Capítulo 2 - Psicoterapia Breve – Conceito e Fundamentação
A bibliografia especializada em psicoterapia breve é bastante numerosa na literatura de orientação psicanalítica, embora evidentemente a psicanálise não seja a única abordagem teórica a fundamentar um trabalho de psicoterapia breve.
No âmbito da contribuição psicanalítica, podemos salientar o trabalho de Lowenkron (1993), sobre Psicanálise Breve. Esse autor traz o conceito de “Psicoterapia Psicanalítica de Tempo Delimitado”, definida como um tratamento cujo prazo de duração é ajustado previamente entre o psicoterapeuta (ou analista) e o sujeito que busca ajuda para dar conta de um “problema específico” ou seja, os efeitos de um sofrimento psíquico que se manifesta em uma área demarcável da vida do sujeito e cuja origem possa ser atribuída a um conflito inconsciente.
Segundo o autor, é a concordância entre paciente e terapeuta em torno da compreensão da possível origem inconsciente do problema que dá suporte à decisão de empreender a investigação pelo método psicanalítico, investigação a qual o paciente deve estar engajado como sujeito.
Assim, a teoria psicanalítica forneceria os modelos gerais que fundamentam o processo, e a cura se dá mediante perlaboração dos conflitos inconscientes, com possíveis repercussões sobre o sujeito como um todo. Perlaboração é o nome dado ao trabalho psíquico realizado pelo paciente que consiste em assimilar interpretações, processo mediante o qual é possível conseguir a superação de resistências e a liberação dos efeitos da atuação de mecanismos repetitivos, decorrentes da força de atração exercida pelo inconsciente. O objetivo desse trabalho psíquico – a perlaboração – é o de favorecer a recomposição dos elementos vivenciais em novos arranjos de sentido e o encontro de novas alternativas de satisfação.
Nessa linha se situam autores modernos como Balint e Mallan (Clínica Tavistock, Londres), Sifneos (Universidade de Harvard) e Davanloo (Universidade McGill), além de Edmond Gilliéron (1986) da Universidade de Lausanne, na Suíça, que será uma das principais referencias adotadas nesse trabalho de pesquisa. Do Brasil, discorrerei sobre a experiência de Lemgruber (1984).
No campo da Psicoterapia Breve de orientação junguiana, pode ser citado o trabalho da psicóloga brasileira Liliane Martins de Melo. O conceito de psicoterapia breve segundo a autora é muito parecido com o de Lowenkron, diferindo logicamente, pela abordagem teórica utilizada pela autora. Segundo Melo (1998), a psicoterapia breve é “um processo terapêutico que tem como objetivo, o desenvolvimento da psicoterapia em um espaço de tempo menor em relação ao processo analítico, necessitando o psicoterapeuta focalizar a sua atenção à situação de crise vivida pela pessoa que procura ajuda”. Ainda, segundo a autora, por ser Carl Gustav Jung um pensador criativo, ele nos deixou um legado de idéias que podem nos orientar na condução do trabalho, através da elaboração de uma avaliação tipológica que então permite o estabelecimento do foco terapêutico e recursos criativos para a mobilização do inconsciente e maior integração egóica como objetivo final do processo.
Em outro nível, analisando comparativamente a bibliografia especializada sobre psicoterapia breve, observamos que não é, porém, a abordagem teórica que caracteriza a especificidade do conceito e da prática da psicoterapia breve. E inclusive, diferente do que muitos profissionais imaginam, como veremos, também não é a presença de “focalização” (como pensa, por exemplo, a autora junguiana citada) ou de “intervenções mais ativas ou diretivas” que caracterizam a psicoterapia breve. Como aponta Gilliéron (1986), parece certo no momento atual da pesquisa em psicoterapia breve que meios muitos diferentes permitem obter resultados terapêuticos bastante satisfatórios, duradouros e, com freqüência, num lapso de tempo relativamente curto em comparação, por exemplo, com a psicanálise. Para o autor, rejeitar essa constatação por razões puramente dogmáticas – em nome de uma “ortodoxia” psicanalítica – se afasta da abertura mental própria da psicanálise, e essa evolução de pesquisa não deixa de ter interesse, na medida em que confronta os psicanalistas com a questão da mudança psíquica, e os obriga a variar suas posições, obrigando-os a retornar à reviravolta de 1920 (quando Freud propõe a sua segunda tópica, como modelo descritivo do aparelho psíquico, no paradigma dos conceitos de id, ego e superego), e a interrogar-se sobre os desvios constatados.
