·       Símbolos Psíquicos

O conceito de símbolo é importante nesse momento do trabalho, uma vez que já foram parcialmente definidos os componentes da estrutura psíquica do ser humano (a consciência e o ego, e o inconsciente pessoal e coletivo), e o conceito de energia psíquica e libido, em textos anteriores. A noção de símbolo também é um dos conceitos mais importantes da Psicologia Profunda de Jung, sendo-lhe por isso, reservado essa resenha específica. Nesse momento, ao falarmos de símbolo, entraremos na caracterização da relação dialética e compensatória entre consciente e inconsciente, que por sua vez, define o caráter auto-regulado do sistema psíquico. Ainda, o conceito de símbolo em seu caráter dialético de síntese, culmina em uma série de implicações epistemológicas da obra junguiana, que estarão correlacionadas com aspectos da fundamentação filosófica e profunda desse estudo, em textos posteriores, bem como também se relacionarão com os estudos sobre a fundamentação de um projeto de pesquisa em Psicologia Espírita.

Conceitualmente, símbolo – para Jung – é a melhor expressão possível para algo desconhecido. Segundo suas palavras, “toda expressão psicológica é um símbolo se pressupormos que declara ou significa algo mais e algo diferente dela própria, e que escapa ao nosso conhecimento atual” (Jung, 1920). O autor procura distinguir sistematicamente, o conceito de símbolo e de sinal, bem como o de significado simbólico e semiótico: “... (1) Toda concepção que explica a expressão simbólica como analogia ou designação abreviada de algo conhecido é semiótica. (2) Uma concepção que explica a expressão simbólica como paráfrase ou transformação proposital de algo conhecido é alegórica.(3) Já uma concepção que explica a expressão simbólica como a melhor formulação possível, de algo relativamente desconhecido, não podendo, por isso mesmo, ser mais clara ou característica, é simbólica (...) O símbolo pressupõe sempre que, a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de uma fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada ...”.

Eis alguns exemplos, retirados de Jung (1920): “(1) ... explicar a cruz como símbolo do amor divino é semiótico, pois ´amor divino` designa o fato que se quer exprimir, bem melhor do que uma cruz que pode ainda ter muitos outros sentidos. Simbólica seria a explicação que considerasse a cruz além de qualquer explicação imaginável, como expressão de um fato místico ou transcendente, portanto psicológico, até então desconhecido e incompreensível, que pudesse ser representado do modo mais condizente possível só pela cruz; ... (2) O costume antigo de entregar, na venda de terras, algumas relvas é designado vulgarmente como simbólico, mas por sua natureza, é totalmente semiótico. A relva é um sinal que representa a terra adquirida. A roda alada do ferroviário não é um símbolo da ferrovia, mas um sinal de que a pessoa integra o serviço ferroviário (...) Por outro lado, se a roda alada do ferroviário fosse tida como um símbolo, dir-se-ia que este homem tem algo a ver com uma entidade desconhecida que não pode ser expressa melhor ou de outra maneira do que por uma roda com asas. (3) Finalmente, as insígnias de um uniforme não são símbolos, mas signos que identificam aqueles que as usam”.

Sharp (1191) conclui que no trato com material inconsciente (sonhos, fantasias, etc) as imagens podem ser interpretadas (1) semioticamente como signos sintomáticos que indicam fatos conhecidos ou cognoscíveis, ou (2) simbolicamente, como expressão de algo essencialmente desconhecido.

Decorre do conceito de símbolo que, para o mesmo ser legítimo, deve constituir para o indivíduo uma vivência simbólica, ou seja, uma vivência de significado, especialmente instigante e estimulante. O símbolo é tudo aquilo que constitui para o homem uma vivência simbólica significativa.

Nesse sentido, Jung (1920) diz o seguinte: “... enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão de alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão que formula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo está morto, isto é, só terá ainda significado histórico. Pode-se continuar falando dele como de um símbolo, sob a tácita pressuposição de que falamos sobre o que ele foi no passado, antes que tivesse nascido dele uma expressão melhor ...”

Jung continua a dissertar sobre as implicações do conceito, como se observa nas várias passagens selecionadas adiante: “... Uma expressão usada para designar coisa conhecida continua sendo apenas um sinal e nunca será um símbolo vivo, isto é, cheio de significado, a partir de relações conhecidas. Pois o que assim foi criado não conterá nada mais do que nele foi colocado.

Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo, se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente.

