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Símbolos Psíquicos
O conceito de símbolo é
importante nesse momento do trabalho, uma vez que já foram parcialmente
definidos os componentes da estrutura psíquica do ser humano (a consciência e
o ego, e o inconsciente pessoal e coletivo), e o conceito de energia psíquica e
libido, em textos anteriores. A noção de símbolo também é um dos conceitos
mais importantes da Psicologia Profunda de Jung, sendo-lhe por isso, reservado
essa resenha específica. Nesse momento, ao falarmos de símbolo, entraremos na
caracterização da relação dialética e compensatória entre consciente e
inconsciente, que por sua vez, define o caráter auto-regulado do sistema psíquico.
Ainda, o conceito de símbolo em seu caráter dialético de síntese, culmina em
uma série de implicações epistemológicas da obra junguiana, que estarão
correlacionadas com aspectos da fundamentação filosófica e profunda desse
estudo, em textos posteriores, bem como também se relacionarão com os estudos
sobre a fundamentação de um projeto de pesquisa em Psicologia Espírita.
Conceitualmente, símbolo
– para Jung – é a melhor expressão possível para algo desconhecido.
Segundo suas palavras, “toda expressão psicológica é um símbolo se
pressupormos que declara ou significa algo mais e algo diferente dela própria,
e que escapa ao nosso conhecimento atual” (Jung, 1920). O autor procura
distinguir sistematicamente, o conceito de símbolo e de sinal, bem como o de
significado simbólico e semiótico: “... (1) Toda concepção que explica a
expressão simbólica como analogia ou designação abreviada de algo conhecido
é semiótica. (2) Uma concepção que explica a expressão simbólica como paráfrase
ou transformação proposital de algo conhecido é alegórica.(3)
Já uma concepção que explica a expressão simbólica como a melhor formulação
possível, de algo relativamente desconhecido, não podendo, por
isso mesmo, ser mais clara ou característica, é simbólica (...)
O símbolo pressupõe sempre que, a expressão escolhida seja a melhor designação
ou fórmula possível de uma fato relativamente desconhecido, mas cuja existência
é conhecida ou postulada ...”.
Eis alguns exemplos,
retirados de Jung (1920): “(1) ... explicar a cruz como símbolo do amor
divino é semiótico, pois ´amor divino` designa o fato que se quer exprimir,
bem melhor do que uma cruz que pode ainda ter muitos outros sentidos. Simbólica
seria a explicação que considerasse a cruz além de qualquer explicação
imaginável, como expressão de um fato místico ou transcendente, portanto
psicológico, até então desconhecido e incompreensível, que pudesse ser
representado do modo mais condizente possível só pela cruz; ... (2) O costume
antigo de entregar, na venda de terras, algumas relvas é designado vulgarmente
como simbólico, mas por sua natureza, é totalmente semiótico. A relva é um sinal
que representa a terra adquirida. A roda alada do ferroviário não é um símbolo
da ferrovia, mas um sinal de que a pessoa integra o serviço
ferroviário (...) Por outro lado, se a roda alada do ferroviário fosse tida
como um símbolo, dir-se-ia que este homem tem algo a ver com uma entidade desconhecida
que não pode ser expressa melhor ou de outra maneira do que por uma roda com
asas. (3) Finalmente, as insígnias de um uniforme não são símbolos, mas
signos que identificam aqueles que as usam”.
Sharp (1191) conclui que
no trato com material inconsciente (sonhos, fantasias, etc) as imagens podem ser
interpretadas (1) semioticamente como signos sintomáticos que indicam fatos
conhecidos ou cognoscíveis, ou (2) simbolicamente, como expressão de algo
essencialmente desconhecido.
Decorre do conceito de símbolo
que, para o mesmo ser legítimo, deve constituir para o indivíduo uma vivência
simbólica, ou seja, uma vivência de significado, especialmente instigante e
estimulante. O símbolo é tudo aquilo que constitui para o homem uma vivência
simbólica significativa.