Embora o autor esteja a discursar sobre a psicanálise, logicamente sua observação é válida para todas as abordagens de orientação analítica, inclusive a junguiana. Isso se torna mais interessante e paradoxal ainda, se considerarmos que os dois autores das duas principais escolas de psicologia profunda se colocaram em momentos diversos de suas obras, contra o desenvolvimento do trabalho e da pesquisa em psicoterapia breve, duvidando de sua eficácia.
Sabemos que historicamente, os movimentos no sentido de tentar abreviar o tempo do processo terapêutico, desde os primórdios da psicanálise, sempre despertaram ruidosas críticas e reações. Ernest Jones foi um dos mais severos opositores dessas tentativas: embora tenha ressaltado o efeito favorável da limitação do tempo estabelecido para o término da terapia do “Homem dos Lobos” por Freud, fez críticas ferrenhas à técnica de Ferenczi e depois aos trabalhos de Alexander e Balint, todos precursores da psicoterapia breve no âmbito da psicanálise.
Em relação a Jung, por sua vez, embora isso seja pouco divulgado, surpreendentemente ele se colocou contra muitas possíveis variações da análise clínica junguiana clássica, ou pelo menos colocou em xeque a eficácia de procedimentos como a psicoterapia breve, a psicoterapia de grupo, a psicoterapia familiar e de casal e a hipnoterapia. Esse fato parece ser contraditório com a orientação fenomenológica do autor, que solicitava do analista um certo desapego instrumental do condicionamento técnico e das “regras teóricas” muito estereotipadas comuns a outros modelos de enquadre teórico. Porém, Jung (1957) enfatizava bastante a importância do desenvolvimento individual (daí as suas ressalvas quanto os processos de casais, familiares e grupais), do tempo como uma variável inerente e imprescindível no processo de cura terapêutica (daí suas objeções quanto às formas de terapia breve), e por fim se mostrava contrário à prática da sugestão e da diretividade como técnica de intervenção do terapeuta (daí, o seu abandono e objeção quanto à hipnose, por exemplo). Por outro lado, a abertura própria da abordagem junguiana abriu espaço para muitas pesquisas nos âmbitos dessas técnicas, que comprovaram a sua eficácia. Todas essas técnicas, ao contrário, se tornaram amplamente populares entre os psicólogos junguianos, e as ressalvas de Jung são consideradas como paradoxos inerentes ao trabalho de um pesquisador tão genial, mas que também precisou haver-se com alguns de seus preconceitos ou pontos cegos, como não poderia deixar de ser com qualquer outro ser humano falível... Nesse sentido, é válido frisar, a humildade epistemológica de Freud e Jung que nunca adjudicaram para si o título de “donos da verdade última e absoluta do conhecimento” (embora às vezes, pudessem ser um tanto ortodoxos ou resistentes a algumas idéias... o que também é um paradoxo, já que ambos eram bastante inovadores e experimentais), apesar de alguns freudianos e junguianos tentarem mitificá-los como os “deuses da verdade”.
Voltemos, então, ao seguinte ponto: se não é a abordagem teórica, nem a focalização, nem a diretividade que caracterizam a psicoterapia breve, então o que primordialmente a qualifica e a define como tal? De fato, como se sabe (Gilliéron, 1986) é possível (1) realizar-se um satisfatório processo de psicoterapia breve realizando um trabalho ativo de focalização, mas também de modo igualmente satisfatório, prescindindo ou deixando de lado o mesmo processo ativo de focalização, ou ainda, (2) é possível realizar-se psicoterapia breve utilizando um procedimento basicamente mais diretivo, ou um procedimento sistematicamente não-diretivo, ou ainda, utilizando de um procedimento denominado por Jung de dialético (voltarei a isso posteriormente), (3) e por fim, é possível realizar terapia breve em qualquer abordagem teórica: psicanalítica, junguiana, rogeriana, behaviorista, etc. Então, novamente, o que caracteriza e especifica a psicoterapia breve?
