importância da disposição no tratameto, nem a da atividade do analista.
No momento atual, as coisas se modificaram bastante[iii] e multiplicaram-se os artigos voltados para o enquadre analítico ou para a dinâmica da contratransferência. Com o avanço das pesquisas em psicologia clínica, a ênfase deslocou-se da problemática pulsional profunda e do conflito interno (portanto, das variáveis intrapsíquicas), para a inclusão dos conflitos atuais e interpessoais (logo, para a inclusão das variáveis interpsíquicas). Na prática, alguns profissionais ainda estão “presos” à consideração apenas das variáveis intrapsíquicas.
Partindo de sua experiência particular em Lausanne, tal como descreveremos a seguir, as principais hipóteses a serem consideradas em relação ao campo das psicoterapias breves segundo Gilliéron (1986) são as seguintes:
1º) As variações do enquadre são suficientes para modificar o funcionamento psíquico e intensificar as trocas relacionais;
2º) A técnica da interpretação deve ser estudada e adaptada a essas modificações do funcionamento psíquico;
3º) É possível, em diversas formas de psicoterapia, tais como a psicoterapia breve, respeitar estritamente as regras básicas da psicanálise, desde que se compreenda a especificidade das resistências que aí surgem;
4º) A função do enquadre é criar uma situação psíquica apropriada para favorecer a eficácia da interpretação;
5º) O enquadre apóia-se na cultura ambiental.
Enquanto autores como L. Bellak e L. Small, Kurt Lewin, David Malan, P. Sifneos, H. Davaloo, entre outros ofereciam importantes contribuições para a psicoterapia breve, utilizado uma série de técnicas ativas em psicoterapia breve, Gilliéron, em 1968 iniciou um estudo sistemático das psicoterapias breves na Policlínica Psiquiátrica Universitária de Lausanne, seguindo um caminho totalmente diferente que gerou as cinco hipóteses descritas anteriormente: ele adotou uma abordagem não-diretiva, fiel às técnicas da psicanálise clássica freudiana, aplicadas à terapia breve.
Polarizando progressivamente a sua atenção no estudo da influência do setting (em particular, da limitação temporal e da adoção de sessões face a face) no funcionamento psíquico, sua hipótese era de que algumas modificações contextuais simples (em relação à psicanálise “standard”) influenciariam consideravelmente o processo associativo.
Assim, paralelamente ao estabelecimento de hipóteses psicodinâmicas durante a fase de investigação, sua técnica consistia em permitir livre curso às associações do paciente, sem o terapeuta determinar previamente o problema consciente a ser tratado e sem exigir do terapeuta uma atitude particularmente ativa (ou muito menos, diretiva). Ao contrário, solicitava-se que esse último adotasse, se possível como em psicanálise, uma atitude de atenção flutuante, no lugar de uma atenção focalizada.
Gilliéron procedia estruturalmente da seguinte maneira:
Primeira Entrevista:
I. Utilizava sessões semi-dirigidas, essencialmente centralizadas nas queixas atuais do paciente e depois, progressivamente, em sua história pessoal.
II. O contexto e as circunstâncias do aparecimento dos sintomas são examinados muito de perto, assim como o modo de chegada à consulta;
III. Em seguida, a anamnese é esmiuçada o mais profundamente possível, tendo o terapeuta em mente as circunstâncias do aparecimento da descompensação atual, com vistas a compreender as características fundamentais das relações objetais estabelecidas pelo paciente no passado e no presente; A hipótese subjacente é que a maioria das descompesações é desencadeada por minicrises relacionais. Gilliéron não comenta, mas aqui, é fácil deduzir que o terapeuta precisa ter em sua bagagem técnica, sólidos conhecimentos de psicopatologia, bem como das várias teorias explicativas sobre as causas dos distúrbios psíquicos em psicopatologia vincular[iv]. No caso da psicanálise, esse conhecimento envolve o “modelo causal” freudiano e a sua teoria das séries complementares. Já no caso da teoria junguiana vamos ter uma visão mais holística e sistêmica.
IV. Já ao final da primeira entrevista, e relativamente a todos os pacientes, Gilliéron esperava dos terapeutas que eles tivessem uma idéia do tratamento que entreviam: indicação para tratamento medicamentoso, psicoterapia a longo prazo, psicanálise ou psicoterapia a curto prazo.
Segunda Entrevista:
I. Ela é orientada em função da impressão deixada pela primeira entrevista. Assim, quando se pensa em uma terapia de curto prazo, tem-se que o terapeuta deve formular uma hipótese psicodinâmica simples, que resuma da melhor forma possível a problemática neurótica do paciente;
II. Segundo o autor, o objetivo dessa segunda entrevista é firmar a referida hipótese e, se possível, estabelecer as bases do tratamento futuro através de ensaios interpretativos;
III. Ao formular a sua hipótese, o terapeuta deve – segundo a hipótese psicanalítica de Gilliéron – basear-se na natureza da relação que o paciente procura estabelecer e dar-lhe uma interpretação psicodinâmica que “explique” a atitude atual do paciente, ligando-a com o passado deste último.
Terceira Entrevista:
I. É na terceira entrevista que a decisão deve ser tomada, fixando-se as modalidades do tratamento (horário, freqüência das sessões, honorários).
