O conceito de "Pluralismo Crítico Inter-teórico": Considerações Sobre Metodologia e Epistemologia
na Filosofia Holística aplicada à Psicologia Espírita

 Vamos agora, abordar mais especificamente a questão da metodologia e da epistemologia na abordagem holística do real. O filósofo existencialista e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969), discorrendo sobre a necessidade de se empreender reflexões sobre como se obter o melhor método em pesquisa científica, afirmava que na prática do conhecimento necessitamos de vários métodos simultaneamente, e enfatizava três grupos:

1)    Apreensão dos fatos particulares que implica na observação e descrição (análise) fenomenológica;

2)    Investigação das relações, onde explicar se refere ao conhecimento das conexões causais objetivas, vistas do exterior, enquanto compreender diz respeito à intuição interior;

3)    Percepção das totalidades, para não se cair no gravíssimo erro de se esquecer o todo, no qual e pelo qual a parte subsiste.

Portanto, a abordagem holística não é nem analítica e nem é puramente sintética; ela se caracteriza pelo uso simultâneo desses dois métodos, que são complementares.

Quando os resultados e conclusões obtidas pelo uso simultâneo desses vários métodos, convergem para um mesmo ponto focal conclusivo, podemos presumir que a probabilidade de acerto é altíssima, mesmo recusando-se a adoção de uma conclusão referida como verdade absoluta, final e definitiva, até porque, tal não seria mais uma conclusão científica, mas estaria muito mais perto de uma linha de raciocínio teológica tradicional e ortodoxa.

 Essa metodologia apóia a construção de uma Psicologia Espírita: o psicólogo Espírita, não precisa ficar preso a uma abordagem teórica da Psicologia Clássica, mas pode transitar entre uma e outra, fazendo convergir conclusões teóricas e práticas, possibilitando interações conclusivas até mesmo no nível de suas implicações filosóficas e epistemológicas. O Psicólogo Espírita, apoiado em uma visão Holística, não necessita se amparar dogmaticamente sobre uma posição teórica, e tem liberdade de elaborar a sua melhor síntese pessoal, através de um método consistente – a convergência de dados e conclusões entre vários sistemas teóricos e práticos, simultaneamente – a esse método denomino Pluralismo Crítico Inter-teórico. É assim, que a Psicologia Espírita pode formar o seu corpo teórico de conhecimento, mostrando que as conclusões da ciência formal definitivamente se encaminham para a confirmação dos postulados Espíritas. É a vitória do pensamento crítico, livre e reflexivo na ciência e na religião. A Psicologia Espírita forma o seu campo de conhecimento, a partir de todas as descobertas convergentes da Psicologia Contemporânea, da Ciência Moderna, e do saber Espírita, stricto-sensu.

A explicação da natureza e de todo o universo não pode ser mais puramente mecânica, pois está cada vez mais patente que existe um processo de síntese e de complexificação evolutiva, que leva a criação de sistemas altamente dinâmicos, como os sistemas biológicos – logo, muito longe de serem máquinas sujeitas à segunda lei da termodinâmica clássica.

Segundo Jan Smuts, o filósofo sul-africano criador da moderna concepção holística, e que exerceu profunda influência em Alfred Adler, o primeiro grande discípulo discidente de Freud, “o conceito mecanicista da natureza tem o seu lugar e sua justificação apenas na estrutura mais ampla do holismo”.

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

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