Como já foi dito, a resposta é que o que caracteriza a psicoterapia breve é o manejo técnico do enquadre psicológico. Para entendermos esse fato, vamos comparar tal metodologia com outras tentativas de se reduzir o tempo de trabalho em outras formas de tratamento ou procedimento. Tomarei para comparação a popularmente conhecida (1) neurolingüística e a (2) hipnose.
Embora a neurolingüística tenha sido criada por dois pesquisadores, sendo um deles um psicólogo, os Conselhos Federal e Regionais (de cada estado) de Psicologia no Brasil, não a consideram um método ou procedimento psicológico. Sem entrar em maiores detalhes sobre a pertinência ou não dessa consideração, já que tal não é o objetivo desse trabalho, temos que o termo neurolingüística sugere se tratar de um campo de conhecimento que interage as descobertas das neurociências (ou ciências que estudam o cérebro humano) com a lingüística (campo que estuda entre outras coisas, a relação entre os processos de organização do pensamento e a estruturação da linguagem). O objetivo pragmático dessa área de conhecimento deveria ser a intervenção terapêutica e profilática no sentido de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Pode-se presumir que quando o trabalho é realizado com seriedade, tais objetivos possam ser pelo menos parcialmente alcançados.
Na maioria dos casos, porém, e em termos práticos, a neurolingüística se tornou uma espécie de ciência sobre “o estudo do sucesso”. Ou seja, busca-se pesquisar o que vem a ser o conceito de “sucesso” e quais são as variáveis implicadas na obtenção do sucesso nas mais diferentes áreas da vida de um indivíduo. O método empregado pela neurolingüística consiste no estudo de pessoas que são consideradas, segundo um certo conjunto de parâmetros (como eficiência em acumular bens materiais, desenvolver-se bem nas relações afetivas, desenvolver-se espiritualmente, cultivar pensamentos positivos, etc) como bem sucedidas na vida. O conceito de eficiência é fundamental nessa disciplina.
O motivo pelo qual eu procurei discorrer brevemente sobre a neurolingüística, é o fato de que essa “ciência” (ou pseudo-ciência, segundo alguns) tem acumulado uma certa popularidade no sentido de ser considerada uma modalidade de trabalho onde se alcançam resultados satisfatórios rapidamente no sentido de se ajudar um indivíduo a resolver mesmo problemas graves e também a melhorar a vida de quem procura tal serviço, de forma rápida e prática.
Analisando o método aplicado pela neurolingüística para obter esses resultados rápidos, observamos que o que ocorre é o seguinte: em geral, os trabalhos de neurolingüística consistem em entrevistas individuais, palestras motivacionais e exercícios de condicionamento (muito parecidos com as técnicas de condicionamento operante dos behavioristas), com o objetivo de desenvolver no “paciente/cliente” uma modalidade eficaz de pensamento positivo. A idéia central é a de reprogramar os pensamentos através de comandos verbais altamente diretivos, para que o paciente/cliente deixe de realizar pensamentos negativistas e passe a realizar (apenas) pensamentos positivos.
Os neurolingüístas trabalham com o conceito de inconsciente, mas de uma forma um tanto diferente dos psicanalistas. O inconsciente seria uma espécie de dimensão do psiquismo onde programações mentais para o sucesso ou o fracasso podem se edificar, tendo respectivamente conseqüências funcionais ou disfuncionais sobre o comportamento do indivíduo.
Em outras palavras, a neurolingüística obtêm seus resultados “quase imediatos” através de exercícios altamente diretivos baseados no seguinte conjunto de pressupostos ideológicos: pensar positivo sempre, cultivar a “inteligência emocional”, desintegrar os preconceitos e sentimentos de culpa contra o sucesso, etc.
O meio acadêmico tem criticado muito a neurolingüística por considerar que como “pseudo-ciência” a mesma cultiva uma ideologia imediatista e uma apologia do sucesso, baseada numa lógica neoliberal, importada da classe burguesa dos países desenvolvidos, em especial dos EUA. Assim, trata-se de uma disciplina onde a reflexão ou consciência social seria basicamente pouco incentivada (ou mesmo nula), e em termos psicológicos, não tocaria no essencial da psique. De fato, segundo pude observar, embora o corpo teórico da neurolingüística até fale algo sobre a importância do autoconhecimento, na verdade, ela não conta com um ferramental eficaz para tal.