Esse esquema foi adaptado e fortemente ligado à natureza do serviço universitário de formação que Gilliéron coordenava, comportando, portanto, variações dependendo da instituição (e da natureza de seu serviço) em que o procedimento de terapia breve esteja sendo implantado. Eu próprio coordeno um serviço de terapia breve – de caráter experimental - em uma instituição de orientação e prevenção ao alcoolismo, onde são realizadas de duas até cinco entrevistas iniciais semi-dirigidas de psicodiagnóstico e rapport, para então depois ser proposto um enquadre flexível de 12 a 36 sessões (na verdade é fechado um enquadre de 12 sessões, e caso os resultados alcançados não tenham sido satisfatórios, é possível renovar-se o contrato terapêutico de 12 sessões, no máximo mais duas vezes – ou seja, alguns trabalhos podem ser desenvolvidos em 12, 24 ou 36 sessões). Assim, o modelo proposto por Gilliéron, não deve ser tomado como algo “fixo” ou “fechado”. Voltarei a discorrer sobre esse trabalho mais tarde.
Voltando à experiência da Universidade de Lausanne, observamos que Gilliéron discutia os casos clínicos em supervisões de grupo. O seu modelo de trabalho procurava ser suficientemente flexível para levar em conta, a um só tempo, a experiência do terapeuta e a natureza dos distúrbios do paciente.
Segundo suas indicações, ao fixar as modalidades do tratamento, o terapeuta propõe uma psicoterapia de duração limitada, e usualmente, pede ao paciente que indique o tempo que ele se atribui, subjetivamente, para resolver suas dificuldades. O próprio terapeuta deve formar a sua própria idéia a esse respeito. Segundo Gilliéron (1986) a duração habitual varia entre três meses e um ano, à razão de uma sessão por semana, ou por vezes, duas. Gilliéron propunha que a data da última sessão fosse determinada com precisão.
Uma vez fixadas as condições básicas e enunciada a regra de associação livre, na proposta do autor, o terapeuta deixa que o processo se desenrole, exatamente como ocorre em psicanálise, mas mantendo-se atento às modificações pouco manifestas da transferência provocadas pela limitação clara da duração e pela posição face a face, em particular. Aqui o autor propunha o que eu resolvi designar de “escuta sensível à pressão ou influência do enquadre”, como um conceito que se diferenciaria de uma “escuta focal” e também, de uma “escuta livre”, embora possa se coligar a qualquer uma dessas. Segundo minha opinião pessoal, esse tipo de escuta à influenciação do enquadre, seria específica da psicoterapia breve: o terapeuta acompanha seu paciente o mais de perto possível, sem desprezar nenhuma associação, mas esforçando-se por captar a maneira específica pela qual se manifesta a transferência no enquadre psicoterápico breve.
Para fazer isso, o terapeuta também pode referir-se à hipótese que havia formulado. Se a hipótese psicodinâmica básica estiver correta, o processo se desenrolará com bastante facilidade e o terapeuta logo disporá de elementos suficientes para confirmá-las nas associações do paciente. Se a hipótese for falsa, aparecerão numerosos mal-entendidos que evidentemente obrigarão (ou, pelo menos, deveriam obrigar) o terapeuta a rever sua opinião. Segundo outro pesquisador (Hammer, 1991), em psicologia clínica esse procedimento de verificação sistemática da validade ou refutação de hipóteses clínicas é denominado método da consistência interna, e representa o próprio fundamento metodológico e epistemológico do modelo clínico de ciência em psicologia.
Segundo minha proposta particular, o terapeuta pode chamar a atenção do paciente para o tempo restante do processo total de psicoterapia, em momentos cruciais do mesmo processo. Assim, passadas algumas sessões (por exemplo, na 6ª sessão de um total previsto de 12 sessões), é sempre bom retomar com o paciente o número de sessões realizadas, os temas trazidos e percepções realizadas nessas sessões e propiciar uma espécie de “lembrete” ao paciente sobre o número de sessões que ainda faltam para encerrar o trabalho, preparando-o para o (1) encerramento do processo no futuro, (2) para um encaminhamento, ou ainda (3) abrindo espaço para uma renovação do contrato, se for necessário. O que eu chamo de “escuta sensível ao enquadre” que pode se fazer presente lado a lado com uma “escuta focal” ou uma “escuta livre”, dependendo da escolha do terapeuta, consiste numa polarização da percepção para as reações do paciente às intervenções focadas em observações relacionadas à estruturação do enquadre, bem como uma atenção aos comentários espontâneos que o paciente realize sobre a dimensão espaço-temporal do enquadre, e que sempre revelam algo do funcionamento psíquico do paciente, desde que o terapeuta tenha condições técnicas e humanas para extrair esses dados do discurso manifesto e “latente” do paciente. Partindo de Gilliéron, proponho a “escuta sensível ao enquadre” e não a “escuta focal”, como uma legítima especificidade da psicoterapia breve[v].
Em outro nível, mais importante que a estruturação de procedimento proposta por Gilliéron, pois essa pode variar como já foi comentado, segundo a instituição em que o serviço é implantado, segundo os objetivos que se quer chegar, segundo a modalidade de enquadre que se quer experimentar, etc – o mais importante é extrair a “essência” da idéia do autor: há uma insistência no fato de que, para o terapeuta, trata-se de compreender o material associativo do paciente, e não de dirigi-lo. Suas intervenções devem ter por objetivo favorecer as associações e permitir tomadas de consciência reais. Segundo o autor, dessa forma, vemos desenrolar-se um processo acelerado que, em certos aspectos, assemelha-se curiosamente ao que ocorre em psicanálise!
Uma vez descrita a estruturação prática do trabalho de Gilliéron (junto com algumas adaptações e observações pessoais), vamos discorrer os seus aspectos teóricos conseqüentes, a partir de algumas das cinco hipóteses fundamentais de trabalho arroladas pelo autor.
