Adalberto Ricardo Pessoa

Bernadete Silva Bento Guimarães

Wânia Gaspar Martins do Prado

 

 

 

 

 

 

 

A Dependência Química

na perspectiva da

psicologia analítica de Carl Gustav Jung

(Teoria e prática clínica)

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FACIS/IBEHE

São Paulo

2004
Introdução

        

O objetivo desse texto é apresentar a nossa experiência no tratamento da dependência química, a partir de uma leitura junguiana.

         Nossa vivência clínica nesse tipo de atendimento envolve tanto a experiência em uma instituição pública administrada pela prefeitura de São Paulo, quanto em consultório particular. Também possuímos uma experiência em uma organização não-governamental, onde prestamos trabalho voluntário.

         Neste texto, incluímos uma breve revisão da literatura específica sobre dependência química, a partir de uma perspectiva analítica, com a finalidade de organizar os fundamentos teóricos que permitam maximizar a compreensão de nossa experiência prática.

         Buscamos elaborar um quadro referencial amplo que procura compreender a dependência química sob uma perspectiva holística a partir da integração sistêmica de cinco fatores significativos que parecem compor esse fenômeno: (1) as características farmacológicas da substância psicoativa, (2) o perfil biológico e (3) psicológico do indivíduo, (4) o seu contexto sociocultural de consumo da droga e (5) um fator para-religioso arquetípico de busca de significação para vida.

         Concluímos que esse quinto elemento – o arquetípico – se constitui como base central sobre o qual os outros fatores se edificam (inclusive o biológico), embora seja o elemento mais inconsciente e, portanto, de difícil detecção, tanto para o usuário de drogas quanto para os profissionais ou pessoas responsáveis por seu cuidado ou tratamento.

         Ao final do trabalho, procuramos explanar o intrincado mecanismo pelo qual esses fatores se interconectam, e esboçamos como isso pode ser utilizado no tratamento da dependência química.

 


A experiência do CAPS Jd. Nélia

 

         Os CAPS (Centros de Atenção Psicossociais) são instituições destinadas a acolher pacientes com transtornos psíquicos, estimular sua integração social e familiar, apóia-los em suas iniciativas de busca da autonomia, oferecer-lhes atendimento médico e psicológico. Sua característica principal é buscar integrá-los a um ambiente social e cultural concreto, designado como seu “território”, o espaço da cidade onde se desenvolve a vida cotidiana de usuários e familiares, constituído fundamentalmente pelas pessoas que nele habitam, com seus conflitos, seus interesses, seus amigos, seus vizinhos, sua família, suas instituições, seus cenários (igreja, cultos, escola, trabalho, boteco, etc). É essa noção de território que busca organizar uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos mentais e suas famílias, amigos e interessados[1].

         Para constituir essa rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais, familiares, amigos, etc), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia, trabalho, escola, esporte, etc), econômicos (dinheiro, previdência, etc), culturais, religiosos e de lazer estão convocados para potencializar as equipes de saúde nos esforços de cuidado e reabilitação psicossocial. Nesse contexto, os CAPS constituem a principal estratégia do processo de reforma psiquiátrica, na substituição do histórico modelo hospitalocêntrico, como componente estratégico de uma política destinada a diminuir a ainda significativa lacuna assistencial no atendimento a pacientes com transtornos psíquicos mais graves[2].

         Cabe frisar que os CAPS se constituem como serviços de saúde abertos e comunitários do Sistema Único de Saúde (SUS), cujos fundamentos se alicerçam nos princípios de (1º) acesso universal, público e gratuito às ações e serviços de saúde; (2º) integralidade das ações, cuidando do indivíduo como um todo e não como um amontoado de partes; (3º) equidade, como o dever de atender igualmente o direito de cada um, respeitando suas diferenças; (4º) descentralização dos recursos de saúde, garantindo cuidado de boa qualidade o mais próximo dos usuários que dele necessitam; (5º) controle social exercido pelos Conselhos Municipais Estaduais e Nacional de Saúde com representação dos usuários, trabalhadores, prestadores, organizações da sociedade civil e instituições formadoras[3].

          Procurando atingir esses objetivos cada CAPS tem a sua forma de organização e estrutura de serviços de atendimento comunitário. Especificamente no CAPS Jardim Nélia, localizado num bairro de periferia da zona leste, no Itaim Paulista, atendemos adolescentes e adultos dependentes químicos (de álcool e/ou outras drogas). 

         Até aqui, expusemos os pressupostos teóricos que deveriam guiar o bom funcionamento e atendimento de um CAPS. Na prática, porém, muitas vezes os fatos se dão de maneira muito diferente do desejado. Os serviços públicos de saúde, no geral, vivenciam grande escassez de profissionais em diversas áreas. Em nosso CAPS, por exemplo, a equipe está incompleta. Somos em cinco psicólogos, uma enfermeira, duas auxiliares de enfermagem, um auxiliar técnico administrativo, e recentemente, conseguimos contratar uma psiquiatra, após meses de tentativas frustradas. Precisamos ainda de mais duas auxiliares de enfermagem, um médico clínico, e um terapeuta ocupacional.

         Apesar de trabalharmos com uma equipe reduzida e com grande limitação de recursos materiais, considero que temos realizado muito. Assim, descrevendo os nossos serviços de atendimento, às segundas-feiras temos o que designamos de AMBULATÓRIO DA MULHER. Este serviço é resultante de uma parceira entre o CAPS Jd. Nélia e a equipe multiprofissional do PROMUD (Programa de Atenção à Mulher Dependente Química) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Ipq-HC-FMUSP). Em função dessa parceria, prevista para durar 2 anos, estamos conseguindo oferecer um serviço de boa qualidade para as mulheres dependentes químicas. Em termos gerais, trata-se de uma parceria de pesquisa que objetiva definir o grau de eficácia de uma proposta clínica-experimental de tratamento às mulheres dependentes químicas. Ao fim do estudo, caso se conclua que o serviço apresentou bons resultados, ele poderá se tornar referência como possibilidade de atendimento em políticas públicas. O serviço inclui entre outras atividades, um primeiro momento de triagem com testes psicológicos, consultas psiquiátricas individuais regulares, e encaminhamento para psicoterapia de grupo. A equipe do PROMUD utiliza como referencial principal de trabalho a psicanálise. Os casos clínicos são discutidos e analisados em reuniões com a equipe de trabalho multiprofissional, o que tem sido muito enriquecedor.

         Nos outros dias são atendidos o restante dos pacientes do CAPS em psicoterapia individual, e em consultas clínicas com a psiquiatra (recém-chegada) e a equipe de enfermagem.

Às Quartas-feiras é realizado o trabalho de psicoterapia de grupo com dependentes de álcool, das 9:00 às 10:30 hs. Nesse serviço estão inscritos 21 pacientes, embora a freqüência semanal gire em torno de 15 a 16 pacientes, em média.

         Às Quintas-feiras, das 13:00 até 15:00 hs, é realizado o trabalho de psicoterapia de grupo com dependentes de outras drogas, com 15 pacientes inscritos (a freqüência semanal é de 10 ou 11 pacientes, em média), e dirigido por duas psicólogas do CAPS.

         Temos percebido uma diferença significativa no perfil psicodinâmico dos dependentes de álcool, em comparação com os dependentes de outras drogas. Vale frisar que ambos os grupos são masculinos, e apresentam diferenças em relação ao grupo de mulheres, também. Percebemos que o tipo de enquadre psicoterápico adotado afeta significativamente o andamento do tratamento. Voltaremos nessas questões brevemente.

         Quinzenalmente, às quintas-feiras, também é realizado um trabalho de orientação em grupo para os familiares dos dependentes químicos, com o objetivo complementar de lhes oferecer apoio emocional e informação para lidarem com esses indivíduos.

         Por fim, estamos atualmente pesquisando o melhor tipo de serviço a ser oferecido aos adolescentes e jovens. Por enquanto, eles são atendidos em psicoterapia individual. Objetivamos oferecer um serviço de psicoterapia de grupo ou de orientação e apoio, coligados a outros serviços oferecidos pela equipe multidisciplinar.

 


Observações e Reflexões Clínicas e Sociais

 

         A atividade clínica não pode ser compreendida de maneira separada de uma análise ou de uma visão sociológica do problema. Diversos autores são unânimes em observar que a dependência química e o uso abusivo de drogas é um problema de proporções nacionais e internacionais. Está diretamente ligado à problemática do consumismo numa sociedade capitalista e industrial[4], consolidada em valores sociais ligados à uma ideologia de intensa competitividade, busca obsessiva pelo sucesso financeiro ou material, e ênfase na propaganda pessoal e na imagem  externa (ou na “persona”, segundo uma terminologia junguiana), que em seu conjunto são elementos que dificultam a vivência do processo de individuação, ou seja, do processo evolutivo de diferenciação e desenvolvimento psicológico.

         No serviço público – retornando à nossa experiência no CAPS Jd. Nélia – atendemos uma população carente dos serviços e necessidades mais básicos. A maioria dos pacientes não possuem um trabalho ou qualquer fonte de renda fixa. Muitos vivem de “bicos” – como eles mesmos costumam dizer – e alguns travam uma luta diária para conseguir aquilo que pode ser considerado o mínimo necessário para garantir a sobrevivência: um prato de comida ou um pão com café e/ou leite.

         Assim atendemos uma população com características bem específicas que os unificam: de um lado é uma população unida pelo sofrimento com o uso abusivo de álcool e outras drogas, e de outro lado, há o sofrimento psíquico gerado pela pobreza e pela miséria. É claro que esses fatores estão interligados, e é nesse contexto que devemos procurar compreender os aspectos clínicos psicodinâmicos emergentes nos atendimentos psicoterapêuticos individuais e grupais, ao mesmo tempo que questionamos qual o papel, função e importância que um trabalho de referência analítica junguiana pode ocupar e desempenhar nesse cenário.

         Em uma equipe interdisciplinar nos deparamos com profissionais com formação diversificada, tanto dentro do campo psicológico (onde precisamos dialogar com psicólogos de orientação psicanalítica, comportamental, humanista, entre outras) como fora desse campo (médicos, enfermeiros, etc). Cremos que um analista junguiano possa se adaptar perfeitamente a esse cenário. A teoria proposta por Carl Gustav Jung é tributária de muitas influências científicas e filosóficas[5], e isso a torna intrinsecamente hábil para dialogar e assimilar as contribuições de qualquer pesquisa ou trabalho realizado em contexto interdisciplinar, sem precisar que o analista descaracterize a sua forma peculiar de trabalho.

