A teoria psicológica da Sincronicidade

 

            Carl Gustav Jung inicia a exposição em seu livro sobre a teoria psíquica da Sincronicidade afirmando que,

 

            “As descobertas da Física moderna, como bem sabemos, produziram uma mudança significativa em nossa imagem científica do mundo, por haverem abalado a validade das leis naturais, tornando-as relativas” (Jung, 1971).

 

            Aqui, já nessa frase, observamos que antes de introduzir de maneira direta o tema da sincronicidade, Jung realiza algumas observações baseadas nas teorias da Física Relativista de Albert Einstein. Como afirma Stein(1998), a teoria da relatividade de Einstein deve ter conquistado a imaginação de Jung, ainda que ele não entendesse os seus detalhes ou as provas matemáticas que a embasavam. Tanto que numa carta a Carl Seelig[1], Jung escreve que

 

            “O Professor Einstein foi meu convidado para jantar em muitas ocasiões... Estava ele começando então a desenvolver a sua primeira teoria da relatividade. Procurava instalar em nós os elementos dela, com maior ou menor dose de êxito. Como não-matemáticos, nós, psiquiatras, tínhamos certa dificuldade em seguir sua argumentação. Compreendi, no entanto, o suficiente para formar uma poderosa impressão de Einstein. Foi, sobretudo, a simplicidade e franqueza de seu gênio como pensador que me impressionou de modo irresistível e exerceu uma duradoura influência sobre o meu próprio trabalho intelectual. Foi Einstein quem primeiro me levou a pensar sobre uma possível relatividade tanto do tempo quanto do espaço, a sua condicionalidade psíquica. Mais de trinta anos depois, esse estímulo propiciou o meu relacionamento com o físico Professor Wolfgang Pauli, e a elaboração da minha tese sobre sincronicidade psíquica” (retirado de Stein, 1998) – grifos meus.

 

            Ou seja, é através da influência de Albert Einstein que Jung tem sua “primeira e vaga suspeita” sobre a existência do fenômeno da sincronicidade, e é a sua associação com a física moderna que fornece o contexto histórico apropriado para a sua teorização sobre o mesmo (Stein, 1998).

            As relações entre Jung e os grandes gênios da física fazem parte de uma história pouco conhecida, mesmo pelos próprios psicólogos junguianos. É uma história que ainda tem de ser contada na íntegra. Normalmente Jung é muito associado a Freud, ou a influências de teorias “místicas”. Mesmo as influências de filosofias fenomenológicas, existencialistas e orientais é mais estudada na teoria junguiana, do que as influências que ele recebeu da Física Moderna. Mas, o fato é que físicos famosos desempenharam um papel na formação da teoria da sincronicidade, tanto em seu começo, como na sua conclusão.

            Além de Einstein e Pauli, havia também muitas outras figuras destacadas da Física Moderna que habitavam Zurique na primeira metade do século XX e realizavam conferências ou davam aulas na Universidade Politécnica onde Jung era professor de psicologia na década de 1930. Segundo Stein (1998), Zurique era um autêntico viveiro da física moderna nas primeiras décadas do século XX, e seria quase impossível ignorar o estimulante fermento criado por esses intelectos. Havia a clara impressão de que a natureza da realidade física estava sendo fundamentalmente repensada e Jung começou desde cedo a meditar sobre as semelhanças entre a física moderna e a psicologia analítica. Jung cita a obra de Pascual Jordan, que realizara um trabalho de grande valor científico sobre a clarividência espacial, e cita desse mesmo autor a obra “Repressão e Complementaridade”, que considera importante para o conhecimento das relações entre a microfísica e a psicologia do inconsciente. Marie-Louise von Franz também assinala que, Jung em colaboração estreita com Pauli, descobriram que a psicologia analítica viu-se forçada, por investigações em seu próprio campo, a criar conceitos que mais tarde se revelaram incrivelmente semelhantes àqueles criados pelos físicos ao se confrontarem com fenômenos microfísicos (Jung, 1964). Nesse ponto, as similaridades vão além do conceito de sincronicidade e englobam outros conceitos de ambas as ciências.

            Limitando-nos ao ensaio sobre sincronicidade, esse foi sem dúvida o resultado de inúmeros debates entre Jung e os grandes físicos de sua época e local de atuação, durante os trinta ou mais anos que precederam a sua forma e publicação finais.

            Na visão de Stein (1998), a teoria da sincronicidade se combina harmonicamente com a teoria dos arquétipos e do Si-Mesmo (ou do Self). O autor discorda dos que criticam Jung por achá-lo um autor confuso, incoerente e contraditório (erroneamente, há quem pense ser impossível realizar um resumo ordenado da teoria analítica de C. G. Jung) e pelo contrário, considera que Jung produziu na realidade uma teoria psicológica coerente, como se fosse uma “obra de arte cujas partes estão em perfeita harmonia entre si, atraindo e seduzindo a uns e não a outros” (Stein, 1998, p. 16 e 17).

            Na verdade, Jung possui uma visão unificada da psique, apresentando porém, uma evolução de pensamento entre o início e o final de sua obra, construída ao longo de décadas de pesquisa. Não poderia ser diferente. Ele reviu muitos de seus conceitos e idéias, mas a sua teoria ainda que possa ser de difícil compreensão, está longe de ser desordenada. Para apreender toda a extensão da teoria do Si-Mesmo, ela tem de ser considerada dentro do contexto do pensamento de Jung sobre sincronicidade, que para ser compreendida, precisa ser vista sob a ótica da teoria junguiana dos arquétipos.

            Essa é uma das razões por que poucos psicólogos seguiram a orientação de Jung no tocante à teoria dos arquétipos. Ela torna-se metapsicológica, à beira de tornar-se metafísica, e poucos psicólogos se sentem à vontade em todas as áreas requeridas para abranger essa teoria em toda a sua plenitude – psicologia, física e metafísica. Segundo Stein (1998),

 

“... é um nível intelectual que poucos pensadores modernos podem nutrir a esperança de alcançar. Os mestres universitários mostram-se sumamente cautelosos em dar um passo além dos limites das especialidades de seus respectivos departamentos. A teoria da sincronicidade ajusta-se à visão de Jung do si-mesmo como uma característica de radical transcendência sobre a consciência e a psique como um todo, e desafia as linhas de fronteira comumente traçadas para separar as faculdades de psicologia, física, biologia, filosofia e espiritualidade” (p.180).

 

A noção de sincronicidade é um dos conceitos-chave para discorrer sobre a relação entre psicologia junguiana e física moderna. Os textos de Jung exploram a ordem significativa em eventos aparentemente aleatórios. Assinala ele – como muitos outros autores também o fizeram – que as imagens psíquicas e os acontecimentos objetivos estão organizados, por vezes, em configurações claramente definidas, e que esses padrões ocorrem por acaso e não em virtude de uma cadeia causal de eventos precedentes. Por outras palavras, não existe uma razão causal para que a configuração apareça. Ela ocorre puramente por acaso (Stein, 1998).

Seguindo a linha de raciocínio de Jung (1971), ele argumenta inicialmente que,

 

“... As leis naturais são verdades estatísticas, vale dizer que elas só são inteiramente válidas quando lidamos com quantidades microfísicas. No âmbito de quantidades muito pequenas a predição torna-se incerta, quando não impossível, porque as quantidades muito pequenas já não se comportam de acordo com as leis naturais conhecidas” [2].

 

O autor continua argumentando que,

 

“O princípio filosófico em que baseio minha concepção das leis naturais é o da causalidade. Se o nexo entre causa e efeito é apenas estatisticamente válido e só relativamente verdadeiro, o princípio da causalidade, em última análise, só pode ser utilizado de maneira relativa, para explicar os processos naturais e, por conseguinte, pressupõe a existência de um ou mais fatores necessários para esta explicação. Isto é o mesmo que dizer que a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige um outro princípio de explicação[3].

 

Jung, então, aponta que acontecimentos acidentais têm uma tendência a formar grupos aperiódicos. Von Franz a esse respeito realiza o seguinte comentário:

 

“Assim que se percebeu que certos tipos de acontecimentos ´gostam´ de se agrupar em determinados momentos, começamos a entender a atitude dos chineses, cujas teorias a respeito de medicina, filosofia e mesmo de construção são baseadas em uma ´ciência´ de coincidências significativas. Os textos clássicos chineses não perguntam o que causa alguma coisa, mas sim que fato ´gosta´ de ocorrer juntamente com um outro” (Jung, 1964) – grifos meus.

 

Jung fornece alguns exemplos concretos, alguns retirados de sua própria experiência pessoal, ao qual ele descreve da seguinte maneira:

 

“No dia 1º de abril de 1949 anotei o seguinte: (1º) Hoje é sexta-feira. Teremos peixe no almoço. (2º) Alguém mencionou de passagem o costume do “peixe de abril”. (3º) De manhã, eu anotara uma inscrição: Est homo totus medius piscis ab imo (o homem todo é peixe pela metade, na parte de baixo). (4º) À tarde, uma antiga paciente, que eu já não via desde vários meses, mostrou-me algumas figuras extremamente impressionantes de peixes que ela pintara nesse entretempo. (5º) À noite mostraram-me uma peça de bordado que representava um monstro marinho com figura de peixe. (6º) No dia 2 de abril, de manhã cedo, uma outra paciente antiga, que eu já não via desde vários anos, contou-me um sonho no qual estava à beira de um lago e via um grande peixe que nadava em sua direção e ´aportava´, por assim dizer, em cima de seus pés. (7º) Por esta época, eu estava empenhado numa pesquisa sobre o símbolo do peixe na História. Só uma das pessoas mencionadas tem conhecimento disto”. 

 

Ou seja, ao mesmo tempo em que Jung estava empenhado em sua pesquisa sobre o simbolismo histórico do peixe, o tema do “peixe” se repetiu seis vezes, no espaço de vinte e quatro horas. Mais do que isso, após escrever todo esse relato, ao sair de sua casa, Jung se deparou com um peixe morto em um lago próximo à sua residência. Jung relata sua suspeita de se tratar a série de uma coincidência significativa, isto é, uma conexão acausal. A sucessão de acontecimentos em questão, o deixou impressionado, e lhe pareceu ter um certo caráter numinoso. Ele sublinha que cada série individualmente pode ter uma explicação causal de sua ocorrência (por exemplo, comer peixe na sexta-feira é comum), mas não é possível estabelecer uma relação de causa e efeito sobre toda a seqüência de coincidências.

Ele declara que,

 

“Quando as coincidências se acumulam desta forma, é impossível que não fiquemos impressionados com isto, pois, quanto maior é o número dos termos de uma série desta espécie, e quanto mais extraordinário é o seu caráter, tanto menos provável ela se torna” (Jung, 1971).

 

Em outro momento Jung declara que o problema da sincronicidade o ocupou ao investigar os fenômenos do inconsciente coletivo, e então se deparar, constantemente, com conexões que não podia explicar simplesmente como sendo grupos ou “séries” de acasos. Tratava-se, antes, de “coincidências’ de tal modo ligadas significativamente entre si, que seu concomitante “casual” representa um grau de improbabilidade que seria preciso exprimir mediante um número astronômico. Como veremos isso irá ocorrer em uma série de experimentos propostos por Rhine, na parapsicologia. Mas, também existem exemplos que Jung cita tanto na vida cotidiana, quanto em seus atendimentos clínicos.

 

Jung cita uma experiência clínica com uma jovem paciente que se mostrava psicologicamente inacessível, devido a seu extremo racionalismo cartesiano, e sua concepção “geometricamente impecável da realidade”. Ela (ou melhor, como dizia Jung, o seu animus) acreditava saber sempre melhor as coisas do que os outros.

Jung declara então, que

 

“... após algumas tentativas de atenuar o seu racionalismo com um pensamento mais humano, tive de me limitar à esperança de que algo inesperado e irracional acontecesse, algo que fosse capaz de despedaçar a retorta intelectual em que ela se encerrara. Assim, certo dia eu estava sentado diante dela, de costas para a janela, a fim de escutar a sua torrente de eloqüência. Na noite anterior ela havia tido um sonho impressionante no qual alguém lhe dava um escaravelho de ouro (uma jóia preciosa) de presente. Enquanto ela me contava o sonho, eu ouvi que alguma coisa batia de leve na janela, por trás de mim. Voltei-me e vi que se tratava de um inseto alado de certo tamanho, que se chocou com a vidraça, pelo lado de fora, evidentemente com a intenção de entrar no aposento escuro. Isto me pareceu estranho. Abri imediatamente a janela e apanhei o animalzinho em pleno vôo, no ar. Era um escarabeído, da espécie da Cetonia aurata, o besouro-rosa comum, cuja cor verde-dourada torna-o muito semelhante a um escaravelho de ouro. Estendi-lhe o besouro, dizendo-lhe: ´Está aqui o seu escaravelho´. Este acontecimento abriu a brecha desejada no seu racionalismo, e com isto rompeu-se o gelo de sua resistência intelectual. O tratamento pôde então ser conduzido com êxito”. 

 

Esse exemplo de sincronicidade se tornou clássico na obra de Jung. Ele pode ser utilizado como paradigma para argumentarmos que a sincronicidade pode estar relacionada há uma necessidade evolutiva do Self.

Além desse exemplo clínico, Jung fornece outro ocorrido na vida prática:

 

“... A mulher de um de meus pacientes, homem de seus cinqüenta anos, contou-me certa vez, no decorrer de uma conversa, que, por ocasião da morte de sua mãe e sua avó, um grande número de pássaros reuniu-se do lado de fora, defronte à janela da câmara mortuária: uma narrativa semelhante à que ouvira, mais de uma vez, da boca de outras pessoas. Quando o tratamento do seu marido se encaminhava para o fim, com sua neurose eliminada, ele desenvolveu sintomas aparentemente desprezíveis, que eu relacionei com um mal do coração. Enviei-o a um especialista que, depois de examina-lo, me comunicou por escrito não haver podido constatar nenhuma causa de distúrbio. Ao voltar do consultório (com o diagnóstico médico no bolso), meu paciente teve um colapso no meio da rua. Enquanto era levado, moribundo, para casa, sua mulher se achava já em um estado de grande ansiedade, porque, logo que seu marido saíra para ir ao médico, um grande bando de pássaros pousara no telhado da casa. Naturalmente, ela logo se lembrou dos incidentes parecidos, que ocorreram por ocasião da morte da mãe e da avó, e temeu o pior...”.  

 

Jung também cita – em nota de rodapé - um exemplo de divertido episódio de tríplice coincidência (p.9). Trata-se do episódio de Monsieur de Fontgibu e o pudim de passas. Eis a descrição do caso

 

“Um certo M. Deschamps, quando menino em Orleas, recebeu uma vez um pedaço de pudim de passas dado por um certo M. de Fontgibu. Dez anos depois descobre ele um outro pudim de passas num restaurante de Paris, e pede um pedaço dele. Fica sabendo que o pudim já tinha sido encomendado por M. de Fontgibu. Vários anos depois M. Deschamps foi convidado para partilhar de um pudim de passas, como uma raridade especial. Enquanto o comia, ele observou que desta vez só faltava a presença de M. de Fontgibu. Neste momento, a porta se abre e entra um senhor muito idoso e desorientado: M. de Fontgibu, que errara o endereço e irrompera por engano nessa reunião...”.

