Homossexualidade e Preconceito - Esclarecimentos pela Psicologia Espírita.

 

            Para discorrer sobre a homossexualidade, tomarei como base dois autores, um encarnado e outro desencarnado. O primeiro é o médico (formado pela Universidade Federal do Paraná), psiquiatra (especializado pela USP) e psicodramatista (pela Federação Brasileira de Psicodrama), o Dr. Ronaldo Pamplona da Costa. Há mais de 20 anos ele atua na área da Sexologia, ciência humanista e pluridisciplinar que estuda a sexualidade humana. O autor desencarnado, por sua vez, é junto com André Luiz, um dos espíritos mais destacados e confiáveis do Movimento Espírita Brasileiro, tornando-se conhecido através da psicografia de Francisco Cândido Xavier pelo nome de Emmanuel. Somado a essas referências acrescentarei minhas próprias considerações, como Psicólogo Clínico, Analista Junguiano e Transpessoal, e Pós-Graduado em Terapia Corporal e Psicossomática Espírita, com toda a minha formação realizada na USP.

            Sabemos que a Doutrina Espírita, tanto pelo seu caráter humano quanto existencialista é uma doutrina de esclarecimento intelectual e ético-religioso. O ser humano precisa se esclarecer mental, sentimental e vivencialmente, bem como espiritualmente para não cometer os mesmos erros, falhas, injustiças e males destrutivos.

            Um dos principais males do homem em todas as épocas e, ainda hoje, é o preconceito. Infelizmente, no Brasil, ainda que tenha havido alguma melhora, o negro, o idoso, o homossexual, o portador de deficiência (física ou mental), os obesos, etc., ainda sofrem algum tipo de preconceito, discriminação ou rejeição. E não adianta dizer-se que não, pois os exemplos diários são numerosos, seja no cotidiano, seja na mídia alienada e alienadora. Pior do que isso é o fato de que as pessoas não percebam, o quanto os seus preconceitos limitam as suas próprias possibilidades. Os seus medos inibem o curso da vida construtiva, paralisando o Progresso Espiritual que ocorreria naturalmente segundo a orientação universal da Providência.

            Especificamente em relação à homossexualidade (tendência para a comunhão afetiva entre pessoas do mesmo sexo), desde de 1985 a O.M.S. (Organização Mundial de Saúde) esclarece que não existem sintomas ou sinais que justifiquem considerá-la como uma doença. Segundo o Dr. Ronaldo, o sofrimento do homossexual é decorrente do preconceito, da discriminação e da repressão sexual, sendo muito mais válido afirmar que, o preconceito sim é uma grande doença social, e não a homossexualidade.

            O Espírito Emmanuel, em concordância com o observado conclui que os homossexuais merecem “atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos às criaturas heterossexuais”. Emmanuel ainda complementa que “a coletividade humana aprenderá, gradativamente a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez que a individualidade, em si, exalta a vida comunitária pelo próprio comportamento na sustentação do bem de todos ou deprime pelo mal que causa com a parte que assume o jogo da delinqüência” (ver o capítulo 21, do livro Vida e Sexo, de Emmanuel, psicografado pelo célebre médium Francisco Cândido Xavier). De fato, filósofos e psicólogos eminentes como Michel Foucault, Rollo May, Carl Rogers, José Bleger, entre outros corroboram essa questão da relatividade dos conceitos de “normal” e “sadio”, e do mau uso ou apropriação dos mesmos – às vezes, inclusive pela ciência, e até por catedráticos de alto escalão em universidades e centros acadêmicos conceituados – para justificar teorias preconceituosas, manipulações de poder, bem como idéias ultrapassadas e limítrofes.

            Que argumentos a Psicologia Espírita levanta para reprovar o preconceito ao homossexual, e atestar a sua legítima condição social de integridade, cidadania e saúde física, psicossocial e espiritual?

            Podemos começar pela desconstrução dos vários discursos do preconceito. Segundo o Dr. Ronaldo, todos os argumentos utilizados para tentar definir a homossexualidade como doença são superficiais e pueris. Por exemplo, alguns afirmam que a maioria é heterossexual e “normal” e a minoria é homossexual e “anormal”. Mas, os superdotados e as gravidezes de trigêmeos também são minoria, e apesar da “anormalidade” na curva estatística ou numérica, nem por isso são “doentes”. Pelo contrário, são bem saudáveis.