Na medida em que toda teoria científica encerra uma hipótese, portanto é uma descrição antecipada de um fato ainda essencialmente desconhecido, ela é um símbolo.

Além disso, todo fenômeno psicológico é um símbolo, na suposição que enuncie ou signifique algo mais e algo diferente que escape ao conhecimento atual. Esta suposição é absolutamente possível onde há uma consciência que procura outras possibilidades de sentido das coisas. Só não é possível, e assim mesmo, só para essa consciência, quando ele mesmo apresenta uma expressão que diz exatamente o que era intencionado como, por exemplo, numa fórmula matemática. Mas, para uma outra consciência não existe esta limitação. Ela pode considerar a fórmula matemática como símbolo para um fato psíquico desconhecido e oculto à intenção que o estabeleceu, na medida em que este fato não é comprovadamente conhecido daquele que criou a expressão semiótica e não poderia, pois, ser objeto de uma utilização consciente ...” (grifos meus).

Decorre disso que “ ... depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é símbolo ou não; depende, por exemplo da inteligência que considera o fato dado não apenas como tal, mas como expressão de algo desconhecido (...)

(...) Há porém, produtos cujo caráter simbólico não dependem unicamente da atitude da consciência que observa, mas impõem ao observador seu efeito simbólico. Esses produtos são constituídos de tal forma que lhes faltaria qualquer significado se não recebessem um sentido simbólico (...) Porém, um símbolo que impõe sua natureza simbólica ainda não é necessariamente vivo. Pode atuar, por exemplo, apenas sobre a compreensão histórica ou filosófica. Desperta interesse intelectual ou estético. Um símbolo é vivo só quando é para o observador a expressão melhor e mais plena possível do pressentido e ainda não consciente. Nestas condições operacionaliza a participação do inconsciente, e tem efeito gerador e promotor de vida (...)

(...) Símbolos que não atuam por si, dessa forma, ou são mortos, isto é, foram superados por formulação melhor, ou são produtos cuja natureza simbólica depende exclusivamente da atitude da consciência que observa. Esta atitude que concebe o fenômeno dado como símbolo podemos denomina-la atitude simbólica.

Só em parte é justificada pelo comportamento das coisas; de outra parte é resultado de certa cosmovisão que atribui um sentido a todo evento, por maior ou menor que seja, e que dá a este sentido um valor mais elevado do que à pura realidade.

A esta concepção se contrapõe outra que sempre coloca o acento na crua realidade e subordina o sentido aos fatos. Para esta atitude não existe símbolo algum, quando o simbolismo depende exclusivamente do modo de observar (...)

 (...) O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas (como por exemplo, as funções sensação, pensamento, sentimento e intuição). Portanto, não é de natureza racional e nem irracional. Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão, pois não se constitui apenas de dados racionais, mas também de dados irracionais fornecidos pela simples percepção interna e externa. A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta tanto o pensamento quanto o sentimento, e a plasticidade que lhe é peculiar, quando apresentada de modo perceptível aos sentidos, mexe com a sensação e a intuição”.

Mas, o símbolo vivo não pode surgir num espírito obtuso e pouco desenvolvido, pois este se contentará com o símbolo já existente, em uma interpretação simplista, conforme lhe é oferecido por um determinado tipo de tradição (filosófica ou religiosa, por exemplo). Para esse tipo de mentalidade restrita, a imagem de um deus com cabeça de touro , nada mais é, do que um corpo humano com cabeça de touro, e essa interpretação unilateral limitada aos sentidos, é suficiente para ser tomada como uma descrição explicativa, excluindo uma possibilidade de interpretação mais rica, integrada e viva, como na concepção que integra uma atitude simbólica. A atitude restritiva referida nesse parágrafo, também se encontra em exemplos peculiares como (1) no ceticismo ideológico, que rejeita a possibilidade da legitimidade do caráter transcendental de determinados símbolos culturais, especialmente os símbolos de fé, religiosidade e espiritualidade, bem como (2) na atitude oposta de ortodoxia dogmática, que interpreta esses mesmo símbolos culturais, apenas em seu caráter literal, se fixando ao “pé da letra” sobre uma material que em sua essência é metafórico, simbólico, e não uma explanação literal de um fato acessível à realidade sensível. Nesse caso, se encaixam, por exemplo, interpretações ingênuas das Sagradas Escrituras que (partindo de uma leitura literal do texto corrido) compreendem uma cosmologia na qual o mundo pode ser criado em apenas sete dias, ou onde a humanidade possa ter surgido de um único homem e uma única mulher (Adão e Eva). Nesse tipo de leitura limitada, não se consegue observar que um mito como o da “Gênese Bíblica”, possa estar se referindo a um outro tipo de realidade metafórica ou simbólica, que para ser atingida, precisaria de uma atitude mais adulta de reflexão crítica e inspiração intuitiva, coerente com a interpretação que deve ser realizada de um mito, já que como a psicologia junguiana costuma advertir, os mitos estão entre as produções simbólicas arquetípicas, de significado coletivo mais profundo, alcançando o âmago da alma humana.