Nesse sentido, Jung (1920)
diz o seguinte: “... enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão de
alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado
o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão que formula melhor a coisa
procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo
está morto, isto é, só terá ainda significado histórico.
Pode-se continuar falando dele como de um símbolo, sob a tácita pressuposição
de que falamos sobre o que ele foi no passado, antes que tivesse nascido dele
uma expressão melhor ...”
Jung continua a dissertar
sobre as implicações do conceito, como se observa nas várias passagens
selecionadas adiante: “... Uma expressão usada para designar coisa conhecida
continua sendo apenas um sinal e nunca será um símbolo vivo, isto é, cheio de
significado, a partir de relações conhecidas. Pois o que assim foi criado não
conterá nada mais do que nele foi colocado.
Todo
produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível
de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser
considerado um símbolo, se aceitarmos que a expressão pretende designar o que
é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente.
Na
medida em que toda teoria científica encerra uma hipótese, portanto é uma
descrição antecipada de um fato ainda essencialmente desconhecido, ela é um símbolo.
Além disso, todo fenômeno
psicológico é um símbolo, na suposição que enuncie ou signifique algo mais
e algo diferente que escape ao conhecimento atual. Esta suposição é
absolutamente possível onde há uma consciência que procura outras
possibilidades de sentido das coisas. Só não é possível, e assim mesmo, só
para essa consciência, quando ele mesmo apresenta uma expressão que diz
exatamente o que era intencionado como, por exemplo, numa fórmula matemática. Mas,
para uma outra consciência não existe esta limitação. Ela pode considerar a
fórmula matemática como símbolo para um fato psíquico desconhecido e oculto
à intenção que o estabeleceu, na medida em que este fato não é
comprovadamente conhecido daquele que criou a expressão semiótica e não
poderia, pois, ser objeto de uma utilização consciente ...” (grifos
meus).
Decorre disso que “ ...
depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é símbolo ou não;
depende, por exemplo da inteligência que considera o fato dado não apenas como
tal, mas como expressão de algo desconhecido (...)
(...) Há porém, produtos
cujo caráter simbólico não dependem unicamente da atitude da consciência que
observa, mas impõem ao observador seu efeito simbólico. Esses produtos são
constituídos de tal forma que lhes faltaria qualquer significado se não
recebessem um sentido simbólico (...) Porém, um símbolo que impõe sua
natureza simbólica ainda não é necessariamente vivo. Pode
atuar, por exemplo, apenas sobre a compreensão histórica ou filosófica.
Desperta interesse intelectual ou estético. Um símbolo é vivo só quando é
para o observador a expressão melhor e mais plena possível do pressentido e
ainda não consciente. Nestas condições operacionaliza a participação do
inconsciente, e tem efeito gerador e promotor de vida (...)
(...) Símbolos que não
atuam por si, dessa forma, ou são mortos, isto é, foram superados por formulação
melhor, ou são produtos cuja natureza simbólica depende exclusivamente da
atitude da consciência que observa. Esta atitude que concebe o fenômeno dado
como símbolo podemos denomina-la atitude simbólica.
Só em parte é
justificada pelo comportamento das coisas; de outra parte é resultado de certa cosmovisão
que atribui um sentido a todo evento, por maior ou menor que seja, e que dá a
este sentido um valor mais elevado do que à pura realidade.
A
esta concepção se contrapõe outra que sempre coloca o acento na crua
realidade e subordina o sentido aos fatos. Para esta atitude não existe símbolo
algum, quando o simbolismo depende exclusivamente do modo de observar (...)
(...)
O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se
compõe de dados de todas as funções psíquicas (como por exemplo, as
funções sensação, pensamento, sentimento e intuição). Portanto, não é de
natureza racional e nem irracional. Possui um lado que fala à razão e outro
inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas
também de dados irracionais fornecidos pela simples percepção interna e
externa. A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta
tanto o pensamento quanto o sentimento, e a
plasticidade que lhe é peculiar, quando apresentada de modo perceptível aos
sentidos, mexe com a sensação e a intuição”.
