Com o objetivo expresso de maior interação entre as várias abordagens teóricas em psicologia, a Psicologia Espírita vai salientar o fato de que existem comportamentos comuns, por parte dos terapeutas, entre as várias abordagens como espelhar, interpretar, oferecer suporte emocional e mostrar calor humano, que são inclusive muito freqüentes, independente da orientação teórica do terapeuta. Isso já foi observado, em realidade, muito antes, por teóricos da escola comportamental. Porém, tal observação por ser extremamente coerente com a posição filosófica da Psicologia Espírita, é assimilada por essa área de conhecimento, que passa a beneficiar-se das contribuições da Tecnologia Comportamental, fato que já foi analisado como sendo algo que não se contrapõe à visão Espiritista em Psicologia, mas a complementa.

         Há muitos processos comuns nas diversas abordagens psicoterapêuticas. Uma forma de definir padrões de interação satisfatórios é buscar elementos comuns em estilos diversos de atuação que tenham se mostrado efetivos, seja experimentalmente, seja pelo consenso empírico. Eis uma área de pesquisa potencial ao Psicólogo Espírita: quais atitudes, comportamentos e intervenções são de fato necessários e suficientes para maximizar a eficácia terapêutica, independente da escola teórica do psicólogo?  Com o resultado convergente dessa linha de pesquisa, a Psicologia Espírita pode formar o corpo teórico e prático básico de uma Psicologia Geral Integrativa entre as várias escolas, útil aos profissionais dessas próprias abordagens. Alguns resultados de pesquisas sobre os processos terapêuticos usuais e comuns às várias abordagens apontaram alguns resultados iniciais.

Ao contrário do que muitos pensam, os psicólogos comportamentais também têm investido em pesquisas que visem a uma maior integração entre as várias abordagens teóricas, havendo interessante bibliografia sobre o assunto, como por exemplo, no Livro Psicoterapia comportamental e cognitiva – Pesquisa, prática, aplicações e problemas de Bernard Rangé, porém acredito faltar a essa escola teórica um fundamento filosófico que fundamente e ofereça rigor epistemológico a essa iniciativa, algo que a Psicologia Espírita pode oferecer como base de pesquisa.

A maioria dessas pesquisas experimentais é baseada na análise da gravação de sessões terapêuticas em fita e vídeo. Em alguns casos, a pesquisa envolve transcrição de fitas, e análise de discurso, classificação e quantificação de categorias comportamentais e interventivas, etc. É uma modalidade de pesquisa comum em Análise Experimental do comportamento, sendo uma contribuição importante para o desenvolvimento de tecnologias ao estudo da pesquisa clínica em psicologia, com a vantagem inclusive, de serem estudos fáceis de serem replicados, refutados ou confirmados. Nenhum dos resultados apresentados devem ser tomados “ao pé da letra” como definitivos, mas apenas como “parâmetros iniciais” de pesquisa e intervenção, úteis para a reflexão crítica e o questionamento. Muito há a se descobrir, mas alguns processos comuns, entre as várias abordagens, já podem ser citados a partir das pesquisas de Rangé (1995), quais sejam:

1.    Experimentar emoções;

2.    Experiência emocional corretiva;

3.    Expansão da visão de mundo de pacientes;

4.    Exame de conflitos;

5.    Aumento nas expectativas positivas;

6.    Influência Social;

7.    Incentivo à aquisição de novas habilidades.

São todos processos comuns presentes nas várias abordagens da Psicologia contemporânea, aos quais segue uma descrição sumária de cada processo em particular:

1. Experimentar emoções: Não é concebível processo terapêutico em que pacientes não experienciem emoções. O processo intelectual de análise acompanha e decorre da experiência emocional. Há as emoções que expressam um encontro “autêntico” que se dá no aqui-e-agora da relação terapêutica (emoções primárias), e as emoções que funcionam como obstáculos à solução de problemas e que costumam ser as que motivaram o paciente a buscar ajuda, como raiva, ansiedade, depressão, etc. (emoções secundárias). Pela análise das emoções secundárias pode-se chegar às emoções primárias.  Entre as atitudes que favorecem isto, podemos citar – (I) por comunicar interesse, aceitação e confiança, um terapeuta incentiva sentimentos e favorece a aprendizagem de que são legítimos e de que pode ser vantajoso e benéfico compartilhá-los; (II) por incentivar, por meio de métodos diversos, a sentir suas emoções e não apenas a falar delas, etc.