A primeira hipótese relatava que “as variações do enquadre são suficientes para modificar o funcionamento psíquico e intensificar as trocas relacionais”. A linha de raciocínio a seguir objetiva clarificar esse postulado.
Tecnicamente o enquadre refere-se a um conjunto de fatores que compreendem os determinantes sócio-culturais do tratamento e certos parâmetros mais ou menos fixos, tais como o lugar, a freqüência e duração das sessões, etc.
Trata-se de uma noção mais complexa do que aparenta: em verdade, o enquadre caracteriza-se enquanto uma fronteira que separa o espaço do tratamento do espaço social, assim delimitando uma zona privilegiada, onde os atos realizados e as palavras trocadas assumem valor terapêutico.
Quanto à relação terapêutica, ela define, portanto, as trocas entre o terapeuta e o paciente e se inscreve no interior do enquadre, que ocupa uma posição hierarquicamente superior, no sentido de que se impõe, de algum modo, a dois parceiros. Há uma relação dinâmica entre o enquadre e a relação. De qualquer modo, o enquadre define um campo de força a que estão submetidos tanto o terapeuta quanto o paciente.
Teoricamente o enquadre possui duas funções:
1º) Uma função dinâmica = função que cria um campo dinâmico no interior do qual desenrola-se a psicoterapia;
2º) Uma função tópica = função que delimita um lugar psicoterápico.
Na verdade, ambas as funções são indissociáveis, na medida que é em relação ao campo cultural que se delimita o campo psicoterápico.
O enquadre determina um “dentro” e um “fora”. O dentro é o campo psicoterápico, e o fora é o campo sócio-cultural.
Essa delimitação é feita, em primeiro lugar, por uma recolocação em questão das regras sociais, morais ou outras que prevaleçam na cultura ambiente; assim, ela estabelece uma discriminação em certas regras vigentes no campo psicoterápico e as que vigoram no campo sócio-cultural. Segundo a tese de Gilliéron, um vínculo dinâmico as une.
Eis a representação gráfica desse campo[vi] de situação:

Campo
sócio-cultural
O enquadre, portanto, tem uma vertente social e uma vertente psicoterápica, uma das quais se define em relação à outra; e, se o enquadre delimita um lugar (um espaço geográfico), ele se caracteriza também pelo conjunto de regras fixas que definem a própria relação: em toda situação terapêutica, certos tabus são suspensos, mas em contrapartida, algumas proibições são mais acentuadas. Por exemplo, o paciente tem o direito de dizer tudo, mas é proibido de agir. Portanto, certas trocas proibidas em outros lugares são ali autorizadas, e outras, socialmente autorizadas, proibidas. Assim, enquanto no campo sócio-cultural certas palavras devem ser medidas (polidez, eufemismos), por serem às vezes proibidas (grosserias, impertinências), no campo do tratamento, ao contrário, elas são autorizadas (ou até mesmo obrigatórias). Inversamente, enquanto no campo social certos atos são necessários ou devem acompanhar a fala (manifestações de ternura ou de amor, trocas de presentes, etc), eles são proibidas no campo psicoterápico.
Além disso, essas regras conferem a cada um dos interlocutores uma assimetria de papéis, onde cada qual ocupa um lugar diferenciado: associações livres de um lado, e silêncio do outro, ou liberdade de fala de um lado, e promessa de segredo de outro, etc. Nesse contexto, segundo outra autora (Arzeno, 1995), o papel do psicólogo não é o do que sabe, enquanto que o do paciente é o do que não sabe. Para a autora, ambos sabem algo e ambos desconhecem muitas coisas que irão descobrindo juntos. O que marca a assimetria de papéis é que o psicólogo dispõe de conhecimentos (técnicos e humanos) e instrumentos de trabalho para ajudar o paciente a decifrar os seus problemas, a encontrar uma explicação para os seus conflitos e para aconselhá-lo sobre a maneira mais eficiente de resolvê-los.
Por sua vez, Gilliéron (1986) usando como sabemos de uma leitura psicanalítica, se permite realizar algumas especulações sobre a natureza simbólica do enquadre psicoterápico, e sugere que com seu conjunto de regras, o mesmo cria uma situação em que a relação genitor-filho necessariamente se reproduz, dentro do paradigma em que um é obrigatoriamente o que demanda (o paciente), enquanto o outro é o provedor (o terapeuta).
Mas, segundo o próprio autor, é ainda uma relação genitor-filho muito particular, uma vez que por exemplo, o “suposto filho” paga honorários a seu genitor, a quem mantém. Além disso, esse “filho” tem o direito de exprimir-se sem respeito, de dizer tudo o que lhe passar pela mente, ao contrário da educação que supostamente terá recebido.
Ademais e acima de tudo, o terapeuta só responde muito parcimoniosamente às “demandas” do paciente, através de interpretações (técnica de frustração). Essa é a situação eminentemente paradoxal de alguém que tudo espera do outro (conhecimento de si, cura, etc.), mas que só recebe em resposta frustrações e que deve até garantir a manutenção de seu suposto benfeitor; de alguém que se encontra “simbolicamente” numa situação “hierarquicamente inferior” à do outro, mas que não lhe deve nenhum respeito, etc.
Isso mostra que, no campo psicoterápico, instaura-se qualquer coisa do domínio social: uma nova ordem relacional, com suas leis e sua hierarquia. Mas, essas leis transgridem deliberadamente as regras habitualmente estabelecidas; assim, trata-se mais de uma espécie de desordem social, onde os costumes não são mais respeitados. Portanto, poderíamos considerar este primeiro axioma: a função do enquadre, no interior da cultura, é criar um campo de desordem cultural, com a suspensão de certos tabus e a instituição de outros.
