Filosofia
Holística e Filosofia Espírita
(Sobre
os fundamentos filosóficos da Psicologia Espírita)
Vimos
em outros textos, que a Filosofia tenta desentranhar o conhecimento daquilo que
não se mede, não se pesa, não se apalpa, não se saboreia nem se vê, nem se
cheira, nem se ouve, porque ela só trata do abstrato; do que ela
mesma denomina metafísica, ou seja, o que está além da física,
portanto, fora da sintonia sensível dos sentidos.
A Gnosiologia (Teoria do Conhecimento) e a Ontologia
(a ciência do Ente ou do Ser) são os seus instrumentos preciosos de penetração
no âmago incomensurável do mundo abstrato, à base da razão pura e da intuição
(Marcos, 2001).
Segundo Marcos (2001), era nesse contexto que os antigos filósofos
dividiam a realidade existente em dois mundos: o sensível e o inteligível.
Era preciso sair de um para sair no outro, num exercício confuso. Depois Aristóteles
anulou essa dicotomia e os reuniu numa só Unidade, mas o senso da dualidade não
se apagou; antes, persistiu e continua persistente a desafiar o “engenho e a
arte”, cada vez mais intensamente no pensamento.
O pensamento, nesse sentido, é uma realidade dual, composta (1) pelo
pensamento propriamente dito, em si mesmo, como atributo inalienável do Ser
pensante, o Eu, e o (2) conteúdo do pensamento ou o aquilo que ele contém.
Duas coisas distintas, mas intimamente interligadas, que se confundem, se
completam entre si: um não é sem o outro!
Argumenta o autor que, pelo exposto, a Filosofia Espírita
está mergulhada em suas próprias águas, pois seus temas estão na conexão do
mundo material e do metafísico, visto que a vida extravasa do mundo espiritual
ao material e deste para aquele, tendo por liame o Ser igual ao Espírito ou
ambos, identificados na imensa fenomenologia que ambas as dimensões ensejam. A Ciência
Espírita tem, nesse contexto, a sua função, que é a mesma função
que as outras correntes da Ciência (não-Espírita) muitas vezes possuem em
relação à Filosofia (também, não-Espírita), já identificada anteriormente
nesse texto: a Filosofia Espírita tem, assim, sua base na concreção fenomênica,
e daí se lança, amparada nessa certeza, no infinito acontecer da realidade
universal.
A Filosofia Espírita introduz-se no cenário da realidade abrangida pela
Filosofia da Existência: “mestra líder da metafísica a envolver o pretérito,
o presente e o futuro, coloca essas intuições na Unidade da duração bergsoniana,
consciente da realidade existencial em que se manifesta a Inteligência suprema
como Lei da Vida na qual atua a inteligência relativa elaborando a própria
individualidade - sempre a dualidade marginando a infinita jornada da vida”
(Marcos, 2001).
Há
na realidade a natureza metafísica e a material, segundo a Filosofia Espírita.
A natureza material é conhecida através dos sentidos, isto é, estes
constituem o instrumental de captação da natureza tangível, que permite a
avaliação da realidade fenomênica e de suas relações na existencialidade,
no tempo e no espaço, e ainda no plano da causalidade que mantém
a sucessão infinita da efetividade de cada indivíduo.
Esse
Universo é o mundo sensível que os sentidos penetram diretamente, para captar
o caos de sensações que se produz nas circunstâncias do Eu que o acomoda no
espaço e no tempo, mercê da razão, constituindo o chamado conteúdo da consciência
cognoscente. Esse caos de sensações é decorrente da presença das
coisas no ambiente.
Segundo
Marcos (2001), esta é uma nova concepção da realidade da Idade Moderna, que
começa com Descartes, e se denomina Idealismo. A Filosofia Espírita define,
com uma “certa certeza”, esse detalhe importante, da realidade inerente à
essência, pois que, afirma que quem recepciona, avalia, seleciona e coloca
frente à reflexão é o espírito em plena identificação do Ser
parmenídico.
O
Espírito possui os atributos inerentes à consciência do Ser: único, eterno,
infinito..., na adequada proporção de sua posição relativa, porém
universal.
Cada
coisa, cada objeto contém a sua idéia modelo metafísico, o molde-estrutura
que unido à matéria concretiza a idéia dando-lhe unidade e sentido;
e atesta a presença mental do Autor que cria e executa tal idéia.
A idéia permanece e pode ajustar-se a qualquer matéria possível na relação
da linha de realização adequada, consentânea com o pensamento da mente
criadora.
Para
Platão as idéias não estão nas coisas, mas fora delas,
precisamente num lugar inespacial que apenas revela a posição celestial que
ele denomina topos uranos, onde habitam as almas antes de
encarnarem. Ao reencarnarem trazem consigo o germe das idéias com as quais
conviveram, como parte integrante da própria alma. As coisas não são nunca idênticas
às idéias, pois que estas são perfeitas, e as coisas são imperfeitas. Provém
daí o princípio da reminiscência ou mito, e as idéias inatas que acordam no
indivíduo em ocasião oportuna. Mas, repetimos, as coisas modeladas não
possuem a perfeição das próprias idéias, pois que, o contato com a matéria
as embota, impurifica-as. As coisas são cópias desfiguradas das idéias, na
Filosofia Platônica, precursora (junto com a filosofia de Sócrates) da
Filosofia Espírita.
Na
Filosofia Espírita, as idéias atestam a posição nítida, fiel em que se
encontra o indivíduo, o Ser atuante na esfera extrafísica ou na biológico-social,
isto é, como desencarnado ou como encarnado. Elas são, por assim dizer, como
que o espelho que reflete a imagem verdadeira, sem disfarce do Ser, a sua
realidade conceptual intrínseca, a magnitude da inteligência, que tais idéias
tenham engendrado.
A
filosofia Espírita é a Episteme, a ciência metodológica, portanto, o caminho
que envolve a razão e a fé no entrelaçamento das
idéias claras e distintas: aqui, a Razão e a Fé, em vez de se altercarem,
pendem naturalmente uma para a outra, como irmãs que se entrelaçam
fraternalmente, assumindo que ambas pertencem à essência da natureza humana,
pois são atributos potenciais do Espírito que se atualizam e se desenvolvem no
decurso da vida.
Porém,
o que de melhor se recomenda (Marcos, 2001), desde a Antigüidade Grega, é que
a modéstia acompanhe os passos do estudante de filosofia, para quem as virtudes
morais e intelectuais são os ingredientes indispensáveis àqueles que
perambulam sem pressa, mas também sem preguiça, com precisão, na cadência rítmica
do raciocinar tranqüilo, assistidos pela fé já conquistada no cotidiano. Os
filósofos gregos costumavam dizer: “é necessário o infortúnio da própria
ignorância assombrar-se muito, admirar-se de tudo o que se oferece ao
conhecimento e constatar – como Sócrates – que só sabemos que nada
sabemos”. Tanto que para Platão, a Filosofia começa com a admiração.