2. Experiência emocional corretiva: O objetivo da terapia é provocar experiências deste tipo e não aumentar as defesas do paciente. Para que ela possa ser propiciada são necessários uma relação terapêutica que produza um senso de segurança, uma experienciação emocional no aqui-e-agora, empatia e condutas diferentes das expectativas do paciente. Em vez de encontrar hostilidade para expressão de raiva, encontrar compreensão; em vez de reprovação e crítica, valorização; em vez de repreensão ou conselhos, abertura para examinar alternativas, etc.

3. Expansão da visão de mundo de pacientes: Um dos aspectos importantes de uma psicoterapia é o de ajudar os pacientes a encarar seus problemas por uma perspectiva nova ou diferente daquela estabelecida em seus esquemas de percepção do mundo. A maior parte das interações sociais favorece isso em graus maiores ou menores, na medida em que confronta visões de mundo diferentes. Uma psicoterapia, por suas próprias características instigadoras, o faz de uma forma mais sistemática.

4. Exame de conflitos: Pacientes costumam se comportar em relação ao terapeuta como aprenderam a se comportar em relação a outras pessoas significativas de suas vidas. Na abordagem psicanalítica, Freud chama isso de transferência. Na abordagem comportamental, por sua vez, isso é chamado de generalização.  O desafio do terapeuta é conseguir comportar-se de modo não-complementar a esta proposta, evitando responder no modelo esperado pelo paciente. O terapeuta não poderá ser um cúmplice dos outros significativos da vida dele reforçando seus padrões de interação disfuncionais. O terapeuta precisa estar atento para o fato de que os pacientes não falam para ele apenas por falar, mas que estão tentando recriar os mesmos conflitos que o levaram a procurar ajuda. Neste sentido é importante que aponte o que está acontecendo na interação, oferecendo feedbacks sobre o que está se passando com afirmações que expressem o aspecto subjetivo de sua experiência específica, mais do que denunciar (acusatoriamente) o comportamento do paciente.

5. Aumento nas expectativas positivas: Uma terapia é mais efetiva quanto mais as expectativas são favoráveis. Mesmo intervenções “placebo” podem ser efetivas em até 30% dos casos, com qualquer tipo de tratamento, seja médico ou psicológico. Este aumento nas expectativas positivas pode ser alcançado pelos processos de (1) estruturação, que envolve esclarecimentos sobre o processo, (2) de informação sobre o seu problema e sobre como será tratado, (3) de definição de metas realistas, (4) de motivação, por meio do senso de responsabilidade do paciente e de sua participação ativa, (5) de alívio rápido de sintomas.

6. Influência social: Toda terapia envolve uma certa quantidade de influência social. Isso ocorrerá mesmo que o terapeuta fique calado e parado como “uma estátua” na frente do paciente/cliente. O terapeuta muitas vezes influencia o cliente, ao ser tomado como modelo de conduta por este. A questão é (1) como o terapeuta irá manejar essa influência, da maneira mais ética e proveitosa possível ao cliente, e (2) em que limites ela se estenderá, tendo o terapeuta em mente, que um dos seus principais objetivos numa psicoterapia é o de facilitar ao cliente/paciente que este tome posse cada vez mais efetiva de sua própria autonomia e liberdade de pensamento e expressão, dentro de um contexto social criativo e saudável ?

7. Incentivo à aquisição de novas habilidades: Se a terapia é concebida como mudança de hábitos (modelo sociopsicológico) e não como cura (modelo médico), ela envolve necessariamente aquisição ou reformulação de habilidades mais efetivas de enfrentamento de situações novas ou recorrentes da vida dos pacientes. As escolas teóricas em psicoterapia variam quanto ao grau de diretividade ou não-diretividade com que isso é feito, cada qual com a sua justificativa teórica pertinente; porém, em todas as formas de psicoterapia, esse processo se faz, mais cedo ou mais tarde, presente e necessário.