         A teoria junguiana, além disso, busca a construção de uma visão holística e integral do ser humano havendo, portanto, ampla sintonia entre esse aspecto e os princípios teóricos norteadores do SUS, especialmente a integralidade e a eqüidade na prestação dos serviços de saúde. Isso baliza a idéia de que a teoria junguiana também pode oferecer uma contribuição importante e significativa ao campo das políticas públicas.

         É nesse sentido que discordamos de que a teoria junguiana seja imprópria para contribuir para o tratamento de populações carentes, como já ouvimos outros profissionais falarem em nossa experiência pessoal. Nossa vivência clínica se opõe a essa conclusão! Muito pelo contrário, a teoria junguiana oferece conceitos instrumentais para a compreensão tanto de vivências muito particulares e subjetivas como o que ocorre no processo de individuação, quanto de processos e vivências coletivas de importância social.

         Utilizando um termo de um analista junguiano chamado James A. Hall[6], talvez o que caracterize a importância da experiência junguiana nesse tipo de trabalho, muito mais do que qualquer modalidade técnica seja o tipo de “olhar” que pode ser oferecido ao outro, ao seu sofrimento, à sua compreensão como sujeito de desejos, direitos e realizações, num contexto que possibilite o surgimento de um campo dialético[7], onde o indivíduo possa se expressar, se comunicar e ser ouvido, assistido, e de alguma forma, acolhido. É nesse sentido que acreditamos que a psicologia junguiana também possui a sua contribuição a oferecer ao atendimento de populações carentes. É claro que isso não esgota a questão, uma vez que se torna necessário organizar o conjunto de referenciais conceituais que instrumentalizem tal iniciativa, a partir de uma perspectiva analítica. Tal projeto pode ser considerado como sugestão de pesquisa para a posteridade.

         Voltamos agora para a seguinte questão: o que a nossa experiência clínica nos tem mostrado? Inicialmente, podemos salientar que muito do que temos visto na prática é corroborado pelos referenciais teóricos que pesquisamos.

         Nossa exposição pode seguir muitas direções, mas talvez seja pertinente esclarecer, em primeiro lugar, que todo o nosso trabalho ainda se encontra em estado experimental, de forma que o que temos para expor são apenas impressões iniciais.

         Em aproximadamente dois anos de atividades clínicas no CAPS, temos uma lista de aproximadamente 130 pacientes que passaram por atendimento individual conosco, mas apenas entre 30 e 40 pacientes efetivamente aderiram ao tratamento, o que nos fornece uma margem aproximada de 20% a 30% de adesão, em média. Uma boa parte desses pacientes estão em atendimento psicológico individual e em grupo. A maioria das instituições que trabalham com dependentes químicos relatam baixas taxas de adesão desses indivíduos a qualquer forma de tratamento. Na literatura específica também encontramos observações semelhantes, como na obra do psicanalista Vicente Antônio de Araújo[8], ou do analista junguiano Luigi Zoja. Esse último afirma que,

 

no campo das toxicomanias, os sucessos da psicoterapia parecem ser muito inferiores aos obtidos com outros tipos de problemas. Ou seja, quando vistas dentro de períodos longos de tempo (nestes casos, as remissões breves são freqüentes e enganadoras), as curas são muito poucas, relativamente ao número de pessoas que recorreram ao terapeuta[9].

        

         Os dois autores concordam que a motivação é um fator crucial para o sucesso do tratamento. Deve ser uma motivação pessoal e profunda[10]. De fato, os pacientes que efetivamente se implicam com o tratamento, de forma assídua e perseverante, são os que obtém os melhores resultados. Isso é coerente com a observação de Zoja, de que “ao avaliarmos os resultados das análises de dependentes de drogas, devemos calculá-los não com base em quantos deles se apresentam ao analista, mas sim em quantos começam, efetivamente a análise”[11].

         Tivemos a oportunidade de observar que quando isso acontece, o paciente pode se beneficiar do tratamento conjunto envolvendo psicoterapia individual e de grupo.

         Acontece, porém, que dificilmente esse perfil de paciente se apresenta com uma demanda bem demarcada de Análise, demanda esta que se caracterizaria pela disponibilidade em enfrentar um trabalho investigativo da própria personalidade, em se confrontar contradições psíquicas internas, e em se comprometer com a mudança no estilo global de vida[12].

         Com esses indivíduos, a droga muitas vezes assume o papel de propiciar um elemento de fuga da realidade, vivida psiquicamente como insuportável, muitas vezes porque as contingências a que o sujeito está submetido são realmente insuportáveis. A proposta de um trabalho de Análise ou de psicoterapia, porém, irá solicitar do indivíduo exatamente o contrário do que a droga lhe oferece nesse contexto: o compromisso em refletir sobre a sua realidade e se instrumentalizar para modificá-la. Isso é verdade, mesmo nos primeiros momentos da psicoterapia, em que o indivíduo ainda se encontra na fase do processo que Jung comparava com uma “confissão”[13] (tal como normalmente se faria com um padre católico), pois para “confessar” as suas angústias, ansiedades e problemas, o paciente por mais exasperado que esteja, ele terá que realizar algum movimento interno de reflexão e organização, para expor o que está sentindo, pensando e fazendo. A droga oferece muitas vezes ao indivíduo um alívio imediato, sem que ele tenha que refletir sobre si, e possa, ao contrário, fugir de si e do mundo. A psicoterapia só oferecerá o seu alívio depois que o indivíduo aceitar o confronto consigo mesmo, ainda que seja um confronto inicial limitado ou momentâneo. Num primeiro instante, essa parece ser uma proposta de trabalho oposta a alguém que possui uma psicodinâmica disposta a realizar esse movimento de fuga de si e da realidade através da droga. Mas, existem aqueles que conseguem aceitar esse desafio, possibilitando-nos a descrição de um trabalho realizado.

         Focalizando primeiramente a nossa experiência nos trabalhos de grupo, comentamos que os grupos de mulheres dependentes se comportam de forma diferente dos grupos masculinos, e que os dependentes de álcool de ambos os sexos se comportam diferentemente dos grupos de dependentes de outras drogas.

         Os grupos de dependentes de outras drogas normalmente são formados por indivíduos jovens, entre 20 e 35 anos. A maioria dos adolescentes (entre 12 e 19 anos) também trazem queixas relacionadas ao uso de outras drogas, que não o álcool. Muitas vezes, porém, o álcool aparece como um coadjuvante ou como o fator que abriu as portas para o ingresso no mundo das drogas ilícitas. As drogas mais usadas por adolescentes e jovens por nós atendidos são a maconha, a cocaína e o crack. Alguns trazem relatos de uso de cola de sapateiro.

         Do ponto de vista psicológico, esses pacientes se mostram bastante dinâmicos, ativos, e com muitos conteúdos a verbalizar, mas ao mesmo tempo são os pacientes de mais difícil adesão ao tratamento, com pouca disponibilidade para a formação do vínculo terapêutico. Muitas vezes, nas primeiras consultas eles expõem ou desabafam suas angústias num ritmo e numa eloqüência muito acima do que eles próprios conseguem suportar. Assim, é comum eles desistirem do tratamento entre a primeira e terceira consultas, seja no trabalho individual ou no de grupo. Muitas vezes, o limite (sobre o que pode ser exposto) precisa ser demarcado pelo terapeuta, pois o paciente parece não ter noção de sua própria capacidade de absorção daquilo que ele próprio pode expor.

         Há uma certa fugacidade na qualidade da formação de seus vínculos. Isso aparece tanto no processo psicoterapêutico com o psicólogo, quanto nos relatos em que o paciente fala das ocasiões em que ele se une com conhecidos (e muitas vezes, com desconhecidos) apenas por breves momentos, para utilizar a droga, e ao final disso, cada qual se separa e vai cuidar de sua vida.

         Por outro lado, há os adolescentes e jovens que conseguem se vincular e levar o tratamento adiante. Disso depende a criação de um bom clima de “ressonância empática” (termo utilizado pelo junguiano Mario Jacoby[14]) no momento terapêutico, alicerçado por um importante clima de confiança. Jacoby acrescenta que a ressonância empática pode ser entendida no sentido que os psicanalistas winnicotianos atribuem ao termo holding. Zoja também comentou que com os dependentes químicos “um trabalho analítico só é aconselhável num ambiente clínico protegido”[15].

         Os grupos de dependência de álcool, por sua vez, são constituídos por indivíduos mais maduros e idosos. A maioria possui mais de 40 anos, muitos possuem entre 50 e 60 anos, e também há pacientes com mais de 60 anos.

         Psicologicamente são pacientes bastante passivos, a maioria não trabalha, e vive numa grande ociosidade. O tempo livre, então, muitas vezes é gasto no bar, onde ficam praticamente o dia inteiro (e, muitas vezes, boa parte da noite também) bebendo. O bar representa, num primeiro nível mais básico, o único espaço de lazer dessa população carente, e também o espaço de socialização. 

A maioria começou a beber muito cedo, durante a adolescência (entre 12 e 14 anos). Mas, há um razoável número de relatos de indivíduos que começaram a beber com 6, 7 ou 8 anos – alguns por iniciativa própria, porém a grande maioria foi incentivada por amigos e familiares (tios, primos ou os próprios pais).  

Algo que chama a atenção nesses pacientes é a rigidez de suas opiniões sobre si mesmo e os outros. Zoja, argumenta que tanto o dependente de álcool quanto o de outras drogas, são indivíduos “oprimidos por instâncias interiores de ordem particularmente opressivas” que funcionam como uma “autoridade interior cruel”, algo semelhante a uma “rigidez de supergo” na terminologia psicanalítica. A relação transferencial maciçamente positiva (e idealizada) que muitas vezes o paciente tenta estabelecer com o terapeuta, pode ser uma tentativa de internalizar uma “autoridade externa boa”, que lhe possa servir de alternativa para o seu árbitro interno cristalizado[16].

Na verdade, temos notado que um self terapêutico acolhedor pode ajudar muito para amenizar a potência dessa autoridade interna. Nos processos de grupo, por exemplo, isso contribui para que os pacientes sejam acolhedores com membros novos que ingressem no grupo, ou sejam tolerantes com pacientes que vivenciem recaídas, ou mesmo quando cheguem levemente embriagados para a psicoterapia (num nível que obviamente, não impeça o mínimo de comunicação, ainda que alguma alteração visível seja denunciável). O próprio terapeuta precisa ter a capacidade de encarnar um símbolo de tolerância, e acolhimento, mas também de limite moderado e de certa ordem. Em termos simbólicos, isso significa um adequado manejo dos dinamismos matriarcal e patriarcal, na forma como isso é possível de ser expresso na condução da psicoterapia e do manejo do enquadre psicoterápico[17]. Voltaremos a discorrer mais detalhadamente sobre esse ponto posteriormente.