Pois bem, aí se encontra um dos primeiros motivos que explicam a eficácia da psicoterapia breve: Essa “desordem” – no contexto transferencial de tempo delimitado - é passível de recolocar em questão as bases em que se apóia o equilíbrio psíquico. O escorameto grupal do psiquismo não funciona mais e cria um estado de vulnerabilidade, com desligamento dos afetos e das representações, que não é uma simples flexibilização do superego, como alguns tendem a considerar, mas antes um requestionamento de regras solidamente estabelecidas.
É nesse cenário que intervém a interpretação do terapeuta. Voltarei nesse ponto mais tarde, porém por ora, é válido enfatizar que a interpretação é a técnica de intervenção psicológica que permite ao terapeuta intervir diretamente sobre o campo psíquico do seu paciente. Analogamente, seria o seu “bisturi psíquico” havendo, portanto, a necessidade de muito cuidado no seu uso, exatamente para evitar a realização de uma “barbeiragem psicológica” que mais prejudique do que ajude o paciente[vii]. Isso demanda um estudo mais aprofundado das sutilezas técnicas que envolvem essa ferramenta de trabalho do psicólogo.
A primeira sutileza técnica dessa ferramenta de trabalho, talvez seja, a
sua relação com o campo de desordem cultural promovido pelo
enquadre psicoterápico, que então abre espaço para que a interpretação
conduza a um deslocamento dos investimentos conscientes e inconscientes que
acabam levando à mudança. A limitação espaço-temporal
da psicoterapia de tempo delimitado como veremos, dinamiza (potencializa,
pressiona e confere “velocidade”) a essas relações dinâmicas. Ou seja, a
redução da temporalidade pode potencializar a ação de uma interpretação, e
a dinamização da relação terapêutica pode torná-la mais facilmente assimilável.
Vimos que do ponto de vista dinâmico o enquadre possui uma função de delimitação com respeito ao campo cultural, caracterizada por uma delimitação da relação psicoterápica com respeito às relações sociais habituais, por intermédio de novas regras que estão em contradição com as leis sociais, o que cria um limite abstrato entre o tratamento e a vida real. Segundo Gilliéron (1986) essas relações são uma constante em todas as psicoterapias de orientação analítica (psicanálise, junguiana, etc), porém a limitação espaço-temporal em psicoterapia breve “dinamiza” essas relações.
Quanto à função tópica (que como dissemos, mantém relação dialética com a função dinâmica), esta diz respeito ao conjunto de parâmetros espaço-temporais fixos do tratamento: constância dos locais, freqüência das sessões, horários, duração, posição divã-poltrona, honorários, etc. Esses parâmetros são quase “mudos”, na medida em que uma vez combinado o tratamento, quase não são questionados e quase não se fala neles. Porém, são de certa forma, o próprio suporte do tratamento.
Esses parâmetros “tópicos” da psicoterapia têm um alcance dinâmico considerável, mas como são “mudos”, sua importância só aparece no momento em que se modifica algum elemento de sua disposição. Assim, se por exemplo o horário da sessão de psicoterapia for mudado das 19:00hs (à noite) para as 7:00 hs (período da manhã), tanto o paciente quanto o terapeuta podem responder a essa nova disposição de uma determinada maneira, e a própria relação paciente-terapeuta também pode ser afetada. Em outro exemplo, poderíamos ter a situação em que o terapeuta não cobrasse pelas faltas de seu paciente nas sessões de psicoterapia. Porém, se em determinado momento do processo ele resolve cobrar por essas faltas, então, será possível se observar toda uma nova maneira de reagir do paciente à psicoterapia que antes não se manifestava. Pode ser que esse passe a valorizar mais o seu trabalho psicoterapeutico, mas pode ser também que ele resolva desistir do processo. Qualquer uma dessas reações, ou ainda, qualquer outra reação alternativa do paciente em relação à manipulação realizada pelo terapeuta sobre qualquer disposição do enquadre irá denunciar a dinâmica do padrão de funcionamento mental do paciente, e poderá fornecer material para uma intervenção terapêutica, desde que o terapeuta tenha a perspicácia técnica para tal.
A mudança no enquadre também pode revelar alguma modificação de percepção do terapeuta. Por exemplo, um aumento ou diminuição no valor de seus honorários, pode implicar em algum tipo de reajuste de valor profissional que o terapeuta esteja vivenciando.
Em todos esses casos, qualquer mudança de disposição do enquadre eliciará e/ou refletirá em algum grau, em mudanças psíquicas e de conduta vivenciadas pelo paciente e pelo terapeuta, bem como sobre a relação de ambos. É importante salientar que os dois interlocutores do processo são afetados. Segundo Gilliéron (1986), o desconhecimento desse fenômeno leva a numerosos mal-entendidos. Por isso, é muito importante o estudo do manejo técnico do enquadre psicológico, que é de fato, o elemento que confere o caráter de processo à psicoterapia. E no caso da psicoterapia breve, a pesquisa sobre o manejo técnico do enquadre espaço-temporal é o seu próprio fundamento epistemológico.