Mas, o símbolo vivo não
pode surgir num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este se
contentará com o símbolo já existente, em uma interpretação
simplista, conforme lhe é oferecido por um determinado tipo de tradição
(filosófica ou religiosa, por exemplo). Para esse tipo de mentalidade restrita,
a imagem de um deus com cabeça de touro , nada mais é, do que um corpo humano
com cabeça de touro, e essa interpretação unilateral limitada aos sentidos,
é suficiente para ser tomada como uma descrição explicativa, excluindo uma
possibilidade de interpretação mais rica, integrada e viva, como na concepção
que integra uma atitude simbólica. A atitude restritiva referida
nesse parágrafo, também se encontra em exemplos peculiares como (1) no ceticismo
ideológico, que rejeita a possibilidade da legitimidade do caráter
transcendental de determinados símbolos culturais, especialmente os símbolos
de fé, religiosidade e espiritualidade, bem como (2) na atitude oposta de ortodoxia
dogmática, que interpreta esses mesmo símbolos culturais, apenas em
seu caráter literal, se fixando ao “pé da letra” sobre uma material que em
sua essência é metafórico, simbólico, e não uma explanação literal de um
fato acessível à realidade sensível. Nesse caso, se encaixam, por exemplo,
interpretações ingênuas das Sagradas Escrituras que (partindo de uma leitura
literal do texto corrido) compreendem uma cosmologia na qual o mundo pode ser
criado em apenas sete dias, ou onde a humanidade possa ter surgido de um único
homem e uma única mulher (Adão e Eva). Nesse tipo de leitura limitada, não se
consegue observar que um mito como o da “Gênese Bíblica”, possa estar se
referindo a um outro tipo de realidade metafórica ou simbólica, que para ser
atingida, precisaria de uma atitude mais adulta de reflexão crítica e inspiração
intuitiva, coerente com a interpretação que deve ser realizada de um mito, já
que como a psicologia junguiana costuma advertir, os mitos estão entre as produções
simbólicas arquetípicas, de significado coletivo mais profundo, alcançando o
âmago da alma humana.
Na compreensão de um símbolo – segundo a visão junguiana – sempre
se deverá levar em conta a sua dimensão pessoal e coletiva. Um símbolo sempre
contém uma determinada energia; quanto mais corresponder a uma representação
arquetípica ou brotar das camadas mais profundas do inconsciente coletivo,
maior será a fascinação e a força que exercerá sobre a consciência, que
geralmente se apresenta sob a forma de um afeto. Por isso, a mera compreensão
racional dos símbolos não basta para a sua integração à consciência. Para
Jung, os símbolos que não são individuais, mas coletivos, em sua natureza e
origem, são principalmente os símbolos religiosos, cuja função é dar
sentido à vida do homem.
O próprio fato de o símbolo
conter uma multiplicidade de significados possíveis faz com que atue sobre a
consciência, impulsionando para além de si mesmo, na direção de um sentido.
Isso caracteriza o método construtivo ou sintético na psicologia junguiana,
bem como o ponto de vista teleológico que o caracteriza.
Assim, se para Freud a
simbolização surge como resultado do conflito entre a repressão e o desejo,
Jung vê nos símbolos uma ação mediadora, uma tentativa de conciliação de
opostos movida pela tendência inconsciente à individuação. Essas considerações
tornam obrigatória uma discussão e aprofundamento sobre o paradigma dialético
da questão dos opostos na formação dos símbolos, em sua atividade compensatória,
e que caracteriza a psique como um sistema de funcionamento auto-regulado,
dirigido para fins. Essa temática está intimamente correlacionada com as bases
de fundamentação epistemológica da obra junguiana.
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A questão dos opostos e a relação dialética entre
consciente-inconsciente
Samuels (1988), inicia uma
explicação da questão dos opostos a partir da seguinte citação de Jung:
“os opostos são inerradicáveis e indispensáveis precondições de toda vida
psíquica”. Conclui-se que conhecer bem o princípio da oposição é
essencial para a compreensão de seu ponto de vista, pois era o fundamento para
seus empreendimentos científicos e jazia na raiz de muitas de suas hipóteses.