 

Até aqui, temos o primeiro aspecto do conceito de sincronicidade a ser salientado. A etimologia dessa palavra – segundo Jung – tem alguma coisa a ver com o tempo ou, para sermos mais exatos, com uma espécie de simultaneidade. Mas, em vez de simultaneidade, Jung propõe o conceito de coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos.

 

I) A influência de Schopenhauer

 

 

Jung baseia alguns de seus conceitos no tratado “A Intencionalidade Aparente no Destino do Indivíduo” de Schopenhauer. Esse filósofo argumenta que todos os acontecimentos da vida de uma pessoa estão em sintonia com duas espécies de conexão fundamentalmente diferentes:

 

1º) Numa conexão objetiva causal do processo natural;

2º) Numa relação subjetiva que só existe com respeito ao indivíduo que a experimenta, e que é, portanto, tão subjetiva quanto os seus próprios sonhos.

 

Segundo declara Schopenhauer

 

“... O fato de essas duas espécies de conexão existirem simultaneamente e o mesmo fato, embora sendo um elo entre duas cadeias inteiramente diferentes, se encaixar perfeitamente entre as duas, de sorte que o destino de um indivíduo se ajuste ao destino dos outros e cada um seja seu próprio herói e, ao mesmo tempo, o figurante num drama alheio, é realmente algo que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão e só pode ser concebido em virtude da maravilhosíssima harmonia praestabilita (harmonia preestabelecida)” (Jung, 1971).

 

Assim, na sua opinião, o “sujeito do grande sonho da vida” é a vontade, a prima causa, de onde se irradiam todas as cadeias causais, que se acham entre si numa relação de simultaneidade significativa. Por isso, Schopenhauer acredita no determinismo absoluto do processo natural e, ainda, numa causa primeira.

Segundo Jung (1971, p. 7), nada existe que abone essas concessões: a causa primeira é um mitologema que só merece crédito quando aparece sob a forma de um velho paradoxo – “todas as coisas são uma só”, ou seja, ao mesmo tempo, como unidade e multiplicidade.

Schopenhauer pensou escrever em uma época em que a causalidade tinha validade absoluta como categoria a priori e, por isto, devia ser citada, para explicar coincidências significativas.

Mas, nesse contexto, a causalidade só pode desempenhar essa função com alguma probabilidade de êxito se recorrer a outro pressuposto, também arbitrário, que é o da unidade da prima causa.

Isso é o mesmo que considerar que haveria genuínas combinações acausais de acontecimentos para cuja explicação ou interpretação dever-se-ia postular um fator incomensurável com a causalidade, sendo preciso, então, admitir que os acontecimentos em geral estão relacionados uns com os outros , por um lado, como cadeias causais e, por outro lado, também por uma espécie de conexão cruzada significativa.

Schopenhauer, de fato, de acordo com a sua filosofia, faz uso de um pressuposto transcendental que possa preencher essa necessidade: trata-se do pressuposto transcendental da vontade, que cria a vida e o ser em todos os níveis e sintoniza cada um destes níveis entre si, de tal maneira que está em harmonia não só com seus paralelos sincrônicos, mas prepara e dispõe os eventos futuros sob forma de fatalidade ou Providência.

O determinismo absoluto do processo natural proposto por Schopenhauer esbarra num problema: ele parece ultrapassar os limites do estatisticamente possível, porque atribui à coincidência significativa uma existência ou ocorrência de tal modo regular e sistemática, que sua verificação seria inteiramente desnecessária ou a coisa mais simples do mundo[4]. 

Seja como for Schopenhauer reconheceu que a Astrologia e os vários métodos intuitivos de interpretação dos acontecimentos casuais têm, todos eles, um denominador comum (que ele procurou descobrir por meio de uma especulação transcendental).

Jung notou que Schopenhauer

 

“... reconheceu, também corretamente, que se tratava de um problema de princípio de primeira ordem, ao contrário de todos aqueles que, depois dele, operaram com conceitos inúteis de ´transferência de energia´ ou mesmo rejeitaram tranqüilamente tudo isto como sendo um contrasenso, para evitarem uma tarefa difícil demais”.

 

Jung aponta Kant, cujo tratado “Sonhos de um vidente espiritual explicados pelos sonhos da metafísica” foi uma obra que inspirou Schopenhauer. Esse, porém, introduziu forçadamente no esquema causal conceitos que parecem dizer respeito a uma ordem paralela à causalidade: a prefiguração, a correspondência e a harmonia preestabelecida.

 

II) A influência da Parapsiologia

 

Jung (1971) cita que fatos reunidos por pesquisadores como Gurney, Myers, e Podmore estimularam Dariex, Richet e C. Flammarion a tratarem do problema com base no cálculo das probabilidades:

 

1º) Assim, Dariex descobriu uma probabilidade de 1/4.114.545 para a precognição “telepática” da morte, o que significa que a explicação de tal fato premonitório como obra do acaso é, portanto, acima de um milhão de vezes mais improvável do que a coincidência “telepática’ ou coincidência acausal significativa.

 

2º) O astrônomo Flammarion calculou uma probabilidade não inferior a 1/804.622.222 para um caso de phantasms of living (fantasmas dos vivos), particularmente bem observado. Ele foi também o primeiro a relacionar outros acontecimentos suspeitos com o interesse, então vigente, pelas precognições de morte.

 

3º) O problema do acaso foi tratado do ponto de vista psicológico por Herbert Silberer. Ele provou que coincidências aparentemente significativas são arranjos parcialmente inconscientes e interpretações arbitrárias parcialmente inconscientes. Ele também critica a nossa maneira de avaliar ou conceber o conceito de acaso.

 

Para Jung (1971) a prova decisiva da existência de combinações de acontecimentos acausais foi apresentada de maneira científica adequada, apenas com os experimentos parapsicológicos de J. B. Rhine e seus colaboradores, sobre ESP (extra-sensory-perception), embora tais autores não tenham reconhecido as conclusões de longo alcance que se deveriam extrair de suas descobertas.

Mesmo atualmente, nenhum argumento crítico irrefutável foi apresentado contra esses experimentos. Ele usou um baralho de 25 cartas, divididas em 5 grupos de 5, cada um dos quais com um desenho próprio (estrela, retângulo, círculo, cruz, duas linhas onduladas).

A descrição dos experimentos é a seguinte: em cada série de experimentos retiravam-se aleatoriamente as cartas do baralho, 800 vezes seguidas, mas de modo que o sujeito (ou pessoa testada) não pudesse ver as cartas que iam sendo retiradas. Sua tarefa era adivinhar o desenho de cada uma das cartas retiradas. A probabilidade matemática calculada de acerto é de 1:5, mas o resultado médio obtido com um número muito grande de cartas foi de 6,5 acertos em 25 cartas (ou seja, 1,5 acima da probabilidade matemática, que é de 5 acertos), e a probabilidade de um desvio casual de 1,5 é só de 1/250.000.

Alguns indivíduos alcançaram o dobro ou mais de acertos. Em um caso excepcional, um jovem que, em numerosas tentativas, alcançou a média de 10 acertos em cada 25 cartas (o dobro, portanto, do número provável), de uma vez acertou todas as 25 cartas, o que corresponde a uma probabilidade de 1/298.023.223.876.953.125.

Os resultados individuais, como se observou, parecem variar de acordo com os dotes específicos de cada sujeito experimental. Por outro lado, foram realizados experimentos variando a distância entre o experimentador e a pessoa testada, desde uns poucos metros até 4.000 léguas, sem afetar os resultados.

Por exemplo, quando aumentada a distância entre o experimentador e o sujeito experimental, em até 350 quilômetros, o resultado médio de numerosas tentativas foi de 10,1 acertos em 25 cartas.

Em outra série de tentativas, quando ambos se achavam na mesma sala, o resultado foi de 11,4 acertos; quando o sujeito experimental estava numa sala vizinha, foi de 9,7, e quando as duas salas estavam afastadas uma da outra, foi de 12 em 25. Ou seja, estatisticamente o resultado sempre esteve próximo do dobro do número provável, em alguns sujeitos experimentais.

Rhine menciona as experiências de Usher e Burt, realizadas com resultados positivos, a uma distância de mais de 960 léguas. Com a ajuda de relógios sincronizados, fizeram-se também experimentações entre Durham (Carolina do Norte) e Zagreb, na Iugoslávia (cerca de 4.000 léguas), também com resultados positivos.

 

Jung conclui desses dados empíricos e experimentais que, se a distância em princípio não tem influência no resultado, isso é prova de que o objeto aqui em estudo não pode ser um fenômeno de força ou energia, porque, do contrário, a superação da distância e a difusão no espaço deveriam causar uma diminuição do efeito e, como não é muito difícil de ver, o número de acertos deveria ser inversamente proporcional ao quadrado da distância. Como isto não aconteceu, Jung conclui que a distância é fisicamente variável e, em determinadas circunstâncias, pode ser reduzida a zero por alguma disposição psíquica.

Jung explica que mais notável ainda é o fato de que o tempo, em princípio, não é um fator negativo, isto é, a leitura antecipada de uma série de cartas a serem tiradas no futuro produz um número de acertos que ultrapassa os limites da probabilidade.

O experimento era o seguinte: mandava-se o sujeito adivinhar previamente a carta que iria ser retirada no futuro próximo ou distante. A distância no tempo foi aumentada de alguns minutos até duas semanas. O resultado desta experiência apresentou uma probabilidade de 1/400.000, o que significa uma probabilidade considerável de que haja um fator independente do tempo.

Os resultados da experimentação com o fator tempo aponta para uma relatividade psíquica do tempo, visto que se trata de percepções de acontecimentos que ainda não ocorreram. Em tais circunstâncias parece que o fator tempo foi eliminado por uma função psíquica, ou melhor, por uma disposição psíquica que é capaz de eliminar também o fator espaço.

Se já nas experimentações com o fator espaço éramos obrigados a constatar que a energia não diminuía com a distância, nas experimentações com o fator tempo é totalmente impossível pensar sequer em uma relação energética qualquer entre a percepção e o acontecimento futuro.

Por isto, devemos renunciar a todos os tipos de explicação em termos de energia, o que equivale a dizer que os acontecimentos desta natureza não podem ser considerados sob o ponto de vista da causalidade, pois a causalidade pressupõe a existência do espaço e do tempo, uma vez que todas as observações se baseiam, em última análise, sobre corpos em movimento.

 Jung ainda cita os experimentos PK (psicocinéticos) com dados, realizados por Rhine. Aqui, o sujeito experimental deve lançar dados, e ao mesmo tempo desejar que uma das faces com um número específico (por exemplo, o três) apareça o maior número possível de vezes. Os resultados foram positivos, e tanto mais vezes, quanto maior era o número de dados utilizados de uma só vez. Jung conclui que se o espaço e o tempo são fatores psiquicamente relativos, o corpo em movimento deve possuir também uma relatividade ou deve estar sujeito a ela.

Assim, resumindo: o experimento espacial parece mostrar que a psique pode eliminar o fator espaço até certo ponto. A experimentação com o tempo nos mostra que o fator tempo (pelo menos na dimensão futuro) pode ser relativizado psiquicamente. A experimentação com os dados nos indica que os corpos em movimento podem ser influenciados também psiquicamente, como se pode prever a partir da relatividade psíquica do espaço e do tempo. Por sua vez, para Jung, o postulado da energia é inaplicável no experimento de Rhine, o que exclui a idéia de transmissão de força, bem como a aplicação da lei da causalidade. Além disso, é impossível imaginar como um acontecimento futuro seja capaz de influir num outro acontecimento já no presente, ou em outros termos, seria absurdo admitir que uma situação ainda não existente, e que só se dará no futuro, possa transferir-se como fenômeno energético para um receptor do presente. Parece mais indicado dizer que a explicação deve começar, de um lado, com uma crítica ao nosso conceito de tempo e lugar e, do outro lado, com o inconsciente. Como atualmente é impossível qualquer explicação causal, forçoso é admitir – segundo Jung – a título provisório, que houve acasos improváveis ou coincidências significativas de natureza acausal.

Por causa dessa simultaneidade, Jung escolheu o termo sincronicidade para designar um fator hipotético de explicação equivalente à causalidade. Assim, Jung considera a sincronicidade como uma relatividade do tempo e do espaço condicionada psiquicamente.

                                                                                                                 

III) Inconsciente, arquétipos, afetos e sincronicidade

 

Segundo Jung (1971), nas experiências parapsicológicas de Rhine o tempo e o espaço se comportam, por assim dizer, “elasticamente” em relação à psique, podendo ser reduzidos, aparentemente à vontade: podem ser reduzidos mais ou menos a zero, como se dependessem de condições psíquicas, ou como se não existissem por si mesmos, mas sim, fossem “produzidos” pela consciência.

Ou seja, como afirma o próprio autor, “em si, o espaço e o tempo consistem em nada”. São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminatória da consciência, formando coordenadas que servem de parâmetro para descrever e medir o comportamento dos corpos em movimento. O tempo e o espaço são, para Jung, conceitos de origem essencialmente psíquica, o que é equivalente a hipótese de Kant que os considera como categorias a priori.

Jung conclui que “se o espaço e o tempo são propriedades aparentes dos corpos em movimento, criadas pelas necessidades intelectuais do observador, então sua relativização por uma condição psíquica, em qualquer caso, já não é algo de miraculoso, mas situa-se dentro dos limites da possibilidade” (Jung,l 1971).

Contudo, Jung assevera que essa possibilidade ocorre, quando a psique observa não o corpo exterior, mas a si própria. Ele salienta, por exemplo, que as repostas dos sujeitos nos experimentos de Rhine, não são produtos das cartas materiais, mas sim da pura imaginação, ou da pura atividade da psique, ou ainda, das associações de idéias  (ou complexos) que, por si, revelam a estrutura do inconsciente que as produz.

Aqui vemos como salientou Stein (1998) que a compreensão do conceito de sincronicidade, depende do conhecimento da teoria junguiana dos arquétipos, já que esses são os fatores decisivos da psique inconsciente, constituindo a estrutura particular do inconsciente coletivo.

Em sua obra sobre a sincronicidade, Jung (1971) esclarece que o inconsciente coletivo representa uma “psique” idêntica em todos os indivíduos, e não pode ser percebida nem observada diretamente, ao contrário dos fenômenos psíquicos perceptíveis – por esta razão ele atribuiu ao inconsciente coletivo uma qualidade que ele designou de psicóide.