A consciência de processo que envolve um trabalho psicoterápico é importante aqui. Muitos terapeutas parecem esquecer essa “consciência de processo”. Para fornecer um exemplo prático esclarecedor, vamos levantar a seguinte questão: o que diferencia um diálogo que o psicólogo possui com um amigo, do diálogo que possui com seu paciente? Quando um psicólogo realiza uma interpretação de um sonho para um amigo ou um familiar[viii], qual a diferença desse procedimento, da interpretação que é feita pelo psicólogo ao paciente? A resposta se encontra no fato de que o enquadre é que realiza uma separação dinâmica entre o ambiente social e o campo terapêutico, e com isso fornece um contexto de processo, no espaço e no tempo, em que as modificações de conduta e de perfil psíquico se configuram progressivamente. Assim, uma interpretação realizada para um amigo, pode até fornecer alguma ajuda ou clarificação circunstancial (ou seja, pode até ter alguma função terapêutica casual, mas mesmo isso não é garantido), porém não passa de um comentário “solto” no diálogo, como outro qualquer. Apenas no processo inerente à uma psicoterapia a interpretação e qualquer outra intervenção psicológica admite um respaldo técnico para assumir um valor psicoterapêutico sistemático (portanto, não casual), progressivo, acumulativo e funcional.
Segundo Gilliéron (1986), as modificações tópicas mais conhecidas em termos de enquadre psicoterápico são as seguintes:
1. Modificação do número = Passagem da relação individual para o grupo;
2. Modificação da disposição espacial = Passagem para a posição face a face;
3. Modificação da disposição temporal = Diminuição (ou multiplicação) da freqüência das sessões, limitação da duração, etc.
Entendido que essas mudanças provocam variações significativas nas reações do terapeuta, do paciente, e na relação intersubjetiva entre ambos, é possível utilizar qualquer conjunto de técnicas e procedimentos em psicoterapia breve, inclusive as mais comumente empregadas e citadas na literatura especializada, como a focalização, o planejamento antecipado, a técnica ativa. Mas, também é possível prescindir das mesmas. Muito irá depender dos pressupostos teóricos e filosóficos que embasam a prática do terapeuta. Na literatura especializada, também vamos encontrar a questão do ecletismo técnico como algo que parece obscurecer um pouco a compreensão dos fatores debatidos até aqui, mas isso não impede que certos parâmetros fixos permaneçam, sobretudo no setor das psicoterapias breves. E esses parâmetros são os referentes ao manejo instrumental do enquadre.
Examinaremos agora a influência de dois parâmetros tópicos: o “face a face” e a temporalidade.
A Disposição Face a Face.
Na psicanálise clássica (com o uso da disposição divã-poltrona), é essencialmente a fala que transporta as mensagens do paciente para o terapeuta. Além disso, como classicamente o paciente fica deitado no divã, com o terapeuta sentado fora do seu círculo de visão (por exemplo, com sua poltrona atrás do paciente e do divã), então pode-se dizer que, a comunicação do paciente se efetiva com um terapeuta “internalizado” em sua psique. O paciente fala com uma “lembrança” do seu passado, ainda que seja um passado recente. Ele imagina o que seu terapeuta acha, pensa, sente, como se comporta, mas não “vê” efetivamente nenhuma de suas reações. Mergulha-se mais do que na disposição face a face no campo do imaginário, da fantasia e da dúvida (sobre o que o outro pensa, acha ou faz), porém as trocas perceptivas e afetivas imediatas ou diretas são amenizadas. Esses elementos contribuem assim, para “desacelerar” a dinâmica das trocas relacionais intersubjetivas entre paciente e terapeuta, contribuindo para o prolongamento do processo como um todo, mas Freud parece não ter dado atenção a isso na sua época.
Na disposição face a face, diferente da disposição divã-poltrona, há uma duplicação dos canais de expressão e comunicação. O verbo não é mais o único meio de comunicação, havendo toda uma categoria de mensagens não-verbais transmitidas pela mímica, pelos movimentos involuntários ou, por vezes, voluntários de um ou de outro. Já se disse que “o corpo fala”. Logo, todo um conjunto de expressões, “verbalizações” e comunicações corporais e faciais entram em jogo no processo psicoterápico. Isso afeta as trocas relacionais entre paciente e terapeuta, tornando-as mais imediatas e diretas. Isso “dinamiza” o processo, e por si só, já é um acelerador do mesmo, se entendermos que a manifestação não-verbal do terapeuta também é em si, uma técnica de intervenção psicológica, mais eficaz, quanto mais ele tenha a consciência e o treino instrumental para o seu uso. Mesmo que ele não possua um treino específico que o sensibilize para essa percepção (como muitos psicoterapeutas com formação em terapia corporal), a simples disposição do enquadre já garante que essa variável afete consideravelmente o processo. Isso pode ser visível, se pedirmos para um paciente que vinha por longo tempo se tratando na disposição divã-poltrona, mudar repentinamente para a disposição face a face, e vice-versa. O paciente do face a face, pode sentir a nova disposição divã-poltrona, como “fria e distanciadora entre ele e o terapeuta”. Ou o paciente clássico da disposição divã-poltrona, pode se sentir “encabulado”, quando passado para uma disposição face a face.
Na psicoterapia breve, a disposição face a face, para Gilliéron (1986), é indispensável, por ser a que dinamiza as trocas relacionais. Na verdade, todos os autores em psicoterapia breve concordam com isso. O imediatismo das trocas relacionais nessa disposição coloca o paciente numa interação com uma imagem bastante presente do seu terapeuta (enquanto, como vimos, na disposição divã-poltrona, o paciente se relaciona com uma “imagem-terapeuta do passado”). As comunicações não-verbais acrescidas nesse contexto são extremamente diretas, imediatas e muito pouco controláveis, o que intensifica enormemente as trocas. Em contrapartida, terapeuta e paciente tendem também a erguer barreiras inconscientes contra essas trocas cuja própria intensidade é angustiante.