Já para Aristóteles, seu discípulo, a filosofia começa com o espanto.
Sócrates, anterior a ambos, e mestre de Platão, afirmava que a
primeira e fundamental verdade filosófica é a de que “Sei que nada sei”.
A
Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso
comum, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência
cotidiana, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. A primeira
característica da atitude filosófica é, portanto, negativa, daí a afirmação
do patrono da Filosofia – Sócrates. A essa face negativa da Filosofia
denominamos, atitude crítica.
A
segunda característica da atitude filosófica é positiva, e é denominada de pensamento
crítico: trata-se de uma interrogação sobre (1) o que são,
(2) como são e (3) por que são como são, as idéias,
os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos – O que
é? , Por que é? , Como é? – Trata-se da trilogia de questões fundamentais
da atitude filosófica.
A
Filosofia Espírita tem ligações estreitas com a Tradição filosófica. Do
realismo metafísico que parte de Parmênides, toma o Ser com o qual identifica
o Espírito com as respectivas qualidades, porém, cada Ser ou Espírito com sua
unicidade, eternidade, infinitude e imutabilidade, na intimidade da própria essência
criada. Um Ser indestrutível, algo perfeito como somente pode ser como obra
divina, realização do pensamento da inteligência Suprema e Causa primária de
todas as coisas – isso em Revelação plena do Espírito da Verdade.
De
Heráclito, da mesma época, assume a noção da multiplicidade e variabilidade
das coisas, na incomensurável estrutura da existencialidade universal, que se
experimenta cada qual por si mesmo na forma biológico-corporal suscetível de
modificações exteriores, desde o nascimento até a morte, sem, contudo,
desmerecer a unidade individual. Parmênides simboliza a idéia afirmativa do
Espírito indestrutível; antes, evoluciona progressivamente em manifestação
do Eu cognoscitivo que amplia e refina o próprio conceito.
Heráclito representa a Natureza mutável, o “vir-a-ser” contínuo
daquilo que está posto a mercê da perpétua transformação: o ser transitório
das formas físico-biológicas.
Em uma linha aparece o Princípio Inteligente, cuja individualização
vai-se constituir no Ser ou Espírito Humano: na outra, oposta, mas
complementar, encontra-se a Natureza instável, transitória, que nasce,
desenvolve e morre, desempenhando a função fundamental da estada do Espírito
manifesto na dimensão físico-biológica. Aquele atuante na Duração sem
tempo, está no tempo.
Na Idade Moderna erige-se uma Idéia ainda desconhecida: elabora-se a noção
de Subjetividade e de Objetividade de significação antípoda em que o Espírito
atende ao pensamento especulativo. Aí o Eu sobressai como único Ser
cognoscente, e sendo tudo o mais, tão somente, conteúdo da consciência
conhecedora.
O realismo como que desaparece enquanto se evidencia com exclusividade o
Eu, o Ser-cognoscente. As coisas deixam de ser em si mesmas temporariamente até
que Kant as coloca, cada qual, em seu justo e devido lugar: um consórcio
sapiente com o qual se estabelece o conhecimento do Ser-Vida. Depois Kierkegaard
instrui o Existencialismo, e logo aparece a idéia de filosofia Espírita da
“Existência”, esta porém, como uma grandeza que se projeta no infinito:
passado e futuro, em um presente mediador.
Os pressupostos da Filosofia Espírita nascem com ela mesma, e nela se
realizam na respectiva crítica de sua Validade. Baseiam-se em Princípios revelados
que recebem a crítica analítica da Razão metódica e positiva
que converte a revelação em conteúdos de conhecimento insuscetível de erro e
dúvida, passando a ser como que qualquer dado geométrico que se aplica com
certeza plena. A Fenomenologia mediúnica Espírita é, aqui, manancial
inexaurível onde a Filosofia Espírita encontra extensa temática para reflexão
– é a sua própria base epistemológica.
A dualidade em que se manifesta a matéria como orgânica e inorgânica,
e a revelação de que a orgânica é uma transformação da inorgânica põe um
problema convenientemente tratado pela Filosofia Espírita, e satisfatoriamente
explicado pela ciência fundamentada nessa Filosofia.
A consciência da Lei de Justiça, por vezes equivocadamente expressa
como causalidade cármica fundamentalmente mecanicista e linear, a intuição da
lei de evolução progressiva e a Reencarnação são temas que a Filosofia Espírita
absorve como condição inalienável de sua forma de Ser Conceptual, isto é, em
plena realização. O mesmo é válido para a Mediunidade, como meio de Comunicação
Universal, nas dimensões Cosmossociológicas, tendo como sistema interativo a
Vontade e o Pensamento livres.
A Filosofia Espírita caminha lado a lado com o emergente Paradigma
ou Filosofia Holística, à procura da compreensão do homem integral,
bio-psico-sócio-espiritual.
Na visão holística, o organismo humano é um sistema vivo cujos
componentes estão interligados e interdependentes, e é parte integrante de
sistemas maiores, afetando e sendo afetado por eles, numa dialética de interação
contínua com seu meio ambiente físico, sócio-cultural, ecológico e
psico-espiritual.
Dentro dessa concepção sistêmica, a vida não é uma substância ou
força, assim como a mente não é uma entidade que interage com a matéria.
Ambas são manifestações do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas,
representando a dinâmica da auto-organização. Mente e matéria fazem parte de
um conjunto de relações dinâmicas dentro de uma mesma categoria,
representando aspectos diferentes do mesmo processo universal.
Aqui, como afirmava Kardec (1861), em seu O Livro dos Médiuns, no
século XIX (ou seja, antes mesmo da Filosofia Holística nascer
“oficialmente” no século XX), “toda a questão se reduz em considerar o
todo como homogêneo, em lugar de estar formado por duas partes distintas”,
como espírito e matéria, ou alma e perispírito. É uma posição semelhante
ao monismo (aparentemente contrapondo-se a qualquer forma de dualismo ou
pluralismo). Para Kardec, isso justificaria menos o surgimento de uma ´nova
escola`, em algo que não seria senão uma simples interpretação de palavras,
uma questão semântica. Assim, esta opinião, em limites restritos ou mesmo
mais gerais, segundo Kardec, “não constituiria uma cisão entre os Espíritas
(mais do que as duas teorias da emissão ou das ondulações da luz não foi uma
cisão entre os físicos)”, por não tocar realmente na essência, no
fundamental da questão, sendo por demais periférico. No mais, essa visão não
infirmaria qualquer dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, e ao
contrário, tem oferecido um paralelo complementar de seus postulados, por
exemplo na Física Quântica, como será mostrado em textos futuros.
