O objetivo deste artigo é situar a Psicologia - ciência que estuda o comportamento e o psiquismo humano - no movimento mundial de conhecimento que caminha em direção à descoberta do espírito.
por Adalberto Ricardo Pessoa
Kardec,
assim como outros espíritos importantes da codificação, sugeriram que a ciência
caminharia para a comprovação dos postulados Espíritas, contribuindo para
superar a cisão que historicamente se instaurou entre ciência e religião.
Ultimamente têm surgido artigos científicos na área da Medicina, das neurociências,
da biologia, e das várias áreas da Física Moderna, incluindo a Cosmologia e a
Astrofísica, que trazem indícios importantes para a comprovação da hipótese
da existência do Espírito. Isso parece indicar a ocorrência de um fenômeno
mundial seguindo essa direção, possivelmente com importantes implicações
sociais. Nesse sentido, encontramos tanto obras de autores encarnados, quanto
obras de inspiração mediúnica orientadas por espíritos desencarnados. Esse
movimento não parece circunscrito apenas ao Espiritismo, mas sim, tem incluído
pesquisadores de fora do círculo Espírita, alguns ligados a outras tradições
espiritualistas (como as tradições Orientais, a Teosofia, a Antroposofia, ou a
Cabala, entre outras), e outros mesmo, sem qualquer ligação ou filiação
religiosa formal. Kardec já afirmava que Deus divulga as suas verdades em todos
os campos de conhecimento humano – seja nas várias teorias da ciência, da
filosofia, da arte ou da religião – e não as restringe a um único sistema
teórico. Nesse contexto amplo, o objetivo desse artigo é situar a Psicologia
– ciência que estuda o comportamento e o psiquismo humano – em relação a
esse movimento mundial do conhecimento que caminha em direção à descoberta do
Espírito. Acredito que como disciplina científica, a Psicologia não pode se
excluir desse debate.
Porém, paradoxalmente, a psicologia começou negando essa possibilidade. Mais do que negar o Espírito, a Psicologia no final do século XIX e início do século XX negou a própria existência da mente! Watson, o fundador da escola teórica chamada Psicologia Comportamental (ou Behaviorismo, como alguns preferem chamar) dizia que o pensamento era produto exclusivo do funcionamento neurofisiológico do cérebro, e que aquilo que chamamos de mente, na verdade, não existe. Seu sucessor, B. F. Skinner, tentou realizar uma correção dessa idéia, dizendo que os processos mentais existem, mas que o pensamento e os sentimentos não influenciam a manifestação de qualquer comportamento manifesto.
Existem, hoje, muitas escolas teóricas na Psicologia, e para a maioria delas, essa posição da teoria comportamental é considerada no mínimo ilógica, quando não, ridícula! Historicamente, essa posição behaviorista extremamente materialista – já que para eles o pensamento é produto do funcionamento biológico do cérebro e de cadeias de estímulos ambientais – constituiu a primeira grande teoria (ou como alguns costumam chamar, a “Primeira Grande Força”) da ciência da Psicologia. Hoje essa posição já está superada, embora exista uma certa parcela de pesquisadores que insistem em se apegar a esse paradigma, defendendo inclusive a sua legitimidade científica.
É no começo do século XX que surge, então, Sigmund Freud, que ao fundar a Psicanálise – a “Segunda Grande Força” da Psicologia – ainda que tomando como ponto de partida o funcionamento do cérebro, começa a transcender o conceito materialista da mente, ao elaborar o que ele chamava de uma metapsicologia – ou seja, ele começou a realizar uma descrição da personalidade, como um fenômeno parcialmente ligado à nossa constituição física, porém independente desta.