Outro aspecto importante de ser salientado em nossa experiência de grupo com os dependentes de álcool masculinos, é a existência de uma noção de auto-identidade muito deficiente e empobrecida, restrita simplesmente à condição de dependentes de álcool. Ou seja, quando em qualquer sessão de grupo, os pacientes são convidados a se apresentarem, eles apenas relatam o seu nome, algumas vezes a sua idade, e dizem que são dependentes de álcool (ou alcoólatras em recuperação, ou qualquer outra coisa do gênero) e que o tratamento no CAPS está lhes fazendo bem. Relatam que estão há um certo número de dias sem beber, e não vão muito além disso.

As outras áreas da vida (profissional, familiar, afetiva, lazer, etc) são ignoradas, o que demonstra que elas não fazem parte da identidade que os pacientes localizam em si. É como se tudo se resumisse à bebida alcoólica.

Para fazer uma comparação, se a identidade desses pacientes pudesse ser comparada à construção de uma casa, no lugar de uma boa parte dos tijolos, nós teríamos garrafas de bebida alcoólica como sendo os “tijolos” de construção dessa “casa-identidade”. Alguns pacientes, inclusive, provavelmente teriam uma “casa-identidade” toda construída de garrafas de bebida[18].

Normalmente essa “identidade de alcoólatra” se sustenta como uma persona rígida e defensiva, um “falso self” na linguagem dos psicanalistas da escola inglesa. Essa persona oculta uma intensa crise de identidade latente, um vazio existencial expresso naquilo que resolvemos denominar como sendo uma certa inércia psíquica, expressa comportamentalmente na ociosidade e na passividade relatada por esses pacientes.

Em função da fixação nessa persona defensiva, esses pacientes dificilmente entram no âmago de suas questões internas. Gastam boa parte do tempo da terapia num discurso razoavelmente estereotipado sobre os malefícios da bebida alcoólica, depositando sobre a mesma todas as mazelas e desgraças. A bebida se torna uma espécie de “vilã”, algumas vezes é associada ao demônio, e com certeza é vista com a causa de todos os problemas. Em uma linguagem psicopatológica, trata-se de um discurso esquizo-paranóico. Em decorrência disso, os prazeres e “benefícios” (imaginados ou reais) obtidos com a bebida por não serem assumidos, são deslocados para a sombra do grupo, havendo a necessidade de se intervir terapeuticamente para que esse aspecto seja exposto ao debate e à reflexão no self clínico. Isso é mais fácil de ser conseguido quando um dos pacientes espontaneamente faz emergir essa problemática. Quando não, o próprio terapeuta pode resgatar esse conteúdo “esquecido” ou reprimido.

         O grupo de psicoterapia de mulheres dependentes de álcool se apresenta de um modo um pouco diferente. As mulheres conseguem penetrar mais à fundo em suas questões pessoais. O seu discurso não é centrado apenas no álcool. Elas comentam mais diretamente e espontaneamente sobre seus problemas familiares, financeiros, entre outros. Porém, a temática por elas privilegiada, é a sua crise de identidade ligada à função materna.

         Assim, enquanto a identidade dos alcoolistas masculinos é muito ligada à sua condição de dependentes químicos, as mulheres trazem importantes questionamentos sobre a sua função materna, que denunciam uma crise ainda mais profunda e latente, que é a sua crise de identidade enquanto mulheres.

         As mulheres são mais expostas ao preconceito do que os homens, embora esses também se queixem dos preconceitos sociais contra a sua condição de dependência. Mas, com as mulheres a situação é mais intensa. Normalmente elas bebem sozinhas, e não nos bares. A maioria das dependentes de álcool que nós atendemos são mães, possuem entre 40 e 55 anos, e muitas enfrentam (ou enfrentaram) questões legais por maus tratos aos filhos, perdendo a guarda dos mesmos.

         Na psicoterapia de grupo, elas se mostram mais desconfiadas do que os homens e também mais agressivas entre si. O processo de transferência com os terapeutas é caracterizado por uma maior ambivalência do que no processo de grupo dos homens (que é caracterizado por uma transferência positiva idealizada). Elas se envolvem mais emocionalmente do que os homens, mas também se desorganizam com mais facilidade, são tomadas pela ansiedade, e quando uma das pacientes se angustia de maneira mais manifesta, as outras pacientes parecem ser “contaminadas” pelo choro e pela angústia da paciente que se manifestou. A “contenção” do grupo feminino é mais difícil. Por outro lado, com os homens é mais difícil que eles aceitem enfrentar suas contradições internas e seus conflitos mais profundos.

         O grupo feminino de psicoterapia para dependentes de outras drogas apresenta a mesma fugacidade de vínculos que notamos nos grupos masculinos. Na verdade, é muito difícil conseguirmos montar um grupo de dependentes de outras drogas, tanto masculino quanto feminino. Os grupos de dependentes de álcool são mais fáceis e rápidos de serem criados.

         Assim, nos deparamos novamente com a questão da motivação para o tratamento. Nossa experiência clínica é semelhante à de Zoja. Segundo esse autor,

a motivação para o tratamento muitas vezes não é psicológica e interior, mas exterior, vinda da sociedade. Com freqüência o tratamento é imposto pelos familiares ou pelos colegas do interessado, no auge de uma fase aguda que evidencia o seu comportamento anti-social. Passada a tempestade – e obtidos talvez os primeiros resultados da terapia – , as pressões diminuem e o interessado retoma a vida que levava antes, mesmo porque pôs em ordem por certo tempo a sua consciência.

Durante certo tempo, embriaga-se de boas intenções e de bons sentimentos, ao invés de se embriagar, digamos, com vinho. Na verdade, o Ego do dependente de drogas parece ser facilmente devorado não só pelos efeitos da substância como também por todo tipo de emoções intensas e primitivas, não por acaso análogas àquelas que a própria substância lhe proporciona[19] (grifos nossos). 

 

         Na nossa prática observamos esse último fato, nos relatos dos pacientes que dizem fazer um uso intenso de algum tipo de droga tanto após vivências de emoções tristes e angustiantes, como após vivências emocionais alegres ou satisfatórias. Afirmam, às vezes, de forma literal que bebem ou usam drogas tanto para fugir dos problemas, como para comemorarem ocasiões felizes, como uma partida de futebol, ou o recebimento do salário.   

         Luigi Zoja prossegue explicando que o paciente,

sente como algo importante encontrar no analista um aliado, alguém que acredite em suas boas intenções. De tais intenções sua família geralmente desconfia, e muitas vezes ele mesmo desconfia delas. Assim, esse aliado se apresenta como um substituto parcial e externo daquela solidez de que o Ego sente falta e como uma tela externa sobre a qual pode projetar, e através da  qual pode recuperar, a auto-estima e a confiança em si mesmo que lhe faltam (...)

Nas fases de colaboração, encontramos no dependente de drogas uma benevolência incondicional, uma ânsia de redenção e uma proclamada disponibilidade muitas vezes expressas com tal candura que a pessoa, mesmo quando no começo não está muito persuadida dos seus próprios propósitos, acaba convencendo a si mesma.

Neste alternar-se de humores constatamos que em certo sentido o paciente não é motivado por um verdadeiro desejo de enfrentar as suas contradições interiores, e sim pela necessidade de conseguir um aliado e de aliviar o seu próprio sentimento de culpa, correlativo interior do moralismo ambiente que o obriga a se curar e, no mais das vezes, tão estéril quanto ele, porque se preocupa só com o sintoma.[20] 

 

         O autor reconhece, porém, que esse é um esquema-limite que ajuda a isolar conceitos, já que na prática a possibilidade de esclarecer a motivação para o tratamento,  

geralmente só existe quando se começa o trabalho com o paciente. Em seguida, uma terapia iniciada como uma simples busca de um aliado com que descarregar a consciência pode também dar lugar a uma forte transferência positiva, no interior da qual o paciente pode começar a colocar-se realmente em discussão.[21] 

 

         Para que isso aconteça é necessário que,

O encontro terapêutico seja particularmente feliz, que a relação que se estabelece entre paciente e analista tenha a força de ativar e sustentar aquele autoquestionamento a que de início o paciente não estava disposto[22].

 

         Sobre a crise de identidade do dependente químico, Zoja também tece importantes comentários. Ele define identidade como uma vivência psicológica e interior dotada de continuidade e coerência. Trata-se da capacidade de reconhecermo-nos de algum modo como idênticos a nós mesmos, mesmo em meio à variação dos parâmetros de espaço e tempo. Também define papel, como um conceito sociológico, representado como sendo o conjunto de expectativas com que uma coletividade percebe a posição e a função do indivíduo dentro dela. Sob muitos aspectos, o papel é o correspondente externo da identidade, porém menos personalizado[23]. Esse parece ser um conceito relacionado com a noção de persona proposta por Jung.

         Assim, em relação à crise de identidade do dependente químico, Zoja afirma o seguinte,

Mais de uma vez me deparei com ou ouvi se referirem a atitudes de paradoxal orgulho no toxicômano, pelo qual ele se proclama: “Sou um drogado”. Parece-me que esta postura não existia tempos atrás, e mesmo hoje ela é característica principalmente dos viciados mais jovens e dos casos mais ruidosos, onde a droga em questão é chamada “droga pesada”, ao redor da qual giram todos os interesses.

Nestes casos, acho evidente que não basta encarar o ingresso no mundo da droga como uma regressão ligada a certa carência de identidade pessoal e de papel na sociedade. Ele é encarado também como uma opção ativa com a qual, mais ou menos conscientemente, o indivíduo tenta remediar aquela carência adquirindo uma identidade e um papel bem precisos , e até aberrantes, porque primitivos[24].

 

 


Aprofundando alguns aspectos teóricos

 

         Iniciando pelo conceito de farmacodependência, Dartiu Xavier[25] refere a definição da Organização Mundial de Saúde que define a farmacodependência como o estado psíquico e algumas vezes físico resultante da interação entre um organismo vivo e uma substância, caracterizado por modificações de comportamento e outras reações que sempre incluem um impulso a utilizar a substância de modo contínuo ou periódico, com a finalidade de experimentar seus efeitos psíquicos, e algumas vezes, de evitar o desconforto da privação. A tolerância pode estar presente ou não.