            Outro argumento é o de que só existem dois sexos biológicos, o masculino e o feminino, e a homossexualidade é uma “agressão às leis de Deus”. O erro filosófico desse discurso atrofiado, porém, é que em função da própria vontade do Divino, o homem está muito longe de ter sua natureza restrita à variável biológica, sendo que segundo uma visão mais integral, o ser humano é uma complexa individualidade formada por uma rede de variáveis psicológicas, sociais, culturais, energéticas, políticas, econômicas, cósmicas, espirituais ..., além da biológica. Assim, muito além dos estereótipos “masculino e feminino” ou das dicotomias “homem-mulher”, a coletividade humana expressa segundo uma consciência social e antropológica mais crítica, todas as variações que demarcam a subjetividade e a diversidade social.

            Logo, chega a ser estranho que a “cegueira” humana não tenha se dado ainda conta, que em meio à toda diversidade humana de tipos, etnias e culturas, somos uma unidade fraterna, e por isso, o paradigma do “amor ao próximo” deveria alimentar um movimento de união, onde todos por fazerem parte do mesmo Universo, e contribuírem para a evolução do mesmo Cosmos, onde a Unidade pode residir com a Diversidade, deveriam inspirar-se com o máximo sentimento de tolerância e consciência sócio-ético-espiritual.

            Por que será que isso não acontece? Arrogância, orgulho, individualismo ... Esses são os obstáculos da nossa materialista sociedade do narcisismo. Para vencer esses obstáculos, Deus concedeu ao homem inteligência e discernimento afetivo e moral, bem como inúmeras ferramentas de esclarecimento.

            Para finalizar, talvez contribua para derrotarmos o preconceito aos homossexuais, uma abordagem mais fecunda presente tanto na Psicologia Espírita Profunda como nos postulados de Emmanuel – a hipótese amplificadora da reencarnação: segundo o autor espiritual, “a vida espiritual pura e simples se rege por afinidades eletivas essenciais; no entanto, através de milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarações, ora em posições de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas”. Portanto, ninguém pode se adjudicar uma especificação psicológica absoluta. É válido ressaltar que autores de peso na Psicologia Profunda como Freud e Jung, já haviam falado sobre a natureza bissexual arquetípica do ser humano.

            Decorre daí que o preconceito – como afirma outro pesquisador, José Leon Crochík, psicólogo e professor da USP – diz respeito a um “mecanismo desenvolvido pelo indivíduo para poder se defender de ameaças imaginárias, e assim é um falseamento da realidade, ao qual o indivíduo foi impedido de enxergar e que contém elementos que ele gostaria de ter para si, mas que se vê obrigado a não poder tê-los; quanto maior este desejo de poder se identificar com a pessoa vítima do preconceito, mais este é fortalecido. Desta forma, o preconceito contra o homossexual pode guardar o desejo negado da homossexualidade, e quanto mais este desejo se aproxima da consciência, mais a aversão e o ódio ao homossexual aumentam” (Crochík, 1995).

            No âmbito da área de saúde, essa conclusão representa um grande alerta para médicos e terapeutas que, por serem mal resolvidos com a própria sexualidade, procuram articular sua conduta profissional de forma a tratar a homossexualidade como uma doença. Além de anti-ético e não-científico, tal conduta é ilegal e desaconselhável pelos principais conselhos de regulamentação das várias profissões de saúde, incluindo a Psicologia. Nesse caso, o profissional pode até ser processado, e muitas vezes o melhor mesmo, é fugir desse tipo de “profissional”. Infelizmente, a formação acadêmica de muitas instituições de ensino ainda se encontra muito atrasada em relação a esse tema, formando profissionais pouco embasados com a forma de conduta adequada em relação ao homossexual. Quem perde com isso é a população, que por falta de informação, algumas vezes se vê obrigada a submeter-se a formas de atuação desqualificadas para tratar as suas demandas, e necessidade de orientação sobre como lidar com essa forma de “ser e estar no mundo”, que não tem nada de doentio ou desabonador.

            Do ponto de vista religioso, o preconceito, o julgamento e a intolerância com o homossexual é uma atitude anti-cristã, que se opõe à principal Lei Divina – a Lei do Amor. Por isso, espero com esse modesto artigo ter contribuído para abrir a mente dos leitores e irmãos espíritas que ainda não haviam sido satisfatoriamente esclarecidos sobre a questão da homossexualidade. Espero também poder ter contribuído, pelo menos um pouco, para alterar uma realidade de nossos dias, expressa pelo lamento de um dos maiores gênios do século XX, que desabafou o seguinte: “Que triste época a nossa! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” – frase de Albert Einstein ...

 

Bibliografia Complementar

 

·        Crochik, José Leon. Preconceito – Indivíduo e Cultura. São Paulo: Robe Editorial, 1995.

 

·        Costa, Ronaldo Pamplona da. Os onze Sexos – As múltiplas faces da sexualidade humana. São Paulo: Editora Gente, 1995.

 

Adalberto Ricardo Pessoa

Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP

Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

 

 

 

 

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