Sobre os arquétipos Jung(1971) explica o seguinte:

 

“Os arquétipos são fatores formais responsáveis pela organização dos processos psíquicos inconscientes: são os patterns of behaviour [padrões de comportamento]. Ao mesmo tempo, os arquétipos têm uma ´carga específica`: desenvolvem efeitos numinosos que se expressam como afetos. O afeto produz um abaissement de niveau mental [baixa de nível mental] parcial, porque, justamente na mesma medida em que eleva um determinado conteúdo a um grau supranormal de luminosidade, retira também tal quantidade de energia de outros conteúdos possíveis da consciência, a ponto que estes se tornam obscuros e inconscientes. Em conseqüência da restrição da consciência provocada pelo afeto, verifica-se uma diminuição do sentido de orientação, correspondente à duração do efeito, que, por seu lado, proporciona ao inconsciente uma oportunidade favorável de penetrar sutilmente no espaço que foi deixado vazio. Verificamos, quase de maneira regular, que conteúdos inesperados ou comumente inibidos e inconscientes irrompem e encontram expressão no afeto. Tais conteúdos são, muitas vezes, de natureza inferior ou primitiva e, assim, revelam sua origem arquetípica. (...) certos fenômenos de simultaneidade ou de sincronicidade parecem estar ligados aos arquétipos em determinadas circunstâncias” (p15).

 

No exemplo de conexão significativa entre o escaravelho e o besouro no sonho da paciente racionalista de Jung, o escaravelho é um símbolo clássico de renascimento. No livro Am-Tuat do antigo Egito descreve a maneira como o deus-sol morto se transforma no Kheperâ, o escaravelho, a décima estação, e a seguir, na duodécima estação, sobe à barcaça que trará o deus-sol rejuvenescido de volta ao céu matinal do dia seguinte. E de fato, qualquer mudança essencial na atitude (como ocorreu com a paciente de Jung) significa uma renovação psíquica que vem quase sempre acompanhada de símbolos de renascimento, nos sonhos e fantasias do paciente.

Já no exemplo, que envolve a conexão entre morte e o bando de pássaros, a relação de um simbolismo arquetípico parece ser incomensurável, até constatarmos que no Hades Babilônico as almas trajavam “vestes de penas” e, no antigo Egito, o ba, isto é a alma, era concebida como um pássaro.

Segundo Jung, o psicólogo se depara constantemente com casos desta natureza nos quais o aparecimento de paralelos simbólicos não pode ser explicado satisfatoriamente sem a hipótese do inconsciente coletivo. Mas, naturalmente, o terapeuta só pode verificar isto, se possuir o necessário conhecimento da história do simbolismo.

 

Os fundamentos arquetípicos dos experimentos de Rhine já são mais difíceis de serem identificados, porque aí não há evidência de alguma constelação do arquétipo, e nem parecem se tratar de situações emocionais como as que encontramos em situações clínicas ou cotidianas. Contudo, a primeira série de experimentações de Rhine geralmente produz os melhores resultados que, logo em seguida, diminuem rapidamente. Mas, quando se consegue despertar um novo interesse pelo experimento (em si tedioso), os resultados voltam também a melhorar. Daí se conclui que o fator emocional desempenha um papel importante no experimento. A afetividade, porém, repousa grandemente nos instintos cujo aspecto formal é justamente o arquétipo. 

 

Todas as situações de sincronicidade apresentadas, seja em contexto clínico, experimental, ou cotidiano, têm como característica comum um certo elemento de impossibilidade. Nos casos clínicos, a situação de crise intensa, insolúvel racionalmente, parece ativar um arquétipo que direciona o inconsciente do paciente há uma solução evolutiva, que inclusive pode aparecer na forma de um sonho. Já a situação experimental parece estimular as fantasias dos sujeitos experimentais sobre a possibilidade de ocorrência de um milagre, sejam eles céticos ou não.

 

IV) O conceito de sincronicidade propriamente dito

 

O critério decisivo para a identificação de um fenômeno de sincronicidade é a aparição simultânea de dois acontecimentos ligados pela significação, mas sem ligação causal.

O conceito geral de sincronicidade é empregado no sentido especial de coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal, mas com o mesmo conteúdo significativo.

O termo sincronismo possui um significado diferente, sinalizando apenas a ocorrência simultânea de dois fenômenos quaisquer (algo que ocorre até com certa freqüência no ambiente e na natureza).

 

Assim, Jung agrupa três classes possíveis de fenômenos que podem ser designados como pertencentes ao conceito de sincronicidade:

 

1.                          Coincidência de um estado psíquico do observador com um acontecimento objetivo externo e simultâneo, que corresponde ao estado ou conteúdo psíquico (como no exemplo do escaravelho), onde não há nenhuma evidência de uma conexão causal entre o estado psíquico e o acontecimento externo e onde, considerando-se a relativização psíquica do espaço e do tempo, acima constatada, tal conexão é simplesmente inconcebível;

2.                          Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente (mais ou menos simultâneo), que tem lugar fora do campo de percepção do observador, ou seja, especialmente distante, e só pode verificar posteriormente (como por exemplo, a visão significativamente atestada, do grande incêndio de Estocolmo, tida por Swedenborg, que foi identificado como um caso parapsicológico de clarividência, para alguns de ordem mediúnica);

3.                          Coincidência de um estado psíquico com um acontecimento futuro, portanto, distante no tempo e ainda não presente, e que só pode ser verificado também posteriormente.

 

Nesse último caso, podem ser colocados os sonhos premonitórios. Jung cita, por exemplo, a obra “An Experiment with Time” de J. W. Dunne. Esse engenheiro e matemático inglês, ao procurar uma explicação para seus sonhos premonitórios, questionou o próprio fluir do tempo, uma vez que não se consegue medir esse fluxo: o relógio marca intervalos de tempo, mas não o seu fluir, nem o comportamento desse fluxo. Isso é válido mesmo para os atuais relógios atômicos, de altíssima tecnologia e precisão. Dunne lançou a hipótese ainda não confirmada de que nós é que passamos pelo tempo, o qual estaria imóvel como o espaço. A questão ainda está em aberto, mas ela é de relativa importância para o tema aqui tratado (Pessoa, 2003).

Jung cita um exemplo de sonho premonitório como se segue:

 

“... Um de meus conhecidos viu e presenciou em sonho a morte súbita e violenta de um de seus amigos, com todos os detalhes específicos. O sonhador estava na Europa e o seu amigo na América. Na manhã seguinte um telegrama atesta a morte e dez dias mais tarde uma carta confirma os detalhes.A comparação entre o tempo europeu e o americano mostra que a morte se deu pelo menos uma hora antes do sonho. O sonhador recolhera-se tarde e não dormira até uma hora da madrugada. O sonho se dera por volta das duas”.

 

Jung esclarece que “a experiência do sonho não fora síncrona com a morte. Experiências deste gênero ocorrem antes ou depois do acontecimento crítico”.

 

Outro exemplo de sonho premonitório (ou precognitivo, como dizem alguns) foi o seguinte:

 

Um estudante, amigo de Jung, recebeu do pai a promessa de uma viagem para a Espanha, se passasse satisfatoriamente nos exames finais. Este rapaz, então, sonhou que estava andando em uma cidade espanhola. A rua conduzia a uma praça onde havia uma catedral gótica. Assim que chegou lá, dobrou a esquina, à direita, entrando noutra rua. Aí ele encontrou uma carruagem elegante, puxada por dois cavalos baios. Nesse momento ele despertou. Contou a Jung (junto com outros colegas) o sonho, num encontro ocasional numa mesa de bar. Pouco depois, tendo sido bem sucedido nos exames, viajou à Espanha e aí, em uma das ruas, reconheceu a cidade de seu sonho. Encontrou a praça e viu a igreja, que correspondia exatamente à imagem que vira no sonho. Primeiramente, ele queria ir diretamente à igreja, mas se lembrou de que, no sonho, ele dobrava a esquina, à direita, entrando noutra rua. Estava curioso por verificar se seu sonho seria confirmado outra vez. Mal tinha dobrado a esquina, quando viu, na realidade, a carruagem com os dois cavalos baios...

 

Os acontecimentos sincronísticos – segundo Jung – repousam na simultaneidade de dois estados psíquicos diferentes. Um é normal, provável (quer dizer: pode ser explicado causalmente) e o outro, isto é, a experiência crítica, não pode ser derivado causalmente do primeiro. Segundo o autor, é preciso ter esta definição diante dos olhos, quando se trata de acontecimentos futuros, pois estes, evidentemente não são síncronos, mas sincronísticos, porque são experimentados como imagens psíquicas no presente, como se o acontecimento objetivo lá existisse.

Um conteúdo inesperado, que está ligado direta ou indiretamente a um acontecimento objetivo exterior, coincide com o estado psíquico ordinário: é isto que Jung chama de sincronicidade, não importando que a sua objetividade surja separada da consciência no tempo e no espaço. Aliás, concordando com a concepção relativista de Einstein (que postula a existência de um continuum espaço-tempo), Jung declara que o tempo e o espaço “constituem uma só e mesma coisa, e por isso se fala de um ´espaço de tempo`” . 

 

 

 

 

 

           


V) Métodos mânticos: Uma metodologia de pesquisa da sincronicidade

 

 

Jung se questionou se não haveria um método que pudesse ao mesmo tempo (1º) demonstrar a existência da sincronicidade, e de outro (2º) revelar pelo menos alguns pontos de referência quanto à natureza do fator psíquico relativo ao fenômeno. Ele encontrou respostas num terreno – dizia ele – em que as “autoridades” da ciência garantiram  que nada poderia ser encontrado (nesse ponto, Jung já sabia que iria se confrontar com os preconceitos do meio acadêmico).

 Os experimentos de parapsicologia de Rhine, obtiveram bons resultados estatísticos, mas apenas evidenciaram o caráter psíquico da sincronicidade, sem oferecer maiores dados explicativos. Para Jung, os métodos intuitivos (também chamados de mânticos) como o I-Ching e a Astrologia, partem sobretudo do fator psíquico, e consideram a realidade da sincronicidade como um fato evidente por si mesmo.

Para Jung a visão de conjunto do fenômeno da sincronicidade fica incompleta se não considerarmos os métodos mânticos.  Esses objetivam senão a produção de acontecimentos sincronísticos, pelo menos de fazê-los servir a seus objetivos.

Começando pelo I-Ching, temos uma técnica intuitiva que permite apreender e examinar uma situação em seus aspectos globais, provinda da China. Ao contrário do pensamento ocidental padrão, originado na Filosofia Grega, o pensamento chinês não procura apreender os detalhes, mas uma percepção em que o detalhe seja visto como parte do todo. Por razões tipológicas, uma operação cognitiva desta natureza é impossível para o puro intelecto, e por isto o julgamento deve apoiar-se muito mais nas funções irracionais da consciência, ou seja, na sensação (sentido do real) e na intuição (percepção, sobretudo, por meio de conteúdos subliminares).

O I-Ching, que se constitui de certa maneira, no fundamento experimental da Filosofia chinesa clássica, é um método usado desde tempos imemoriais para apreender uma situação de globalidade, e assim colocar o grande problema dos detalhes no grande quadro das inter-relações de opostos complementares dialéticos, que a terminologia chinesa designa pelos termos polares Yin (feminino, passivo, negativo, etc) e Yang (masculino, ativo, positivo, etc).

O fenômeno da sincronicidade não é uma novidade para os chineses. Jung conta que dois sábios chineses no século XII, baseando-se na hipótese da unidade de toda a natureza, procuraram explicar a simultaneidade de um estado psíquico com um processo físico como uma equivalência de sentido.  Em outras palavras eles supõem que o mesmo Ser se exprime tanto no estado psíquico como no estado físico.

Mas, para verificar tal hipótese, precisar-se-ia de uma determinada condição experiencial: uma forma definida de processo físico, um método ou técnica, que extraia da natureza respostas representadas por números pares e ímpares (esses como representantes do processo universal de opostos yin-yang, presentes tanto no inconsciente como na natureza). Da síntese desses opostos, surge um terceiro termo de comparação entre o mundo interior psíquico e o mundo exterior físico. Assim, os dois sábios inventaram um método mediante o qual fosse possível representar um estado interior como sendo exterior, e vice-versa.

O I-Ching, portanto, é constituído por uma coleção de sessenta e quatro interpretações, nas quais foi expresso o sentido de cada uma das sessenta e quatro combinações entre os fluxos Yin e Yang[5]. Estas interpretações formulam o conhecimento que corresponde ao estado da consciência num determinado momento, e esta situação psíquica coincide com o resultado casual do método, ou seja, com os números pares e ímpares que resultam da queda das moedas ou da divisão fortuita das varinhas de miefólio.

Segundo Jung, o método se baseia – como todas as técnicas divinatórias, ou melhor e mais precisamente designadas, técnicas intuitivas – no princípio da conexão sincronística ou acausal. Em O Segredo da Flor de Ouro, escrito em 1929, como resultado de uma parceria entre Jung e Richard Wilhelm, é afirmado que “A ciência do I-Ching se baseia, não no princípio de causalidade, mas sobre um princípio, até agora não nomeado – porque não surgiu entre nós – que, a título de ensaio, designei como princípio sincronístico”.

Jung reconhece que em alguns casos práticos, ocorrem muitas situações evidentes de sincronicidade que no fundo se revelam racionalmente como simples projeções. Mas, supondo que há um número razoável de casos legítimos de sincronicidade, esses seriam coincidências significativas para as quais, até onde se sabe, não há explicação causal.

 Jung considerou que os resultados de suas pesquisas com o I-Ching apontavam para o caminho desejado, mas não ofereciam base para uma avaliação estatística, porque o estado psíquico em questão é demasiadamente indeterminado e indefinível. O mesmo ele dizia de outro método intuitivo – a geomancia, baseada em princípios similares de sincronicidade.

Diante dessas limitações Jung encontra na Astrologia uma solução mais favorável. A Astrologia pressupõe uma “coincidência significativa” de aspectos e posições planetárias com o caráter e o estado psíquico ocasional do interrogados, e além disso pode ser submetida a um estudo estatístico. A Astrologia é um método que coliga dados objetivos e intuitivos com o objetivo de oferecer uma visão mais ou menos global do caráter do indivíduo.

Jung aponta que à luz de pesquisas astrofísicas de sua época (como as do prof. Knoll), a correspondência astrológica provavelmente não é um caso de sincronicidade mas, em sua maior parte, uma relação causal. Uma das possibilidades é a existência de um elo entre perturbações do campo magnético da Terra que, por sua vez, se devem às flutuações de irradiação de prótons solares, desviadas por aspectos angulares entre os planetas (como as conjunções, oposições e aspectos quartis), provocando até tempestades eletromagnéticas. Jung chega a especular uma relação causal entre os aspectos planetários e as disposições psicofisiológicas, e declara que “Por isto, seria aconselhável considerar os resultados da observação astrológica não como fenômenos sincronísticos, mas como efeitos de origem possivelmente causal, pois sempre que se possa imaginar uma causa por mais remota que seja, a sincronicidade se torna uma questão extremamente duvidosa”.

Sem entrar em maiores detalhes nessas pesquisas, por enquanto é válido frisar que Jung embora tenha reconhecido que a interpretação psicológica dos horóscopos seja uma matéria ainda muito incerta, contudo, em sua época ele conseguiu prever a perspectiva de uma possível explicação causal para a Astrologia, em conformidade portanto, com a lei natural. Assim, ele concluiu que não haveria mais justificativa – caso, isso venha a acontecer – para se descrever a Astrologia como um método mântico. Ela estaria, segundo o autor, em vias de se tornar uma ciência[6].