Sob o ponto de vista
epistemológico, Jung estava expressando o dinamismo da psique em termos da
primeira lei da termodinâmica que afirma que a energia requer duas forças
opostas. Em diferentes ocasiões, referiu-se a diversas fontes filosóficas para
a sua tese, porém nenhuma era reconhecida como primária, segundo Samuels
(1988). Isso porém é questionável: na obra junguiana, é possível observar
um direcionamento padrão de produção de conhecimento dirigido por uma
epistemologia primariamente Holística, com fortes influências
do existencialismo, da fenomenologia, da filosofia de Kant, da dialética
grega, e do conhecimento oriental (especialmente, nos postulados da filosofia do
princípio único e da ordem do Universo, expressas no antagonismo dialético
complementar dos pólos Yin e Yang, do Taoísmo Extremo-Oriental), sem esquecer
das influências da psicologia experimental (de W. Wundt) e da psicanálise de
Freud (essa última influência, costuma ser a mais reconhecida e divulgada no
meio acadêmico; apesar de sua grande importância e mérito, isso tem contribuído
para o esquecimento de outros aspectos profundos e importantes da obra junguiana
como um todo). Um aprofundamento desse assunto ultrapassaria os limites desse
trabalho de pesquisa, sendo pertinente a consulta da bibliografia específica,
podendo-se sugerir a obra de Clarke (1992), e mesmo a de Samuels (1988).
Seja como for, desde a época
de sua conceitualização do papel do inconsciente como um contrapólo à consciência
(e, portanto, capaz de exercer uma função compensatória), Jung aplicava o
conceito da dualidade intrínseca a um campo permanentemente em ampliação da
pesquisa psíquica, da observação e do discernimento.
Para Jung, os dois
sistemas dentro da psique, consciente e inconsciente, são concebidos como
agindo de modo compensatório, de maneira que a psique, como um todo, se diz
auto-regulada. Quando esta auto-regulação falha, o resultado é uma disfunção
patológica (neurose, psicose, desordem de caráter, etc). Assim, temos 3
conceitos a clarificar: (1) a questão dos opostos, (2) o conceito de compensação
e (3) a auto-regulação psíquica. Todos esses conceitos estão correlacionados
à uma temática central: a saúde psíquica e o equilíbrio de vida
segundo a Psicologia Profunda.
I.
A Questão dos Opostos
Aplicando-se a
teoria de Jung (Samuels, 1988), pares de opostos são considerados como de
natureza irreconciliável. No estado natural, coexistem de forma não-diferenciada.
As
faculdades e necessidades de uma vida humana contida em um corpo vivo fornecem
regras e limitações próprias que impedem um excesso de desproporção psíquica;
assim, estados conscientes e inconscientes são harmoniosos na “pessoa
equilibrada”.
Porém, a dissolução de
qualquer “compromisso” obtido entre duas metades desse par torna a atividade
de oposição sempre mais intensa e produz um desequilíbrio tal como aquele que
se observa às vezes no distúrbio neurótico.
Por outro lado, há um
aspecto positivo nesse processo: a alternância ou a experiência de se estar à
mercê, ora de um ora de outro par de opostos, é o sinal de uma consciência
despertando (muitas vezes, saindo de um estado anterior de alienação,
como efeito de um esclarecimento, ou como algo em direção a isso; esse é o
argumento que fundamenta uma observação realizada tanto no campo da
Psicopatologia Junguiana - a Psicopatologia é um ramo científico da Psicologia
que estuda o sofrimento humano, suas caracterizações, causas e conseqüências
-, quanto na Ciência Espírita, que demonnstram que através do sofrimento e do
erro, o ser humano pode evoluir, aprender, e assim evitar novos fracassos
futuros. Isso não deve ser considerado, porém, uma apologia ao sofrimento, mas
sim, um ponto de vista mais evoluído que considera que no estágio evolutivo
humano em que nos encontramos, o sofrimento, enquanto resultado do conflito, é
uma condição inevitável, que dependendo de como é elaborada, possui um caráter
adaptativo e favorecedor do amadurecimento pessoal, às vezes só percebido com
o desenrolar do tempo pelo indivíduo que vive aquele conflito – trata-se de
uma visão mais positiva do conflito humano, e que terá conseqüências mais
construtivas na forma de se lidar com aquilo que comumente é designado como
“distúrbios psíquicos”).