Decorre daí, que um trabalho que se utilize exclusivamente da neurolingüística para tentar resolver problemas e melhorar a qualidade de vida das pessoas, obtém apenas resultados muito superficiais e pouco duradouros (mesmo que seja da forma rápida e prática, que os neurolingüístas argumentam, para justificar suas práticas, muitas vezes um tanto pueris) . De fato, o indivíduo pode se ver repentinamente estimulado a praticar o pensamento positivo, pode vivenciar algumas melhoras muito rápidas em seu padrão de vida, porém, o resultado não se estabiliza caso não haja o desenvolvimento de um processo de autoconhecimento, por exemplo, dentro de um processo terapêutico, pois as variáveis latentes que ocasionam os sintomas manifestos do paciente/cliente não sofreram nenhuma intervenção ou elaboração.
Não quero com isso dizer que a neurolingüística não tenha qualquer utilidade. Como técnica auxiliar, no futuro, talvez ela se mostre recomendável. Isso está fora de questão nesse trabalho, porém. O meu objetivo é mostrar que o emprego exclusivo, sistemático e ostensivo de uma técnica diretiva não é o melhor procedimento para tentar abreviar o tempo de tratamento de qualquer tipo de procedimento, inclusive (e principalmente) se for de um procedimento psicoterapeutico. Isso porque, um método ostensivamente diretivo com certeza obterá apenas resultados superficiais, não-duráveis, e ainda por cima, pode se sobrepor ao livre-arbítrio do paciente, ignorando a liberdade na individualidade como pressuposto básico de qualquer processo psicoterapêutico, tal como proposto por Rollo May (1982).
Esse é o motivo, também, porque Freud e Jung abandonaram uma outra técnica, conhecida como hipnose. Segundo Jung (1957), “o tratamento por sugestão (hipnose, etc.) não foi abandonado levianamente, mas porque os seus resultados eram deveras insatisfatórios. Na realidade, a sua aplicação era relativamente fácil e prática, permitia que um clínico habilidoso tratasse de vários pacientes ao mesmo tempo e, pelo menos, parecia ser o início auspicioso de um método realmente lucrativo. Contudo, os êxitos reais de cura eram tão esparsos e fugazes, que nem a promessa de uma possibilidade de terapia que pudesse ser simultaneamente aplicada às massas conseguiu salvar o tratamento por sugestão. Do contrário, os clínicos e as Caixas de Previdência teriam mostrado o máximo empenho em conservar esse método. Entretanto, ele foi abandonado devido a sua própria insuficiência”. É importante salientar que, aqui, Jung não está falando apenas da hipnose, mas de qualquer técnica sugestiva ou diretiva, quando usada de modo exclusivo.
Por outro lado, alguns pesquisadores – sem fazerem das assertivas de Jung, a última palavra – insistiram na pesquisa do uso e aprimoramento especificamente das técnicas de hipnose, culminado em várias modalidades de desenvolvimento e evolução que firmaram uma posição sólida na psicologia moderna. A escola Ericksoniana, por exemplo, se tornou uma das mais notórias.
Em linhas gerais, a hipnose se caracteriza pelo uso de técnicas de relaxamento, que podem variar da simples introspecção até a imersão em um “estado alterado de consciência” ou de “transe hipnótico”, que permite uma abertura mais direta para as camadas mais profundas da psique, possibilitando desde a manifestação desses conteúdos até a realização de uma espécie de “reprogramação” dos mesmos conteúdos, dependendo dos objetivos e do aparato técnico da escola teórica de hipnoterapia empregada. Algumas escolas utilizam a hipnoterapia, inclusive, para realizar o que costuma ser denominado “Terapias de Vidas Passadas”.
Toda essa evolução levou recentemente o Conselho Federal de Psicologia a reconhecer a hipnose como uma técnica complementar possível de ser usada na Psicoterapia, porém ainda é contra-indicada como procedimento exclusivo de trabalho[i].
Freud, por sua vez, também utilizou a hipnose e a abandonou quando constatou seus resultados irrisórios, quando utilizada como único método de um trabalho psicoterapeutico. Mas, isso não é tudo. Ele também abandonou a hipnose por julgar que tal técnica parecia anular o livre-arbítrio e a autonomia do paciente, já que esse se entregava completamente à sugestão. Por outro lado, a constatação de que alguns pacientes não eram sugestionáveis ou receptivos ao transe hipnótico, chamou a atenção de Freud para um fenômeno que mais tarde ele denominou de resistência. Sabemos que mais tarde Freud desenvolveu a técnica de livre associação em seu método psicanalítico, como substituta da hipnose já anteriormente abandonada.