Podemos comparar a disposição divã-poltrona própria da psicanálise standard a uma troca da ordem da epopéia, onde o sujeito narra toda uma história da qual ele (paciente) é o ator principal. Já a disposição face a face, em muitas formas de psicoterapias modernas (incluindo as de tempo delimitado), é mais comparável a uma cena de teatro, onde as trocas são simultaneamente verbais e não verbais, e portanto, mais imediatas, mais dramatizadas.
É interessante, então notar, que essa disposição é um acelerador, mesmo de processos que não são formalmente denominados como psicoterapia breve, e uma vez que é uma disposição de enquadre cada vez mais popular na clínica contemporânea, é natural que os processos de psicoterapia (mesmo os de tempo indeterminado) tenham cada vez mais o seu tempo reduzido. Esse é um fato que poucas pessoas pararam para pensar... É uma “sutileza técnica” que tem permanecido por muito tempo desconhecida, porque apenas recentemente com a difusão das psicoterapias breves, que a influência de disposição do enquadre psicoterápico tem sido objeto de pesquisa. O próprio Freud pouco dedicou-se ao estudo desse aspecto, preferindo investigar os aspectos metapsicológicos e pulsionais de sua técnica clínica. Em decorrência disso, negligenciou-se muito o terreno das transformações na relação terapeuta-paciente, a partir do manejo da disposição do enquadre, e sobre como isso pode abreviar o processo terapêutico.
Na física do século XIX, Isaac Newton, o pai da mecânica clássica, elaborou um modelo teórico em que o espaço e o tempo eram encarados como realidades separadas e independentes. Coube a Albert Einstein, mostrar no início do século XX, com sua teoria da Relatividade, que ambos os conceitos formam uma unidade integrada, não existindo realmente separação entre tempo e espaço, mas sim um continuum entre um e outro, formando o que a Física Moderna chama de Quarta Dimensão ou Dimensão Espaço-Tempo[ix].
Na psicoterapia, e em especial, no que diz respeito à organização do enquadre psicoterápico, tempo e espaço – como na Física Moderna – são relativos um ao outro, e não devem ser dissociados, ainda que alguns aspectos digam mais respeito à dimensão temporal e outros à dimensão espacial.
A primeira observação incide sobre a relação dialética não-linear que pode existir entre o que pode ser chamado de “tempo cronológico” (do relógio) e “tempo subjetivo”. Pode-se questionar: “Qual é o significado psicológico de uma limitação da duração, e qual é o efeito da ausência de limite?”. Estudos clínicos comparativos (Gilliéron, 1986) mostram que as psicoterapias cuja duração é limitada logo de início são levadas a termo com muito mais freqüência do que as psicoterapias de duração não limitada. Esse fenômeno é constante, qualquer que seja a natureza da psicoterapia (de grupo, individual, de apoio, de inspiração psicanalítica).
Atualmente reconhece-se que as mudanças psíquicas podem ocorrer num tempo relativamente curto, contrariamente ao que havia afirmado o pai da psicanálise e ao que as gerações seguintes contentaram-se muitas vezes em repetir sem questionar. Vimos que, como Freud mobilizou seus esforços para uma leitura pulsional da psique no paradigma teórico de sua metapsicologia, enfatizando quase exclusivamente a dimensão intrapsíquica, em detrimento da realidade vincular intersubjetiva, durante muito tempo a psicanálise se viu sem instrumentos teóricos que lhe permitissem levar em conta a influência da disposição do enquadre psicoterápico ou do campo analítico sobre o processo. Esta “cegueira” epistemológica tem estado por muito tempo presente no meio clínico, mas os avanços da área estão delineando um novo estado de situação.
A observação da atemporalidade e da lentidão dos processos inconscientes não tem mais servido de pretexto para negar os resultados das psicoterapias breves, a não ser por aqueles que estão desatualizados em relação à literatura especializada sobre o tema. Já se sabe que os processos psíquicos não são tão autônomos a ponto de se tornarem inacessíveis a uma influência externa, e hoje a mentalidade predominante é a de que existe uma relação dialética entre uma e outra coisa.
Limitar a duração de um tratamento comumente desperta mais temores nos terapeutas do que nos pacientes, que argumentam sentir medo de realizarem um “tratamento incompleto”. Segundo Gilliéron (1986), isso traduz o medo de não ter tempo suficiente para se chegar ao “fim das dificuldades do paciente” – medo sustentado pela ilusão narcísica de aspirar uma certa “perfeição” ao final do tratamento, fator contratansferencial passível de também prolongar inutilmente até mesmo os tratamentos analíticos clássicos.
Um estudo comparativo da literatura especializada, mostra que os diferentes autores e pesquisadores da área, segundo seus referenciais teóricos e pessoais particulares, adotam planejamentos de processos psicoterápicos que duram no mínimo 3 meses e no máximo 1 ano. Entre esse mínimo e máximo, constatam-se diversas variações. Minha própria experiência pessoal em clínica particular, tem me mostrado que objetivos satisfatórios começam a surgir a partir de 6 meses, sendo que a finalização pode ser planejada para 9 meses de trabalho. Tenho observado que (1º) o método de trabalho técnico e humano do terapeuta, em conjunto com (2º) os objetivos traçados a serem alcançados são variáveis importantes para definirem o “tempo ótimo” de um processo de psicoterapia breve.
De fato, o objetivo de uma terapia de tempo delimitado, não pode ser o mesmo de uma Análise por tempo indeterminado (que pode variar a duração de 2 ou 3 anos a 14 ou 15 anos, dependendo de uma série de variáveis a serem levadas em consideração).