Voltando à questão do
processo psíquico de tensão entre conteúdos psíquicos opostos, observamos
que quando a tensão se torna intolerável, é preciso descobrir uma solução e
o único alívio viável deverá ser encontrado em uma reconciliação dos dois
pontos de vista (consciente e inconsciente), a um nível diferente e mais
satisfatório.
Felizmente, da colisão
entre duas forças opostas, a psique inconsciente tende a criar uma terceira
possibilidade. Esta tem uma natureza irracional, inesperada e incompreensível
à mente consciente. Apresentando-se nem como um sim direto, nem
como uma resposta não, conseqüentemente a terceira não será de
imediato aceitável a qualquer um dos pontos de vista opostos. A mente
consciente não apreende nada, o sujeito nada sente, exceto as oposições, e
assim, não tem conhecimento daquilo que as unirá.
Portanto, é o símbolo
ambíguo e paradoxal que é capaz de atrair sobre si a atenção e,
eventualmente, reconciliar as duas. A situação de conflito, que não apresenta
nenhuma solução racional ao dilema, é a situação na qual a oposição das
“duas” produz uma “terceira” irracional, o símbolo.
Observa-se que nesse
contexto, o símbolo desempenha um papel psicológico mediador e propiciador
de transição (se ele tivesse apenas uma função expositiva e alegórica,
não se trataria de um símbolo). A bem da verdade, no que concerne à intenção
última de um símbolo, o mesmo contém objetivos que, embora funcionando de uma
maneira definida, são difíceis de verbalizar.
Os símbolos expressam-se
por analogias, e o processo ou vivência simbólica é uma experiência de
imagens e por imagens. Seu desenvolvimento é compatível com a Lei da
Enantiodromia (isto é, de acordo com o princípio de que uma dada posição
eventualmente se desloca na direção de seu oposto) e dá prova da existência
de uma compensação em ação (isto é, de que a atitude da
consciência está sendo equilibrada por um movimento originado no inconsciente).
Da
atividade do inconsciente emerge agora um novo conteúdo, constelado por tese e
antítese em igual medida e mantendo-se em relação compensatória com ambos.
Portanto, forma o espaço intermediário em que os opostos podem ser unidos.
O processo simbólico
inicia-se com a pessoa sentindo-se paralisada, “suspensa”, poderosamente
obstruída na busca de seus objetivos e termina por uma elucidação (ou “introvisão”)
com a capacidade de avançar em um curso modificado.
Aquilo que une os opostos
participa dos dois lados, mas pode (com relativa facilidade) equivocadamente ser
julgado unilateralmente de um lado ou do outro, porém com isso, apenas
reafirmamos a simples oposição original.
O próprio símbolo, então,
presta o seu auxílio, pois embora não seja lógico, contém a situação
psicológica. Sua natureza é paradoxal e representa o terceiro fator ou posição
que não existe na lógica clássica, mas fornece uma perspectiva
a partir da qual se pode fazer uma síntese dos elementos opostos.
Quando confrontado com essa perspectiva, o Ego fica liberado para exercer uma reflexão
e uma escolha, o que por sua vez é um processo que acaba
conferindo ao símbolo uma significação redentora ou transcendente.
Assim, todos os símbolos são potencialmente redentores pelo fato de
ultrapassarem a obediência servil à oposição
dilacerante.