Observamos então, que a neurolingüística procurou diminuir o tempo de “cura” ou mais precisamente buscou aumentar a rapidez com que atinge determinados resultados através da ênfase diretiva no comando de elaborar “pensamentos positivos”. A hipnose, por sua vez, também se mostrou um método para atingir resultados mais rápidos através de uma técnica de sugestão (portanto, também diretiva) caracterizada pela entrada num estado alterado de consciência (“transe hipnótico”). Tomadas de forma exclusiva, ambas as técnicas mostraram resultados irrisórios.
A Psicoterapia Breve, por sua vez, não se baseia em nada disso. Embora muitos autores a caracterizem pelo uso da focalização e da técnica ativa, portanto em dois processos basicamente diretivos, como foi dito, esse não é realmente o fundamento, e muito menos o segredo da eficácia de uma psicoterapia breve.
É interessante observamos que parece mais ou menos inerente ao imaginário popular a idéia de que para se atingir resultados eficazes com a psicoterapia breve, ou qualquer outra forma de tratamento, seja então necessário se adotar uma postura de comando, mais efetiva ou diretiva. Examinaremos a “origem filosófica” desse engodo posteriormente.
Há ainda, muito ceticismo difundido, quanto a eficácia da psicoterapia breve. Jung (1957), particularmente, tinha uma visão razoavelmente pessimista sobre os benefícios sociais de um processo breve. Em suas palavras, “... toda psicoterapia moderna que pretende ser responsável do ponto de vista médico e respeitada por sua seriedade científica, já não pode ser de massas, mas depende do interesse amplo e sem reservas dispensado a cada paciente individualmente. O procedimento é necessariamente muito trabalhoso e demorado. É certo que se fazem muitas tentativas no sentido de abreviar ao máximo a duração do tratamento, mas não se pode afirmar que os resultados tenham sido animadores. Porque quase sempre as neuroses são produto de uma evolução defeituosa, que demorou anos e anos para se formar, e não existe processo curto e intensivo que a corrija. O tempo é, por conseguinte, um fator insubstituível na cura” (Jung, 1957).
Sem dúvidas são observações
suficientemente polêmicas para incentivarem variadas reflexões. Com base
nelas, talvez muitos deixassem de investigar as possibilidades da psicoterapia
breve (embora seja paradoxal, que Jung tenha deixado diversas contribuições teóricas
e práticas que contribuam para a realização de um trabalho de psicoterapia
breve, como veremos).
Porém Gilliéron (1986), audaciosamente, questionando os argumentos da “lentidão das modificações psíquicas profundas”, e a “atemporalidade” dos processos inconscientes, com suas pesquisas em Lausanne, derrubou o paradigma de que só é possível a realização de psicoterapia breve com o uso de procedimentos mais diretivos, ativos ou “focalizados”, mostrando ao contrário, que é possível obter-se mudanças duradouras por meio de uma psicoterapia de curta duração, e que essas mudanças são acompanhadas por modificações estruturais de personalidade[ii], através de um método no qual sem renunciar ao estabelecimento de hipóteses psicodinâmicas durante a fase de investigação, permitisse o livre curso às associações do paciente, sem determinar previamente o problema consciente a ser tratado e sem exigir do terapeuta uma atitude particularmente ativa. Ao contrário, solicitou-se do terapeuta, que adotasse se possível, como em psicanálise, uma atitude de atenção flutuante e não mais uma atenção focalizada.
Os resultados de sua pesquisa, baseado no estudo comparativo das várias técnicas e procedimentos em psicoterapia breve utilizada pelos mais diferentes autores, evidenciou que, do ponto de vista epistemológico, o campo da Psicoterapia Breve representa uma linha de pesquisa que investiga como o manejo técnico do enquadre psicológico afeta (1º) a maneira como o paciente organiza seus conteúdos e representações psíquicas, bem como os expressa ou manifesta no setting terapêutico. Mas isso não é tudo: também investiga a maneira como o manejo do enquadre influencia (2º) a organização técnica e psíquica do psicoterapeuta, bem como (3º) a relação paciente-terapeuta - aí complementa-se o fundamento e o segredo da eficácia da terapia breve.