Sabe-se que o psicólogo conta com um arsenal bastante variado de técnicas no processo terapêutico, à sua disposição. Técnicas de investigação psicológica (incluído testes psicológicos diversos), e técnicas de aconselhamento. Abaixo segue algumas modalidades de intervenção, por parte de psicólogos, bem como dados percentuais de pesquisas sobre a sua ocorrência e taxa de sucesso. Tratam-se de intervenções presentes, por parte de psicólogos, de todas as abordagens teóricas na clínica terapêutica. São destacadas as seguintes modalidades de intervenção:

1. Empatia, calor humano e compreensão: Estes comportamentos apresentam variações dependendo das escolas terapêuticas, mas são as categorias mais freqüentes em psicoterapia em geral. Empatia é necessária para alcançar revelação emocional pelos pacientes. Particularmente, no início do tratamento ela é a forma mais importante do comportamento do terapeuta, pois facilita a comunicação pessoal do paciente, o desenvolvimento da confiança na terapia e no terapeuta, além de envolver mais o paciente. É importante notar, no entanto, que esta classe de comportamento não conseguirá sozinha a mudança terapêutica, necessitando ser complementada por outros comportamentos relacionais e técnicos, como os arrolados a seguir;

2. Apoio: é outra categoria importante para o sucesso terapêutico e envolve comportamentos do terapeuta tais como aprovação, confirmação, reforçamento. Estes ocorrem desde 3% nas sessões iniciais até 10% nas sessões finais. Este comportamento se relaciona com as avaliações positivas que os pacientes fazem sobre sessões e sobre a competência, a simpatia e a atividade dos terapeutas, além de se correlacionar fortemente com um posterior comportamento de cooperação por parte de pacientes. Os terapeutas menos apoiadores estão entre aqueles que mostram menos sucesso terapêutico, segundo as pesquisa de Rangé (1995).

   3. Diretividade e controle: Envolvem atividades de organização das sessões e de encorajamento para pacientes exibirem determinadas condutas dentro ou fora das sessões bem como dar instruções, conselhos ou prescrever tarefas. É uma categoria de intervenção muito observada em terapia comportamental, mas progressivamente difundida em outras abordagens. É a terceira categoria considerada como muito importante já que muitos estudos demonstraram que pacientes esperam diretivas e se desapontam quando não as encontram. Estes comportamentos aumentam a probabilidade de cooperação, mas cuidados são necessários, pois diretividade demais tem uma influência negativa e aumenta resistência. Além disso, há importantes questões éticas envolvidas no uso dessa modalidade de intervenção, já que ela precisa ser manejada de forma a não abolir a autonomia do cliente/paciente, mesmo porque a conquista de sua autonomia é o objetivo essencial de qualquer psicoterapia, seja qual for a escola teórica em questão. No mais, um cliente que espera ou demanda intervenções diretivas em excesso do terapeuta, está revelando nesse comportamento, um sintoma de um problema ou questão psicológica que precisa ser elaborada dentro do contexto terapêutico. O psicólogo precisa estar atento a isso, para não responder de forma complementar ao cliente, segundo as formações de compromisso de seus sintomas. Antes precisa conscientiza-lo desse padrão comportamental, intervindo para que ele consiga desenvolver padrões de respostas mais produtivos. A ausência total de diretividade por parte do psicólogo, porém, é contra-indicada. Ele precisa, portanto, definir parâmetros para saber quando pode agir de maneira mais ou menos diretiva. Para isso conta com o repertório teórico de parâmetros de intervenção, da própria escola teórica que tiver escolhido, além da reflexão crítica relacionada a aspectos éticos e o seu perfil pessoal de atuação.