         A dependência psíquica constitui o estado mental caracterizado pelo impulso a utilizar uma droga psicoativa periódica ou continuamente com a finalidade de obtenção de prazer ou de aliviar uma tensão.

         O autor salienta que apenas secundariamente o uso de drogas acarretaria uma dependência física, definida como a necessidade por parte do organismo do aporte regular de uma substância química exógena para a manutenção de seu equilíbrio[26]. Porém, observamos que é bastante comum na literatura específica que o fenômeno da dependência química seja, de forma extremamente simplista, reduzido a seus aspectos biológicos.

         Além disso, temos que observar que a noção de uma “dependência psíquica” e de uma “dependência física” no fenômeno da farmacodependência acaba sendo oriunda de uma concepção dualista “corpo-mente” do ser humano, bastante questionável, quando adotamos uma leitura mais holística, sistêmica e integral derivada da teoria junguiana. Por outro lado, não encontramos referências significativas de pesquisas sobre uma visão psicossomática da dependência de álcool e/ou de outras drogas.

         Para Dartiu Xavier[27], a farmacodependência é uma organização processual de um sintoma cuja gênese é tridimensional, e envolve (1) a substância psicoativa, com suas propriedades farmacológicas específicas, (2) o indivíduo, com suas características de personalidade e sua singularidade biológica, e (3) finalmente, o contexto sociocultural, onde se realiza este encontro entre indivíduo e droga.

            Luigi Zoja[28], por sua vez, também decompõe sua análise do fenômeno da dependência química, em três elementos constitutivos a saber:  (1) a formação de uma tolerância orgânica no indivíduo consumidor; (2) um hábito psicológico – sempre no indivíduo – que tende a assumir a forma de um condicionamento (sobre tudo quando os comportamentos individuais se reforçam uns aos outros num grupo); (3) um elemento para-religioso ou sacro, que, diferentemente dos outros dois, não é nem adquirido, nem condicionado culturalmente, mas constitui uma tendência arquetípica[29].       

          Comparando os dois autores e acrescentando a nossa própria experiência clínica, montamos o nosso próprio esquema de representação referencial que nos permite a compreensão do fenômeno da dependência química a partir da integração sistêmica de cinco fatores fundamentais, pictoricamente representados por um quadrado com um ponto central simbolizando o quinto fator (arquetípico). Assim, procuramos nos inspirar no simbolismo da mandala para formular uma representação, que consideramos a mais completa possível para facilitar a compreensão do fenômeno estudado:

 

 

 

Resumidamente, portanto, consideramos cinco fatores fundamentais na compreensão da dependência química: (1) a substância psicoativa, (2) o perfil biológico e (3) psicológico do indivíduo, (4) o contexto sociocultural e (5) o fator para-religioso arquetípico.

Começando pelas características das substâncias psicoativas e pelo fundamento biológico da dependência química, um interessante estudo foi publicado na revista Scientific American, por dois psiquiatras Eric J. Nestler e Robert C. Malenka[30]. Segundo esses autores, sabe-se que os mecanismos de tolerância e dependência das drogas estão relacionados à maneira como essas substâncias psicoativas atuam sobre o mecanismo neurológico de recompensa do cérebro, em especial, os neurônios da área tegmental ventral (ATV) incluindo seus seguimentos até o núcleo acúmbens (NA) – o chamado sistema mesolímbico dopaminérgico.

O sistema de recompensa é evolucionariamente antigo, estando presente uma versão rudimentar dele, por exemplo, no verme subterrâneo Caenorhabditis elegans[31]. Em mamíferos, como o homem, o circuito de recompensa é mais complexo, e se liga a várias outras regiões cerebrais, responsáveis por colorir de emoção as experiências vividas e direcionar os estímulos de recompensa, incluindo comida, sexo e relações sexuais. Essas outras regiões cerebrais incluem a amígdala, o hipocampo, e o córtex pré-frontal. Elas são todas afetadas pelas drogas, como confirmado em imagens de ressonância magnética funcional e tomografias por emissão de pósitrons[32].

Apesar de drogas como a cocaína, álcool, opiáceos e as anfetaminas, não possuírem características estruturais comuns e causarem enorme variedades de efeitos sobre o corpo (por exemplo, a cocaína é um estimulante que pode fazer o coração disparar, enquanto a heroína se caracteriza como uma sedativo analgésico) contraditoriamente, elas causam as mesmas respostas nos circuitos cerebrais de recompensa. Como isso é possível? A resposta é que as drogas atingem vários alvos diferentes no cérebro, mas todas elas, direta ou indiretamente, aumentam a quantidade de dopamina no núcleo acúmbens, provocando a dependência química.

Primeiramente, as drogas promovem um influxo de dopamina que induz à euforia e provoca a “recompensa inicial”. Mas, elas ainda fazem mais: ao longo do tempo, e com exposições repetidas, elas dão início às adaptações graduais no circuito de recompensa que leva à tolerância e à dependência.

No primeiro caso, a tolerância é instalada através de um irônico mecanismo, que anula partes do circuito de recompensa fazendo com que o sujeito necessite cada vez de maior quantidade da substância psicoativa para conseguir o mesmo efeito, que antes era conseguido com menos droga. Esse mecanismo envolve a produção da proteína CREB, um fator de transcrição que regula a expressão ou atividade de certos genes, e portanto, o comportamento geral das células nervosas. O processo é o seguinte: com o aumento da dopamina no núcleo acúmbens, há também um aumento das concentrações de AMP cíclico (cAMP) e íons de cálcio (CA2+), que então ativam a proteína CREB (que é uma proteína de ligação do DNA ao AMP cíclico reativo, que por sua vez, é uma pequena molécula sinalizadora). Ativada, a CREB se liga ao DNA de genes específicos para coloca-los em ação. Esses genes provocam a sintetização de proteínas envolvidas na tolerância e na dependência. 

Mas, a CREB é responsável apenas por parte do processo de dependência. Esse fator de transcrição é desabilitado poucos dias depois da interrupção do consumo da droga, e por isso, não pode ser responsabilizado pelo efeito mais prolongado que as drogas possuem no cérebro. Nessa linha de pensamento, devem existir alterações cerebrais que se relacionam com a possibilidade do dependente voltar a fazer uso de uma substância psicoativa, mesmo depois de anos ou décadas de abstinência. Considera-se, assim, as recaídas relacionadas a um fenômeno denominado sensibilização, ou seja, um fator que amplifica os efeitos da droga, e onde uma simples lembrança pode levar o indivíduo de volta à droga[33].

Assim, para se entender as raízes da sensibilização temos de procurar alterações moleculares que durem mais tempo. Os pesquisadores acreditam que outro fator de transcrição – a delta-FosB – pode ser a responsável pelo fenômeno da sensibilização. Descritivamente, o aumento da sinalização de dopamina no núcleo acúmbens, além das transformações já citadas, também leva à ativação da proteína delta-FosB, que reprime a síntese de dinorfina e ativa genes específicos (diferentes dos ativados pela CREB), que por sua vez, sintetizam novas proteínas envolvidas na sensibilização da resposta às drogas e às coisas que façam lembrar delas.  Uma dessas proteínas é a CDK5, capaz de causar mudanças neurológicas estruturais no núcleo acúmbens, deixando esses neurônios permanentemente sensíveis às drogas e às lembranças relativas a ele. Esses dados são confirmados em experiências com camundongos que, após exposições às substâncias psicoativas, se tornaram hipersensíveis às drogas e às recaídas (quando as drogas eram retiradas e depois de meses disponibilizadas novamente). Há também experimentos que sugerem que a delta-FosB pode ter um papel importante no desenvolvimento de comportamentos compulsivos não ligados às drogas, como a compulsão por fome, sexo ou jogos[34].

Falamos do aumento do neurotransmissor dopamina no núcleo acúmbens (euforia inicial), e do papel do CREB (tolerância) e do delta-FosB (sensibilização e recaída) ativados com esse aumento. Há ainda mais dois fatores a considerar: (1º) evidências apontam para um mecanismo pelo qual a sensibilização possa permanecer mesmo depois que os níveis de delta-FosB voltem ao normal, que é o aumento significativo de espinhas dendríticas nos neurônios do núcleo acúmbens com a exposição crônica às drogas. Em experimentos com ratos, observou-se que os seus neurônios do sistema de recompensa se tornaram mais espessos que o normal, graças ao aumento de prolongamentos dendríticos. Especula-se que as alterações dendríticas sejam as adaptações mais importantes para definir a natureza intransigente da dependência química; (2º) por fim, observou-se que muitas drogas, incluindo a cocaína, as anfetaminas, a morfina e o álcool, podem alterar por muito tempo as respostas das células do núcleo acúmbens e da área tegmental ventral ao neurotransmissor glutamato (originadas na amígdala, no hipocampo e no córtex frontal, que como vimos são regiões conectadas ao sistema de recompensa do cérebro), contribuindo para o desejo irrefreável de droga ao aumentar as lembranças de experiências passadas, mesmo quando a substância não está mais sendo consumida[35].

Observamos que as drogas afetam o sistema de recompensa do cérebro por muitos caminhos ao mesmo tempo, o que contribui para a gravidade e persistência do sintoma de dependência química. Porém, a descoberta das alterações moleculares citadas ajudam não apenas a entender como a exposição crônica às drogas reorganiza o cérebro do usuário, mas também fornece novos alvos para um tratamento bioquímico mais eficaz da dependência. Conforme as pesquisas avançam, os neurocientistas esperam poder revelar outras importantes adaptações moleculares e celulares do circuito de recompensa e nas áreas do cérebro envolvidas, e com isso desvendarem a verdadeira natureza das dependências químicas.

Porém, nesse ponto é interessante atentarmos para a crítica que Dartiu Xavier dirige a tais estudos. Segundo esse autor,

A psiquiatria contemporânea vem se utilizando de um modelo científico positivista das ciências exatas, que freqüentemente incorre em redutivismos atualmente inaceitáveis. Se, por um lado, devemos grande parte do inquestionável desenvolvimento científico deste século a este tipo de método, por outro lado, o campo das farmacodependências demonstra de modo veemente quão limitado é este referencial.

