·       Libido e Energia Psíquica na Psicologia Profunda de Jung

 

Para Jung (1920), Libido é o mesmo que energia psíquica em geral. Em suas palavras encontramos a seguinte definição: “Por libido entendo a energia psíquica. Energia é a intensidade do processo psíquico, seu valor psicológico. Mas não se trata de valor atribuído por considerações morais, estéticas ou intelectuais; o valor psicológico é simplesmente estabelecido por sua força determinante que se manifesta em certos efeitos (“produções”) psíquicos”.

O conceito de libido de Jung foi um dos pontos fundamentais de discordância entre a Psicologia analítica e a Psicanálise, cujo conceito para Freud, em 1912 – ano em que houve o rompimento entre os dois autores – possuía uma significação eminentemente sexual, enquanto que para Jung equivalia à energia psíquica, entendida de modo amplo (Magalhães, 1984). De fato, segundo a visão junguiana, temos numerosos impulsos (ou pulsões): de conquista, agressivos, eróticos, fome, etc., e todos são motivados por um tipo de manifestação de energia; assim, o significado específico da sexualidade se dissiparia, se todos esses diferentes impulsos e comportamentos fossem incluídos em sua definição.  Logo, a energia é a quantidade ou carga, que pode manifestar-se através da sexualidade ou de qualquer outro instinto, e a libido é compreendida, então, como a intensidade do processo psíquico, o valor energético que se manifesta em qualquer área, como na da fome, do poder, do ódio, da sexualidade, da religião, etc., sem que se restrinja a uma pulsão específica. 

Algumas citações de Jung podem ser encontradas no Léxico Junguiano de Sharp (1991): “Todos os fenômenos psicológicos podem ser considerados como manifestações de energia, do mesmo modo que os fenômenos físicos têm sido considerados manifestações de energia, desde que Robert Mayer descobriu a lei da conservação de energia. Subjetiva e psicologicamente, esta energia é concebida como desejo. Chamo-a libido, no sentido original do termo, que não é de modo algum, apenas sexual.

A libido denota um desejo ou impulso que não é freado por qualquer tipo de autoridade, moral, ou o que quer que seja. A libido é um apetite em seu estado natural. Do ponto de vista genético, é uma necessidade do corpo, como a fome, a sede, o sono e o sexo, bem como estados emocionais ou afetos, que constituem a essência da libido (...)

(...) A libido nunca pode ser apreendida, exceto em sua forma definida; o que equivale dizer que é idêntica às imagens da fantasia. E somente podemos liberta-las das garras do inconsciente evocando as imagens da fantasia correspondentes ...”

Na concepção de Jung, o psiquismo é um sistema energético fechado, possuidor de um potencial que permanece o mesmo durante toda a vida do indivíduo (Magalhães, 1984). A esse respeito, Samuels (1988), acrescenta que a energia psíquica é limitada em quantidade e é indestrutível, concepção congruente (em relação a essa tópica, especificamente), com a abordagem de Freud. Sendo a psique, a totalidade da estrutura psicológica do ser humano, pictoricamente seria representada por um espaço interno, uma “área” onde se dão os fenômenos psíquicos – a energia deste espaço é a libido, que é então a energia dos processos vitais (uma forma de energia vital neutra em caráter).

A lei da conservação de energia (potencial constante) só é válida se considerarmos consciente e inconsciente. Quando se rebaixa o nível da consciência, o inconsciente se aviva correspondentemente como, por exemplo, na atividade onírica, ou nas fantasias, devaneios, etc.

Samuels (1988), enfatiza que embora parecendo incorporar a terminologia da física, o conceito de energia psíquica, aplicado psicologicamente, é uma complicada metáfora:

1.     Existe a necessidade de indicar a intensidade de qualquer atividade psicológica em particular. Isso nos possibilita estimar o valor e a importância de tal atividade para o homem. Em termos genéricos, pode-se obter isso mediante referência à quantidade de energia psíquica investida, muito embora não existam meios objetivos para medir a quantidade de energia.

2.     Existe uma necessidade semelhante de demonstrar um foco móvel de interesse e envolvimento. Poderia se postular um determinado número de diferentes canais em que a energia psíquica pudesse fluir. Jung sugere canais biológicos, psicológicos, espirituais e morais.

A hipótese é de que bloqueada em seu fluxo por um canal, a energia psíquica fluirá para dentro de um outro canal. Aqui, a própria energia não se altera, mas toma uma direção diferente.

3.     A alteração na direção do fluxo não se dá ao acaso. Isto é, os próprios canais ocupam uma estrutura preexistente (essa estrutura preexistente é o arquétipo), e especificamente, um fluxo bloqueado deslocará a energia para o canal oposto, expondo a tendência natural da psique de manter um equilíbrio. Assim, uma mudança no fluxo de energia pode ser observada em termos de seu resultado ou produto, como se tal mudança tivesse uma direção e um objetivo.

4.     Um conflito psicológico pode ser discutido em termos de distúrbios no fluxo da energia psíquica. Assim, o próprio conflito é reconhecido como natural. Numa discussão sobre o Instinto de Morte e o Instinto de Vida, podem ambos ser considerados manifestações emanentes de uma fonte de energia única, embora deslocada para o fim e para o início, respectivamente.

 

 O trabalho analítico em tal situação é descobrir o gradiente natural de energia da pessoa – em termos de individuação, a questão é: “O que é que representa a necessidade natural da vida, num dado momento e para um dado indivíduo particular?”.