A diferença entre um e outro procedimento, não é o de que a Análise clássica objetiva resultados mais “profundos”, enquanto a psicoterapia breve objetiva resultados mais “superficiais”, como supõe alguns autores (esses sim, com uma perspectiva muito “superficial” da clínica). Não existem trabalhos “superficiais” na clínica psicológica se lembrarmos que o nosso objeto de intervenção é a complexidade da psique, sendo isso válido inclusive para processos breves. Assim, para melhor clarificar esse tópico, vou fazer uso de uma imagem metafórica.
Vamos, então, supor que o processo da vida (denominado por Jung de individuação) pudesse ser simbolicamente comparado a um “rio”. Podemos dizer que o paciente que busca ajuda clínica psicológica se encontra com o seu processo de vida quase paralisado, como um rio que tivesse o caminho de passagem de suas águas obstaculizadas por uma infinidade de pedras, rochas e detritos. Simbolicamente, em uma Análise Clássica, o objetivo seria a retirada do máximo desse material pedregoso para que as águas do rio voltassem a fluir livremente de novo. Tanto o terapeuta quanto o paciente possuem tempo “ilimitado” para tentarem atingir esse fim, podendo utilizarem de vários meios. Talvez nunca consigam retirar todas as pedras, talvez sobre alguns pedregulhos, mas ainda assim, o objetivo permanece ser o de que o rio volte a fluir livremente durante o período do próprio processo terapêutico, ainda.
Na psicoterapia breve, não se pode alimentar o objetivo de se retirar “todas as pedras”. O objetivo seria ajudar o paciente a retirar o máximo possível de algumas dessas pedras, no tempo estabelecido pelo processo breve, para que pelo menos uma parte das águas possam fluir um pouco mais, e assim, motivado por esse avanço, o paciente possa “continuar sozinho a retirar as suas próprias pedras do caminho”, após terminado o processo. Em alguns casos, até pode-se chegar a uma situação em que o paciente consiga retirar a maior parte dessas pedras durante a própria terapia, possibilitando ao rio um fluir maximizado no processo da vida. Porém, esse não é o único paradigma para o conceito de cura a ser adotado na psicoterapia breve (e na verdade, nem na Análise Clássica), mas sim a valorização das conquistas possíveis para o paciente durante o estágio do processo breve, devendo ficar claro que, do ponto de vista da complexidade da psique e do processo de individuação, não há nada de superficial ou incompleto nessa objetivação.
A individuação, segundo Jung, é o processo no qual o indivíduo torna-se cada vez mais ele mesmo, desenvolvendo sua autonomia, capacidade de reflexão crítica e maturidade existencial. Devemos lembrar que nesse contexto, é a vida que é terapêutica, enquanto o psicólogo assume apenas um papel de facilitador nesse “processo da vida” do paciente. Esse último, por sua vez, possui um papel ativo nesse contexto. A psicoterapia breve possui como objetivo, o acompanhamento do paciente em seu processo vital individual, de forma que seja possível no tempo estabelecido, fazer-se o melhor possível para que ele possa, com a ajuda terapêutica facilitadora, desobstruir pelo menos um pouco do seu “fluir vital”, para que possa se instrumentalizar, através do autoconhecimento (e, portanto, da ampliação de consciência sobre suas potencialidades e limitações), para então dirigir a sua vida autonomamente de forma mais eficaz. Assim, uma vez mais reitero que não há nada de superficial nesse fim, e as “poucas pedras” que ajudarmos o paciente a retirar de seu próprio caminho já “farão uma grande diferença”, como na prática tenho constatado.
Entendido essa questão, podemos concluir que do mesmo jeito que podemos definir parâmetros técnicos para determinar que tipo de paciente é susceptível de ser beneficiado por uma terapia breve, podemos investigar parâmetros para definir que tipo de psicoterapeuta pode organizar um trabalho de psicoterapia breve. Certamente, não responde ao perfil um terapeuta com um grau tão alto de “ansiedade narcísica” que só se contente com objetivos “completos” (ou seja, “com a retirada de todas as pedras do caminho do paciente”), e não saiba sincronizar o seu “ritmo” com o do paciente, que possui o seu próprio timing.
[i] Sabemos que Freud rejeitou quaisquer modificações técnicas até o fim de sua vida. Seu interesse incidiu essencialmente em um desenvolvimento teórico e ele considerou como resistência a maior parte das propostas de inovações técnicas, com freqüência, depois de tê-las experimentado ele próprio. Ao que parece, a genialidade de Freud competia com o seu dogmatismo...
[ii] Apenas para lembrar, observamos que o prefixo “intra” faz referência ao que é interno, ou do funcionamento psíquico individual, enquanto o prefixo “inter” diz respeito às relações do indivíduo com outras alteridades, focalizando seus vínculos sociais.