   Na compreensão de um símbolo – segundo a visão junguiana – sempre se deverá levar em conta a sua dimensão pessoal e coletiva. Um símbolo sempre contém uma determinada energia; quanto mais corresponder a uma representação arquetípica ou brotar das camadas mais profundas do inconsciente coletivo, maior será a fascinação e a força que exercerá sobre a consciência, que geralmente se apresenta sob a forma de um afeto. Por isso, a mera compreensão racional dos símbolos não basta para a sua integração à consciência. Para Jung, os símbolos que não são individuais, mas coletivos, em sua natureza e origem, são principalmente os símbolos religiosos, cuja função é dar sentido à vida do homem.

O próprio fato de o símbolo conter uma multiplicidade de significados possíveis faz com que atue sobre a consciência, impulsionando para além de si mesmo, na direção de um sentido. Isso caracteriza o método construtivo ou sintético na psicologia junguiana, bem como o ponto de vista teleológico que o caracteriza.

Assim, se para Freud a simbolização surge como resultado do conflito entre a repressão e o desejo, Jung vê nos símbolos uma ação mediadora, uma tentativa de conciliação de opostos movida pela tendência inconsciente à individuação. Essas considerações tornam obrigatória uma discussão e aprofundamento sobre o paradigma dialético da questão dos opostos na formação dos símbolos, em sua atividade compensatória, e que caracteriza a psique como um sistema de funcionamento auto-regulado, dirigido para fins. Essa temática está intimamente correlacionada com as bases de fundamentação epistemológica da obra junguiana.

·         A questão dos opostos e a relação dialética entre consciente-inconsciente

Samuels (1988), inicia uma explicação da questão dos opostos a partir da seguinte citação de Jung: “os opostos são inerradicáveis e indispensáveis precondições de toda vida psíquica”. Conclui-se que conhecer bem o princípio da oposição é essencial para a compreensão de seu ponto de vista, pois era o fundamento para seus empreendimentos científicos e jazia na raiz de muitas de suas hipóteses.

Sob o ponto de vista epistemológico, Jung estava expressando o dinamismo da psique em termos da primeira lei da termodinâmica que afirma que a energia requer duas forças opostas. Em diferentes ocasiões, referiu-se a diversas fontes filosóficas para a sua tese, porém nenhuma era reconhecida como primária, segundo Samuels (1988). Isso porém é questionável: na obra junguiana, é possível observar um direcionamento padrão de produção de conhecimento dirigido por uma epistemologia primariamente Holística, com fortes influências  do existencialismo, da fenomenologia, da filosofia de Kant, da dialética grega, e do conhecimento oriental (especialmente, nos postulados da filosofia do princípio único e da ordem do Universo, expressas no antagonismo dialético complementar dos pólos Yin e Yang, do Taoísmo Extremo-Oriental), sem esquecer das influências da psicologia experimental (de W. Wundt) e da psicanálise de Freud (essa última influência, costuma ser a mais reconhecida e divulgada no meio acadêmico; apesar de sua grande importância e mérito, isso tem contribuído para o esquecimento de outros aspectos profundos e importantes da obra junguiana como um todo). Um aprofundamento desse assunto ultrapassaria os limites desse trabalho de pesquisa, sendo pertinente a consulta da bibliografia específica, podendo-se sugerir a obra de Clarke (1992), e mesmo a de Samuels (1988).

Seja como for, desde a época de sua conceitualização do papel do inconsciente como um contrapólo à consciência (e, portanto, capaz de exercer uma função compensatória), Jung aplicava o conceito da dualidade intrínseca a um campo permanentemente em ampliação da pesquisa psíquica, da observação e do discernimento.