O
símbolo nem é um ponto de vista alternativo, nem uma compensação per
se. Pelo seu caráter transcendente, ele atrai nossa atenção para uma
outra posição que, se apropriadamente compreendida, amplia a
personalidade existente, além de solucionar o conflito.
Resulta que, embora sem dúvida
já existam nas diversas culturas símbolos de totalidade, uma vivência simbólica
particular origina a elaboração de um símbolo de totalidade também
particular e de uma ordem diferente.
Devemos lembrar que o símbolo
é uma invenção inconsciente em resposta a uma problemática consciente (Samuels,
1988). Daí os psicólogos analíticos fazerem a seguinte classificação (de
valor didático, em essência):
1.
símbolos unificadores = símbolos que reúnem elementos psíquicos díspares;
2.
símbolos vivos = símbolos que estão entrelaçados com a situação
consciente do indivíduo; e
3.
símbolos de totalidade = que são pertinentes e imanentes à realização
do Self. Esses símbolos culminam em conceitos como o de Arquétipo da Imagem de
Deus, mandalas, Self, etc.
Como exemplos, símbolos
que transcedem a condição humana mediante união dos opostos de espírito e
matéria constituem parte da Imagem de Deus ou Self, e cada indivíduo pode
ter/formar seu símbolo no seu processo de individuação. De certo modo, é
possível que todos os símbolos se tornem símbolos da totalidade (ou seja, do
Self). Essa psicodinâmica representa o mecanismo psíquico por trás de indivíduos
cuja percepção identifica a existência do Transcendental, como presentes ou
imanentes em todas as coisas e lugares, ou em outras palavras, em todo o
Universo. É típico da percepção denominada de mística, comum em estados
alterados de consciência, em que a dimensão transpessoal vem à tona, e é
comum na epistemologia da maioria das chamadas Tradições esotéricas (essas
observações serão muito importantes em textos futuros, quando essa temática
for retomada) . É também o mecanismo que legitima a espiritualidade como um
componente intrínseco da dimensão psíquica do homem.
O símbolo pode ser uma
expressão pictórica cativante e numinosa. Poder-se-ia dizer vivos e excitantes
na alma. São retratos indistintos, metafóricos e enigmáticos da realidade psíquica.
Obras-de-arte, por exemplo, são sem dúvida, simbólicas e sua linguagem grita
para nós que elas significam mais do que dizem. Podemos indicar o símbolo de
imediato, muito embora não sejamos capazes de desvendar seu significado, para
nossa plena satisfação.
Um símbolo permanece um
desafio perpétuo para nossos pensamentos e sentimentos. Isso provavelmente
explica a razão por que um trabalho simbólico é tão estimulante, porque nos
domina tão intensamente, mas também porque raramente nos propicia um prazer
puramente estético, ou intelectual.
O conteúdo, isto é, o
significado dos símbolos, está longe de ser óbvio; em vez disso, é expresso
em termos únicos e individuais, e ao mesmo tempo participam de imagens
universais (Samuels, 1988). Quando trabalhados (isto é, recebendo reflexão e
articulação) podem ser reconhecidos como aspectos daquelas Imagens que
controlam, ordenam e dão significados a nossas vidas. Portanto, sua fonte pode
ser buscada nos próprios arquétipos que, por meio dos símbolos, encontram uma
expressão mais plena.
Embora
normalmente se suponha que os conteúdos simbólicos que aparecem em uma análise
individual sejam semelhantes àqueles de outras análises, não é esse o caso.
Padrões psíquicos regulares e recorrentes podem ser representados por múltiplas
e diversas imagens e símbolos. À parte esta aplicação clínica, os símbolos
podem ser amplamente interpretados a partir de um contexto psicológico histórico,
cultural ou generalizado (Samuels, 1988).
II.
Compensação Psíquica (entre o consciente e o
inconsciente)
Uma vez esclarecido a
questão dos opostos, vamos à questão do conceito de compensação. Compensar
significa equilibrar, ajustar, suplementar. Jung considerava a atividade
compensatória do inconsciente como equilíbrio de qualquer tendência para a
unilateralidade por parte da consciência (Samuels, 1988).