Nesse trabalho de pesquisa, já se considerou que se por um lado o
Espiritismo distingue espírito e matéria (posição dualista), por outro lado
considera a sua interação e integração (posição monista). Mais do que
isso, diferente das outras abordagens que consideram apenas o monismo essencial
entre espírito e matéria, o Espiristismo explica os mecanismos dessa interação/integração
pelo estudo do psicossoma (perispírito). O monismo para ser explicado, precisa
do dualismo (espírito e matéria) e do pluralismo (matéria biológica, perispírito
e alma, na formação tríplice do homem). Na física, princípio filosófico
semelhante será expresso pela lei da complementaridade de Niels Borh, e na
Psicologia Profunda de C. G. Jung, pela lei da enantiodromia na formação de símbolos
psíquicos.
Sabemos que o perispírito sendo matéria (ou mais precisamente, um padrão
complexo de energia subatômica organizado em rede e pré-formativo da matéria
biológica sensível), embora muito etérea ou fluídica, seria ainda de uma
natureza material (da analogia entre energia e matéria), mais ou menos
essencial segundo o grau da sua depuração. Temos, também, que – segundo a
Doutrina Espírita - a natureza íntima da alma nos é desconhecida. Quando se
diz que é imaterial, é preciso entender no seu sentido relativo, e não
absoluto, porque a imaterialidade absoluta seria o nada, e a alma e o Espírito
são alguma coisa; quer dizer-se, então, que a essência da alma é de tal modo
“superior” ou peculiar que não tem nenhuma analogia com aquilo que nós
chamamos de matéria e, assim, para nós a alma é “imaterial” (Kardec,
1861).
A posição kardecista, defendida ainda no século XIX, parece apoiada
– como foi dito - pelo princípio da complementaridade de Niels Bohr. Os filósofos
vêm se debatendo durante séculos sobre a questão: existe divisão entre espírito
e matéria? Outros pensadores questionam: como explicar que uma consciência
individualizada, enquanto Espírito, possa se manter unificada, organizada, para
possibilitar um processo de reencarnação?
O princípio da complementaridade de Niels Bohr propõe que as duas posições
- o monismo e o dualismo – são igualmente necessários. Do ponto de
vista holístico e fenomenológico, muito vai depender do ponto em que se coloca
aquele que faz a questão. Se se coloca pela lógica de não-contradição
newtoniano-cartesiano, tal conclusão é inconcebível. Mas há muito tempo, os
avanços do Paradigma Holístico demonstram que nem sempre uma proposição
verdadeira deve cancelar outra que lhe é oposta, como se esta fosse falsa.
Muitas vezes, por trás da aparente contraposição, há a possibilidade de uma
síntese dialética, uma “terceira posição”. Isso já foi visto
anteriormente: o processo de integração simbólica na epistemologia da
Psicologia Profunda de Jung apóia tal assertiva. Mas, mesmo na Matemática, a mãe
das ciências exatas, formulação semelhante é postulada na chamada Lógica
Paraconsistente, que se opõe á lógica linear de não contradição. Sobre
isso voltarei mais tarde, por ser essa a fundamentação da matriz de pensamento
pós-moderno ou do Paradigma Holístico, o que por sua vez vai legitimar uma
maneira completamente nova de se fazer ciência, e que será de suma importância
para a Psicologia Espírita.
No Espiritismo a Unidade da Realidade Existencial
manifesta-se ao conhecimento na forma dual de Deus e Universo.
Deus é a Inteligência Suprema e Causa Primária de todas as coisas. O Universo
é constituído de dois elementos fundamentais: o Princípio Inteligente (Espírito
ou Alma) e o Princípio Material (ou Fluido Cósmico). Ambos em íntima e
constante interação, tendo o átomo por traço de
união, embora o que normalmente consideramos como a partícula elementar da matéria
esteja muito distante, ainda, do real princípio elementar da mesma. De qualquer
forma se trata de um Monismo ternário, fora do tempo, síntese da Trindade
Universal da concepção espírita, exatamente explicitada no trinômio: Deus,
Espírito e Matéria (Marcos, 2001).
A distinção kardecista entre perispírito e alma está fundamentada (1)
no discurso invariável dos Espíritos sobre essa temática, (2) no estudo das
sensações dos Espíritos e (3) nos fenômenos de aparições tangíveis, mas
dissertar sobre essa tópica agora, ultrapassaria o objetivo de estudo dessa
pesquisa, e seu esclarecimento é facilmente encontrado nos livros da Codificação,
como o Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns,
ou ainda em A Gênese, todos de Allan Kardec.
Para encerrar, tomemos alguns paralelos complementares entre a Filosofia
Holística e a Filosofia Espírita. A primeira fundamenta princípios da
Psicologia Transpessoal, ancorada pelo suporte teórico da Psicologia Profunda
de Jung. A segunda, nas suas interconexões com a primeira, mais as descobertas
da ciência contemporânea, fundamentam uma Psicologia de orientação Espírita.
É aqui que se elabora um quadro de referência teórico, metodológico e
epistemológico para a construção do edifício científico contingente. O físico
norte-americano Brian Swimme fez uma síntese de alguns princípios fundamentais
do holismo, e do paradigma holístico, e que serão tomados como ponto de referência
agora. O material de Marcos (2001), continuará a ser a referência para o
estudo de Filosofia Espírita que está sendo realizado nessa pesquisa.
Considera-se no Holismo,
que se a natureza do átomo (aqui o encadeamento lógico advém das características
atômicas) não é dada ou posta à compreensão exclusivamente por ele, de
forma isolada, mas por sua interação e seu comportamento em relação a todo
seu Universo envolvente; então, a realidade física consiste principalmente de
relações, como a música que se compõe de relações de sons e ritmos – e não
de notas isoladas, o que implica em superposições de complexificação
crescente ou na criação de sistemas dinâmicos sempre mais amplos. Ou seja,
nada pode existir sem que imponha e receba características fora de seu ambiente
total (Gestalt);
Assim, do ponto de vista
da Filosofia Espírita, a matéria aparece à intuição sensível e intelectual
sob dois aspectos ou modos de ser: matéria orgânica e matéria inorgânica.