(...) devemos estar atentos para os riscos da biologização excessiva do fenômeno da farmacodependência. Indubitavelmente, as recentes descobertas neurofisiológicas e neurofarmacológicas trouxeram contribuições inestimáveis à compreensão do funcionamento do cérebro. Entretanto, não podem contribuir, tanto quanto acreditam, para uma melhor compreensão do imaginário do dependente de drogas. Nenhum conhecimento neurológico poderá jamais compreender certa ordem de fenômenos, tais como: a qualidade de uma produção artística; a profundidade de uma experiência mística; ou a vivência de um toxicômano[36].  

 

É aqui, portanto, que abordamos os outros três aspectos de nosso quadro referencial geral: o psicodinâmico individual, as influências sócio-culturais e o elemento arquetípico.

Segundo Dartiu Xavier, psicologicamente o dependente de drogas é,

um indivíduo que se encontra diante de uma realidade objetiva ou subjetiva insuportável, realidade esta que não consegue modificar e da qual não consegue se esquivar, restando-lhe como única alternativa a alteração da percepção desta realidade. Esta alteração da percepção da realidade pode ser obtida através do uso da droga. Se tivermos em mente que a relação de dependência com a droga é a única alternativa que restou para o toxicômano, torna-se compreensível que o comportamento de drogar-se se efetive através de um ato impulsivo. Não se trata do desejo de consumir drogas, mas da impossibilidade de não consumi-las. Estabelece-se assim um duo indissociável indivíduo-droga, em que tudo o que não é pertinente a essa relação passa a constituir pano de fundo na existência do dependente. Este duo permanece indissociável enquanto a droga for capaz de propiciar esta alteração da percepção de uma realidade insuportável, respondendo assim pela manutenção do equilíbrio do indivíduo. Para o dependente, a droga é uma questão de sobrevivência. Não ter a droga é perder-se. E a droga pode, ao mesmo tempo, ser a possibilidade de resgate de aspectos de sua identidade[37].

 

Entretanto, com o decorrer do tempo e o incremento do fenômeno da tolerância, acirra-se a dependência, e chega um momento crítico em que a droga deixa de ter a capacidade de desempenhar esses mesmos papéis. O toxicômano encontra-se aqui em um momento de crise, quando percebe que continua não podendo viver sem a droga e, paradoxalmente, não consegue mais viver com ela. Dartiu Xavier chama essa situação de crise toxicomaníaca[38], momento de grande intensidade existencial em que aflora toda a dinâmica que não pode ser vivenciada e que resultou no estabelecimento defensivo daquela relação de dependência com o produto. Uma vez exaurida a catéxis ou vivência simbólica do seu encontro com a droga, o toxicômano é remetido à sua problemática inicial, que eclode mais uma vez, agora acrescida de um profundo sentimento de impotência advindo da constatação da falha do seu projeto toxicomaníaco, que até então dava sentido à sua vida. Para esse indivíduo, com uma identidade adulta pobremente estruturada, a depressão desse momento costuma ser tão avassaladora que o potecial destrutivo da crise torna-se elevado, havendo risco da falência egóica levar a um quadro de psicose ou suicídio[39].   

É costumeiramente referenciado uma certa conduta de transgressão no dependente químico, que pode ser entendida de muitas maneiras, mas creio ser interessante apontar que a conduta toxicomaníaca parece questionar de forma contundente a organização de nossa estrutura social, denunciando os seus aspectos hipócritas, medíocres e estagnantes, ao encarnar ou personalizar a Sombra da sociedade na figura do dependente. Como afirma Dartiu Xavier, nesse sentido, a conduta toxicomaníaca pode “se tornar uma caricatura do que o drogado vê ao seu redor, na família e na sociedade”[40].

A noção de tempo do dependente não é lógico-linear, mas centrada na instantaneidade. Configura-se, assim, quase que uma vivência de eternidade, que entre outras coisas, acaba por tornar igualmente particular a relação do dependente com a morte. Este coloca-se constantemente em confronto com a morte, acumulando-se seqüências de episódios de extremo risco de vida, associados ou não ao uso de drogas. Segundo Dartiu Xavier,

A própria experiência de intoxicação constitui uma forma de anular a marcha do tempo linear que, estranho ao toxicômano, caminha inexoravelmente para a morte. Tem a função de colorir seu imaginário, como em um devaneio, protegendo-o da mediocridade do insuportável cotidiano. Tem ainda como função o restabelecimento de uma unidade que, embora alucinada, encontra na concretude do prazer da droga a possibilidade de existência como indivíduo[41].

 

Em alguns casos o dependente traça relações muito particulares com seu corpo, que passa a ser um terreno eleito para a inscrição de sua identidade. Aí encontramos o auto-erotismo, a ambivalência sexual, e a androginia como formas peculiares de expressão erótica, que se associam a sua transgressividade e desproporcionalidade, e no qual se autoriza o dependente à diversidade de uma série de vivências, onde quase tudo pode ser permitido[42].

Numa perspectiva desenvolvimentista e simbólica[43], a problemática da maioria dos toxicômanos se refere em geral às fases mais precoces do desenvolvimento da personalidade, ou seja, a distúrbios nos dinamismos matriarcal e patriarcal do desenvolvimento. O dinamismo matriarcal é regido pelo Arquétipo da Grande-Mãe, que se exerce através do desempenho de uma atitude de carinho, cuidado e proteção. Tem no campo corporal a sua via preferencial de expressão, orientando-se pelo desejo e pela fertilidade. Sensualidade, prazer e criatividade impregnam o dinamismo matriarcal, visando basicamente a preservação e a sobrevivência. O dinamismo patriarcal é regido pelo Arquétipo do Pai, tendo como atributos básicos a organização e a orientação, voltando-se para o estabelecimento de regras, normas e leis no seu sentido abstrato. Orienta-se pelo princípio da causalidade, discrimina as polaridades privilegiando sempre um dos pólos de opostos (bem/mal, certo/errado, etc), e relaciona-se nitidamente a um processo adaptativo de sociabilização.

Nos dependentes a relação com a mãe evoca, freqüentemente, uma sensação de afastamento e de vazio, muitas vezes marcadas por relações de simbiose e ambivalência, onde a imagem materna é, em geral carregada, de conotação fálica e agressiva. Observamos aqui, o aspecto da mãe não-humanizada.   

Os conteúdos relativos à imagem paterna, por sua vez, são freqüentemente impactantes e paralisantes, carregados de agressividade. Em grande parte dos casos, observamos não ter sido igualmente possível a humanização da imagem masculina, pelo contato com uma figura humana adequada. Este distúrbio se manifesta na clínica pela transgressão, ausência de limites, desproporcionalidade, rigidez e atuações (acting-out).

Para muitos dependentes, o distúrbio do dinamismo patriarcal dificulta a organização egóica do real, do imaginário e do simbólico. Sabemos que o símbolo permite a conexão entre o mundo externo e a percepção de uma realidade objetiva internalizada. Mas, na dinâmica de diversos dependentes de drogas, a fantasia seria vivida e procurada através da droga como uma realidade em si mesma, como uma “alucinação do real”, devido à ausência da capacidade de simbolização. Tratar-se-iam de alucinações na medida em que as imagens e representações psíquicas, na ausência de simbolização, seriam experienciadas como exteriores ao eu, não podendo, portanto, serem abstraídas na forma de ideação. Dada a sua dificuldade em elaborar o simbólico, o dependente viveria em um mundo governado pelos “princípios mágicos”.  Uma vez que para o referencial arquetípico o “mundo mágico” é de forma similar extremamente simbólico, podemos considerar de certa forma, o dependente como alguém possuído e escravizado pelo símbolo, e conseqüentemente paralisado para a elaboração simbólica[44].

Quanto aos problemas ligados à noção de identidade, observamos que, em um nível mais superficial, clinicamente há uma certa preservação de recursos egóicos, e só excepcionalmente ocorrem fenômenos de despersonalização. Entretanto, observamos comprometimento importante em níveis mais profundos. Alguns pacientes apresentam conteúdos com elementos simbióticos, agressivos, melancólicos e persecutórios. Dartiu Xavier relaciona essas observações com distúrbios na estruturação dos dinamismos parentais (matriarcal e patriarcal). Segundo suas palavras,

Na produção dos dependentes observamos o aparecimento freqüente de personagens míticos e irreais, remetendo a conteúdos arcaicos, primitivos e pouco diferenciados, ou seja, aparecendo sob aspecto arquetípico, não-humanizado. Estas imagens, intensamente arquetípicas, de certa forma substituem imagos que deveriam ter sido estruturadas em um nível maior de desenvolvimento egóico, e se tornam progressivamente alienantes por não poderem ser elaboradas pela vivência adequada dos dinamismos arquetípicos. Esta impossibilidade tem correlato na clínica, onde percebemos freqüentemente na história do dependente a existência de uma mãe simbiótica, ambivalente, ao mesmo tempo superprotetora e abandonadora, assim como de um pai que abdica de seu papel, configurando-se habitualmente como ausente ou impotente[45].

 

É interessante notarmos que os distúrbios nessas primeiras fases de estruturação dos dinamismos matriarcal e patriarcal no processo de desenvolvimento psíquico, correspondem analogicamente à observação de conflitos e disfunções na fase edípica do desenvolvimento, segundo o referencial psicanalítico freudiano[46], que culminariam numa fixação na fase oral do processo psicossexual de desenvolvimento, e na formação de uma psicopatologia da mania. Na dinâmica da oralidade encontraríamos aspectos regressivos como a intolerância à frustração e à espera na satisfação do desejo.

Entendemos que nossa experiência prática nos atendimentos clínicos realizados no CAPS e na clínica particular confirmam essas observações teóricas. Em uma atividade de dinâmica de grupo que solicitamos ao pacientes alcoolistas masculinos, pedimos que desenhassem “um monstro, o mais terrível e maléfico, o quanto pudessem”. Nosso objetivo era observar que aspectos da Sombra seriam projetados sobre esses desenhos[47]. Em geral, os pacientes desenharam répteis gigantes (como dinossauros ou dragões), com grandes mandíbulas, alguns com “poder de lançar fogo pela boca”. Assim, ficaram nítidos aspectos ligados simbolicamente a uma certa “voracidade oral”, e a representações arcaicas, primitivas e não-humanizadas, talvez como substitutos de imagos parentais[48].