Para Jung, os dois sistemas dentro da psique, consciente e inconsciente, são concebidos como agindo de modo compensatório, de maneira que a psique, como um todo, se diz auto-regulada. Quando esta auto-regulação falha, o resultado é uma disfunção patológica (neurose, psicose, desordem de caráter, etc). Assim, temos 3 conceitos a clarificar: (1) a questão dos opostos, (2) o conceito de compensação e (3) a auto-regulação psíquica. Todos esses conceitos estão correlacionados à uma temática central: a saúde psíquica e o equilíbrio de vida segundo a Psicologia Profunda.

                  I.      A Questão dos Opostos

 Aplicando-se a teoria de Jung (Samuels, 1988), pares de opostos são considerados como de natureza irreconciliável. No estado natural, coexistem de forma não-diferenciada.

 As faculdades e necessidades de uma vida humana contida em um corpo vivo fornecem regras e limitações próprias que impedem um excesso de desproporção psíquica; assim, estados conscientes e inconscientes são harmoniosos na “pessoa equilibrada”.

Porém, a dissolução de qualquer “compromisso” obtido entre duas metades desse par torna a atividade de oposição sempre mais intensa e produz um desequilíbrio tal como aquele que se observa às vezes no distúrbio neurótico.

Por outro lado, há um aspecto positivo nesse processo: a alternância ou a experiência de se estar à mercê, ora de um ora de outro par de opostos, é o sinal de uma consciência despertando (muitas vezes, saindo de um estado anterior de alienação, como efeito de um esclarecimento, ou como algo em direção a isso; esse é o argumento que fundamenta uma observação realizada tanto no campo da Psicopatologia Junguiana - a Psicopatologia é um ramo científico da Psicologia que estuda o sofrimento humano, suas caracterizações, causas e conseqüências -, quanto na Ciência Espírita, que demonnstram que através do sofrimento e do erro, o ser humano pode evoluir, aprender, e assim evitar novos fracassos futuros. Isso não deve ser considerado, porém, uma apologia ao sofrimento, mas sim, um ponto de vista mais evoluído que considera que no estágio evolutivo humano em que nos encontramos, o sofrimento, enquanto resultado do conflito, é uma condição inevitável, que dependendo de como é elaborada, possui um caráter adaptativo e favorecedor do amadurecimento pessoal, às vezes só percebido com o desenrolar do tempo pelo indivíduo que vive aquele conflito – trata-se de uma visão mais positiva do conflito humano, e que terá conseqüências mais construtivas na forma de se lidar com aquilo que comumente é designado como “distúrbios psíquicos”).

Voltando à questão do processo psíquico de tensão entre conteúdos psíquicos opostos, observamos que quando a tensão se torna intolerável, é preciso descobrir uma solução e o único alívio viável deverá ser encontrado em uma reconciliação dos dois pontos de vista (consciente e inconsciente), a um nível diferente e mais satisfatório.

Felizmente, da colisão entre duas forças opostas, a psique inconsciente tende a criar uma terceira possibilidade. Esta tem uma natureza irracional, inesperada e incompreensível à mente consciente. Apresentando-se nem como um sim direto, nem como uma resposta não, conseqüentemente a terceira não será de imediato aceitável a qualquer um dos pontos de vista opostos. A mente consciente não apreende nada, o sujeito nada sente, exceto as oposições, e assim, não tem conhecimento daquilo que as unirá.

Portanto, é o símbolo ambíguo e paradoxal que é capaz de atrair sobre si a atenção e, eventualmente, reconciliar as duas. A situação de conflito, que não apresenta nenhuma solução racional ao dilema, é a situação na qual a oposição das “duas” produz uma “terceira” irracional, o símbolo.

Observa-se que nesse contexto, o símbolo desempenha um papel psicológico mediador e propiciador de transição (se ele tivesse apenas uma função expositiva e alegórica, não se trataria de um símbolo). A bem da verdade, no que concerne à intenção última de um símbolo, o mesmo contém objetivos que, embora funcionando de uma maneira definida, são difíceis de verbalizar.

Os símbolos expressam-se por analogias, e o processo ou vivência simbólica é uma experiência de imagens e por imagens. Seu desenvolvimento é compatível com a Lei da Enantiodromia (isto é, de acordo com o princípio de que uma dada posição eventualmente se desloca na direção de seu oposto) e dá prova da existência de uma compensação em ação (isto é, de que a atitude da consciência está sendo equilibrada por um movimento originado no inconsciente).

Da atividade do inconsciente emerge agora um novo conteúdo, constelado por tese e antítese em igual medida e mantendo-se em relação compensatória com ambos. Portanto, forma o espaço intermediário em que os opostos podem ser unidos.