Aquela formando as miríades de corpos dos seres vivos; esta revestindo a
multiplicidade dos seres inertes. A matéria orgânica carrega em si mesma o
germe do gênero e das espécies do Ser que deflagra a vida no mundo biológico,
no seio da Mãe-Natureza. O átomo, segundo algumas teorias, é constituído de
um núcleo central à volta do qual giram elétrons em órbitas definidas. É o
fundamento basilar da matéria em todas as modalidades de expressão universal,
cuja condensação se faz numa graduação imensurável, desde os aspectos mais
acessíveis à intuição humana até as estruturas espirituais, em refinamentos
múltiplos e variados inacessíveis sequer à nossa imaginação. Girando
vertiginosamente os átomos vão se atraindo uns aos outros, em mútua e recíproca
interação, até formar a massa informe Proto-Matéria, que se
ajusta necessariamente a todas as formas geométricas, na abrangência geral de
todos os Reinos da Natureza. Esse movimento, aparentemente automático, nos recônditos
ignotos da Realidade Existencial – que a Física e a Astronomia dominam
sobremodo – não realiza um processo acéfalo, caótico, muito ao contrário,
nesse rodopio cósmico, a Filosofia Espírita da Existência estende sua observação
intuitiva e cuida ver, com boa dose de certeza, o Princípio Inteligente
atuante, na direção dos eventos primordiais da gestação universal, embora a
humílima e incipientíssima ação torna tudo inteligível à observação da
inteligência perceptiva. É assim, pois, que o Princípio Inteligente
intelectualiza a matéria – como ensina a obra filosófica da doutrina Espírita,
o Livro dos Espíritos – anima-a, adequando-a à utilização
dos seres vivos, na estruturação do veículo de manifestação exterior,
segundo as características específicas de cada um, com plena identificação
própria e necessária. Magnífico certame em que as forças soberanas da
Natureza se consorciam na ordenação de algo a gerar e que a sabedoria popular
chama vida. Um infinito e majestoso labor em que Deus se
manifesta, não como eminência de Si mesmo, mas como concretização do
Pensamento Divino que se exterioriza e em Si mesmo permanece, como o triângulo
que se identifica em seus ângulos e eternamente os contém. É a infinita idéia
hegeliana a mostrar-se através do ser finito, é o obreiro a descobrir-se em
sua obra (Marcos, 2001). A obra do Físico Fritjof Capra, abordando a história
da Física Moderna e os seus paralelos com o espiritualismo profundo oriental,
por outras vias epistemológicas, corrobora a visão da Filosofia Espírita aqui
apresentada (Capra, 1983).
Para a Filosofia Holística,
a nossa ciência e a nossa interpretação sobre o que seja o mundo são
resultantes de nossa própria ação e relação com o mundo que nos cerca e com
as crenças e idéias que adotamos. O ideal da neutralidade e da objetividade
científica é mais ficção que realidade.
Segundo essa abordagem
filosófica, do ponto de vista metodológico, além da análise que separa, a síntese
que une é de fundamental importância na compreensão do mundo: conhecer algo
implica em saber sua origem e finalidade. O universo parece possuir um sentido
evolutivo.
No
Paradigma Holístico, assim como no Espiritismo, a matéria não é algo
“morto”, passivo ou inerte, já que é dotada de energia e parece evoluir
segundo um plano criativo global; nada está inativo na natureza, e tudo no
Universo parece estar trabalhando. Isso é válido mesmo para a matéria inorgânica
(que em termos de elementos físico-químicos ou componentes elementares não
difere da matéria orgânica). Assim, o Universo está mais para uma rede de
relações, uma realidade ou um organismo auto-organizante.
Para a Filosofia Espírita,
Deus é o ser absoluto, a Idéia Soberana, o Ser único, imutável, imóvel.
Fora de Deus é o não-ser, a inércia, a inexistência, o nada. O
conceito espinosiano ajuda-nos a entender a grandiosa proposição filosófica.
Diz Espinosa: “Deus é o ser constituído de um número infinito de atributos,
todos perfeitos; sintetiza, desse modo, a Substância infinita que contém em Si
todas as possibilidades, nada deixando fora”. Portanto, tudo o que existe só
pode existir em Deus. Temos aí um pensamento puramente panteísta – (de pan +
teísmo) doutrina segundo a qual só Deus é real e o mundo é um conjunto de
manifestações e emanações – o filósofo, porém, atenua a exclusividade de
acepção desse raciocínio, clareia-lhe a objetividade preconcebida;
salvaguarda, ao mesmo tempo, a sua noção de diferença entre Criador e
Criatura (evitando uma concepção de Deus baseada numa hipostasia do Ser),
acrescentando que a Realidade Total compreende a Natura Naturans e
a Natura Naturata. Nessa expressão medieval, Espinosa assegura,
como Razão do Mundo a Natureza Criadora - Deus - , e, como Totalidade
Existencial, distingue a Natureza Criada. Assim, pois, tudo é Deus e o
Universo. Ainda em Espinosa, dos inúmeros atributos de Deus só dois nos são
conhecidos: pensamento e matéria. Como Pensamento
Deus revela-se no Universo Espiritual; como Matéria manifesta-se no Universo
Corpóreo de tudo quanto há. Por isso, O Livro dos Espíritos afirma que a
prova da existência de Deus é sua Obra: o Universo.
Essa é, exatamente,
a mesma linha de argumentação da Filosofia Holística. Segundo um dos seus
maiores expoentes, Pierre Weil, uma das características do Ser
(Deus) na Existência se traduz no plano da experiência humana
pela percepção visual, auditiva, tátil, olfativa e gustativa dos aspectos sólidos,
líquido, gasoso, ígneo e espacial do mundo dito “exterior”, assim como dos
pensamentos, emoções e do espaço do mundo dito “interior”. Dito de outra
maneira, quando o ser (entendido como o ser cognoscente, mundano)
percebe/examina um objeto do Universo, é em última instância (entendido em
sentido metafórico ou literal, pouco importa) o Ser (o Absoluto)
que se examina a si próprio, que se observa. Eis, então, o que a Filosofia Holística
chama de Holoscopia. Poder-se-ia ter usado o termo autocospia,
aparentemente mais inteligível. Esse, porém, foi evitado para não se cair na
armadilha da projeção antropomórfica de personalização do Ser, resultando
numa hispostasia do mesmo; isto nos faria recair num dualismo contrário a seu
aspecto de Espaço totalmente aberto. O Ser seria, então,
compreendido como uma pessoa se auto-examinando, num redutivismo totalmente
infundado. A Holoscopia é uma constante informática ou Holocibernética
do Ser em e como Existência. Pelo princípio
de complementaridade de Niels Bohr, o Ser é simultaneamente imanente ao
Universo, e o Criador do mesmo, e a Holoscopia é, no final das contas, aquilo
que se chama de Consciência Cósmica.
Dentro do contexto da
Filosofia Holística, essa constatação é inatingível, inalcançável ou
incompreensível para um determinado padrão de percepção,
peculiar a determinados tipos de individualidades, que Stalisnav Grof vai
denominar de Hilotrópico (do grego: hulé = madeira, matéria;
trepein = voltar-se. O sentido, pois, é voltado para a matéria. Na Filosofia
Espírita, nós teríamos o materialista como o protótipo deste
padrão de percepção, comumente encontrado em personalidades sintonizadas com
um ceticismo ideológico, defensivo, unilateral e imaturo). Este
modo de consciência é caracterizado por uma concepção linear da existência
dominada por programas de sobrevivência, e por uma vida organizada em função
de prioridades exclusivas exemplificadas por proposições como: eu, meus
filhos, minha família, minha empresa, minha religião, minha
pátria, minha raça (sob a ótica Espírita, temos aqui, o perfil da
personalidade moralmente orgulhosa e egoísta, em sua expressão unilateral e
exagerada; sob uma ótica psicanaliticamente moderna, temos o perfil de uma
personalidade narcisista). Estas pessoas são incapazes ou têm muita
dificuldade de verem as “coisas” num contexto holístico, como é o caso do
modo de consciência Holotrópico (que nós veremos daqui a pouco).