Em outro momento, Jung relata que para “fazer justiça aos postulados da Astrologia, não tem sentido rejeitar uma doutrina quase tão antiga quanto a civilização humana, por mero preconceito e sem um exame acurado, mas sobretudo porque não se é capaz de ver aí uma conexão causal ou conforme a determinadas leis”.

Assim, Jung estudou como a Tradição Astrológica se comportaria diante de uma investigação estatística. Ele levantou algumas considerações para a realização do seu Experimento Astrológico (esse foi o título de um capítulo expressivo de seu livro sobre  Sincronicidade):

 

“... desde os tempos mais remotos os vários planetas, casas astrológicas, os signos zodiacais, e os aspectos têm significados estabelecidos que servem de base para a interpretação de uma determinada situação. É sempre possível objetar que o resultado não concorda com o conhecimento psicológico que temos da situação ou do caráter em questão, e é difícil refutar a afirmação segundo a qual o conhecimento de um indivíduo é um ponto sumamente subjetivo porque no domínio da caracterologia não há sinais certos e infalíveis que possam ser medidos ou calculados – objeção esta que, como se sabe, se aplica também à Grafologia, embora, na prática, esta já goze de amplo reconhecimento.

Esta crítica, juntamente com a ausência de critérios seguros para determinar os traços de caráter, nos mostra que a coincidência significativa entre a estrutura horoscópica e o caráter, postulada pela Astrologia, não pode ser aplicada à finalidade aqui em discussão. Por isto, se queremos que a Astrologia nos diga alguma coisa sobre a conexão acausal, devemos substituir este diagnóstico incerto do caráter por um fato absolutamente certo e indubitável. Um destes fatos é, por exemplo, a união matrimonial de duas pessoas...”.

 

A Astrologia afirma que os casamentos podem ser facilitados por conjunções entre o Sol e a Lua no horóscopo de cada parceiro, ou pelas conjunções exclusivamente lunares de ambos, ou ainda pelas conjunções do ascendente de um dos parceiros, com a Lua ou o Sol do outro cônjuge. Enfim, combinações variadas dos luminares (Sol e Lua) e/ou do ascendente, devem estar presentes no mapas de casais. Pelo menos uma combinação deveria estar presente segundo as previsões.

Foi exatamente isso que Jung constatou ao analisar os mapas astrológicos de 360 horóscopos individuais de pessoas casadas (ou 180 mapas astrológicos de casais), e depois ainda ter reunido e analisado separadamente dois novos grupos de 220  e 83 casamentos, respectivamente, chegando então, às mesmas conclusões. O Grupo de controle foi formado por 32.220 pessoas não-casadas. Foram, então analisados, 483 casamentos, ou seja, 966 horóscopos individuais. A formação dos grupos experimentais foi casual.

O primeiro fato que chamou a atenção foi que todas as conjunções significativas encontradas eram conjunções lunares. A tabela abaixo resume os dados encontrados[7]:

 

Sol conjunção Lua (1º grupo – 180 casamentos)

10%

Probabilidade de 1 / 10.000

Lua conjunção Lua (2º grupo – 220 casamentos)

10,9%

Probabilidade de 1 / 10.000

Lua conjunção ascendente (3º grupo – 83 casais)

9,6%

Probabilidade de 1 / 3.000

 

Porém, no todo, as três posições fundamentais – Sol, Lua e Ascendente – estão presentes. São exatamente as três conjunções clássicas da Astrologia. Jung conclui que “o fato de que aconteça algo de tão improvável quanto a coincidência das três conjunções clássicas só pode ser explicado ou como o resultado de uma fraude, intencional ou não, ou mais precisamente como uma coincidência significativa, isto é, como uma sincronicidade”.

De fato, a probabilidade de uma coincidência Sol em conjunção com a Lua, e Lua em conjunção com a Lua é de 1 / 100.000.000. E a coincidência das três conjunções lunares com Sol, Lua e ascendente – tal como ocorreu no experimento astrológico de Jung – é de 1/300.000.000.000. Em outros termos, a improbabilidade de um mero acaso para esta coincidência é tão grande, que nos vemos forçados a considerar a existência de um fator responsável por ela. Ou seja, são resultados praticamente improváveis do ponto de vista estatístico, mas do ponto de vista teórico da Astrologia tão prováveis, que quase não há motivos para considerar os resultados estatísticos como ocorrências meramente muito casuais[8].

 

Assim Jung conclui que,

 

“Embora mais acima eu tenha sido levado a fazer reparos quanto ao caráter mântico da Astrologia, contudo, agora sou obrigado a reconhecer que ela tem esse caráter, tendo em vista os resultados a que chegou o meu experimento astrológico (...) O êxito do experimento está inteiramente de acordo com os resultados da ESP de Rhine”.

 

As expectativas favoráveis tanto no experimento astrológico quanto nos experimentos parapsicológicos de Rhine, segundo Jung, e de acordo com as implicações do próprio conceito de sincronicidade, estão relacionadas com o êxito dos resultados obtidos nos dois experimentos.

Nesse sentido, Jung acredita que Rhine jamais alcançaria seus resultados experimentais se tivesse usado apenas um (ou mesmo poucos) sujeitos experimentais. Segundo sua explicação, Rhine precisou sempre de renovado interesse, ou seja, de uma certa emoção com seu característico abaissement mental, conferindo uma certa predominância ao inconsciente. Isso, para alguns pode ser um fenômeno similar a um “efeito placebo”. Mas unindo conceitos de Física e Psicologia, Jung explica que somente com essa baixa de nível mental, o espaço e o tempo podem ser psiquicamente relativizados, reduzindo a possibilidade de um processo causal. O resultado é então uma espécie de creatio ex nihilo, ou uma criação a partir do nada, no sentido de ser um ato de criação que não pode ser explicado causalmente.

Segundo o autor,

 

“Os procedimentos mânticos, como a Astrologia e o I-Ching devem a sua eficácia à mesma conexão com a emocionalidade: tocando uma predisposição inconsciente do sujeito, eles estimulam o seu interesse, sua curiosidade, sua expectativa e seus temores e, conseqüentemente, suscitam uma predominância correspondente do inconsciente. As potências ativas (numinosas) do inconsciente são os arquétipos. Na grande maioria dos fenômenos espontâneos de sincronicidade que eu tive ocasião de observar e analisar percebia-se facilmente que havia uma ligação direta com um arquétipo. Este, em si, é um fator psicóide irrepresentável do inconsciente coletivo”.

 


O Inconsciente psicóide e o Unus Mundus

 

Stein (1998) define psicóide como “um adjetivo referente às fronteiras da psique, uma das quais estabelece o contato direto com o corpo e o mundo físico, e a outra com o domínio do ´espírito`”. Para o autor, o conceito de sincronicidade de C. G. Jung, representa uma linha de pesquisa sobre o Self, que demarca um ponto de transgressão da fronteira entre psique e não-psique. Como o arquétipo per se é psicóide e não se encontra rigorosamente dentro dos limites fixados pelas fronteiras da psique, serve de ponte entre os mundo interior e exterior, e decompõe a dicotomia sujeito-objeto.

Para Stein (1998), a curiosidade acerca das fronteiras da psique levou Jung a formular uma teoria que procura articular um único sistema unificado que abrange matéria e espírito e lança uma ponte entre tempo e eternidade. Nesse sentido, a teoria da sincronicidade é considerada uma extensão da teoria do Self à Cosmologia, que é a ciência do funcionamento do Universo, e hoje é uma área de especialização intermediária da Física, da Astronomia e da Filosofia. Com o conceito de sincronicidade, a Psicologia também passa a oferecer a sua contribuição à Cosmologia. A sincronicidade fala da profunda e oculta ordem e unidade entre tudo o que existe, e também revela, segundo Stein (1998), C. G. Jung enquanto um metafísico (uma identidade que ele teria procurado negar em si mesmo).

Os fenômenos de sincronicidade exemplificados não são, stricto sensu, psicológicos e, no entanto, possuem uma profunda conexão com a vida psicológica. Os arquétipos, segundo Jung, são passíveis de transferência, ou seja, não estão limitados à esfera psíquica. Em sua transferibilidade, podem surgir na consciência quer oriundos do interior da matriz psíquica, quer do mundo à nossa volta – ou de ambos simultaneamente. Quando ocorrem ao mesmo tempo, são chamados de sincronísticos. Assim, a compensação psicológica pode ocorrer não só em sonhos, mas também em acontecimentos não-psicologicamente controlados. Ou seja, a compensação pode chegar, às vezes, do mundo exterior. É o que acontece no caso da paciente com o sonho do escaravelho, em que um besouro entra no consultório pela janela, no momento em que ela relatava o sonho a Jung.

Segundo a linha de raciocínio de Jung,

 

“Se não – como tudo parece indicar – não se pode explicar causalmente a coincidência ou ´conexão cruzada` significativa de certos acontecimentos, então o princípio de ligação consiste na equivalência de sentidos dos acontecimentos paralelos; em outras palavras: o seu tertium comparationis é o sentido. Estamos tão acostumados a considerar o ´sentido` como um processo ou um conteúdo psíquico, que relutamos em admitir que ele possa existir também fora de nossa psique”. (grifos meus).

 

A obra de C. G. Jung sobre a sincronicidade acrescenta à sua teoria psicológica a noção de que existe um alto grau de continuidade entre a psique e o mundo, de tal modo que imagens psíquicas podem revelar também verdades sobre a realidade no espelho refletor da consciência humana. Assim, a psique não é algo que começa e termina somente em seres humanos e em isolamento do cosmo. A tese de Jung é a de que há uma dimensão na qual a psique e o mundo interagem intimamente e se refletem reciprocamente. Segundo suas palavras,

 

“A sincronicidade postula um significado aprioristicamente relacionado com a consciência humana e que parece existir fora do homem. Semelhante hipótese ocorre sobretudo na filosofia de Platão, a qual admite a existência de imagens ou modelos transcendentais das coisas empíricas, as chamadas formas, de que as coisas são cópias. Esta concepção não somente não apresenta nenhuma dificuldade para os tempos antigos, mas era como que uma evidência em si mesma”.

 

Segundo suas observações, até o século XVIII, o pensamento filosófico admitia uma correspondência secreta ou uma conexão significativa entre os acontecimentos naturais. Essa hipótese – que irá originar a idéia que Jung denominou como o Unus Mundus - tem a vantagem de não entrar em choque com o princípio da causalidade (que como sabemos é quase universalmente aceito na ciência), e pode ser considerado como um princípio sui generis. Isso obriga não há uma correção dos princípios da explicação natural, mas a ampliá-los. 

Jung conseguiu apoio para todas essas idéias na Física Moderna, onde a visão de universo estava em fase de mudança e expansão de modo a acomodar a sua tese. Tanto que em 1952, ele e o Nobel de Física Wolfgang Pauli publicaram juntos o livro “A Interpretação da Natureza e a Psique”, que como o título mesmo sugere, foi uma tentativa de elucidação das possíveis relações entre natureza e psique. Não foi à toa que Jung publicasse essa obra em conjunto com um cientista vencedor do Nobel e não com um filósofo, um teólogo ou um mitologista. De toda a obra teórica de Jung, seu estudo sobre a sincronicidade é o que está mais vulnerável a interpretações distorcidas. Ele queria evitar ser visto como um místico ou um excêntrico, e se preocupava com a maneira como iria expor essa parte do seu pensamento aos olhos do público científico moderno.

Para o pensamento científico ordinário, algumas implicações do conceito de sincronicidade são temerárias. Por exemplo, supõe-se tradicionalmente que a psicologia se limita ao que ocorre na mente humana; mas com a sua teoria do si-mesmo e da sincronicidade, a psicologia analítica de Jung desafiou essa segmentação arbitrária. Quando estudantes perguntaram certa vez a Jung onde termina o Si-mesmo e quais as suas fronteiras, sua resposta foi que não tem fim, é ilimitado. Para se entender o que ele quis dizer com esse comentário, tem que se levar em conta que ele estava considerando as implicações da sincronicidade para a teoria do si-mesmo.

 

Sincronicidade e o pensamento Chinês

 

Segundo Jung, enquanto o princípio da causalidade nos afirma que a conexão entre a causa e o efeito é uma relação necessária, o princípio da sincronicidade nos afirma que os termos de uma coincidência significativa são ligados pela simultaneidade e pelo significado. Ou seja, para Jung, ao lado da conexão entre causa e efeito, existe na natureza um outro fator que se expressa na sucessão dos acontecimentos e parece ter significado.

Jung reconhece que embora o significado seja uma interpretação antropomórfica, contudo, ele constitui o critério indispensável para julgar o fenômeno da sincronicidade.

Ele assevera que o racionalismo ocidental parece não saber reconhecer o que possa ser esse fator que parece ter significado, negando ou achando impossível a sua existência. Mais do que isso, ele aponta que essa atitude ocidental não é a única cosmovisão possível. Ele declara “a atitude racionalista do homem ocidental não é a única possível nem a que tudo abrange; é, sob certos aspectos, um preconceito e uma visão unilateral que talvez seja preciso corrigir”.

A civilização, muito mais antiga, dos chineses sempre pensou de modo diferente da nossa sob certos aspectos, e somente no plano da Astrologia, da alquimia e dos processos mânticos é que não se observam diferenças de princípio entre nossa atitude e a atitude chinesa (é por isso, que a alquimia se desenvolveu em direções paralelas no Ocidente e no Oriente, tendendo para o mesmo objetivo, e com uma formação de idéias mais ou menos idênticas). Isso é válido também para o plano de outra tradição mística ocidental, mais especificamente de origem judaica, denominada Cabala, que guarda certa similaridade com o pensamento oriental. 

Um dos conceitos mais antigos e mais centrais da Filosofia Chinesa é o do Tao, que o pensamento ocidental tentou traduzir por “Deus” (aqui, temos a tradução dos jesuítas) ou Providência. Isso não é totalmente correto, porém. Richard Wilhelm, sinólogo, colaborador e amigo de Jung, interpreta o Tao como sentido. O conceito de Tao impregna todo o pensamento filosófico da China. A causalidade desempenha este mesmo papel entre nós, mas só veio adquirir esta importância nos dois últimos séculos, graças à influência niveladora do método estatístico e ao êxito sem precedentes das Ciências naturais, o que levou ao descrédito da visão metafísica do homem. Por razões que não cabem debater agora, estamos vivendo uma nova reviravolta nessa posição, e a visão científica e metafísica do ser humano parecem caminhar para um acordo e uma integração. Isso ainda está em fase inicial, embora em crescimento acelerado.

Existem várias afirmações que podem ser feitas à noção de Tao. Lao-Tse o chama de “nada”, indicando com isto, como diz Wilhelm, apenas a sua “oposição ao mundo da realidade” (circunscrita aos sentidos físicos). O “nada” é, na verdade, o “sentido” ou a finalidade, e chama-se nada justamente porque em si, ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador.