 4. Questionamento: Envolve cerca de 15% em média do tempo da atividade terapêutica, o que é compreensível, uma vez que terapeutas necessitam de informações sobre fatos e sentimentos. Pesquisas mostram que psicanalistas apresentam 14% de questionamentos, terapeutas rogerianos 3%, Gestalt-terapeutas 21% e terapeutas comportamentais 20%. 

5. Clarificação e estruturação: Representam, cerca de 10% de todos os comportamentos terapêuticos e dizem respeito a estruturar o processo e dar informações sobre o contexto da terapia.

         6. Interpretação: Refere-se a um terapeuta afastar-se da narrativa imediata e fazer inferências sobre relações causais, características de personalidade ou outros aspectos do paciente. Segudo Rangé, inúmeros dados indicam efeitos negativos de interpretações – (1) elas funcionam como estímulos aversivos, tendo efeito inibitório sobre a comunicação dos pacientes para o terapeuta, (2) aumentam comportamentos de resistência e (3) são seguidas por rejeição. Isso não significa que essa técnica de intervenção deva ser descartada, já que do ponto de vista psicodinâmico, ela permite que o terapeuta opere sobre o campo mental do paciente; mas, os parâmetros baseados em seu uso precisam ser adequadamente refletidos, revistos, e o uso da técnica em si, parece precisar ser mais parcimonioso. Tudo isso precisa porém ser melhor pesquisado. São apenas indicações bastante parciais, não confirmadas, por exemplo, pelo método analítico de pesquisa. São válidos enquanto material de reflexão.

7. Confrontação e crítica: Representam 5% da atividade terapêutica total e dizem respeito a identificar contradições ou discrepâncias no comportamento de pacientes e provocar reestruturações. Apesar de freqüentemente necessárias, como quando tarefas não são cumpridas em terapias mais diretivas ou quando existe necessidade de questionamento socrático de pensamentos automáticos ou de esquemas irracionais, muitas vezes podem ser mais expressão do desamparo do terapeuta e assim aparecem como instâncias de punição.

Por fim podemos salientar as modalidades de intervenção do psicólogo, baseadas na sua capacidade de comunicação e verbalização. O psicólogo é também um profissional de comunicação, e a devida consideração desta variável é fundamental para o seu sucesso profissional, não só na área clínica, como em todas as outras, especialmente, nas áreas de Psicologia da Educação, Psicopedagogia, e Psicologia Social. Há inclusive, uma área de pesquisa, denominada Psicologia da Comunicação, onde o profissional pode atuar e retirar dados importantes para a sua eficácia nesses outros campos de atividade. Alguns dados de pesquisa salientam algumas propriedades favorecedoras à efetividade do trabalho clínico do psicólogo, em relação à sua habilidade comunicativa:

1.    Responsividade: habilidade para prestar a atenção ao que o paciente tenta comunicar; motivação para desenvolver uma relação íntima; energia para responder no ritmo solicitado, habilidade para identificar-se com o referencial do paciente; capacidade de eliciar auto-revelação; sinais não-verbais, etc.

2.    Imediaticidade Verbal: responder prontamente, diretamente, honestamente, intimamente ao que está acontecendo no instante.

3.    Habilidades Verbais: perguntar, clarificar, parafrasear, refletir, dar informações, confrontar, interpretar, resumir, questionar de modo ativo, expressivo e fluente.

4.    Uso criterioso de humor.

5.    Competência lingüística: decodificar metáforas, usar metáforas, paradoxos, etc.

Para finalizar, uma vez que a auto-revelação de pacientes é um objetivo permanentemente importante, supôs-se que terapeutas pudessem ajudar seus pacientes neste objetivo por meio de suas próprias auto-revelações. Os resultados de pesquisas indicaram aspectos contraditórios (e obviamente relativos): nas sessões inicias é vista como sinal de relaxamento e simpatia do terapeuta, mas também como sinal de menor estabilidade e fraqueza, supostamente por retirar o terapeuta de sua posição de perito, donde mostrando-se prejudicial. Nas fases finais do processo terapêutico, entretanto, pode revelar-se mais benéfica (Rangé, 1995).

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

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