O modo de consciência Hilotrópico
compreende as auto-experiências enquanto entidades físicas, sólidas, que tem
limites definidos e um leque sensorial determinado, que vive no espaço
tridimensional e no tempo linear. Em relação a esse aspecto específico, é um
padrão de consciência que guarda alguma semelhança com o Tipo Psicológico Sensação
descrito na tipologia da Psicologia Profunda elaborada por C.G. Jung, em seu
livro Tipos Psicológicos (Jung, 1920).
Para essa forma linear de
pensamento, hipóteses que fazem sentido são as seguintes:
1)
a matéria é sólida;
2)
dois objetos não podem ocupar o mesmo espaço;
3)
eventos passados estão irremediavelmente terminados;
4)
eventos futuros são empiricamente inacessíveis;
5)
é impossível estar-se em mais de um lugar ao mesmo tempo;
6)
um todo é maior que uma parte
7)
alguma coisa não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, etc.
São esses na verdade, os
paradigmas da visão newtoniana da Física Clássica do século XIX, proposta
por Sir Isaac Newton, um dos maiores cérebros da ápoca.
Em 1984, opondo-se a essa
consciência linearmente materialista, Stalisnav Grof cunhou o termo Holotrópico
para indicar um modo de consciência Holístico que difere desta atitude Hilotrópica
vista.
Para o autor, o indivíduo
que funciona no modo de consciência holotrópico é incapaz de considerar o
mundo material como um quadro de referência obrigatório e todo poderoso.
Nessa visão, a realidade
pragmática da vida cotidiana e o mundo material pertencem ao domínio da ilusão.
A unidade subjacente de toda a existência que transcende o tempo e o espaço é
a única realidade.
O modo de consciência
Holotrópico compreende a identificação com um campo de consciência
ilimitado e um acesso empírico a diferentes aspectos da realidade sem a
intervenção dos sentidos. A consciência holotrópica, na terminologia
Espírita corresponderia às personalidades espiritualistas, e na
terminologia junguiana, ao tipo psicológico predominantemente auto-organizado
pela função Intuição.
Quando vivida de maneira
imatura, essa visão engendra a auto-ilusão, a fuga da realidade, a alienação,
e até a patologia mental. Quando vivida de maneira amadurecida, existem
diversas alternativas visíveis ao espaço tridimensional e ao tempo linear,
nessa forma de entendimento do real. Assim, as experiências do modo holotrópico
apóiam sistematicamente um conjunto de hipóteses, que se opõem frontalmente
às hipóteses hilotrópicas (por muitos, consideradas como normais), tais como:
1)
a solidez e a descontinuidade da matéria são ilusões engendradas por
um agenciamento particular de eventos na consciência;
2)
o tempo e o espaço são noções arbitrárias;
3)
o mesmo espaço pode ser ocupado simultaneamente por diversos objetos;
4)
o passado e o futuro podem ser trazidos empiricamente ao presente;
5)
é possível encontrar-se simultaneamente em lugares diversos;
6)
Ser uma parte não é incompatível com o fato de ser o todo;
7)
Alguma coisa pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo;
8)
A forma e o vazio são intercambiáveis, etc.
Pelo menos algumas dessas
hipóteses têm sido confirmadas pela Física Moderna, legitimando a visão
holotrópica da vida, equato pensamento sistêmico. O padrão de pensamento
Holotrópico subjaz à visão Holística da Realidade, e sob essa ótica
paradigmática e filosófica, as hipóteses do modo de consciência Hilotrópico,
mesmo predominando entre grande parte das individualidades existentes, é
considerado um padrão de pensamento, no mínimo, ultrapassado e pouco
elaborado. O padrão de pensamento Intuitivo-Holotrópico, por sua vez, seria tão
evoluído, que do ponto de vista cognitivo, ele estaria um passo
além do padrão de pensamento formal (esse é caracterizado,
entre outras coisas, pela adoção do pensamento abstrato e hipotético, depois
dos 11 anos de idade) na Psicologia de Jean Piaget.
Cognição
é um conceito relacionado com o processo de pensamento e aquisição de
conhecimento, incluindo prestar atenção, responder, perceber, interpretar,
classificar e lembrar de informações; avaliar idéias; inferir princípios e
deduzir regras; imaginar possibilidades; gerar estratégias e fantasiar. O universo
cognitivo de uma pessoa diz respeito ao universo de compreensão que ela
tem da realidade, e a sua forma de ver o mundo segundo a sua subjetividade e os
seus processos mentais complexos. A Psicologia Cognitiva estuda todos esses
elementos, tendo em Jean Piaget o seu maior nome e expressão.
Sabe-se que segundo a Epistemologia
Genética de Piaget, o desenvolvimento cognitivo e intelectual da infância
à fase adulta passa por uma série cumulativa de aquisições estruturais,
demarcadas seqüencialmente por quatro períodos ou fases principais:
1.
Desenvolvimento Sensório-Motor (do nascimento a um ano e meio ou dois
anos);
2.
Pensamento Pré-Operatório (um ano e meio aos sete anos);
3.
Fase das Operações Concretas (dos sete aos onze anos);
4.
Período das Operações Formais (aos onze ou doze anos, aproximadamente,
em diante).
As faixas etárias
arroladas variam segundo (1) o grau de maturação do sistema nervoso e (2) a
história ambiental de estimulação cognitiva e emocional. Tradicionalmente, a
visão piagetiana considera que o desenvolvimento cognitivo encontra o seu
desfecho (ou seja, o seu ponto máximo de desenvolvimento) no quarto nível, das
operações formais. Porém, especula-se que um quinto nível de operações
mentais ainda mais “formal e abstrato”, com o rigor analítico abrandado por
traços “dialéticos” poderia formar uma categoria superior de pensamento
cognitivo (Kesselring, 1993).
No pensamento formal,
o pré-adolescente adquire a capacidade analítica de formular hipóteses lógicas,
as quais coloca sob testagem sistemática para análise de resultados e conclusões
obtidas. Já o suposto Quinto Nível seria encontrado na Lógica e nas Matemáticas
Superiores, bem como em grandes setores do pensamento científico da atualidade,
superando de longe as aquisições formais do quarto nível.
Mas o que caracterizaria,
mesmo, esse Quinto Nível seria o pensamento dialeticamente
orientado, caracterizado por ser mais voltado para mudanças do que para
situações estáveis, e mais por relações que pertencem à própria natureza
das coisas do que por aquelas que lhe são exteriores; é, antes, orientado no
sentido de totalidades do que de conjuntos aditivos. Tem-se, aqui, a maximização
da capacidade de abstração reflexiva, que aplicada à capacidade imaginativa e
intuitiva, oferece recursos potenciais para a expressão artística e para a vivência
intuitiva e transcendental de uma religiosidade amadurecida. Essa visão
cognitivista parece corroborar a visão da Psicologia Transpessoal, que afirma
ser possível a vivência de uma expansão da consciência durante uma vivência
transpessoal, espiritual ou mística. Sabe-se que esse é um dos
principais objetos de estudo da Psicologia Traspessoal.