É descrito por paradoxos como “a forma sem forma” ou “a imagem sem conteúdo”. Nele, os opostos (Yin e Yang) “se dissolvem na indeterminação”, embora ainda existam potencialmente. O Tao constitui uma “unidade não-espacial” (sem um “em cima e um “embaixo”) e atemporal (sem um “antes” e um “depois”). Ch´uang-Tse (um contemporâneo da época de Platão) diz a respeito das premissas psicológicas nas quais se baseia o Tao: “O estado no qual o eu e o não-eu já não se opõem é chamado o eixo do Tao (sentido)”.

O pensamento racionalista ocidental não está acostumado a lidar com este tipo intuitivo de pensamento dialético. Mas a Física Moderna fez, recentemente, os cientistas ocidentais se confrontarem com paradoxos[9] semelhantes em seu próprio campo de pesquisas, tanto que um físico chamado Fritjof Capra realizou todo um estudo das relações entre Física Moderna e Filosofia Oriental (Capra, 1975), chegando a conclusões muito parecidas com as de Jung ao aproximar Psicologia Profunda e o pensamento do Oriente.

Jung cita a obra de Wilhelm, para quem a realidade é cognoscível porque, segundo a concepção chinesa, há uma “racionalidade” latente em todas as coisas. Esta seria a idéia fundamental que se acha na base da coincidência significativa: esta é possível, porque os dois lados possuem o mesmo sentido. Onde o sentido prevalece, aí resulta a ordem.

A visão taoísta é típica do pensamento chinês em geral, e se caracteriza por ser um pensamento que procura apreender a realidade em termos de globalidade. Para a mente ocidental, os detalhes são importantes em si mesmos. Para a mente oriental, os detalhes juntos e, principalmente, a relação que existe entre eles, é que formam o quadro global. Por isso, Jung diz que soa como uma crítica à nossa visão científica do mundo, a citação de Ch´uang-Tse de que “O Sentido [Tao] se obscurece, quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência”.

Jung cita que essas idéias se encontram na psicologia primitiva e na psicologia medieval pré-científica: é aqui que se situa a teoria da correspondentia, defendida pela Filosofia natural da Idade Média, e particularmente a noção clássica (de Hipócrates) de simpatia de todas as coisas. Assim, o princípio universal se encontra até na partícula menor e, por conseguinte, corresponde ao todo.

 

O conhecimento Absoluto a priori

 

Jung esclarece que o problema da sincronicidade o ocupou por muito tempo, sobretudo a partir de meados dos anos vinte, embora mesmo antes desse tempo ele duvidasse da aplicabilidade do princípio da causalidade na Psicologia. Para ele a causalidade é apenas um dos princípios a considerar, e na realidade esse princípio não pode explicar ou dar conta sozinha de toda a Psicologia – como queria, por exemplo, o extremo determinismo freudiano – porque a mente ou a psique é também teleológica.

Segundo Jung, a finalidade psíquica repousa em um significado “preexistente” que só se torna problemático quando é um arranjo inconsciente. Nesse caso, ele sugere que se deve admitir uma espécie de “conhecimento” anterior a qualquer consciência.

Ele chega a essa conclusão, inicialmente postulando a existência no inconsciente dos arquétipos, bem como de percepções subliminares, e imagens esquecidas da memória que não podem ser reproduzidas no momento, ou mesmo nunca.  Algumas imagens inconscientes podem estar ligadas a estímulos sensoriais subliminares, mas outras parecem não estarem ligadas a fundamento nenhum, ou possuem conexões causais reconhecíveis com certos conteúdos já existentes (e muitas vezes arquetípicos). Mas, estas imagens, radicadas ou não em bases já existentes, se acham em uma relação significativa, análoga ou equivalente, com acontecimentos objetivos que não têm com eles nenhuma relação causal reconhecível ou mesmo imaginável.

Jung então levanta a seguinte questão: “Como pode um acontecimento distante no espaço e mesmo no tempo produzir, por exemplo, uma imagem psíquica correspondente, se nem sequer podemos falar de um processo de transmissão de energia para isto necessária? Por mais incompreensível que isto pareça, nós nos vemos, afinal, forçados a admitir que há, no inconsciente, uma espécie de conhecimento ou ´presença` a priori de acontecimentos, sem qualquer base causal.  Em qualquer caso, nosso conceito de causalidade é incapaz de explicar os fatos”.

Na maioria dos casos de sincronicidade expostos por Jung (seja nos experimentos de Rhine, no exemplo do sonho do escaravelho, no caso da conexão pássaros-morte, os sonhos precognitivos, etc), parece que há um conhecimento a priori, inexplicável causalmente e incognoscível na época em que as sincronicidades ocorrem. Assim o fenômeno é constituído por dois fatores:

 

1.                          Uma imagem inconsciente alcança a consciência de maneira direta (literalmente) ou indireta (simbolizada ou sugerida) sob a forma de sonho, associação ou premonição;

2.                          Uma situação objetiva (no sentido de que possa ser coletivamente compartilhável) coincide com este conteúdo subjetivo.

 

Tanto uma coisa como a outra podem, por assim dizer, causar admiração. Por outro lado, no que se refere ao papel que os afetos desempenham no aparecimento de acontecimentos sincronísticos, Jung salienta que esta não é uma idéia nova, mas já era conhecida de Avicena e de Alberto Magno. Este, por sua vez, acreditava que na Alma Humana habita um poder (virtus) capaz de subordinar e mudar a natureza das coisas, em especial quando expressa por algum tipo de forte emoção (como amor ou ódio), que ligaria (magicamente) as coisas e as modificaria no sentido em que a Alma quiser. Em alguns casos, supõe Alberto Magno, a hora adequada, a situação astrológica, ou uma outra força correm paralelas com esse afeto que ultrapassa todos os limites. Assim, a Alma pode se achar tão desejosa de alguma coisa que gostaria de realizar, que pode escolher espontaneamente a hora astrológica melhor e mais significativa que rege também as coisas que concordam melhor com o objeto de que se ocupa. Jung, explica que Alberto Magno, em conformidade com o espírito da época, explica os fenômenos de coincidências significativas postulando uma faculdade mágica para a Alma, sem levar em conta que o processo psíquico é tão “organizado” quanto a imagem coincidente que antecipa o processo físico exterior.

 

Nesse ponto, podemos cogitar que Jung parece direcionar toda a explicação do problema aos fenômenos inconscientes, de uma certa maneira supervalorizando o poder do inconsciente, e subestimando explicações que utilizem uma concepção que podemos chamar de vitalista (ou energética). É nesse sentido que ele rotula a concepção de Goethe como sendo “mágica”. Esse autor propunha o seguinte: “Todos nós temos certas forças elétricas e magnéticas dentro de nós e exercemos um poder de atração e repulsão, dependendo do contato que tivermos com algo afim ou dessemelhante”. Como já vimos, Jung rejeita explicações dessa natureza, e prefere confiar no salto intuitivo, que por sua vez está baseado em considerável soma de provas confirmativas obtidas em sua experiência, que postula que o inconsciente possui o que ele designa por conhecimento a priori.

Segundo suas palavras,

 

“Não é, certamente, um conhecimento que possa estar ligado ao eu, e, portanto, não é um conhecimento consciente como o conhecemos, mas um conhecimento inconsciente subsistente em si mesmo, e que eu preferiria chamar de conhecimento absoluto”.

 

Ele identificava esse fenômeno nos processos teológicos da Biologia (ou seja, esse conhecimento absoluto não se limita apenas à psique), na função compensadora do inconsciente, e no próprio fenômeno da sincronicidade. Esse saber apriorístico implica sempre numa precognição de alguma espécie.

Jung cita um zoólogo – A. C. Hardy – interessado em parapsicologia que realiza a seguinte explanação:

 

“Talvez nossas idéias sobre a evolução se modifiquem, se se constatar que qualquer coisa semelhante à telepatia – indubitavelmente de natureza inconsciente – é um fator presente na formulação dos esquemas de comportamento entre os membros de uma espécie. Se há um plano de comportamento grupal não-consciente, distribuído e, ao mesmo tempo, fazendo a ligação entre os indivíduos da raça, talvez nos vejamos de volta a algo de parecido com as idéias da memória racial subconsciente de Samuel Butler, não porém, fundadas sobre o indivíduo, e sim sobre o grupo”.

 

Ao citar Hardy, Jung quer propor que esse conhecimento absoluto tem a tendência a produzir correspondências ou coincidências significativas.

A hipótese do Conhecimento Absoluto, a priori, denuncia que o “inconsciente muitas vezes sabe mais do que a consciência”. É esta noção – segundo Stein (1998) que leva Jung aos limites extremos de suas especulações sobre a unidade da psique e do mundo. Se sabemos coisas que estão além da nossa possibilidade consciente de conhecimento, então também existe em nós um conhecedor desconhecido, um aspecto da psique que transcende as categorias de tempo e espaço e está simultaneamente presente aqui e ali, de tempos em tempos. Esse seria o Si-Mesmo (o Self). Numa visão espiritualista, o cerne da Alma Humana.

 


Psicossomática e Sincronicidade: Corpo e Mente, Matéria e Espírito

 

Vimos primordialmente que o princípio da sincronicidade torna-se a regra absoluta em todos os casos em que um acontecimento interior ocorre simultaneamente a outro exterior. Jung assevera sobre a aparente raridade das ocorrências espontâneas desse fenômeno, mas adianta a possibilidade de uma exceção na psicossomática. Segundo suas palavras,

 

“... devemos ter presente que os fenômenos sincronísticos que podem ser verificados empiricamente, longe de constituírem uma regra, são tão raros, que quase sempre se duvida de sua existência. Na realidade, eles são, certamente muito mais freqüentes do que se pensa e se pode provar, mas ainda não sabemos se ocorrem de modo tão freqüente e com tanta regularidade, que se possa dizer que são fatos que obedecem a determinadas leis. (...) Aqui, devo acentuar mais uma vez a possibilidade de a relação entre corpo e alma ser entendida como uma relação de sincronicidade. Se esta simples conjetura um dia se confirmar, minha atual opinião de que a sincronicidade é um fenômeno relativamente raro será corrigida”.

 

  A relação da mente com a matéria nunca deixou de intrigar Jung. Achou muito curioso, por exemplo, que com base exclusiva no pensamento matemático, pudesse ser construída uma ponte capaz de suportar os rigores da natureza e do trânsito humano. A matemática é um produto puro da mente e não se mostra em parte alguma no mundo material; no entanto, pessoas podem sentar-se em seus gabinetes e gerar equações que rigorosamente predizem e captam objetos e eventos físicos. A Jung impressionava o fato de que um produto puramente psíquico (uma fórmula matemática) pudesse ter um relacionamento tão extraordinário com o mundo físico (Stein, 1998).

Por outro lado, Jung propõe que os arquétipos – enquanto elementos estruturais –servem como ligações diretas entre a psique e o mundo físico. Segundo suas palavras,

“Somente uma explicação adquirida dos fenômenos psíquicos, com um mínimo grau de clareza, nos obriga a admitir que os arquétipos devem ter um aspecto não-psíquico. As razões para essa conclusão se encontram nos fenômenos de sincronicidade que acompanham a atividade de fatores inconscientes e que até  hoje têm sido considerados ou rejeitados como ´telepatia´, etc”. Jung é cauteloso a respeito de atribuir causalidade aos arquétipos em conexão com fenômenos sincronísticos (caso contrário, estaria recorrendo a um modelo de causalidade em que os arquétipos seriam as causas de eventos sincronísticos), mas ele parece ligar os arquétipos a “operadores” que não causam, mas organizam a sincronicidade (segundo minha leitura pessoal, essa organização segue uma finalidade de ordem evolutiva).

Em outras palavras, quando ocorre uma sincronicidade expressa como uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos, Jung postula que tais coincidências apóiam-se em “organizadores” que geram, por um lado, imagens psíquicas e, por outro, eventos físicos.  As duas coisas ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo, e a ligação entre elas não é causal.

Isso é factível, se considerarmos – como admite Jung – um contínuo espaço-tempo psiquicamente relativo (idéia que como já vimos, é deduzida da Física Relativista de Einstein, expandida ao campo da Psicologia Profunda). Depois que o conteúdo psíquico cruza o limiar da consciência, desaparecem os fenômenos sincronísticos marginais, o tempo e o espaço retornam o seu caráter absoluto habitual e a consciência fica de novo isolada em sua subjetividade. Antes disso, os fenômenos sincronísticos – com a sua respectiva relativização da dimensão espaço-tempo na psique – manifesta-se com muito maior freqüência quando a psique está funcionando num nível menos consciente, como nos sonhos e devaneios. Nesse sentido, Jung via o caminho para a explicação científica da sincronicidade, sustentável mesmo frente a alguns críticos (ideologicamente) céticos (Stein, 1998).

Ao ligar a teoria dos arquétipos ao princípio de sincronicidade, Jung consegue formar um enunciado teórico unificado, a partir da observação de que não se pode afirmar com certeza, que os arquétipos sejam puramente psíquicos, em sua natureza ou essência. Os arquétipos – como já foi visto – devem ser considerados mais psicóides do que puramente psíquicos. Segundo Jung,

 

“Embora eu tenha chegado, através de considerações puramente psicológicas, a duvidar da natureza exclusivamente psíquica dos arquétipos, a própria psicologia viu-se, contudo, obrigada a rever suas premissas ´unicamente psíquicas` em face de descobertas também físicas... A identidade relativa ou parcial entre psique e contínuo físico[10] é de suma importância, sob o ponto de vista teórico, porquanto implica uma enorme simplificação ao promover a transposição do aparentemente incomensurável abismo entre o mundo físico e o psíquico, não, por certo, de forma concreta mas, do ponto de vista físico, por meio de postulados empiricamente deduzidos – vale dizer, por meio de arquétipos, cujo conteúdo, se existe, a nossa mente não pode conceber” (grifos meus). 

 

Em outras palavras, Jung enxerga vastas áreas de identidade entre as mais profundas configurações da psique (imagens arquetípicas) e os processos e padrões evidentes no mundo físico e estudados por físicos modernos.

A psique definida por Jung como quaisquer conteúdos ou percepções que sejam capazes, em princípio, de tornar-se conscientes e ser afetados pela vontade, inclui a consciência do ego, complexos, imagens arquetípicas e representações de instintos. Mas, arquétipo e instinto per se deixam de ser psíquicos. Situam-se num contínuo com o mundo físico da materialidade, o qual, em suas profundidades (como exploradas pela física moderna) , é tão misterioso e “espiritual” quanto a psique, já que ambos se dissolvem em pura energia. Este ponto é importante porque sugere uma forma de conceber como a psique está relacionada com o soma e com o mundo físico. Os dois domínios, psique e mundo material, podem ser unidos por equações matemáticas (segundo os físicos modernos e os matemáticos) e por “postulados empiricamente deduzidos – os arquétipos” (segundo os psicólogos junguianos). Tanto o corpo material quanto a psique não precisam ser derivados um do outro. São antes, duas realidades paralelas que estão sincronicamente relacionadas e coordenadas. Hoje, alguns falam de uma relação sinergética entre corpo e psique (Pessoa, 2003).