Dartiu Xavier complementa que,

 As experiências dos momentos de abstinência evocam por vezes sentimentos sugestivos de distúrbios na relação primal, como profundo medo da solidão, e uma crescente e avassaladora sensação de abandono. (...) No relacionamento destes toxicômanos com suas mães, observamos freqüentemente que estes tendem a mantê-las à distância, às vezes valendo-se mesmo de muita agressividade, pois esta proximidade evocaria uma outra falta ainda mais arcaica. O distanciamento diminui a ameaça de dissolução no inconsciente e permite, juntamente com a droga, a preservação de uma identidade, ainda que fragmentária[49].

 

Com relação à fase da adolescência, é visível que esse constitui o momento de maior vulnerabilidade para o aparecimento de uma conduta drogaditiva. A adolescência constitui um momento existencial particularmente delicado em qualquer cultura, pois do ponto de vista analítico, essa fase constela o dinamismo de alteridade (alter, outro) quando o abrir-se para o outro, para o alternativo, implica necessariamente tensão, confronto e oposição com os dinamismos parentais. Nessa fase o indivíduo é requisitado a transformar-se[50], e arquetipicamente a buscar a auto-afirmação[51]. Tudo isso mostra o quanto o arquétipo da Alteridade, representado pelos arquétipos da Anima e do Animus são também fundamentais na descoberta da droga. Geralmente são eles que, junto com o arquétipo do Herói, impulsionam os jovens para o fascínio do êxtase propiciado pela droga. Sobre esse último tema, Luigi Zoja também obteve insights interessantes. Segundo o autor,

O esforço da pessoa para tornar-se ela mesma, para ser consciente e responsável do seu progresso e das suas opções, o esforço do Ego para sair da obscuridade pré-consciente, foi retomado e expresso pelas mitologias como uma luta do herói isolado contra os inimigos e os dragões. (...) É difícil, porém, que as lutas de hoje permitam que se viva tal esforço solitário e heróico de uma forma responsável e não anti-social. (...)

 Por trás do atual consumo de drogas podemos de fato, de um modo quase generalizado, intuir a presença de uma instância arquetípica personificada naquilo a que chamei herói negativo.

A necessidade arquetípica de transcender o próprio estado a qualquer preço, mesmo às custas de meios danosos para a saúde física, é particularmente forte em quem mais sofre de uma condição insignificante, sem identidade e papel precisos. Sabemos, por exemplo, que quase nunca se entrega às drogas uma pessoa de meia-idade, com situação familiar e de trabalho satisfatória e já consolidada pelo tempo. Neste sentido, acho correto encarar o comportamento do dependente de drogas que proclama “sou um drogado” não só como uma fuga rumo a um outro mundo, o mundo da droga, mas também como uma ingênua e inconsciente tentativa de conseguir uma identidade e um papel definidos, mesmo se negativamente, pelos valores correntes neste mundo. Não, portanto, como uma fuga da sociedade, como normalmente se pensa, e sim como uma tentativa desesperada de unir-se a ela, ocupando um lugar[52].

 

Nesse ponto, podemos aprofundar a compreensão das bases arquetípicas do uso das drogas. A eclosão de uma conduta toxicomaníaca não nos permite necessariamente inferir a existência de uma dinâmica patológica subjacente. As pesquisas também não chegaram à conclusão de que exista algo como uma “personalidade típica do dependente químico”. As considerações teóricas levantadas até aqui, indicam apenas possíveis direções que ajudam o terapeuta a não se manter totalmente perdido em seu trabalho com os adictos. O enfoque analítico da toxicomania exige metodologicamente que, antes de nos precipitarmos em procurar um quadro psicopatológico em que o dependente possa se encaixar, possamos conhecer e amplificar profundamente os aspectos arquetípicos da própria droga, enquanto um símbolo.

 Assim, constatamos que a descoberta e o emprego de substâncias químicas que provocam alterações dos estados de consciência têm sido, desde sempre, um dos maiores símbolos valorizados de diversas culturas e religiões da humanidade[53].

Zoja enfatiza nessa mesma linha de pensamento, a caracterização do uso de drogas nessas culturas como parte importante na realização de rituais de iniciação. Segundo seus estudos, o que se busca no consumo da droga é uma transformação psíquica profunda através de um ritual. Isso pode ser observado em todas as culturas, e são conhecidos como rituais de iniciação. Durante milênios organizaram a vida psíquica e social de todos os povos, sendo tão universais quanto o tabu do incesto. São rituais de iniciação o batismo, a confirmação, o casamento, os rituais da puberdade. Regem e favorecem as transformações psíquicas que acompanham o nosso desenvolvimento. Sem eles, essas passagens tornam-se mais problemáticas, podem mesmo ser bloqueadas ou abortadas, resultando num grande prejuízo para nossa vida anímica. Diríamos que esses rituais regulam as transformações energéticas individuais e coletivas. Eles estão sempre inseridos num universo simbólico, e no seu conjunto constituem uma religião.

A idéia-chave de Zoja é a de que a psique profunda possui sede de rituais para poder se desenvolver. É uma necessidade arquetípica, que surgiu junto com a própria humanidade. Segundo o referencial junguiano, sabemos que quando uma necessidade arquetípica é reprimida ou impedida de se expressar, a libido se mobiliza para encontrar alternativas de expressão, na maioria das vezes encontrando sucedâneos incompletos, desvirtuados, e que levam a resultados destrutivos. Em outras palavras, quando uma necessidade arquetípica é reprimida, ela se manifesta de maneira sombria, muitas vezes patológica, desorganizada e destrutiva.

As drogas como o haxixe, o peiote, e o álcool, desde tempos imemoriais faziam parte dos rituais iniciáticos. No entanto, eram utilizadas em doses controladas, com o objetivo específico de aproximar o mundo da consciência do mundo do inconsciente. Nessas condições, seus efeitos eram muito diferentes dos que observamos hoje em dia. Com o passar do tempo foram desaparecendo ou perdendo sua força, e o que resta deles nos países mais desenvolvidos são apenas resquícios do que foram outrora.

Ou seja, a nossa sociedade capitalista e industrial vivencia um empobrecimento de seus rituais, rotulando muitos deles como primitivos e ultrapassados, concluindo que sua extinção não teria nenhuma conseqüência negativa, e muito pelo contrário seria uma benção. Porém, como nenhuma necessidade arquetípica deseja se calar, a necessidade psíquica de rituais se manifesta de maneira sombria.

Dissemos que o que se busca no consumo de drogas é uma transformação psíquica profunda através de um ritual. Como toda transformação se caracteriza por uma mudança significativa, isto é, um fim e um começo, Zoja observou nos rituais envolvendo o consumo de drogas como padrão arquetípico a polaridade simbólica “Morte-Renascimento”. Porém, em nossa sociedade, como esse padrão se manifesta com a interferência do Arquétipo da Sombra, o voltar-se para as drogas pode ser visto como uma tentativa de iniciação, falha já de início por falta de consciência. Zoja resume as etapas do processo da seguinte maneira:

1) Situação inicial a ser transcendida porque insignificante. Assim como, para fugir à insignificância, o adolescente da sociedade primitiva se entregava à iniciação que lhe conferia enfim uma identidade completa e adulta, assim também o homem da nossa sociedade, perdido, passivo, capaz apenas de consumir e de repetir gestos realizados por milhões de outros homens, sonha secretamente com uma transformação que o torne adulto, inconfundível, protagonista, criador, e não mais somente consumidor;

2) Morte iniciática. Aceitação de uma fase de fechamento em relação ao mundo, renúncia à identidade anterior, afastamento libidinal dos investimentos usuais (que na nossa sociedade deveria consistir sobretudo numa abstinência das práticas consumistas);

3) Renascimento iniciático, favorecido psicologicamente pela partilha com outros da experiência, pelo acompanhamento de rituais e quimicamente, por um consumo controlado de droga: esse controle é uma fantasia quase sempre presente entre os jovens drogados, mas, em geral, só em certas sociedade primitivas possui realidade efetiva.

O viciado em drogas da nossa sociedade fracassa no processo geral nem tanto pelo modo como consome a droga (que muitas vezes, mas não necessariamente, é mais desenfreado do que controlado), quanto porque salta completamente a segunda fase. Deste modo, demonstra estar já de início intoxicado: não por uma substância, e sim por aquele consumismo que queria negar e que não admite renúncias, depressões, espaços psíquicos vazios. Ele não dispõe, enfim, do espaço interior que juntamente com os rituais exteriores, deve servir de recipiente para a experiência de renovação[54].

 

Para sermos mais rigorosos talvez devêssemos falar mais de iniciação às drogas do que de dependência das drogas, pois o verdadeiro objeto de discussão é a fantasia inconsciente que equipara o encontro com a droga a um mundo e uma vida novas, e não à degeneração que a permanência nesse universo normalmente acarreta.

Em nosso quadro referencial de trabalho dissemos ser importante considerar também o contexto sócio-cultural em que o uso da droga é realizado. Para esclarecer esse ponto, podemos começar atentando para o fato de que nenhuma droga é boa ou má em si, e sim que é boa ou má a relação que o homem pode manter com ela. Porém, é próprio da nossa sociedade que o consumo de substâncias psicoativas revele os seus aspectos mais degenerados e destrutivos. Observado esses desenvolvimentos modernos não devemos concluir que o consumo de drogas prolifera descontroladamente apenas porque não dispõe de rituais com que pautar-se e pelos quais possa ser contido, mas sim porque em nossa sociedade capitalista tudo, e em particular as relações com os objetos, está permeada de um pseudo-ritual, o consumismo, que justamente prevê não a satisfação da necessidade, e sim a sua metástase. Ou seja, na nossa sociedade o modelo iniciático não é suficiente sozinho para a compreensão do consumo de drogas; ele deve ser integrado no modelo consumista, nascido no espaço onde o sagrado cede ao profano, o ritual à obsessão, o arquétipo ao estereótipo. Aqui não se conhece a humildade, a paciência, a reverência pelos mestres sábios ou pelos caminhos já determinados pelo mito. É um consumo que acontece em meio à pressa, na avidez, na ansiedade; apesar da tendência a se reunir em grupos, a falta de guias e de metas comuns torna-o solitário como uma masturbação[55].   

No nosso mundo o padrão maníaco-depressivo – que não constitui apenas uma síndrome clínica, mas um modelo arquetípico ou um potencial universalmente humano – está cada vez mais dividido, por ser vivido de maneira social ou coletivamente unilateral, carecendo de equilíbrio. Nossa civilização é a primeira na história a procurar negar de modo orgânico a experiência da morte, do luto ou da simples tristeza, paradoxalmente provocando ou acelerando exatamente o que deseja negar ou remover. Ela colocou-se o objetivo máximo do crescimento futurista indefinido. Assim, as polaridades arquetípicas da unidade maníaco-depressiva se cindiram e o segundo pólo é negado em favor do primeiro. Nossa sociedade é uma organização de natureza unilateralmente maníaca, onde o indivíduo é levado a consumir mais do que precisa – é o consumo pelo consumo.