[iii] A psicologia clínica é atualmente um campo de atuação profissional onde o avanço técnico e a realização de pesquisas tem se processado de maneira bastante dinâmica, de forma que o profissional da área precisa investir continuamente em sua formação profissional. Há um importante fator de historicidade ligado a isso, mas para o qual poucos estão atentos, resultando em profissionais que no fundo não sabem o que estão fazendo. Pode-se dizer que existe uma tecnologia no campo clínico em psicologia, não no mesmo sentido que essa palavra assume em ciências exatas (como informática, engenharia, etc), mas sim como um conjunto de recursos técnicos que instrumentalizam e abrem campo de expressão para os aspectos práticos, humanos e existenciais do exercício psicoterapêutico. Instrumentalizar, aqui, significa transformar essas qualidades humanas em ferramentas ou instrumentos de trabalho, o que implica que o próprio terapeuta se torna a “ferramenta” de trabalho fundamental. Assim, não basta apenas “intuição”, “senso prático” ou “sensibilidade” para atuar na psicologia clínica, sem o aprimoramento tecnológico que lhe deve ser contingente aos estudos e pesquisas na área. Isso é verdade, mesmo que se considere que todas essas qualidades (humanas) sejam fundamentais e de forma nenhuma, menos importantes do que a técnica (caso contrário, cairíamos num tecnicismo pueril). Talvez essas qualidades, sejam inclusive, mais importantes do que a técnica, porém a tecnologia que observo na psicologia clínica engloba “sutilezas teóricas e práticas” que escapam à maioria dos profissionais da área com uma formação insuficiente em psicologia clínica, o que prejudica bastante a sua atuação profissional. A existência de institutos de ensino de qualidade duvidosa, sem dúvidas, contribui para isso. Assim, quando discurso sobre tecnologia em psicologia clínica estou a referir sobre uma integração sistemática e progressiva entre teoria e prática, pesquisa e reflexão, bem como uma dialética entre “sutilezas técnicas” e “qualidades humanas, afetivas e existenciais do terapeuta”. Investir apenas em um lado ou outro é comprometer a qualidade do serviço clínico. O que legitima a minha afirmação da existência de uma tecnologia no método clínico de pesquisa e atuação profissional, e a análise histórica e progressiva desse campo ao longo do tempo. Algumas dessas evoluções são mostradas ao longo dessa resenha, e obviamente também, na literatura especializada sobre todos os ramos da psicologia clínica, incluindo a literatura sobre psicoterapia breve. Tudo isso mostra que a psicoterapia clínica, em qualquer modalidade ou forma de execução está longe de ser um procedimento simplista que possa ser praticado por qualquer um de forma estereotipada, especialmente como costumamos constatar nos processos diretivos de terapia por sugestão que já estão mais do que ultrapassados na área, mais que ainda são muito executados pelos profissionais pouco sintonizados com os avanços da psicoterapia (cf. Jung, 1957).
[iv] A melhor bibliografia sobre psicopatologia vincular se encontra na obra “Teoria do Vínculo” de Enrique Pichón-Rivière. Todo profissional que pretende trabalhar com psicoterapia breve, deveria ler obrigatoriamente essa obra, por permitir um novo manejo da técnica da interpretação a uma escuta da dimensão psicossocial, e vincular do funcionamento psíquico do paciente. Ou seja, o terapeuta passa a contar com uma teoria de psicopatologia muito mais flexível, funcional e eficaz, do que a clássica psicopatologia psiquiátrico-biologicista, e pode se instrumentalizar com uma nova modalidade de escuta analítica intersubjetiva e intervenção interpretativa sobre essa mesma escuta, mais apropriada à prática da psicoterapia breve.
[v] Porém, à medida que os psicólogos clínicos – como decorrência dos avanços de pesquisas realizadas na área - consigam entender como instrumentalizar o manejo do enquadre psicoterápico em qualquer modalidade de terapia, então talvez, a “escuta sensível ao enquadre” se torne um elemento importante não só na psicoterapia breve, mas também, quando da execução de uma modificação de disposição em qualquer forma de psicoterapia. Ainda assim, continuará a ser uma especificidade da psicoterapia breve, a redução apriorística da temporalidade do processo como um todo – o único elemento efetivamente presente em qualquer enquadre de psicoterapia breve.
[vi] Lembremos que o conceito de campo foi retirado da física moderna, e por analogia aplicado em nossas especulações teóricas no campo da psicologia (conforme já comentado na primeira nota de rodapé), o que possui implicações epistemológicas importantes para o nosso trabalho, por se configurar essa visão num conceito de ciência mais sistêmico, como ainda comentaremos.
[vii] Além disso, é uma ferramenta ambígua, segundo o pensamento dialético do psicanalista argentino José Bleger, pois ao operar sobre o campo mental do paciente, a partir do momento que o terapeuta emite a sua interpretação, ele está a operar sobre o seu próprio campo mental. Isso se torna patente quando o terapeuta realiza ao paciente uma interpretação que também é aplicável e pertinente a algum problema pessoal que o próprio terapeuta esteja passando. Tais fatos complexificam bastante a sofisticação da técnica da interpretação, bem como seus parâmetros de uso. Isso confirma o postulado junguiano, de que no encontro entre dois sistemas psíquicos complexos no self (ou campo) terapêutico, tanto o paciente quanto o psicólogo saem alterados.
[viii] Apesar de sabermos que do ponto de vista ético, tal procedimento talvez possua suas restrições, “informalmente” sabemos que todo “bate-papo” entre psicólogos e “amigos de psicólogos” envolvem tentativas de interpretações, relatos simbólicos de sonhos, e outras coisas do gênero. Dependendo do contexto em que isso acontece (ou seja, por exemplo, desde que não se confunda uma conversa informal com uma psicoterapia), não há nenhum dano que possa ser provocado, a não ser uma “divertida perda de tempo”.
[ix]
Um novo modelo de ciência se formou a partir
de então, mais sistêmico (termo que surge como derivado da palavra
“sistema”) e relacional (derivado do termo “relação”), ou seja,
onde as variáveis de um sistema são analisadas como teias de eventos que
se relacionam de formas peculiares obtendo resultados diferenciados. Na
psicologia, esse modelo ou paradigma procura observar as complexas relações
entre as teias de eventos biológicos, psicológicos, sociais e
transpessoais, buscando uma visão e compreensão mais integral e holística
do ser humano. É esse modelo que procuro aplicar na fundamentação da
pesquisa sobre psicoterapia breve aqui realizada.