Por fim, Jung ainda relata alguns aspectos fundamentais sobre a relação corpo-mente que necessitam ser debatidos. Jung inicia assumindo que o fenômeno da sincronicidade é um fator sumamente abstrato e irrepresentável. Ele diz o seguinte:

 

“Atribuo aos corpos em movimento uma certa propriedade psicóide que como o espaço, o tempo e a causalidade, constitui um critério de seu comportamento. Devemos renunciar inteiramente à idéia de uma psique ligada a um cérebro e lembrar-nos, ao contrário, do comportamento ´significativo` ou ´inteligente` dos organismos inferiores desprovidos de cérebro. Aqui nos encontramos próximos do fator formal que, como dissemos, nada tem a ver com a atividade cerebral” (grifos meus).

 

Jung nesse ponto se questiona se a relação entre “alma e corpo” ou se a coordenação dos processos psíquicos e físicos no organismo vivo pode ser entendida como um fenômeno sincronístico, em vez de uma relação causal.

O autor levanta a questão de que a suposição de uma relação causal entre psique e corpo nos conduz a conclusões dificilmente enquadradas pela experiência. Por exemplo, segundo o modelo causal, ou há processos físicos que dão origem a acontecimentos psíquicos, ou há uma psique preexistente que organiza a matéria. No primeiro caso, é difícil ver como processos químicos sejam jamais capazes de produzir processos psíquicos, e no segundo caso, de que modo uma psique imaterial poderá colocar a matéria em movimento.

 Mas, o conceito de sincronicidade, por outro lado, parece oferecer qualidades que podem nos ajudar a esclarecer o problema corpo-alma. Segundo Jung, é sobretudo o fato da ordem sem causa, ou melhor, do ordenamento significativo que poderia lançar alguma luz sobre o paralelismo psicofísico.

Segundo as palavras de Jung,

 

“O ´conhecimento absoluto`, que é característico dos fenômenos sincronísticos, conhecimento não transmitido através dos órgãos dos sentidos, serve de base à hipótese do significado subsistente em si mesmo, ou exprime sua existência. Esta forma de existência só pode ser transcendental porque, como no-lo mostra o conhecimento de acontecimentos futuros ou espacialmente distantes, se situa em um espaço psiquicamente relativo e num tempo correspondente, isto é, em um contínuo espaço-tempo irrepresentável”.

  

Jung, então, relata experiências que parecem revelar a existência de processos psíquicos naquilo que comumente se considera como um “estado inconsciente”, quando, por exemplo, um indivíduo sofre um acidente, e fica desacordado, numa síncope profunda decorrente de alguma lesão cerebral. Em alguns casos, argumenta Jung, contra todas as expectativas, uma lesão craniana grave nem sempre implica a correspondente perda de consciência. Ao observador, a pessoa que sofreu a lesão parece apática, paralisada, “em transe” e subjetivamente privada dos sentidos, porém a consciência não se acha extinta.

Jung cita um exemplo de uma paciente que vivenciara um estado de coma, momentâneo, e que depois de acordada, sabia descrever com exatidão os movimentos e procedimentos realizados pelos médicos e enfermeiros para reabilitara. Diante de seu relato, os profissionais de saúde ficaram estarrecidos, mas tiveram que admitir a exatidão de suas percepções. Durante a síncope (desmaio), a paciente tomou consciência de que, sem sentir seu corpo e a posição em que jazia, ela olhava para baixo, de algum ponto situado junto ao teto do quarto, e podia ver tudo o que se passava no recinto, abaixo dela, incluindo a visão de si mesma deitada na cama, pálida e de olhos fechados, bem como a agitação dos profissionais de saúde para reanimá-la.

A paciente chegou a descrever para Jung, a existência por trás dela, de um belo jardim para “outro mundo”. Jung cita outro exemplos gerais, em que num estado semelhante de inconsciência, as pessoas têm uma sensação nítida e impressionante de alucinação ou levitação. São casos em que a pessoa ferida tem impressão de que se eleva no ar na mesma posição em que se encontrava no momento em que recebeu o ferimento. Ocasionalmente, tem-se a impressão de que o espaço circundante se eleva também. Pode-se perder a sensação do peso. Durante a levitação, a disposição interior é predominantemente eufórica: ´sublime, solene, lindo, celestial, relaxante, feliz, despreocupado, excitante`, são as palavras usadas – segundo Jung – para descrever esse estado. 

 Jung assevera que não é fácil explicar como que tais processos psíquicos inusitadamente intensos podem ocorrer em estado de colapso grave e ser lembrados depois, e como o paciente pode observar acontecimentos reais em seus detalhes concretos, com os olhos fechados. Segundo todos os pressupostos, era de esperar que uma anemia cerebral tão definida afetasse notavelmente ou mesmo impedisse a ocorrência de processos psíquicos tão altamente complexos. Porém, estas experiências parecem mostrar que nos estados de síncope nos quais, segundo todos os padrões de julgamento humano, há plena certeza de que a atividade da consciência e sobretudo as percepções sensoriais estão suspensas, a consciência, as idéias reproduzíveis, os atos de julgamento e as percepções podem continuar a existir contra todas as expectativas.

A sensação de levitação que ocorre nestas condições, bem como a alteração do ângulo de visão e a extinção da audição e das percepções cinestésicas indicam uma mudança da localização da consciência, uma espécie de separação do corpo ou do córtex cerebral ou cérebro, onde se “supõe” esteja a sede dos fenômenos conscientes. 

Jung se questiona (1º) se não existe em nós um outro substrato nervoso ou cérebro que possa pensar e perceber, ou (2º) se os processos psíquicos que ocorrem em nós durante a perda de consciência não são fenômenos sincronísticos que não têm nenhuma conexão causal com os processos orgânicos.

Jung argumenta que “... Não se deve excluir a priori esta última possibilidade, sobretudo dada a existência da ESP, ou percepções independentes do tempo e do espaço que não podem ser explicadas simplesmente como processos do substrato biológico. Onde percepções sensoriais são impossíveis, já de início, só se pode pensar em sincronicidade” (Jung, 1984).

Jung então conclui que existem provas suficientes da existência de pensamentos e percepções transcerebrais, e afirma que “é preciso ter presente esta possibilidade, se pretendemos explicar a existência de alguma forma de consciência durante a inconsciência do estado de coma”.


Sincronicidade e a crítica da noção de Causalidade 

 

Jung, ao comentar sobre a noção de causalidade e as leis da probabilidade, assinala a tendência humana universal para projetar a causalidade. De um modo quase inevitável, as pessoas fazem a pergunta: Por que aconteceu isso? Parte-se do princípio de que todo o evento é causado por alguma coisa que o precedeu. Com freqüência, está presente uma relação causal dessa espécie, mas ocasionalmente, pode não estar. Em psicologia, por exemplo, é particularmente difícil determinar a causalidade, porquanto ninguém pode saber com absoluta certeza o que nos causa fazer, pensar e sentir desta ou daquela maneira. Existe motivação consciente e existe motivação inconsciente dos conteúdos e impulsos psíquicos. Há muitas teorias que tentam explicar a emoção e o comportamento em termos causais, mas nossas projeções levam-nos, sem dúvida alguma, a apontar mais causas no domínio dos fenômenos psíquicos do que realmente aí se encontram (Stein, 1998). Esse fato, nos ajuda a entender porque quase dogmaticamente, Freud postulou em sua teoria psicanalítica o chamado “determinismo psíquico”, ou seja, a teoria de que existe uma explicação causal para todos os fenômenos que acontecem no aparelho psíquico. É interessante observar, que essa linha de pensamento, nos faz, algumas vezes, atribuir aos acontecimentos observáveis e psíquicos, causas erradas, descobrindo mais tarde que estávamos equivocados.

Assim, poderíamos apressar-nos em aceitar a conclusão de que um homem espanca a mulher porque foi espancado quando criança ou porque viu seu pai surrar regularmente sua mãe. Comporta-se assim, por causa de experiências infantis, ou porque os seus pais o influenciaram nessa direção. Poderíamos declarar com grande confiança em nossa acuidade psicológica que “ele sai ao pai” ou que o responsável é o “seu complexo materno”. Isso não deixa de ser uma boa abordagem inicial, mas tal análise redutiva certamente não esgota toda a gama de causas e significados possíveis.

Por exemplo, pode existir uma causa final que leva as pessoas a fazer algo com vistas à realização de um determinado objetivo ou à obtenção de uma certa medida de adaptação à vida. No caso desse homem, talvez ele esteja tentando assegurar-se de poder e controle sobre sua mulher, pretendendo assim adquirir maior domínio sobre o seu próprio futuro.

A causação psicológica pode levar a um retrocesso na história ou igualmente a um decidido avanço rumo ao futuro.

E depois temos também os acontecimentos aleatórios, como encontrarmo-nos no lugar certo e a hora certa. É difícil explicar por que algumas pessoas são tão afortunadas ou malfadadas, tão bafejadas pela sorte ou marcadas pelo infortúnio, e é freqüente acabarmos elogiando-as por coisas que elas não fizeram ou, o que é pior, censurando-as por coisas que não podiam evitar (Stein, 1998).

Podemos considerar aqui, que uma perspectiva baseada numa cosmovisão cármica e  reencarnacionista baseada no conceito das leis de ação e reação presentes no corpo doutrinário da maioria das grandes Tradições Espirituais (incluindo o Espiritismo) resolvam essa questões. Se isso pode ser verdadeiro, não deixa de ser menos real o fato de que essa temática deixa um espaço quase infinito ou para a projeção, ou para a especulação, ou ambos.

Pensamos em termos de causa-e-efeito porque somos humanos, não porque vivemos numa era científica. Em todos os períodos e em todas as culturas, as pessoas pensam causalmente, mesmo que atribuam aos eventos causas que os nossos conhecimentos científicos contradizem. Poderemos dizer hoje de um determinado indivíduo que ele se comporta como um monstro psicopático porque foi severamente maltratado em sua infância, ao passo que na Idade Média (ou entre alguns evangélicos atuais) a opinião é a de que o Demônio o faz agir assim (Stein, 1998). Seja como for, isso indica que a causalidade goza de um fator arquetípico na psique humana, e a legitimidade de sua realidade até certo ponto é um fato concreto e aceitável. O problema reside em supor que esse seja o único princípio de análise possível, ou que tudo possa ser explicado por alguma relação de causalidade.

Jung reconhece que desafiar o pensamento causal é o mesmo que ir contra a natureza do senso-comum. Por que fazê-lo? Porque existem eventos que não podem ser cobertos por nenhuma das teorias da causalidade. Em um de seus seminários, Jung aponta um exemplo na psicossomática. Segundo suas palavras,

 

“... O paralelismo psicofísico forma um problema insolúvel. Tome-se, por exemplo, o caso da febre tifóide e suas contaminações psíquicas; se os fatores psíquicos forem confundidos com uma causalidade atingiríamos conclusões absurdas. O máximo que se pode afirmar é a existência de certas condições fisiológicas que são claramente produzidas por doenças mentais, e outras que não são causadas, porém meramente acompanhadas de processos psíquicos. Corpo e psique são os dois aspectos do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos. Assim prefiro afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa, e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos imaginá-las juntas. Para meu próprio uso cunhei um termo que ilustra essa existência simultânea; penso que existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração. Talvez um dia possamos descobrir um novo tipo de método matemático, através do qual fiquem provadas essas identidades...” (Jung, 1985) – grifos meus.

 

Em outra oportunidade Jung relata que,

 

“A idéia de uma sincronicidade e de um significado subsistente por si mesmo, que constitui a base do pensamento chinês clássico e a concepção ingênua da Idade Média, hoje nos parece um arcaísmo que deve ser evitado a todo transe. Embora o Ocidente tenha feito o possível para se libertar desta hipótese antiquada, contudo não o conseguiu inteiramente. Certos procedimetos mânticos parecem desaparecidos, mas a Astrologia, que em nossa época atingiu uma culminância jamais conhecida, permanece viva. Nem mesmo o determinismo da época científica foi capaz de extinguir inteiramente a força persuasiva do princípio da sincronicidade. Com efeito, trata-se, em última análise, não de uma superstição, mas de uma verdade que permaneceu oculta, porque tem menos a ver com o aspecto material dos acontecimentos do que com seu aspecto psíquico. Foram a Psicologia Moderna e a Parapsicologia que provaram que a causalidade não explica uma determinada classe de acontecimentos, e que, neste caso, é preciso levar em conta um fator formal, isto é, a sincronicidade, como princípio de explicação” (Jung, 1964) – grifos meus.   

 

De uma forma bastante irônica, Jung mostra que a participation mystique da primeira etapa da humanidade, a psicologia primitiva, não está, afinal de contas, assim tão longe da realidade (Stein, 1998).  O conceito de sincronicidade se firma – na abordagem junguiana – como um símbolo e um conceito que une o mundo da magia e dos extraordinários e inexplicáveis fenômenos do inconsciente coletivo, com o racional mundo da inteligibilidade científica. Jung mostra que esses fenômenos místicos, religiosos ou quase mágicos, tradicionalmente excluídos de qualquer discussão científica, também fazem parte da herança profunda e arcaica (ou arquetípica) da humanidade. Negá-los não irá resolver o problema de sua ocorrência[11]. Jung opta pela relação dialética entre ciência e religião, sem favorecer unilateralmente um ou outro elemento.

Na rigorosa parte científica, ao colocar em dúvida o caráter último do raciocínio de causa-e-efeito, Jung descobriu que a física moderna era uma aliada, porquanto a física tinha descoberto alguns eventos e processos para os quais não havia explicações causais, tão somente probabilidades estatísticas. Jung menciona, por exemplo, a decomposição de elementos radioativos:

 

“Sir James Jeans inclui também a desintegração radioativa entre os acontecimentos acausais, dos quais fazem parte também, os fenômenos sincronísticos. A desintegração radioativa – diz Sir James – ´aparecia como um efeito sem causa e sugeria que nem mesmo as últimas leis da natureza[12] são causais`[13]. Esta formulação altamente paradoxal, saída da pena de um físico, é característica do estado de perplexidade que a desintegração radioativa acarreta para o intelecto. A desintegração radioativa, ou mais implicitamente o fenômeno da ´meia-vida`, aparece na realidade, como um caso de ordenamento acausal – conceito este que inclui também a sincronicidade” (Jung, 1984).

 

 Não há explicação causal para nos elucidar por que um ou outro átomo de rádio se decompõe no momento em que isso ocorre. A decomposição de elementos radioativos pode ser prevista e estatisticamente medida, e a taxa de decomposição é constante ao longo do tempo, mas não há explicação que nos diga por que e como isso acontece. Simplesmente acontece. É uma daquelas coisas a cujo respeito dizemos: “Porque é assim mesmo” (Stein, 1998).