Essa questão, tão particular a cada caso clínico, abrange também uma variável universal: em consonância com a crença de que a psique é um sistema auto-regulador, Jung associou a libido com a intencionalidade, e em seu ponto de vista teleológico considerou que a libido “sabe” para onde deve ir, a fim de proporcionar a saúde geral da psique.

 O mecanismo com que isso se dá é o seguinte: a falta de libido (depressão) denota um recuo (regressão), a fim de despertar conteúdos inconscientes, com o objetivo de compensar as atitudes da consciência. A pouca energia que resta resiste a ser aplicada em uma direção conscientemente escolhida.

A libido pode apresentar dois movimentos distintos, embora processualmente interdependentes:

a)    Movimento de Progressão ® quando a energia se dirige para a consciência e dali investe sobre objetos externos;

b)    Movimento de Regressão ® quando a libido se afasta dos objetos externos e vivifica conteúdos inconscientes.

 

Para Jung, a psique está em constante dinamismo, em constante movimento. Tanto o movimento de progressão quanto o de regressão são movimentos normais, que ocorrem continuamente. A patologia ou condição patológica ocorre quando se dá a estagnação da libido pela fixação em apenas um desses dois movimentos (progressão ou regressão).

O conceito de processo psíquico no modelo teórico de Jung define todas as manifestações vitais compreendidas como conseqüência do entrechoque de forças antagônicas, em contínua tensão dinâmica. Desta tensão entre os opostos é que surge a energia para as atividades humanas. Em inúmeros sistemas filosóficos e religiosos, encontramos a mesma noção do princípio dos opostos. Podemos citar como exemplo, os opostos de Yin e Yang e sua síntese no movimento do Tao, presente no sistema filosófico, místico e religioso do Taoísmo chinês e no sistema do I-Ching. Também encontraremos a questão dos opostos na dialética grega, e até mesmo na Física Moderna, especialmente na Física Quântica, através de conceitos como matéria e antimatéria (cf. Capra, 1983). Essas observações são fundamentais para entendermos as implicações epistemológicas da obra junguiana, em sua teoria dos símbolos (esse tema será retomado, em outro momento).

Os conflitos que vivemos originam-se da colisão de duas pulsões, por exemplo, dois deveres fundamentais, ou entre um dever e um desejo, fidelidade para consigo mesmo ou fidelidade para com o outro, etc. Muitas vezes, um dos pólos do conflito é inconsciente, e só podemos verificar indiretamente a sua carga energética, ou seja, a sua intensidade. Quanto maior é tensão entre os pares de opostos, maior a energia liberada. Sem oposição, não há manifestações energéticas.

Os contrários têm também uma função reguladora, expressa no fato de que tudo que é levado a um extremo tende a transformar-se no seu contrário. Por exemplo, a cólera levada a seu extremo é seguida de calma, a pessoa que leva uma existência extremamente reprimida pode ter rompantes de liberação, etc. Assim, a regressão é um quadro oposto ao da progressão, e uma se transforma na outra, se a libido não for bloqueada.

Desta forma, o importante para o nosso desenvolvimento é se a partir do conflito entre os opostos, estamos construindo novas sínteses que, por sua vez, irão polarizar uma outra situação fazendo repetir todo o ciclo, e assim por diante.  Segundo Jung (1957), isso nos leva ao método dialético na psicoterapia, como possibilitador da formação de sínteses no Self terapêutico. Deste ponto de vista, o processo de individuação é considerado um “processo constante de criação de novas sínteses, de integração de conteúdos inconscientes carregados de energia, que leva a uma síntese continuamente crescente entre consciente (com o Ego como centro) e inconsciente” (Lacaz, 1978 citado em Magalhães, 1984).

O movimento de progressão surge da necessidade vital de adaptação ao meio. Se, por alguma dificuldade da existência, este movimento em direção aos objetos externos fica bloqueado ou impedido, a libido se detém. Como conseqüência reativará conteúdos do mundo interno. Estes tanto podem ser os conteúdos reprimidos, pulsões sexuais infantis, atitudes ou desejos incompatíveis com a atitude moral consciente, quanto conteúdos inconscientes que nunca haviam sido “energizados” o suficiente para emergir. Estes conteúdos se apresentam à consciência sob a forma de símbolos, que são a “linguagem” do inconsciente.

É importante notar aqui, que para Jung a linguagem simbólica do inconsciente não é restrita ou necessariamente, o resultado do conflito entre o desejo e a repressão, ou uma representação disfarçada do desejo como na psicanálise de Freud.

Para Jung, o símbolo é a melhor representação possível do inconsciente que se torna disponível para a consciência – ou seja, o símbolo possui elementos conscientes e inconscientes em integração dialética.

Os símbolos são multideterminados, multivariados e contêm inúmeros significados, possuindo portanto, a capacidade de estimular a consciência a desenvolver novos significados a partir deles.

 A partir do confronto e da elaboração destes conteúdos que se apresentam à consciência sob a forma simbólica, o Ego pode integrá-los, removendo-se bloqueios e estagnações.

Desta forma, as fases regressivas conduzem não apenas à recuperação de possibilidades anteriores não aproveitadas e elaboração de problemas anteriormente represados, mas também uma autêntica renovação, sendo os símbolos os veículos desta renovação, verdadeiros transformadores de energia.

Temos, então, que a abordagem energética de Jung ocupa-se com padrões e significado, dando atenção especial aos símbolos aparecendo tanto antes como depois de transformações da energia psíquica.

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

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