Nós não nos damos conta disto porque perdemos as referências, nos movendo todos dentro desta expectativa de progresso infinito (porém ilusório). Essa expectativa violenta em sua unidirecionalidade é uma expectativa de metástase, um câncer psicológico coletivo[56]. 

Segundo Zoja,

A metástase da necessidade e do consumo, do próprio ritmo da vida, revela as suas formas mais fechadas, mais perversas e inconscientemente destrutivas no toxicômano que desce o declive das doses e dos ritmos cada vez mais fortes. Talvez por isso a sua figura desperte no público uma ambivalência, um horror fascinado não muito distante do provocado pelo câncer[57].

 

O autor em outra passagem complementa,

Não é difícil sugerir que o toxicômano típico, o consumidor de drogas pesadas, tenha uma inconsciente necessidade de morte: o tema não é novo, já que a destrutividade aparece em tantos e tantos indícios. E talvez seja facilmente aceitável também a sugestão do modelo iniciático e a hipótese de que o erro do dependente de drogas esteja na pressa, tirada dos esquemas consumistas, que o faz inverter esse modelo, o qual principia com a renovação e termina com a experiência da morte.

No entanto, o que sugiro é um modelo arquetípico que favorece a compreensão de um fenômeno extremo e particular (a dependência de drogas) justamente quando parte da hipótese de uma necessidade natural, universal e de modo algum mórbida (a iniciação ou, mais genericamete, o renascimento)[58].

 

Para encerrar a compreensão da natureza arquetípica do uso de drogas, devemos analisar o papel de Dionísio, o deus da alegria, do êxtase e do teatro. Segundo Nardini,

O grego Dionísio e o romano Baco, embora representem o mesmo nume, são diferentes, se não opostos: um é misterioso e sagrado, o outro, luxurioso e profano; o primeiro corresponde ao interior do homem; o segundo, ao exterior; Dionísio é o fogo divino que inflama e exalta o espírito e a ação; Baco, o vapor do vinho e a da crápula que turva a mente e entorpece os membros.

Dois pólos opostos, dois efeitos diversos de uma mesma causa[59].

 

Segundo o referencial simbólico todo arquétipo (ou toda representação arquetípica, para sermos mais exatos) compreende uma estrutura bipolar, estando seus pólos em permanente relação dialética. A vivência arquetípica pressupõe o encontro com as duas polaridades do arquétipo em questão[60]. Por outro lado, sempre que nasce uma dinâmica arquetípica da ativação e do intercâmbio entre dois pólos opostos, ela pode desenvolver-se também de modo ambivalente (e não-dialético)[61].

Para os gregos e os romanos, a ebriedade (não a embriaguez) aproximava do deus (ou seja, numa interpretação simbólica, aproximava do inconsciente. Numa linguagem religiosa, isso poderia ser interpretado como se aproximar da alma ou do espírito, dependendo da tradição espiritualista em questão), no sentido de que afrouxava o freio da razão e infundia no corpo e na mente uma doce euforia[62].  Podemos dizer que Dionísio-Baco adquiriu não dois, mas até três aspectos, três diferentes fisionomias[63]:

         1º) O pândego Baco, deus do vinho e da alegria, que ama o canto e as festas, sempre em cortejo, sempre na companhia de silenos, sátiros e ninfas, o nume apreciado pelos romanos da era imperial, e exaltado ainda muitos séculos mais tarde;

         2º) O deus da droga, do delírio orgiástico, que transtorna a mente e os membros, desencadeando os instintos mais cruéis e mais baixos;

         3º) Enfim, o nume redentor, o Dionísio, em torno de cujo altar representavam-se as tragédias de Ésquilo e de Sófocles, o deus iniciado nos ritos secretos do Egito antigo, e que conhecia a arte de transmudar os homens em deuses. Nardini comenta que,

 O sempre jovem Dionísio, o sacro Tioneu (filho da celeste Tione), é a ebriedade – ou o leve delírio – imaterial que faz o homem perceber seu próprio íntimo; portanto, um deus ainda vivo e ativo no maravilhoso e secreto universo da Alma[64].

 

         O mito de Dionísio-Baco representa o elemento arquetípico para-religioso ou sacro que fundamenta a motivação pelo uso de drogas. A polaridade positiva de Dionísio pode ser representada pelo uso controlado das drogas que as sociedades “ditas primitivas” (as tribos indígenas, por exemplo) realizavam em seus rituais iniciáticos e transformadores. Arquetipicamente, temos aqui a busca de significado para a jornada da vida (que a psicologia analítica chama de processo de individuação), que irá possibilitar o diferenciamento e o desenvolvimento psíquico, o amadurecimento; a individuação é o processo no qual o indivíduo se torna ele mesmo. Torna-se mais integrado consigo mesmo e com os outros. Nesse contexto, encontramos a manifestação positiva ou criativa por trás do uso das drogas. A polaridade negativa é representada pela distorção provocada pelo consumismo de nossa sociedade capitalista – o pseudo-ritual “cancerígeno” que permite apenas a manifestação sombria das necessidades arquetípicas representadas por Baco como a necessidade de socialização, festas, alegria, êxtase, e de superação dos próprios limites humanos.

         Carl Gustav Jung escreveu algumas palavras que parecem corroborar essas conclusões. Em O Homem e seus símbolos, Jung afirma que o homem contemporâneo,

Não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e toda a sua eficiência, continua possuído por “forças” fora do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm, apenas, novos nomes. E o conservam em contato íntimo com a inquietude, com apreensões vagas, com complicações psicológicas, com uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses[65].

 

         Em outra oportunidade, Jung escreveu uma carta a Bill Wilson (co-fundador dos Alcoólicos Anônimos) em que compara a fixação pelo álcool, ao “equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade, expressa em linguagem medieval, pela união com Deus”[66]. Considera essa uma “visão superior do problema do alcoolismo, bem acima dos lugares comuns que, via de regra, ouvem-se sobre ele”[67]. 

         Jung ainda escreveu,

Estou firmemente convencido de que o princípio do mal que prevalece no mundo conduz às necessidades espirituais que, quando negadas, levam à perdição se ele não é contrabalançado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras da comunidade humana. Um homem comum, desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal (...)

Veja você que “alcohol” em latim significa “espírito”; no entanto, usamos a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa, como para designar o mais depravador dos venenos.

A receita então é “spiritus” contra “spiritum”[68].

        

        

Conclusão

 

Concluímos a nossa dissertação com a elaboração de um quadro conceitual que consideramos suficientemente abrangente, não para esgotar, mas sim para amplificar consideravelmente nossa compreensão do fenômeno da toxicomania. Como não poderia deixar de ser, o elemento arquetípico ao ser representado no centro de nossa figuração, denota o fator de base sobre o qual os outros quatro componentes se edificam. Os quatro elementos restantes que compõem o fenômeno toxicomaníaco são: (1) as características psicofarmacológicas específicas de cada droga, (2) as modificações biológicas, (3) a vulnerabilidade psíquica, e (4) os reforçadores socioculturais.  Todos esses quatro componentes agem, não de maneira separada ou isolada, mas de forma sistemicamente integradas entre si, e ao elemento arquetípico de base.

O componente arquetípico central é a necessidade de busca de um significado para a vida. Consideramos que essa necessidade arquetípica é bem representada pelo mito de Dionísio. Acontece que essa necessidade, no ser humano, ao mesmo tempo que é arquetípica, é também instintiva. Aqui começamos a estabelecer a relação entre o fator arquetípico e o bioquímico-orgânico (instintivo) do fenômeno toxicomaníaco.

Em seu ensaio Instinto e Inconsciente, Jung expõe que “o inconsciente coletivo é constituído pela soma dos instintos e dos seus correlatos, os arquétipos”[69]. Os instintos são “formas típicas de comportamento”, enquanto os arquétipos são “formas de apreensão”, e ambos “se repetem de maneira uniforme e regular”[70]. Seja como for, “o instinto e o arquétipo são um par de opostos, inextricavelmente ligados e, por isso, dificilmente distinguíveis”[71].

Jung identificou cinco principais grupos de fatores instintivos: fome, sexualidade, atividade, reflexão e criatividade. A reflexão é um instinto especificamente humano. Como reflexão, Jung incluiu o impulso religioso e a busca de significado[72].

Assim, a busca de significado e o impulso religioso, ao mesmo tempo que são instintos tipicamente humanos, relacionados ao instinto de reflexão, também constituem uma necessidade arquetípica, com um caráter mitológico peculiarmente representado simbolicamente pelo mito de Dionísio-Baco. Dionísio é um deus grego relacionado com a necessidade de iniciação, e como deus do vinho e do êxtase místico ou transpessoal, também se relaciona como a necessidade profunda de se vivenciar uma transformação psíquica através de um ritual de passagem, como salientou Zoja. No mito, o próprio Dionísio passa por uma iniciação para se curar de uma das investidas vingativas de Hera.

A descoberta de que as drogas atuam sobre o sistema de recompensa do cérebro que é uma das regiões filogeneticamente mais antigas, em termos evolucionários, é significativa, pois aí se encontram organizações neurológicas ligadas aos nossos instintos, especialmente a fome e a sexualidade. Mas, no ser humano, vimos que o sistema de recompensa também se relaciona com outras áreas complexas do cérebro, como a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Possivelmente essas áreas (especialmente as regiões frontais do córtex cerebral, com sua capacidade de coordenar e processar informações das áreas cerebrais assinaladas) podem estar relacionadas (pelo menos em parte) com o instinto de reflexão. O restante do córtex cerebral pode estar sistemicamente relacionado tanto ao instinto de reflexão quanto ao fenômeno que Jung denominou de psiquificação. Em outras palavras, no ser humano, para que um instinto possa se manifestar, ele deve ser primeiro assimilado por uma estrutura psíquica complexa, incluindo a consciência. A isso Jung chamava de psiquificação[73].