Em um sentido menos
construtivo, quando essa capacidade de abstração elevada é distorcida por
padrões emocionais conflitivos, gerando mecanismos psíquicos defensivos de
racionalização (e portanto, de distorção da razão), ao invés de uma
manifestação amadurecida, nesse quinto nível, teríamos um padrão de
funcionamento cognitivo que favorece a preguiça mental,
caracterizada por uma forma de lidar com as contradições de sentenças lógicas,
de forma a elaborar “conciliações” pouco consistentes, e a despeito da
construção dos melhores sistemas teóricos abstrato-formais, o indivíduo
sempre formula algum conceito que contradiz e refuta desastrosamente
todo o repertório conceptual por ele criado. Para o indivíduo, a consciência
de agir desse modo, porém, inexiste.
Na sua manifestação
construtiva, nesse quinto nível de pensamento “mais que formal”, não é
decisivo o conhecimento de fórmulas abstratas, e sim a necessária
flexibilidade para o seu uso concreto, resultando em mudança de hábito,
comportamento e percepção. Por isso, é comum que indivíduos que tenham
vivido uma experiência transpessoal na consciência Holotrópica, acusem mudanças
substanciais de comportamento na direção de um alargamento rumo à descoberta
de novas dimensões de expressão e percepção, e a adoção de uma atitude
global de maior compreensão, compaixão e fraternidade. Essas experiências
transpessoais são comumente sentidas como uma experiência de iluminação,
semelhante ao conceito vivencial do nirvana na acepção Budista (Arundale,
1993). Jung referia a essa vivência pela função psicológica denominada Função
Transcendental (que entre outras coisas, possibilitava a maior interação
entre o consciente e o inconsciente na psique) e o seu conceito de numinosidade.
A Psicologia Transpessoal tem procurado estudar sistematicamente essa forma de
percepção da realidade, e o Espiritismo associado à Parapsicologia também
possui substancial literatura sobre essa temática, ainda que fazendo uso de uma
terminologia diferente. Nesse texto, observamos que também a psicologia
cognitivista de Piaget, alicerçada pelo profundo questionamento filosófico
realizado por esse autor, contribui para a compreensão dessa temática geral,
mas tal possibilidade é desconhecida pela maioria dos psicólogos clássicos.
Considera-se nesse
contexto global, que um conhecimento que se vai tornando mais e mais rígido e
formal cessou de se desenvolver. As capacidades de abstração elevada e de
concentração mental intensificada, do quinto nível de desenvolvimento
cognitivo, no entanto, constituem condições essenciais para um pensamento vivo
e flexível.
A Epistemologia Genética
de Jean Piaget fornece, assim, a sua contribuição para a corroboração de
outro tema importante da Filosofia Espírita (já comentado anteriormente), que
é a relação entre Razão e Fé. E não poderia
ser de outro modo. Como pesquisador interdisciplinar, a obra piagetiana se situa
na fronteira da psicologia com a filosofia, da biologia com a cibernética e das
ciências naturais com as cognitivas. É o maior nome da Psicologia Cognitiva
(praticamente é o fundador dessa escola teórica), e embora seja de
desconhecimento de muitos, Piaget realizou pesquisas que buscavam a clarificação
das relações entre a ciência, a religião cristã e a psicanálise (Kesselring,
1993). Militante do protestantismo liberal, foi membro da Associação suíça
de Estudantes Cristãos, sendo considerado, um modelo perfeito de jovem cristão
decidido à luta por ideais autênticos. Parte de seus primeiros escritos
tratava das relações entre religião e razão ou ciência (Kesselring,
1993). Logo, como Kardec e Jung, Piaget também se preocupou com essas questões.
Espírito evoluído que
era, de inteligência precoce, escreveu seu primeiro artigo científico – uma
nota científica de uma página sobre um pardal albino que ele observou em um
parque público - com apenas dez anos de idade, demonstrando o seu forte
interesse por biologia. Tornou-se especialista em moluscos, publicando vários
trabalhos sobre eles antes de 21 anos de idade. Pode-se dizer que ele entrou no
período formal de desenvolvimento cognitivo (entre 9 e 10 anos), antes mesmo do
que ele próprio preconizara como sendo o padrão normal para tal (11 anos).
Certamente, atingiu o Quinto Nível por ele apenas especulado.
Além de escrever sobre
razão e fé, ele demonstrou interesse em escrever sobre Moralidade.
Queria conferir um embasamento científico a essa temática, também tratada
pela metafísica e pela teologia, seus pontos de partida. A indagação de como
se pode ter fé e ao mesmo tempo ser objetivo continuava sendo para Piaget uma
preocupação. Seu discurso denunciava com crescente intensidade a perspectiva
do psicólogo: preconizava a subordinação dos valores
religiosos aos racionais (posição idêntica à de Allan Kardec, no
Espiritismo, lembrando que Kardec foi um pesquisador do século XIX e Piaget, um
contemporâneo do século XX). Numa de suas conferências (outubro de 1922)
apresentou a tese de que o psicólogo, embora deva restringir-se à apreciação
externa de um sistema de fé, ao dialogar com um cliente, incumbe-lhe a tarefa
de faze-lo compreender as contradições inerentes ao referido sistema. Isso não
implicava, como alguns podem supor, que Piaget objetivasse que seu cliente
abandonasse a sua posição religiosa, por discriminar algumas contradições lógicas
no discurso básico da mesma. O Pensamento Dialético do quinto nível
de desenvolvimento cognitivo intuído por Piaget manifesta-se exatamente pela
procura de contrastes e confrontações, na capacidade de suportar tensões
entre fatores psicológico-individuais e sociológico-culturais e na disposição
de reconhecer que as contradições são como que fundamentais para o
pensamento. A própria pedagogia moderna de orientação
construtivista-piagetiana considera a contradição um elemento normal de
qualquer epistemologia, e do próprio conhecimento produzido. Sob tal ótica, é
mais preciso falar-se de antíteses sociais do que de contradições lógico-formais
(Kesselring, 1993), e num outro nível, também construtivo, sabemos que o
Pensamento Dialético – segundo a abordagem junguiana - potencializa a elaboração
de símbolos psíquicos.