O processo simbólico inicia-se com a pessoa sentindo-se paralisada, “suspensa”, poderosamente obstruída na busca de seus objetivos e termina por uma elucidação (ou “introvisão”) com a capacidade de avançar em um curso modificado.  

Aquilo que une os opostos participa dos dois lados, mas pode (com relativa facilidade) equivocadamente ser julgado unilateralmente de um lado ou do outro, porém com isso, apenas reafirmamos a simples oposição original.

O próprio símbolo, então, presta o seu auxílio, pois embora não seja lógico, contém a situação psicológica. Sua natureza é paradoxal e representa o terceiro fator ou posição que não existe na lógica clássica, mas fornece uma perspectiva a partir da qual se pode fazer uma síntese dos elementos opostos. Quando confrontado com essa perspectiva, o Ego fica liberado para exercer uma reflexão e uma escolha, o que por sua vez é um processo que acaba conferindo ao símbolo uma significação redentora ou transcendente. Assim, todos os símbolos são potencialmente redentores pelo fato de ultrapassarem a obediência servil à oposição dilacerante.

 O símbolo nem é um ponto de vista alternativo, nem uma compensação per se. Pelo seu caráter transcendente, ele atrai nossa atenção para uma outra posição que, se apropriadamente compreendida, amplia a personalidade existente, além de solucionar o conflito.

Resulta que, embora sem dúvida já existam nas diversas culturas símbolos de totalidade, uma vivência simbólica particular origina a elaboração de um símbolo de totalidade também particular e de uma ordem diferente.

Devemos lembrar que o símbolo é uma invenção inconsciente em resposta a uma problemática consciente (Samuels, 1988). Daí os psicólogos analíticos fazerem a seguinte classificação (de valor didático, em essência):

1.     símbolos unificadores = símbolos que reúnem elementos psíquicos díspares;

2.     símbolos vivos = símbolos que estão entrelaçados com a situação consciente do indivíduo; e

3.     símbolos de totalidade = que são pertinentes e imanentes à realização do Self. Esses símbolos culminam em conceitos como o de Arquétipo da Imagem de Deus, mandalas, Self, etc.

Como exemplos, símbolos que transcedem a condição humana mediante união dos opostos de espírito e matéria constituem parte da Imagem de Deus ou Self, e cada indivíduo pode ter/formar seu símbolo no seu processo de individuação. De certo modo, é possível que todos os símbolos se tornem símbolos da totalidade (ou seja, do Self). Essa psicodinâmica representa o mecanismo psíquico por trás de indivíduos cuja percepção identifica a existência do Transcendental, como presentes ou imanentes em todas as coisas e lugares, ou em outras palavras, em todo o Universo. É típico da percepção denominada de mística, comum em estados alterados de consciência, em que a dimensão transpessoal vem à tona, e é comum na epistemologia da maioria das chamadas Tradições esotéricas (essas observações serão muito importantes em textos futuros, quando essa temática for retomada) . É também o mecanismo que legitima a espiritualidade como um componente intrínseco da dimensão psíquica do homem.

O símbolo pode ser uma expressão pictórica cativante e numinosa. Poder-se-ia dizer vivos e excitantes na alma. São retratos indistintos, metafóricos e enigmáticos da realidade psíquica. Obras-de-arte, por exemplo, são sem dúvida, simbólicas e sua linguagem grita para nós que elas significam mais do que dizem. Podemos indicar o símbolo de imediato, muito embora não sejamos capazes de desvendar seu significado, para nossa plena satisfação.

Um símbolo permanece um desafio perpétuo para nossos pensamentos e sentimentos. Isso provavelmente explica a razão por que um trabalho simbólico é tão estimulante, porque nos domina tão intensamente, mas também porque raramente nos propicia um prazer puramente estético, ou intelectual.

O conteúdo, isto é, o significado dos símbolos, está longe de ser óbvio; em vez disso, é expresso em termos únicos e individuais, e ao mesmo tempo participam de imagens universais (Samuels, 1988). Quando trabalhados (isto é, recebendo reflexão e articulação) podem ser reconhecidos como aspectos daquelas Imagens que controlam, ordenam e dão significados a nossas vidas. Portanto, sua fonte pode ser buscada nos próprios arquétipos que, por meio dos símbolos, encontram uma expressão mais plena.