         Correlacionando esses fatores (o biológico e o arquetípico) com a dimensão sociocultural, em sociedades – como as indígenas – que cultivavam o uso controlado de substâncias psicoativas, em contextos ritualísticos (iniciáticos), promotores de transformação psíquica, e com a orientação de um mentor espiritual mais experiente, o sistema cerebral relacionado com o instinto de reflexão é estimulado o suficiente apenas para provocar o estado de ebriedade (mas não de embriaguez ou alienação) – tal como previsto pela disposição arquetípica que molda a manifestação instintiva (como visto simbolicamente no mito de Dionísio) – o que permite a aproximação ou a comunhão entre consciente e inconsciente, ou entre o indivíduo e seu espírito. Nesse contexto, o impulso religioso e a busca de significado inscrito pelo instinto e moldado pelo seu correlato arquetípico podem ser criativamente manifestados, e a experiência pode ser assimilada de maneira estável, segura e madura, durante o processo de psiquificação. Esse cenário, por sua vez, é favorecedor do processo de individuação, entendido enquanto um processo psíquico evolutivo.

         A nossa sociedade capitalista, empobrecida de rituais de passagem, e incapaz de preparar o indivíduo para a realização do seu mito pessoal de significado de maneira responsável, consciente e crítica, extinguiu o cenário em que o consumo de substâncias psicoativas poderiam se dar de forma criativa e facilitadora do processo de individuação. Porém a necessidade de transformação psíquica, o impulso religioso e a busca de significação não se extinguiram. Apenas foram deslocadas para a Sombra. Foram clivadas da consciência, e de maneira oculta e sombria continuaram a solicitar por expressão. A sociedade capitalista foi capaz de oferecer o pseudo-ritual capaz de incrementar a manifestação sombria dessa necessidade arquetípica central de significado: o consumismo pelo consumismo, que não pode nunca se satisfazer, por ser uma alienação do desejo, inspirada no ideal de crescimento e progresso ilimitado como sinônimo de evolução (quando este deveria apenas significar a possibilidade de transformação)[74].

           Os indivíduos psiquicamente mais predispostos ou vulneráveis ficarão incumbidos de encarnar aquilo que ficou na sombra da família, da sociedade, e de seus próprios psiquismos. Esses indivíduos irão constelar complexos cuja dinâmica arquetípica também está relacionada com o uso patológico de drogas. A maioria apresentará complexos patológicos ligados aos dinamismos matriarcal e patriarcal (arquétipos da Grande Mãe e do Pai), distúrbios vinculares relacionados ao dinamismos de Alteridade (Arquétipo do Animus e da Anima), com predominância de estruturas de vínculos fusionais, ambivalentes e persecutórios. A manifestação das polaridades negativas do dinamismo de Alteridade e do arquétipo do herói farão dos jovens e adolescentes o maior grupo de risco para o consumo de drogas, em nosso contexto sociocultural. As famílias nesse contexto, não estão preparadas nem para se prevenirem da aparição do problema, nem para lidarem com o mesmo quando ele eclode. Pelo contrário, parecem predispostas a incrementar a polarização negativa das disposições arquetípicas citadas. Por isso, a família dos dependentes químicos também precisam de um suporte terapêutico, envolvendo orientação e tratamento psicológico.

         Sob o ponto de vista junguiano, o elemento arquetípico que se encontra na base da motivação para o uso de drogas é o de mais difícil detecção, por ter sua origem nas camadas mais profundas do inconsciente coletivo. O terapeuta precisa manter sob perspectiva, uma visão histórica, antropológica e mitológica dos símbolos que rodeiam o uso de substâncias psicoativas, para poder se aperceber desse fator. O aspecto inovador de nossa abordagem foi a tentativa de relacionar esses aspectos a fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. Consideramos que nosso quadro referencial pode ser útil ao atendimento de populações carentes, e como orientação em certos programas de políticas públicas, e principalmente em programas de tratamento interdisciplinar (envolvendo médicos, enfermeiros, nutricionistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, assistentes sociais, etc).

         Além disso, especialmente no campo da psicologia, estrategicamente essa visão integrativa nos permite considerar o trabalho de psicoterapia ou de Análise como uma forma de oferecer ao dependente de drogas, a possibilidade de vivenciar um rito de iniciação ou de passagem, uma das poucas oportunidades que a nossa sociedade ainda pode oferecer.

Segundo Zoja,

O trabalho analítico é, ao mesmo tempo, um processo de esclarecimento e de conhecimento e um processo afetivo (...)

Se o processo funciona, pode exprimir-se numa espécie de renascimento. Lento, trabalhoso, dispendioso e inevitavelmente incompleto. É, no entanto, uma das poucas experiências de renascimento que se podem encontrar com certa objetividade na cultura das grandes cidades. (...)[75].

 

         Para o autor, a necessidade de renascer com que o paciente se dirige à análise, e a obsessiva necessidade de fixar ritualmente as suas etapas, são arquetipicamente sagradas. E deste núcleo preexistente e potencial, pode desenvolver-se um processo iniciático.

 

 

 

 


Referências Bibliográficas

 

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ZOJA, Luigi. Nascer não basta – Iniciação e toxicodependência. São Paulo: Axis Mundi, 1992.



[1] BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE, Saúde mental no SUS, p. 10. 

[2] Ibidem, p. 11. 

[3] Ibidem, p. 13.

[4] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 111.

[5] J.J. CLARKE, Em busca de Jung, p. 11.

[6] James A. HALL, A Experiência Junguiana, p. 12.

[7] C. G. Jung, A prática da psicoterapia, p.1.

[8] Vicente Antônio de ARAÚJO, Para compreender o alcoolismo: teoria e prática, p. 19.

[9] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 14.

[10] Ibidem, p. 15.

[11] Ibidem, p. 16.

[12] Ibidem.

[13] C. G. Jung, A prática da psicoterapia, p.53.

[14] Mario JACOBY, O Encontro Analítico, p.50.

[15] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 17.

[16] Ibidem, p. 15.

[17] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p.50.

[18] Em uma sessão de grupo, por exemplo, ocorreu de um paciente desenhar uma garrafa de álcool com um tamanho muito maior do que a sua própria representação de figura humana, mostrando que psiquicamente, ele se sente diminuído, e conseqüentemente dominado pela bebida alcoólica. De fato, ele é considerado um indivíduo de baixa estatura segundo o padrão comum (isso muitas vezes, já foi motivo de brincadeiras e gozações, por parte de colegas), e em seu discurso é possível perceber sinais de baixa auto-estima relacionados à sua condição física e psíquica.

[19] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 15.

[20] Ibidem, p. 15, 16.

[21] Ibidem, p. 17.

[22] Ibidem, p. 19.

[23] Ibidem, p. 20,21.

[24] Ibidem, p. 20.

[25] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p.13,14.

[26] Esta dependência física, nessa visão, é confirmada pelo fenômeno denominado síndrome de abstinência, um conjunto variável de sintomas físicos e psíquicos que sobrevêm por ocasião da privação da substância exógena. Temos ainda o conceito de tolerância, um estado de adaptação do organismo à substância química, decorrente da necessidade de manutenção de sua homeostase, manifestando-se pela necessidade de aumentar a quantidade do produto para a obtenção dos mesmos efeitos.

[27] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p.14.

[28] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 41.

[29] Acrescenta-se, que este elemento seria responsável pela formação espontânea de rituais, pela tendência à ideologização e ao esoterismo implícito nos atos de consumo das drogas.

 

[30] Eric J. NESTLER; Robert C. MALENKA. Cérebro Viciado. Scientific American, p. 58.

[31] Nesses vermes, a desativação de quatro dos seus oito neurônios que contêm dopamina faz com que eles ignorem uma série de bactérias, que são a base da sua refeição.

[32] Eric J. NESTLER; Robert C. MALENKA. Cérebro Viciado. Scientific American, p. 60.

[33] Ibidem, p. 61.

[34] Observou-se que o acréscimo de delta-FosB também é incrementado no núcleo acúmbens de camundongos em resposta a recompensas repetitivas não ligadas às drogas, como excesso de exercícios ou consumo de açúcar.

[35] Eric J. NESTLER; Robert C. MALENKA. Cérebro Viciado. Scientific American, p. 62.

[36] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p.21.

[37] Ibidem, p.19.

[38] Ibidem, p.57.

[39] Ibidem, p.58.

[40] Ibidem, p.22.

[41] Ibidem, p.20.

[42] Ibidem, p.22

[43] Ibidem, p.59.

[44] Ibidem, p.40.

[45] Ibidem, p.42.

[46] Ibidem, p.53.

[47] Tivemos conhecimento dessa técnica com a professora Lury Yoshikawa, no curso de especialização em psicologia junguiana do FACIS/IBEHE.

[48] Apenas um paciente fez o desenho de uma figura humanizada negra (ele próprio era negro), e um ou outro fez a representação de um monstro que não fosse da família dos répteis. É importante salientar que houve aspectos que indicam, a existência de uma projeção maciça nesses desenhos, embora a consciência fique praticamente cindida dessa percepção.

[49] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p.43.

[50] Ibidem, p.54.

[51] Z´ev ben Shimon HALEVI, Psicologia e Cabala, p.44.

[52] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 22, 23.

[53] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas, p. 69.

[54] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 7, 8.

[55] Ibidem, p. 111, 112.

[56] Ibidem, p. 112, 113.

[57] Ibidem, p. 114.

[58] Ibidem, p. 85, 86.

[59] Bruno NARDINI, Mitologia: o primeiro encontro, p. 82.

[60] Dartiu Xavier da Silveira FILHO, Drogas – Uma compreensão psicodinâmica das farmacodependências, p. 50.

[61] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 77.

[62] Bruno NARDINI, Mitologia: o primeiro encontro, p. 85.

[63] Ibidem, p. 88.

[64] Ibidem.

[65] C. G. JUNG, O homem e seus símbolos, p. 82.

[66] John E. BURNS, O caminho dos doze passos, p. 14.

[67] Ibidem, p.15.

[68] Ibidem.

[69] C. G. Jung, A natureza da psique, p. 73.

[70] Ibidem.

[71] Daryl SHARP, Léxico Junguiano, p.98.

[72] Ibidem, p.97.

[73] C. G. Jung, A natureza da psique, p. 52.

[74] Aqui, o consumo de drogas é realizado não de maneira controlada de forma a estimular um estado de ebriedade, mas sim de forma permanente e contínua, contribuindo inclusive para o incremento dos mecanismos de condicionamento orgânico, tal como já foi descrito nesse trabalho. No uso controlado das sociedades ditas “primitivas” não há uma permanência consumista nesse uso.

[75] Luigi ZOJA, Nascer não basta, p. 148.

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