Se o terapeuta tiver consciência que esses são os axiomas que fundamentam um trabalho de psicoterapia breve, ele poderá realizar essa modalidade de trabalho clínico utilizando qualquer abordagem teórica (comportamental, psicanalítica, fenomenológica, etc), e empregando qualquer combinação de técnicas (ativas, não-ativas, focalizada, não-focalizada, etc.).
Para ilustrar, tomemos como exemplo, um paciente (P) que tenha uma queixa de fobia social e depressão moderada. Vamos imaginar que (P) seja recebido por um terapeuta (T) que possua todas as qualidades técnicas e humanas para realizar esse atendimento. Do ponto de vista técnico, vamos imaginar que ele domine várias técnicas dentro de uma determinada escola teórica de sua escolha. Vamos ainda, supor, que do ponto de vista humano, ele seja um terapeuta acolhedor, empático, que investe continuamente em seu processo de autoconhecimento, etc. Ou seja, realizando um “raciocínio clínico-experimental”, vamos imaginar que todas as condições técnicas e humanas citadas permaneçam constantes. Se variarmos, então, e somente então, as variáveis do enquadre, especialmente, as variáveis espaço-temporais, é bastante provável que o processo psicoterapeutico seja afetado de uma maneira em um tipo de enquadre (por exemplo, se for proposto uma psicoterapia por tempo indeterminado) e seja afetado de um modo diferente em outro enquadre (por exemplo, de psicoterapia de tempo delimitado).
Assim, vamos supor que para o mesmo paciente (P), o terapeuta (T) proponha tratar a problemática do paciente através de uma psicoterapia por tempo indeterminado. Sob a ótica do paciente, por exemplo, pode ser que ele se sinta com “todo o tempo do mundo” para tratar de sua problemática, e por isso, em algumas sessões, o paciente pode se permitir adotar um discurso dispersivo, ou em outras sessões pode adotar posturas diversas de resistência ao seu melhoramento, como ficar circulando o seu discurso mais sobre lamentações infindáveis do que sobre propostas de solução e elaboração de seus problemas.
Vamos supor, em outro caso, que o terapeuta (T), - por diversos motivos, institucionais, ou pessoais - proponha ao paciente (P) uma psicoterapia de tempo delimitado de 12 sessões. O simples fato de (P) saber que possui “apenas” 12 sessões para tratar de sua problemática pode ser um estímulo para que ele se motive, e então, se movimente mais ativamente no sentido de elaborar as suas angústias. A própria maneira como (P) irá realizar as exposições verbais de suas queixas deve ser diferente. O paciente pode optar por ser mais direto em suas colocações, menos dispersivo, pode ficar mais empenhado durante o período entre uma sessão e outra, a refletir e selecionar melhor o que irá expor na psicoterapia, etc. Ou pode se tornar mais resistente, evitando de todas as formas possíveis entrar no âmago de suas problemáticas existenciais.
Até aqui estamos “experimentalmente” supondo que o terapeuta (T) manterá a posse de suas qualidades técnicas e humanas, em ambas as situações, e apenas variado as características do enquadre, estamos supondo que o paciente reorganizará a sua forma de lidar com o processo psicoterapêutico. Aliás, como afirma Gilliéron (1986) é o enquadre que garante a existência de um processo. Sem um enquadre, nós teríamos um simples diálogo informal entre duas pessoas, num procedimento não-científico, ainda que com algum valor terapêutico. Qualquer interpretação provinda do psicólogo seria um mero comentário como em um diálogo qualquer. A interpretação só ganha validade e qualidade terapêutica dentro de dinâmica interna de um enquadre, e isso já é um parâmetro para diferenciar uma psicoterapia de um diálogo entre amigos. Sobre isso voltarei mais tarde.