Essa congruência
conceitual entre a noção de um quinto nível mental denominado Pensamento
Dialético na Epistemologia Genética de Piaget, e o processo criativo
de formação de símbolos na Psicologia Junguiana, pode ser correlacionado com
a noção de uma consciência Holotrópica na teoria Holística. Em todos esses
conceitos, o raciocínio dialético está presente, estando a posição
piagetiana a colocar essa forma de pensamento como a mais desenvolvida, do ponto
de vista cognitivo. A psicopatologia analítica também coloca essa forma de
pensamento como a mais saudável, do ponto de vista psíquico. Apenas a título
de nota, sabemos que o pensamento dialético também se encontra em outra escola
teórica da Psicologia, mais especialmente na Escola Argetina de Psicanálise
fundada por Enrique Picho-Rivière, e desenvolvida por outros psicanalistas
argentinos como Rodolfo Bohoslavsky, e José Bleger. Nesse caso específico, o
pensamento dialético da psicanálise Argentina tem buscando a síntese entre o
psíquico e o social, ultrapassando a dicotomia aparente entre esses conceitos
através da noção de vínculo. Trata-se de uma psicologia dos vínculos
sociais, no campo da esfera psíquica. Como tal é uma das tendências mais
modernas da ciência, preconizada por Freud, e em tempo mais remoto ainda, por
Kardec (esse fato também é desconhecido da maioria dos psicólogos, mas pode
ser constatado nas “Obras Póstumas” de Kardec)
Todas essas abordagens convergem para um mesmo ponto, e todas elas são
coerentes com a posição Espírita sobre o assunto, corroborando a idéia de
que as descobertas e elaborações científicas, tanto anteriores quanto
posteriores ao Espiritismo, em sua maioria, se dirigem à confirmação dos
postulados Espíritas (temática continuamente referida pela bibliografia Espírita,
e continuamente reconfirmada, de maneira incansável).
Na conferência anual da
Associação Cristã, em setembro de 1916, pela primeira vez, Piaget entrou em
contato com a doutrina psicanalítica de Freud, através de uma palestra sobre Religião
e psicanálise.
As questões relacionadas
com a fé cristã passaram em momento posterior a interessar a Piaget, em conexão
com a pergunta sobre como se comportariam elas sob o aspecto psicológico-desenvolvimentista.
Demonstrou que do ponto de vista da moralidade – sob uma perspectiva
estrutural e psicológica – a decisão sobre o bem e o mal, de modo algum, se
processa de forma arbitrária e absolutamente subjetiva, havendo uma espécie
de “normas independentes da vontade individual e da opinião pública” (Kesselring,
1993). Essas seriam as normas da razão universal e impessoal, que
se concretizam na convivência, na cooperação: tendo Piaget, antes de 1920,
identificado o bem com a vida, vincula-o, agora, com a cooperação, à qual o
homem, num determinado nível do seu desenvolvimento, necessariamente chegará.
Além de Piaget, Jung e Kardec, outros autores se dedicaram ao estudo da
relação entre Fé e Razão, havendo hipóteses favoráveis a essa interação
nas mais diferentes áreas de pesquisa, como na Psicanálise, na Psicologia
Fenomenológica, na Antropologia das Religiões Comparadas, na Sociologia e nas
Ciências Sociais de forma geral.
Outro aspecto em que Piaget concorda com o Espiritismo, é em relação
à doutrina evolucionista de Darwin. Enquanto a maioria das religiões e
teologias se opõem à teoria da Evolução (em favor de uma visão Creacionista
simplista), o Espiritismo é uma das poucas Doutrinas que a apóia. O
Espiritismo, na verdade, mantém a hipótese da criação do Universo e de tudo
o que existe, como sendo obra de Deus (creacionismo), mas substitui o
entendimento e a concepção mágica, idelizada, onipotente, simplista,
infantilizada, e alienada da visão arrogante de algumas teológias
tradicionalistas (baseadas numa “hermenêutica do literal” em falta
com uma visão mais simbólica dos conteúdos religiosos), pelo esforço em
compreender os mecanismos e Leis criados e utilizados por Deus para a criação
do Universo, da vida e do homem. A astronomia e a Física são as ciências
voltadas para o estudo da criação do Universo. A biologia, por sua vez, nos
esclarece a origem da vida e do homem, e é nesse contexto que a teoria da Evolução
ganha a sua importância. O Espiritismo não é a única doutrina a defender uma
cosmovisão mais racional da realidade. Diferentes doutrinas místicas e
orientais (com destaque para o Budismo e o Taoísmo), possuem a racionalidade
como um fator aliado à simbologia intuitiva. O mesmo pode ser dito de algumas
tendências teológicas modernas, como a iniciativa da Teologia da Libertação
no catolicismo moderno que alia uma visão simbólica à racionalidade crítica
do método dialético-histórico-social.
Assim, Piaget considerava o lamarckismo e o neodarwinismo antitéticos um
com relação ao outro; porém, o autor vislumbrou para o plano da biologia
evolucionista uma possibilidade de superar, através de uma síntese, tais
visualizações contrárias.
Lamarck preconizava que a transformação das espécies se processa por
meio de alterações orgânicas “fenotipicamente” adquiridas e transmitidas
por herança aos descendentes. No entanto, segundo o entender neodarwinista
(hoje geralmente reconhecido), a transformação das espécies é devida a mutações
e recombinações genéticas. Os indivíduos particularmente aptos possuem as
maiores chances de transmitir os seus genes aos descendentes. A lenta transformação
das espécies fundamentar-se-ia, pois, em mutação, recombinação genética e
seleção.
Para Piaget, a suposição de Lamarck, além do fato de nunca ter sido
comprovada, padece de uma debilidade puramente teórica: o organismo, segundo
ela, é parecido com um pedaço de cera, que se pode moldar e deformar à
vontade. Com tal pressuposição, a relativa estabilidade das espécies
permanece inexplicável. Registre-se que Piaget, ainda como aluno de ginásio,
fora adepto, por algum tempo, da teoria lamarckiana.
Ainda antes do início dos estudos de terceiro grau, repudiou-a, sem,
contudo, aderir inteiramente ao neodarwinismo, cuja explicação lhe parecia
demasiado diferenciada. Sobretudo notou faltar à teoria da mutação (que
comparou com a epistemologia de Kant e com o convencionalismo de J. Poincaré)
uma explicação convincente daqueles fenômenos cuja gênese aponta para uma
interação entre organismo e meio. Como se forma, por exemplo, a calosidade nos
pés de embriões de avestruzes? E qual é a causa de linhas convergentes
na evolução de espécies diferentes – como, por exemplo, no caso da formação
do olho com cristalino em espécies animais totalmente diversos?
Piaget propôs uma explicação de tais fenômenos à base do que ele
chamou de “fenocópia”. Sua proposta visava a complementar os fatores de
mutação casual e seleção, chamando a atenção sobre a atividade dos
organismos. Na verdade, e esse é o ponto fundamental, a hipótese de Piaget
acaba questionando o caráter dito “casual” das mutações genéticas, na
teoria Darwinista.
Sabemos
que para o Espiritismo – que também apóia a teoria Evolucionista – as mutações,
porém, não ocorrem ao acaso (como para Darwin), mas possuem uma direção
evolutiva progressiva, determinada por um sistema de forças denominada Força
Organizativa dos Sistemas Biológicos, uma força endógena, interna ao
organismo, postulada a partir de estudos interdisciplinares na biologia e na física.