 Embora normalmente se suponha que os conteúdos simbólicos que aparecem em uma análise individual sejam semelhantes àqueles de outras análises, não é esse o caso. Padrões psíquicos regulares e recorrentes podem ser representados por múltiplas e diversas imagens e símbolos. À parte esta aplicação clínica, os símbolos podem ser amplamente interpretados a partir de um contexto psicológico histórico, cultural ou generalizado (Samuels, 1988).

             II.      Compensação Psíquica (entre o consciente e o inconsciente)

Uma vez esclarecido a questão dos opostos, vamos à questão do conceito de compensação. Compensar significa equilibrar, ajustar, suplementar. Jung considerava a atividade compensatória do inconsciente como equilíbrio de qualquer tendência para a unilateralidade por parte da consciência (Samuels, 1988).

Como o inconsciente não é algo estático, ou imutável, mas está sempre em movimento, sua atividade se coordena com a consciência numa relação compensadora, ambos se complementando mutuamente, para formar uma totalidade, o Self ou o Si-mesmo (Magalhães, 1984).

Do ponto de vista psíquico, o mecanismo é o seguinte: “... conteúdos reprimidos, excluídos e inibidos pela orientação consciente do indivíduo passam para a inconsciência e lá formam um contrapólo da consciência. Essa contraposição se fortalece com qualquer aumento de ênfase sobre a atitude consciente até interferir com a atividade da própria consciência. Finalmente, conteúdos inconscientes reprimidos reúnem uma carga de energia suficiente para irromper na forma de sonhos, imagens espontâneas ou sintomas. O objetivo do processo compensatório parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. Essa ponte é o símbolo, embora os mesmos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e compreendidos pela mente consciente, isto é, integrados e assimilados”.

Normalmente, a compensação é um regulador inconsciente da atividade consciente, porém, onde existe um distúrbio neurótico, o inconsciente aparece em tamanho contraste com o estado consciente, que o próprio processo compensatório se vê rompido. Se um aspecto imaturo da psique é gravemente reprimido, o conteúdo inconsciente domina o objetivo consciente e destrói sua intenção.

O objetivo da terapia analítica, portanto, é uma compreensão de conteúdos inconscientes, a fim de que a compensação possa ser restabelecida (Samuels, 1988). Isso pode muitas vezes ser conseguido prestando-se cuidadosa atenção aos sonhos, às emoções e aos padrões de comportamento, e através da imaginação ativa (Sharp, 1991).

O ponto de vista da inconsciência, sendo compensatório, sempre será inesperado, e aparece de forma diferente do ponto de vista assumido pela consciência. Nesse sentido Jung afirmou que “todo processo que se adianta demasiadamente, imediata e inevitavelmente traz à tona compensações”.

         III.      Auto-regulação da psique

O processo de auto-regulação está continuamente atuando dentro da psique, mas só se torna perceptível quando a consciência do ego tem uma dificuldade específica em adaptar-se à realidade interior ou exterior.

Tais dificuldades são sumariamente listadas a seguir:

1)   Dificuldade de adaptação. Pouca progressão da libido;

2)   Regressão da energia (depressão, falta de energia disponível);

3)   Ativação de conteúdos inconscientes (fantasias, complexos, imagens arquetípicas, função inferior, atitude oposta, sombra, anima/animus, etc). Compensação;

4)   Sintomas de neurose (confusão, medo, ansiedade, culpa, humores, afetos extremados, etc).

5)   Conflito inconsciente ou semiconsciente entre o ego e os conteúdos ativados no inconsciente. Tensão interior. Reações defensivas.

6)   Ativação da função transcendente, envolvendo o self e os padrões arquetípicos de totalidade.

7)   Formação de símbolos (numinosidade, sincronicidade).

8)   Transferência de energia entre conteúdos inconscientes e a consciência. Expansão do ego, progressão de energia.

9)   Assimilação de conteúdos inconscientes. Individuação.

 

A psique não apenas reage; ela dá sua resposta específica às influências que atuam sobre ela. Sendo a função auto-reguladora da psique, um conceito baseado no relacionamento compensatório que existe entre o consciente e o inconsciente, tal processo pode levar à individuação.

A consciência e o inconsciente raramente se harmonizam em seus conteúdos e tendências. As atividades auto-reguladoras da psique, que se manifestam nos sonhos, nas fantasias e nas experiências sincronísticas, se esforçam por corrigir qualquer desequilíbrio significativo.

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

E-mail: [email protected] - Site: www.psicologiaespirita.rg3.net
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