O importante agora é situar a posição do terapeuta mais precisamente. De fato, em ambas as situações, as características técnicas e humanas do terapeuta se mantêm constantes, no sentido de serem qualidades inerentes do mesmo. Mas, a simples modificação ou adoção de um ou outro tipo de enquadre, será suficiente para ele manejar essas qualidades de uma maneira diferente em cada situação. Por exemplo, na psicoterapia por tempo indeterminado, o psicoterapeuta pode gastar muito mais tempo para elaborar o seu diagnóstico, do que na psicoterapia breve. Nessa última situação, o terapeuta precisará ser capaz de realizar um raciocínio muito mais rápido para elaborar o seu diagnóstico, que será mais relativo, menos detalhado e conclusivo que na psicoterapia por tempo indeterminado. Durante o próprio processo, o terapeuta numa psicoterapia breve pode se ver mais pressionado, por exemplo, a realizar um raciocínio mais sintético ou a manter uma visão mais global do processo como um todo, além de precisar manter uma rapidez de raciocínio que lhe permita diagnosticar rapidamente algumas sutilidades do padrão discursivo do seu paciente (ele precisa estar atento ao que Erickson chamava de “dicas mínimas” do paciente e do ambiente), ao mesmo tempo em que se instrumentaliza para realizar intervenções mais eficazes (por isso, a psicoterapia breve se tornou também um campo de pesquisa das técnicas mais eficazes constatadas na ciência clínica psicológica). A forma de acolher do terapeuta pode ser manejada de forma diferente também. Tudo isso, indica que embora tenhamos “imaginado experimentalmente” que suas características técnicas e humanas se mantivessem constantes, após a mudança do enquadre espaço-temporal como única variável manipulada, na verdade, não é bem isso o que ocorre, pois a mudança de disposição espaço-tempo, ou do enquadre psicológico, acabou demandando um reajuste tão variado de reações do cliente e do terapeuta, que para esse último, acaba-se surgindo uma demanda por uma formação técnica específica para a realização de uma psicoterapia breve. Daí a necessidade de cursos de capacitação e especialização para o profissional dessa área. Como afirma Lowenkron (1993), os estudo de conceitos fundamentais de alguma teoria de psicologia profunda, como a psicanálise ou outra, conjugado à supervisão de casos é indispensável à sedimentação da experiência do clínico em psicologia breve.
Na “situação clínica-experimental imaginada”, vimos que a própria situação gerada por um ou outro tipo de enquadre escolhido (terapia por tempo indeterminado ou psicoterapia breve) irá provocar essa demanda. É como se o enquadre, nessa perspectiva, tivesse “vida própria”, exercendo natural e espontaneamente uma pressão em um sentido de organização ou outro.
Se por um lado (1) o paciente precisa se ajustar a cada situação de enquadre de uma maneira, e (2) o terapeuta precisa realizar um novo manejo de suas qualidades pessoais e técnicas (nesse último caso, surge mesmo, a demanda de uma formação técnica específica), há ainda um terceiro fator. Os dois primeiros fatores se situam ainda no registro do intrasubjetivo de cada um, tanto no paciente como no terapeuta. Mas, há também um terceiro fator que se situa no âmbito do interpessoal, e diz respeito (3) à relação paciente-terapeuta, que então é manejada de forma diferente em um ou outro tipo de enquadre (breve ou prolongado). Nesses três aspectos se encontra a chave para a realização de uma psicoterapia breve eficaz ou desastrosa, bem como os elementos que diferenciam a psicoterapia breve das outras formas de procedimento que tentam reduzir o tempo de tratamento do paciente, como a hipnoterapia ou a neurolingüística. Essas se baseiam em técnicas básicas de sugestão, enquanto qualquer psicoterapia (breve ou não) se baseia quase nada em sugestão, mas sim na busca e explicitação sistemática dos significados das representações psíquicas do paciente, primordialmente para o próprio paciente.
Por fim, devemos lembrar que as alterações no enquadre espaço-temporal debatidas implicou numa revisão dos objetivos de uma psicoterapia breve, bem como dos critérios de avaliação quanto aos seus resultados obtidos. Ou seja, um terapeuta não pode manter na psicoterapia breve, os mesmos objetivos que mantinha na psicoterapia por tempo indeterminado. Além disso, não se torna cabível avaliar os resultados obtidos numa psicoterapia breve tomando como parâmetros os objetivos que se desejam obter numa Análise clássica, pois se assim se proceder, o psicoterapeuta sempre concluirá que o seu trabalho de psicoterapia breve obteve um resultado abaixo do esperado, ou foi um fracasso.