Como o inconsciente
não é algo estático, ou imutável, mas está sempre em movimento, sua
atividade se coordena com a consciência numa relação
compensadora, ambos se complementando mutuamente, para formar uma
totalidade, o Self ou o Si-mesmo (Magalhães, 1984).
Do ponto de vista psíquico,
o mecanismo é o seguinte: “... conteúdos reprimidos, excluídos e inibidos
pela orientação consciente do indivíduo passam para a inconsciência e lá
formam um contrapólo da consciência. Essa contraposição se fortalece com
qualquer aumento de ênfase sobre a atitude consciente até interferir com a
atividade da própria consciência. Finalmente, conteúdos inconscientes
reprimidos reúnem uma carga de energia suficiente para irromper na forma de
sonhos, imagens espontâneas ou sintomas. O objetivo do processo compensatório
parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. Essa ponte é
o símbolo, embora os mesmos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e
compreendidos pela mente consciente, isto é, integrados e assimilados”.
Normalmente,
a compensação é um regulador inconsciente da atividade consciente, porém,
onde existe um distúrbio neurótico, o inconsciente aparece em tamanho
contraste com o estado consciente, que o próprio processo compensatório se vê
rompido. Se um aspecto imaturo da psique é gravemente reprimido, o conteúdo
inconsciente domina o objetivo consciente e destrói sua intenção.
O objetivo da terapia analítica,
portanto, é uma compreensão de conteúdos inconscientes, a fim de que a
compensação possa ser restabelecida (Samuels, 1988). Isso pode muitas vezes
ser conseguido prestando-se cuidadosa atenção aos sonhos, às emoções e aos
padrões de comportamento, e através da imaginação ativa (Sharp, 1991).
O ponto de vista da
inconsciência, sendo compensatório, sempre será inesperado, e aparece de
forma diferente do ponto de vista assumido pela consciência. Nesse sentido Jung
afirmou que “todo processo que se adianta demasiadamente, imediata e
inevitavelmente traz à tona compensações”.
III.
Auto-regulação da psique
O processo de auto-regulação
está continuamente atuando dentro da psique, mas só se torna perceptível
quando a consciência do ego tem uma dificuldade específica em adaptar-se
à realidade interior ou exterior.
Tais dificuldades são
sumariamente listadas a seguir:
1)
Dificuldade de adaptação. Pouca progressão da libido;
2)
Regressão da energia (depressão, falta de energia disponível);
3)
Ativação de conteúdos inconscientes (fantasias, complexos, imagens
arquetípicas, função inferior, atitude oposta, sombra, anima/animus, etc).
Compensação;
4)
Sintomas de neurose (confusão, medo, ansiedade, culpa, humores, afetos
extremados, etc).
5)
Conflito inconsciente ou semiconsciente entre o ego e os conteúdos
ativados no inconsciente. Tensão interior. Reações defensivas.
6)
Ativação da função transcendente, envolvendo o self e os padrões
arquetípicos de totalidade.
7)
Formação de símbolos (numinosidade, sincronicidade).
8)
Transferência de energia entre conteúdos inconscientes e a consciência.
Expansão do ego, progressão de energia.
9)
Assimilação de conteúdos inconscientes. Individuação.
A psique não apenas
reage; ela dá sua resposta específica às influências que atuam sobre ela.
Sendo a função auto-reguladora da psique, um conceito baseado no
relacionamento compensatório que existe entre o consciente e o inconsciente,
tal processo pode levar à individuação.
A consciência e o
inconsciente raramente se harmonizam em seus conteúdos e tendências. As
atividades auto-reguladoras da psique, que se manifestam nos sonhos, nas
fantasias e nas experiências sincronísticas, se esforçam por corrigir
qualquer desequilíbrio significativo.
Texto
produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)
E-mail: [email protected]
- Site: www.psicologiaespirita.rg3.net
E-mail da Abrape: [email protected]