O Espiritismo postula ser, essa Força Organizativa dos Sistemas Biológicos,
uma modalidade de manifestação do Princípio Vital enquanto uma Energia
Espiritual, pois o conceito de ação espiritual, engloba a concepção de uma ação
dirigida, ou que possui uma direção, e inclusive, uma direção inteligente.
Na física, essa noção é similar ao conceito cosmológico de “Ordem
Implicada” sugerida pelo físico quântico David Bohm, um dos maiores nomes da
Física Moderna (Bohm, 1980).
Piaget também questiona o caráter casual das mutações genéticas,
partindo por um caminho diferente do Espiritismo, porém, complementar. Segundo
o autor, uma seleção das mutações “favoráveis” não se perfaz apenas
através do meio externo, mas também através do “meio interno”, do próprio
organismo, havendo portanto, uma determinação endógena de tais fatores.
Piaget se representava o “meio interno” como uma hierarquia de processos
auto-reguladores a comandarem as relações entre o organismo e o meio.
Concordava com a teoria neodarwinista em dois pontos: primeiro existem
alterações genotípicas e fenotípicas – alterações que decorrem da interação
entre o organismo e o mundo exterior (variações fenotípicas) somente podem
ocorrer em certa medida geneticamente determinada. Tais alterações
não afetam o sistema genético, nem são transmitidas hereditariamente; em
segundo lugar, a razão última da variação das espécies (alteração do
genoma) encontra-se nas mutações.
Todavia, Piaget se desviou da explicação básica do neodarwinismo,
acrescentando a ela uma reflexão adicional decisiva: admitindo-se que os genes,
com grande freqüência sofrem mudanças, e que os efeitos de cada mutação em
particular somente podem manifestar-se a partir de um sistema de regulações
hierarquicamente construído - um sistema que regula ao mesmo tempo o processo
vital do organismo em seu meio ambiente – não se pode considerar implausível
a hipótese de que depende dessa interação (entre organismo e meio) se
as mutações numa situação particular produzem efeito e de qual forma elas
atuam. Se forem “canalizadas” de modo conveniente pelo meio interno, então
com certa probabilidade, origina-se, mais cedo ou mais tarde, uma “cópia”
do fenótipo através do genótipo – a “fenocópia” (Kesselring, 1993).
Como disse Piaget, em 1974, “... Se o novo genótipo representa o último
resultado de conflitos e interações entre o organismo e o mundo externo (...),
o fator que produz a adaptação já não é o mundo externo como tal, mas
por certo e sempre a ação que o organismo exerce sobre ele” (ver
Kesselring, 1993).
Tal proposição indubitavelmente é especulativa, porém plausível. A
participação do organismo no processo de adaptação é insusceptível de
demonstração empírica direta, o que Piaget atribuiu ao fato de ela se tornar
perceptível somente no decorrer de longos espaços de tempo.
Piaget não admitia em nenhum plano, como explicação única, o
efeito de eventos casuais ou de influências externas. Reportando-se às mais
profundas camadas da organização biológica, insistia ele no papel decisivo da
atividade vital, denunciando marcas de leituras bergsonianas sobre a “evolução
criativa”, mesmo porque, Bergson foi uma influência filosófica decisiva na
Psicologia Cognitiva e na Epistemologia Genética de Jean Piaget. Essa mesma
influência que vamos encontrar na teoria da energia orgônica de Wilhelm Reich
(em sua Psicologia Bioenergética), também iremos encontrar na postulação da
Força Organizativa dos Sistemas Biológicos (nos estudos de Biologia e Física),
assim como na maioria das teorias orientais e em suas terapêuticas (técnicas
de massagem, acupuntura, etc). Trata-se aqui, do vitalismo (teoria da existência
de uma energia vital ou “élan vital”) proposto pelo filósofo Henri Bergson.
Na terminologia Espírita, essa energia vital é proveniente da Energia Cósmica
Universal, existente em todo o Cosmos (como o próprio nome sugere). O vitalismo
é uma posição filosófica convergente em todas as teorias tratadas aqui, e
embora alguns a considerem ultrapassada, as novas descobertas que têm sido
realizadas na física e na biologia, têm contribuído para o ressurgimeto do
vitalismo em tempos modernos. Sobre isso falarei em outra oportunidade.
Para Piaget, a descoberta do “élan vital” por Bérgson, foi uma
experiência impressionante. Em sua autobiografia escreveu “... Lembro-me da
noite em que experimentei uma revelação profunda: a identificação de Deus
com a própria vida era um pensamento que em mim quase chegou a provocar um êxtase,
porque daí em diante me permitiu ver, na biologia, a explicação de todas as
coisas e do próprio espírito”.
Um tópico final deve ser agora tratado: para o Espiritismo a inteligência,
qualidade essencial do espírito, tem o seu desfecho no homem, enquanto que nos
outros seres vivos é considerado um princípio espiritual em desenvolvimento
evolutivo progressivo. Em Piaget, podemos encontrar uma idéia similar, na
consideração por parte desse autor, de que mesmo nos seres mais simples e
unicelulares, animais ou vegetais, sempre é possível identificarmos algum nível
de atividade ou comportamento cognitivo atuante, e portanto, algum
processo de inteligência e adaptação. A cognição, é portanto, uma
potencialidade de todos os seres vivos, segundo Piaget, e isso o diferencia da
posição de muitos psicólogos ortodoxos (Kesselring, 1993).
Concluindo: Vimos que em Psicologia, o pensamento Holístico está fortemente presente nas abordagens humanistas, especialmente na Gestalt, e muito mais, na Psicologia Transpessoal. Vimos, também, a forte complementaridade entre a Filosofia Holística e a Filosofia e a Ciência Espírita modernas, fundamentando uma Psicologia de orientação Espírita.
Resumidamente,
destacam-se 4 princípios básicos do Paradigma Holístico, importantes para a
compreensão posterior de seus fundamentos metodológicos e epistemológicos:
I.
A consciência humana ordinária (relativa à percepção
corporal e do ego no estado de vigília) compreende apenas uma parte ínfima da
atividade total do psiquismo humano;
II.
A mente ou consciência humana, ou o espírito humano,
estende-se no tempo e no espaço, existindo em uma unidade dinâmica, ou melhor,
em uma relação contínua com o mundo que ela observa;
III.
O potencial de criatividade e intuição é mais global do
que se imagina comumente, abrangendo todos os seres vivos;
O processo de evolução para níveis de maior complexificação e transcendência é algo de muito valioso e importante. É uma tendência à auto-atualização, segundo Maslow e Carl Rogers. Vimos uma idéia parecida, em Piaget, aplicada à teoria da Evolução, complementar à visão Espírita.
Texto
produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)
E-mail: [email protected]
- Site: www.psicologiaespirita.rg3.net
E-mail da Abrape: [email protected]