 

 

 

Essa descoberta de eventos não causados produz uma brecha no universo causal. É não só o fato de a ciência ainda não ter chegado a entender como a causalidade funciona em tais circunstâncias, mas sobretudo, a constatação de que, em princípio, a regra da causação não é aplicável. Se existem acontecimentos que não são criados por uma causa precedente, como poderemos pensar sobre suas origens? Por que acontecem? O que explica a sua ocorrência? São esses eventos aleatórios e puramente acidentais?[14]


Considerações adicionais

 

Na parte final de seu ensaio, Jung apresenta uma idéia de grande importância e projeção: a inclusão da sincronicidade, ao lado das noções de espaço, tempo e causalidade, num paradigma que pode oferecer uma completa descrição da realidade, tal como é experimentada pelos seres humanos e medida por cientistas. Segundo suas palavras,

 

“Em contraste com a idéia de uma harmonia preestabelecida, o fator sincronístico postula apenas a existência de um princípio necessário à atividade cognitiva de nossa razão, princípio que se poderia acrescentar como quarto alimento à tríade espaço, tempo e causalidade. Da mesma forma que estes fatores são necessários mas não absolutos – a maioria dos conteúdos psíquicos não está ligada ao espaço, e o tempo e a causalidade são psiquicamente relativos – assim também o fator sincronístico só é válido condicionalmente”.

 

Jung, então, complementa que ao contrário da causalidade que impera despoticamente sobre a imagem do mundo macrofísico (ou seja, visível aos sentidos físicos), e cujo domínio universal se acha abalado apenas em certas ordens de grandeza interiores, a sincronicidade é um fenômeno que parece estar ligado primariamente a certas condições (micro)físicas, ou aos processos do inconsciente (bem como também a alguns aspectos ecológicos e evolutivos do domínio da biologia). Ocorrem de forma experimental, segundo Jung, com certa regularidade e freqüência nos procedimentos mânticos intuitivos, onde são subjetivamente convincentes, mas extremamente difíceis de verificar objetivamente pelo método estatístico.

Seja como for, Jung declara que a sincronicidade não é uma teoria filosófica, mas um conceito empírico que postula um princípio necessário ao conhecimento. O espaço, o tempo e a causalidade, a tríade da Física Clássica, seriam complementados pelo fator sincronicidade, convertendo-se em uma tétrada, um quatérnio que nos torna possível um “julgamento da totalidade”, nas palavras de Jung.

 

 

Causalidade

 

Sincronicidade

 

Tempo

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Jung explica que a sincronicidade, aqui, está para os três outros princípios, assim como a unidimensionalidade do tempo está para a tridimensionalidade do espaço, e da mesma forma que a introdução do tempo como quarta dimensão na Física Moderna implica o postulado de um contínuo espaço-tempo irrepresentável, assim também a idéia de sincronicidade com seu caráter próprio de significado produz uma imagem do mundo de tal modo também irrepresentável, que poderia levar à confusão. A vantagem, porém, de se acrescentar este conceito é que ele torna possível uma maneira de ver que inclui o fator psicóide em nossa descrição e no conhecimento da natureza, ou seja, um significado apriorístico ou uma equivalência.

O eixo vertical representa o contínuo espaço-tempo, e no horizontal existe o contínuo entre causalidade e sicronicidade. Assim levando em conta o diagrama de Jung e W. Pauli, a descrição mais completa da realidade inclui o entendimento de um fenômeno pela consideração de quatro fatores: onde e quando o evento aconteceu (o contínuo espaço-tempo) e o que levou a isso e qual o seu significado (o contínuo causalidade-sincronicidade). Se estas questões podem ser respondidas, o evento será entendido em sua plenitude.

A tese de Jung sustenta que a resposta à questão do significado requer mais do que a mera descrição da seqüência causal de eventos que culminam no evento em questão. Argumenta ele que a sincronicidade deve ser levada em conta para se chegar a uma resposta à questão do significado. Do lado psicológico e psicóide das coisas, cumpre investigar os padrões arquetípicos que são evidentes numa situação constelada, pois eles fornecerão os parâmetros necessários para abordar a questão da sincronicidade e a profunda significação estrutural.  Se a sincronicidade pode, nesse sentido, abrir espaço para uma grande quantidade de especulações e debates, a respeito do significado de acontecimentos importantes, a causalidade também não deixa de abrir uma vasta gama de opiniões, como se tem constatado na prática.

Para Stein (1998), o que Jung está fazendo nesse caso é inserir a psique na descrição completa da realidade, e isso adiciona o elemento de significação ao paradigma científico, o qual, sem o concurso desse elemento, continua sem referência à consciência humana ou ao valor do significado. Jung está propondo que uma descrição completa da realidade deve incluir a presença da psique humana – o observador – e o elemento de significação.

Nesse sentido Jung cita a idéia do físico Sir James Jeans que acha possível que as origens dos acontecimentos no substrato para além do espaço e do tempo incluam também as nossas atividades mentais, de sorte que o curso dos acontecimentos futuros depende em parte dessa atividade mental.

Autores contemporâneos da Física Moderna como Fritjof Capra ou David Bohm parecem corroborar a idéia de Jung, tal como foi esboçada. Eugene Wingner, prêmio Nobel de Física, também concorda que “a consciência, inevitável e inevitavelmente, entra na teoria”. Outro físico que segue esse mesmo pensamento, e também é um Nobel de Física, é Werner Heisenberg (Pessoa, 2003). Não devemos esquecer que Jung também postulou essa idéia, lado a lado com outro ganhador do Nobel, que foi Wolfgang Pauli.  Por fim, no Brasil, o professor Dr. José Pedro Andreeta, físico livre-docente da USP, segue essa mesma linha de pensamento. Recentemente, um importante artigo da respeitada revista Scientific American, propôs uma hipótese semelhante (Chalmers, 2004).

O caminho de Jung, porém, inclui a pesquisa dos métodos mânticos (ou intuitivos), algo que é desconsiderado por pensadores mais conservadores. Como disse Jung, “... em princípio, geralmente se descobrem novos pontos de vista, não em terreno já conhecido, mas em lugares marginalizados, evitados ou mesmo mal-afamados”.

Como exemplo, o autor cita que “... O antigo sonho dos alquimistas, ou seja, a transmutação dos elementos químicos, idéia tão ridicularizada, tornou-se realidade em nossos dias, e seu simbolismo, que era também, e não menos, objeto de escárnios, tornou-se uma mina de ouro para a psicologia do inconsciente”.

Outro exemplo se encontra na parapsicologia experimental. Segundo Jung, no campo das ciências naturais há relativamente poucos trabalhos experimentais cujos resultados atingem um grau quase tão alto de certeza, quanto na parapsicologia. Ele assevera que o ceticismo exagerado a respeito da percepção extra-sensorial não é capaz de apresentar qualquer argumento satisfatório em seu apoio. Sua principal justificação, segundo Jung, é apenas a incerteza que parece ser uma espécie de “maldição” de toda especialização – que em si já é um campo limitado, pela própria natureza de seus objetivos – privando-as de pontos de vista mais altos e mais amplos.

Voltando à Física Moderna – e especialmente para a descoberta da radioatividade, e para outras descontinuidades da Física (como a organização do quantum de energia) que foi algo que modificou consideravelmente as concepções clássicas dessa disciplina – Jung propõe rever o seu esquema em quatérnio, que de certa forma ainda se baseia no superado modelo da física clássica, que opõe espaço e tempo. Com a ajuda de Pauli, ao invés de opor espaço e tempo, esses são vistos como na teoria da relatividade de Einstein, como um continuum espaço-tempo, se opondo à relação de conservação da energia.

Eis os argumentos de Jung:

 

“... Graças ao interesse amigável que o prof. W. Pauli demonstrou para com minhas pesquisas, gozei da situação privilegiada de poder discutir estas questões com um físico profissional que era, ao mesmo tempo, capaz de apreciar meus argumentos psicológicos. Por isto, hoje estou em condições de apresentar uma sugestão que leva em consideração os dados da Física Moderna. Pauli sugeriu que se substituísse a oposição de espaço e tempo do esquema clássico pela relação (conservação da) energia – contínuo espaço-tempo. Foi esta proposta que me levou a definir mais acuradamente o par de opostos causalidade-sincronicidade, com vistas a estabelecer uma certa ligação entre os dois conceitos heterogêneos. Acabamos, finalmente, concordando em torno do seguinte quatérnio:

 

 

Energia indestrutível

 
  

 

 

Conexão inconstante através da contingência ou da equivalência ou “significação” (Sincronicidade)

 

Conexão constante através do efeito (causalidade)

 

Contínuo espaço-tempo

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


            Jung conclui que, “Este esquema satisfaz, de um lado, aos postulados da Física Moderna e, do outro, aos postulados da Psicologia”.

            Ao propor esse esquema, Jung enfatiza a exclusão de uma explicação causalista para a sincronicidade. Segundo o seu esquema, a sincronicidade consiste em equivalências aparentemente “casuais”, mas que na verdade repousam em fatores organizadores, de natureza psicóide, denominados arquétipos. Segundo Jung, os arquétipos são indefinidos, ou seja, só podem ser conhecidos e determinados de maneira aproximativa (ou probabilística, na terminologia da Física). Podem até ser associados a processos causais, ou serem “portados” por eles, contudo estão continuamente ultrapassando os seus próprios limites, procedimento este que Jung denominou de transgressividade, “porque os arquétipos não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico)”.

            Para Jung, as equivalências arquetípicas são contingentes à determinação causal, isto é, entre elas e os processos causais não há relações conformes a leis. Por isto, parece que elas representam um exemplo especial de acidentalidade ou acaso ou “estado aleatório” que atravessa o tempo de maneira totalmente conforme à lei.

            Segundo Jung, “se associarmos a sincronicidade ou os arquétipos ao contingente, este último assume o aspecto específico de uma modalidade que tem o significado funcional de um fator constitutivo do mundo”. Ao expor o conceito de sincronicidade nesses termos, Jung começa a traçar relações entre a Psicologia Profunda e uma área da Física denominada Cosmologia (a ciência que estuda o universo como um todo, sua origem, constituição, estrutura e organização).

            Assim ele conclui que se por um lado, o arquétipo representa a probabilidade psíquica, porque retrata os acontecimentos ordinários e instintivos em uma espécie de tipos, por outro lado, é um exemplo psíquico especial da probabilidade geral que é constituída de leis do acaso e estabelece regras tanto para a natureza quanto para a mecânica.

            Em outros termos, isso significa que embora no âmbito do intelecto puro, o contingente seja “uma matéria sem forma”, contudo ele se revela à introspecção psíquica, na medida em que a percepção interior seja capaz de apreendê-lo como imagem ou, antes, como tipo que está na base não só das equivalências psíquicas mas notavelmente também das equivalências psicofísicas.

            O conceito de sincronicidade como organização acausal, inclui todos os “atos de criação”, os fatores a priori, como por exemplo, as propriedades dos números inteiros, as descontinuidades da Física Moderna, etc. Jung admite que o conceito de sincronicidade nesse sentido estreito é um tanto limitado, e precisa ser ampliado. 

Para Jung, se os acontecimentos acausais existem, eles devem ser considerados como atos de criação no sentido de uma creatio cotinua (criação contínua) de um modelo que se repete esporadicamente desde toda a eternidade, e não pode ser deduzido a partir de antecedentes conhecidos. Por creatio continua não se deve entender apenas uma série de sucessivos atos de criação, mas também a presença eterna de um só ato de criação, no sentido Providencial ou Divino.

            As coincidências significativas são pensáveis como puro acaso. Mas, quanto mais elas se multiplicam, e maior e mais exata é a sua concordância, tanto mais diminui sua probabilidade e mais aumenta a sua impensabilidade, quer dizer, não se pode considerá-las como meros acasos, mas por não terem explicação causal, devem ser vistas como simples arranjos que têm sentido.

            Sua “inexplicabilidade” não é devida meramente à ignorância de sua causa, mas ao fato de que nosso intelecto é incapaz de pensá-las com os meios de que se dispõe atualmente. Isto acontece necessariamente quando o espaço e o tempo perdem seu significado, isto é, quando se tornam relativos, porque em tais circunstâncias, a causalidade, que pressupõe o espaço e o tempo, torna-se quase impossível de ser determinada ou é simplesmente impensável. Por estas razões, Jung introduz ao lado do espaço, do tempo e da causalidade, uma categoria que possibilite caracterizar os fenômenos de sincronicidade como uma classe especial de acontecimentos naturais, que considere o contingente (ou o paralelismo de fatos significativamente coincidentes) como um fator universal existente desde toda a eternidade, ao mesmo tempo, em que consiste na soma de inumeráveis atos individuais de criação que acontecem no tempo.

Para Jung, todos os fenômenos naturais desta espécie são combinações singulares extremamente curiosas de “acasos”, unidas entre si pelo sentido comum de suas partes e resultando em um todo inconfundível. Embora as coincidências significativas sejam infinitamente diversificadas quanto à sua fenomenologia, contudo, como fenômenos acausais, elas constituem um elemento que faz parte da imagem científica do mundo. A causalidade é a maneira pela qual concebemos a ligação entre dois acontecimentos sucessivos. A sincronicidade designa o paralelismo de espaço e de significado dos acontecimentos psíquicos e psicofísicos, que nosso conhecimento científico até hoje não foi capaz de reduzir a um princípio comum.

O termo em si nada explica. Apenas expressa a presença de coincidências significativas, que, em si, são acontecimentos casuais, mas tão improváveis, que temos de admitir que se baseiam em algum princípio ou em alguma propriedade do objeto empírico. Em princípio, é impossível descobrir uma conexão causal recíproca entre os acontecimentos paralelos, e é justamente isto que lhes confere o seu  caráter casual. A única ligação reconhecível e demonstrável entre eles é o significado comum (ou uma equivalência). Segundo Jung, a sincronicidade não se baseia em pressupostos filosóficos, mas na experiência concreta e na experimentação.

Os fenômenos sincronísticos são a prova da presença simultânea de equivalências significativas em processos heterogêneos sem ligação causal; em outros termos, eles provam que um conteúdo percebido pelo observador pode ser representado, ao mesmo tempo, por um acontecimento exterior, sem nenhuma conexão causal.  Daí se conclui: ou que a psique não pode ser localizada espacialmente, ou que o espaço é psiquicamente relativo. O mesmo vale para a determinação temporal da psique ou a relatividade do tempo. A constelação desse fato tem conseqüências de longo alcance.

 


Um novo paradigma científico, e uma nova Cosmologia

 

Inicialmente, temos que a subida à consciência de padrões e imagens oriundas das profundezas do inconsciente coletivo psicóide fornece ao gênero humano seu propósito no universo. Temos aqui, um novo paradigma ou conceito de ciência, em que a consciência humana ganha uma grande importância, já que para Jung, a significação da vida humana neste planeta está vinculada à nossa capacidade de conscientização, ao adicionar ao mundo uma percepção reflexiva de coisas e significados. Em outros termos, os humanos estão uma posição que lhes permite tomarem consciência de que o cosmos tem um princípio ordenador (Stein, 1998). Segundo o conceito de sincronicidade, só uma cosmologia dessa espécie será aceitável no mundo contemporâneo.