Os psicoterapeutas de tempo delimitado historicamente sentiram a necessidade de responder às exigências do novo modelo de enquadre breve, desenvolvendo técnicas interventivas mais ativas e focalizadas. Tanto que para muitos autores, a terapia breve é muitas vezes chamada de “terapia focal” (Melo, 1998). A focalização, o ecletismo técnico, e a intervenção ativa se popularizaram de tal forma, que para muitos autores (mesmo com muita experiência na área) essas variações passaram a ser consideradas (erroneamente) como o “fundamento” e/ou como a própria “definição” do que seja a psicoterapia breve. Gillierón (1986) como já dissemos, com suas pesquisas, ao obter resultados satisfatórios com a psicoterapia breve sem utilizar essas técnicas, demonstrou que o fundamento metodológico e epistemológico não é outra coisa senão o manejo espaço-temporal do enquadre psicológico, sendo possível em verdade obter resultados adequados com qualquer combinação de técnicas, desde que se compreenda a importância da instrumentação do princípio mais estruturante do enquadre. Vamos então aprofundar esse princípio de valor heurístico, para depois aprofundar o estudo das variações técnicas tão populares entre psicoterapeutas breves, como a focalização, as teorias de crise, o ecletismo técnico, as técnicas ativas, porém agora, recontextualizando-as não como o fundamento das psicoterapias breves, mas sim como sendo os reajustes técnicos e humanos mais adotados por diferentes profissionais, como conseqüência do manejo do enquadre espaço-temporal na psicoterapia, sendo que a despeito da popularidade dessas técnicas na bibliografia especializada, elas não devem ser consideradas como imprescindíveis (ainda que assim, discordemos de autores expressivos na área como Vera Lemgruber, e outros), mas sim como opções possíveis de serem adotadas ou não. Mais à frente, analisaremos a relação intersubjetiva entre paciente e terapeuta. O método teórico de pesquisa aqui adotado será mais a extração dos aspectos significantes no estudo comparativo entre os vários autores na literatura especializada, do que a pormenorização exaustiva dessa ou daquela técnica, o que já é feito por cada autor individualmente na bibliografia investigada e citada nesse trabalho.[i] Conheço por exemplo, um caso de uma moça que buscou um hipnoterapeuta para tratar de um sintoma de ansiedade extremado. O profissional, ironizando as técnicas da psicoterapia tradicional, afirmou onipotentemente à paciente que iria “reprogramar” a mente dela, para que não sentisse mais ansiedade, em um tempo muito mais rápido do que o de qualquer psicoterapia. Após tê-la ouvido, eu havia alertado essa moça de que tal “solução mágico-idealizada” teria um alcance muito limitado, e duraria apenas alguns meses, se ela não se envolvesse em um trabalho mais profundo de autoconhecimento – como uma psicoterapia – para trabalhar as variáveis latentes dessa ansiedade. Claro que fui ignorado... O resultado é que depois de quase três meses (até que o resultado durou mais do que eu esperava), a ansiedade voltou com a mesma intensidade, e a moça não conseguia entender o porque. Certamente, se a hipnose tivesse sido utilizada como técnica complementar de um processo psicoterapêutico, o resultado teria sido muito mais funcional. Mas, não é desconhecido que o imediatismo, muitas vezes, “cega” as pessoas.
[ii] Na verdade, a possibilidade da realização de modificações estruturais da personalidade em terapia breve, surgiu anteriormente com os trabalhos de David Malan, que por sua vez influenciaram, junto com os trabalhos de Balint, as pesquisas de Gilliéron. Porém, coube a esse último o mérito de observar que tais modificações podem ser obtidas prescindindo do uso de processos diretivos (técnica ativa, focalização, etc), ao mesmo tempo que lhe coube o mérito de melhor situar a importância do manejo técnico do enquadre psicológico, como variável fundamental para explicar a eficácia da psicoterapia breve, e lhe oferecer a sua matriz de fundamentação metodológica. Com isso, o método de Gilliéron, do ponto de vista filosófico, respeita e dá embasamento para o pressuposto existencialista da “Liberdade na Personalidade”, ou da preservação da autonomia do paciente no processo psicoterapeutico, contingente a seu processo de individuação e de caminho de vida, tal como preconizado por Rollo May (1982). Do ponto de vista dos autores de orientação psicossocial, isso significa respeitar o direito à cidadania e à dignidade do paciente. Do ponto de vista religioso e da Psicologia Espírita, significa respeitar o direito cristão de livre-arbítrio, como algo inclusive, que se situa no registro do sagrado.