Como base para uma nova visão do mundo, o conceito de sincronicidade e suas implicações funcionam com eficácia porque são bastante fáceis de entender intuitivamente e de incorporar à vida cotidiana de cada um. Por exemplo, todos temos consciência de acontecimentos em que a “sorte” nos bafejou e de dias de “azar” em que tudo parece correr mal. Grupos de eventos que estão relacionados através de significado e imagem, mas causalmente sem relação alguma entre si, podem ser facilmente experimentados e verificados por qualquer pessoa. Mas aceitar esse conceito seriamente como princípio científico nada tem de fácil, mas sim de revolucionário. Em primeiro lugar, requer uma forma de pensar inteiramente nova acerca da natureza e da história. Se uma pessoa pretende encontrar uma significação em eventos históricos, por exemplo, a implicação é que o subjacente arquétipo de ordem está organizando a história de tal modo a produzir algum novo avanço da consciência. Isso não significa progresso como os seres humanos gostariam de pensar, mas antes, um avanço no entendimento da realidade, que pode equivaler ao reconhecimento tanto do seu lado terrível quanto de sua face bela e gloriosa. Cada um de nós, portanto, é o portador de um fragmento de consciência de que a realidade e o tempo necessitam para ampliar o conhecimento dos motivos subjacentes que se desenrolam na história. Ou seja, o indivíduo é um co-criador do reflexo de realidade que a história como um todo revela. Cada história individual e a coletiva como um todo, devem ser vistas em relação recíproca e unidas de forma significativa (Stein, 1998).

Segundo Stein (1998), é um sacrifício mental para o racionalista ocidental pensar em cultura e história nos termos em que o conceito de sincronicidade implica, já que o pensamento ocidental está muito comprometido com um rigoroso princípio de causalidade. Ou seja, para muitos ocidentais, cientistas ou espiritualistas, ou ambos, a chamada Lei de Ação e Reação explica tudo... Historicamente, a Era do Iluminismo deixou especificamente para o pensamento científico (e mesmo para algumas linhas do pensamento filosófico e histórico) um legado de faticidade sem significação. Supõe-se que o cosmos e a história estão dispostos pelo acaso e pelas leis causais que governam a matéria. Nesse contexto, Jung reconhece o desafio, pois ele próprio era produto da cosmovisão científica ocidental.

Nesse sentido, a fim de relacionar a teoria dos arquétipos com os eventos sincronísticos que transgridem as fronteiras do mundo psíquico, Jung viu-se forçado a ampliar a sua noção da natureza não-psíquica do arquétipo. Por um lado, é psíquico e psicológico, uma vez que é experimentado dentro da psique na forma de imagens e idéias. Por outro lado, é irrepresentável em si mesmo e sua essência está fora da psique, representando a sua propriedade já discutida de transgressividade. O arquétipo transgride as fronteiras da psique e da causalidade, embora seja “portado” por ambas.

Jung tem o propósito de atribuir à transgressividade o significado de que as configurações que ocorrem na psique estão relacionadas com eventos e padrões situados fora da psique. A característica comum a ambos os domínios é o arquétipo. Por exemplo, no caso da bomba atômica, o arquétipo do Si-mesmo (Self) é revelado na história dentro e fora da psique pelo evento de sua explosão, na e através do contexto histórico mundial em que surgiu, e por milhões de sonhos em que figurou a bomba (Stein, 1998).

Essa idéia da transgressividade do arquétipo desenvolve-se em duas direções: Em primeiro lugar, afirma existir uma significação objetiva subjacente nas coincidências que ocorrem na psique e no mundo, e os impressionam como intuitivamente significativas. Por outro lado, ou em segundo lugar, cria a possibilidade de que exista um significado onde intuitivamente não o enxergamos, quando por exemplo, ocorrem acidentes que nos impressionam como meramente devidos ao puro acaso. Em ambos os casos, esse tipo de significação vai além de (transgride) a cadeia de causalidade linear.

O nosso nascimento numa determinada família é unicamente devido ao acaso e causalidade, ou pode haver também aí um significado? Ou suponhamos que a psique está organizada e estruturada não só causalmente, como é o pensamento dominante na psicologia do desenvolvimento, mas também de modo sincronístico. Isso significaria que o desenvolvimento da personalidade tem lugar por momentos  de significativa coincidência (sincronicidade), assim como por uma seqüência epigenética pré-ordenada de etapas.

Subentenderia também que os grupos de instintos e os arquétipos se uniram e foram ativados de modo tanto causal quanto sincronístico (significativo). Um instinto como a sexualidade, por exemplo, poderia ser ativado não só em virtude de uma cadeia causal de eventos em seqüência (fatores genéticos, fixações psicológicas ou experiências infantis), mas também porque um campo arquetípico está constelado num determinado momento, e assim, por exemplo, um encontro ocasional com uma pessoa converte-se num relacionamento para a vida inteira. Nesse momento, algo do mundo psicóide torna-se visível e consciente (por exemplo, o par animus-anima). A imagem constelada do arquétipo não cria o evento, mas a correspondência entre a preparação psicológica interior (a qual pode ser totalmente inconsciente nesse momento) e o aparecimento exterior de uma pessoa, de forma inesperada e imprevisível, é sincronística. 

Por que acontecem tais conexões parece um mistério se refletirmos unicamente em termos de causalidade, mas se introduzirmos o fator sincronístico e a dimensão de significação, então, estaremos muito mais perto de uma resposta mais completa e satisfatória. Num universo aleatório, essa coincidência de necessidade e oportunidade, ou de desejo e satisfação, seria impossível, ou pelo menos, estatisticamente improvável. Mas, esses mistérios inesquecíveis que estão consubstanciados em eventos sincronísticos transformam as pessoas, pois ingressar no mundo arquetípico desses eventos gera a sensação de se estar vivendo na vontade de Deus (Stein, 1998).

A Cosmologia é a ciência que procura explicar a organização e funcionamento do Universo como um todo. Apenas recentemente ela foi reconhecida como uma disciplina científica, antes sendo objeto de atenção apenas de filósofos, teólogos e metafísicos. O livro de Jung sobre Sincronicidade inicia-se e concentra-se sobre o que o autor designou de definição da sincronicidade em “sentido estrito”, ou seja, a coincidência significativa entre um evento psíquico, como um sonho ou pensamento, e um evento do mundo não-psíquico. Mas, Jung também considera a definição mais ampla. Esta relaciona-se com a organização acausal no universo sem qualquer referência especial à psique humana. Isso corresponde, segundo Jung,  numa concepção mais geral de sincronicidade como organização acausal no mundo. Em outras palavras, isso converteu-se  no enunciado cosmológico de Jung. Assim, Jung não teorizou apenas sobre Psicologia, mas também sobre Cosmologia.

A sincronicidade, ou organização acausal, é para Jung, um princípio[15] subjacente na lei cósmica. Do ponto de vista do princípio geral de sincronicidade, a nossa experiência humana de organização acausal, através do fator psicóide e da transgressividade do arquétipo, constitui um caso especial de ordenamento muito mais amplo no universo.

A Cosmologia de Jung fornece, em sua perspectiva mais ampla, o mais extenso alcance de sua penetrante e unificada visão. Segundo ele, os seres humanos têm um papel especial a desempenhar no Universo. A nossa consciência é capaz de refletir o cosmos e de introduzi-lo no espelho da consciência.

O quatérnio de relações traçadas por Jung e Pauli, para descrever o universo, como vimos, se refere a quatro princípios: energia indestrutível, contínuo espaço-tempo, causalidade e sincronicidade. Aqui vemos que a psique humana e a nossa psicologia pessoal participam da maneira mais profunda na ordem desse universo por intermédio do nível psicóide do inconsciente. Mediante o processo de psiquização, configurações de ordem no universo tornam-se acessíveis à consciência e podem, finalmente, ser entendidas e integradas. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras criativas desde dentro, por assim dizer, prestando atenção à imagem e à sincronicidade. Pois o arquétipo é não só o modelo da psique, mas também reflete a real estrutura básica do universo.  “Como em cima, assim embaixo”, falaram os místicos e esotéricos. “Como dentro, assim fora” parafraseou Carl Gustav Jung (Stein, 1998).

 

 

Referências Bibliográficas

 

Jung, C. G. (1971) Sincronicidade – Um princípio de conexões acausais. Petrópolis: Vozes, 1984.

 

Jung, C. G. Fundamentos de Psicologia Analítica. Petrópolis: Vozes, 1985.

 

Jung, C. G. (1964) O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.

 

Stein, Murray. Jung – O Mapa da Alma – uma introdução. São Paulo: Ed. Cultrix, 1998.

 

Capra, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Ed. Cultrix, 1975.

 

Pessoa, Adalberto Ricardo. A Quinta Força – Uma nova visão da Alma Humana. São Paulo: Editora DPL, 2003.

 

Chalmers, David J. O Enigma da consciência in Scientific American Brasil. Edição Especial, nº 4, págs. 40-49.



[1] Trata-se do escritor e jornalista suíço que escreveu uma biografia de Albert Einstein.

[2] Em outro momento, Jung afirma que se a validade da lei natural é apenas estatística – como só recentemente foi observado – abre-se uma porta para o indeterminismo. Na Física Moderna, isso lembra o princípio da incerteza ou da indeterminação de Werner Heisenberg. Também se relaciona com a fórmula de ondas materiais de Erwin Schrödinger.

[3] Nesse sentido, Jung cita o seguinte conjunto de acontecimentos, que ilustra a sua conclusão: “... quando me vejo diante do fato de que meu bilhete para o metrô tem o mesmo número que o bilhete de entrada para o teatro que compro logo em seguida, e que, na mesma noite, recebo um telefonema no qual a pessoa que me telefona me comunica o número do aparelho igual ao dos referidos bilhetes, parece sumamente improvável que haja um nexo causal entre estes fatos, e imaginação nenhuma, por mais ousada que possa ser, seria capaz de descobrir como tal coisa poderia acontecer, embora seja também evidente que cada um desses casos tem sua própria causalidade”. Aqui, provavelmente estamos diante de um interessante caso de sincronicidade.

 

[4] Além disso, para Jung, há um problema filosófico em se postular um fator de causa transcendental (e, portanto, incomensurável).: por definição, uma causa é um conceito que só pode ser reconhecido como uma entidade demonstrável. E uma causa transcendental, é uma contradição nos termos, porque o que é transcendental, por definição, não pode ser demonstrado.

[5] O experimento se baseia num princípio triádico (dois trigramas) e é constituído de sessenta e quatro mutações, cada uma das quais corresponde a uma situação psíquica. Jung também cita um sistema alternativo ocidental baseado num princípio tetrádico, que resulta em 16 quatérnios compostos de números pares e ímpares.

[6] Atualmente, novas pesquisas na área, entre diversos autores, parecem caminhar nessa direção. O aprofundamento desse tema exigiria um trabalho de pesquisa à parte, que poderá ser realizado em outra oportunidade.

 

[7] Jung contou com a colaboração da Drª L. Frey-Rohn para a coleta dos dados astrológicos, e com a ajuda do prof. Markus Fierz, para a realização dos cálculos matemáticos e análise estatística dos dados.

[8] Segundo Jung, outros fatos evidentes que poderiam ser usados na análise estatística de dados astrológicos, além dos horóscopos de casais, seriam o assassinato e o suicídio. Atualmente existem estatísticas sobre o assunto. Jung também cita o trabalho de Paul Flambart, sobre os ascendentes astrológicos de 123 pessoas altamente dotadas do ponto de vista intelectual. Em seu quadro estatístico, há acumulações bem definidas nos ângulos do trígono aéreo gêmeos-libra-aquário. Este resultado é confirmado por mais 300 casos.

 

[9] Jung e W. Pauli exemplificam o postulado de Niels Bohr, na microfísica, que usa “correspondência” como termo geral para exprimir a mediação entre a idéia de descontínuo (partícula) e contínuo (onda) expressa originalmente (1913-1918) como “princípio de correspondência” e mais tarde (1927) como “argumento de correspondência”.

[10] Atualmente (como também na época de Jung), muitos físicos modernos reconhecem a existência de uma relação de continuidade entre psique e matéria, ou entre a mente e a realidade física. David Bohm expõe esse tema de maneira clara em sua obra “A Totalidade e a Ordem Implicada”. Nessa linha de pensamento é possível citar Fritjof Capra, Danah Zohar, e o prof. Dr. José Pedro Andreeta, professor livre-docente de Física na USP, e autor do livro “Quem se atreve a ter certeza? – A realidade Quântica e a Filosofia”. 

[11] Aliás, faz parte do pensamento junguiano a justa consideração tanto dos aspectos racionais quanto irracionais da psique, eliminando a conotação negativa que o racionalismo ocidental insistentemente tenta oferecer a esse último, ao mesmo tempo em que aponta que a existência desses dois pólos em equilíbrio dialético são necessários para a manutenção da saúde psíquica, individual e coletiva.

[12] Jung acredita que o sentido extraordinário de orientação espacial dos animais talvez aponte também na direção da relatividade psíquica do tempo e do espaço (p15).

[13] Nesse ponto, Jung também cita o trabalho de pesquisa do professor A.-M. Dalcq, de Bruxelas, para quem a forma é uma “continuidade superior” à matéria viva, apesar de sua vinculação com a matéria. Com base nesse trabalho, Jung propõe que no plano orgânico, talvez se pudesse considerar a morfogênese biológica sob o ponto de vista do fator sincronístico (Jung, 1984, p.76).  Esse conceito parece similar com a noção atual elaborada pelo biólogo neovitalista Rupert Sheldrake, que discorre sobre um conceito semelhante ao qual ele denomina de Campos Morfogenéticos, em sua teoria da Ressonância Mórfica e sua Hipótese da Causação Formativa. Nesse mesmo sentido, pode ser citado o trabalho do professor de Anatomia da Universidade de Yale, Harold Saxton-Burr, sobre os campos eletromagnéticos, mensurados por voltímetros modernos, que segundo esse pesquisador, moldam e controlam o desenvolvimento de todos seres vivos, e que ele denominou de “campos da vida”.

 

[14] Jung reconhece a probabilidade como um importante fator na explicação de muitos acontecimentos. Mas existem séries de eventos aparentemente aleatórios que exibem um padrão para além das escalas de probabilidade, tais como seqüências de números e outras coincidências extraordinárias (Stein, 1998).

 

[15] Segundo o físico e engenheiro brasileiro Wladimyr Sanchez, PhD e doutor em ciências, a palavra princípio significa uma proposição que se coloca no início de uma dedução e que não é deduzida de nenhuma outra dentro do sistema considerado, sendo admitida provisoriamente, como ponto de partida para a construção de qualquer sistema de compreensão (SANCHEZ, Wladmyr. Maiêutica – A ciência a serviço do Espiritismo. Revista Universo Espírita, São Paulo, ano I, n. 06, p. 08-13, fev. 2004) .

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