Cientificamente, para postularmos o conceito de Alma, precisamos identificar elementos e processos mentais relativamente estáveis, de forma a estruturar uma configuração subjetiva que identifique uma identidade, gerando o conceito de indivíduo. É exatamente isso que a Psicanálise, entre outras coisas forneceu: ela foi a primeira escola de Psicologia a fornecer uma teoria consistente de personalidade (como sendo o conjunto de elementos estáveis que identificam o jeito próprio de ser de uma pessoa – a sua “essência”, digamos assim), de forma que conceitos comuns da psicologia como “personalidade, psique, mente, subjetividade” parecem todos serem terminologias usuais da ciência para designar aquilo que normalmente reconhecemos nos estudos espirituais, como sendo o conceito de Alma. Sob a ótica dos primeiros comportamentalistas essas noções pareceram um tanto metafísicas. Mas, pelo contrário, a experiência clínica de Freud e outros psicanalistas mostraram o caráter empírico da experiência psíquica. A psicanálise abriu as portas da psicologia ao estudo da Alma, embora não tenha assumido isso de maneira expressa.
Outro pesquisador, chamado Carl Rogers, também ofereceu a sua contribuição. Rogers é o principal nome da chamada Psicologia Humanista, a “Terceira Grande Força” da Psicologia. Partindo de uma visão existencialista, os psicólogos humanistas se ocuparam com as grandes questões existenciais do ser humano: quem sou eu, de onde vim e para onde estou me encaminhando? Em busca de respostas para tais questões, os teóricos dessa Terceira Força começaram a reconhecer a existência de uma dimensão que se encontra além do nosso conceito personalístico de subjetividade ou de individualidade. Uma dimensão que começaram a descrever como trans-humana ou transpessoal, sendo que o prefixo “trans” sugere transcender a noção ou conceito de pessoa. Esses teóricos foram, portanto, intermediários para o que foi chamado o surgimento da “Quarta Grande Força” ou Psicologia Transpessoal.
Nesse ponto devemos lembrar primeiramente que Freud trouxe o conceito de inconsciente, mostrando que existe uma poderosa dimensão que desconhecemos em nós mesmos, de onde brotam impulsos e desejos de todos os tipos, originando satisfações, conflitos, distúrbios psíquicos, e ocasionalmente comportamentos anormais em qualquer pessoa supostamente normal. Temos, então, outro grande pesquisador – Carl Gustav Jung – que após separar-se de um longo período de contribuições mútuas com Freud e a Psicanálise, aprofundou em seus estudos psicológicos, a pesquisa comparativa das religiões ocidentais e orientais, e do simbolismo dos sonhos, e concluiu existir uma dimensão transpessoal na psique que ele denominou de inconsciente coletivo.
Com uma nova visão do inconsciente, Jung apresentou esse conceito como a porta de entrada para a dimensão transpessoal da personalidade. O termo transpessoal passou a ser a terminologia empregada pela ciência para designar o mesmo que “espírito”. É claro que a teoria transpessoal ainda é muito contestada nos círculos acadêmicos da Psicologia, pelo menos no Brasil. Mas, foi C. G. Jung (na década de 1960) que também realizando pesquisas adicionais na área da Parapsicologia, e ainda, na zona intermediária entre Psicologia e Física Moderna, que especulou em seus últimos escritos (que ao todo juntam 60 anos de pesquisas) a possibilidade da existência de uma realidade transpsíquica (leia-se aqui, de uma realidade espiritual que transcenda o nosso conceito comum de morte).
Jung, que para muitos, é uma grande referência para os pesquisadores da chamada “Quarta Força” teve o mérito de aproximar a Psicologia de diversos outros campos de conhecimento, incluindo a Física Moderna. Inspirado nessa ciência, ele pesquisou o conceito de energia Psíquica, e concluiu que a psique (ou Alma) por ser um fenômeno autônomo (como um sistema energético fechado em si mesma) transcende o cérebro e não pode ser completamente explicada por este. Nesse sentido, é interessante notar que uma série de renomados psiquiatras e neuropsicólogos reconheceram em artigos publicados na respeitada Scientific American, que de fato, mesmo o estudo completo do cérebro não é suficiente para explicar a mente e seus processos de pensamento (Chalmers, 2004). Jung, porém, já havia observado isso, na metade do século XX.
Tanto em sua época, como atualmente, psicólogos junguianos e transpessoais, assim como muitos físicos modernos (como David Bohm, Fritjof Capra e Danah Zohar) têm observado que as noções de matéria e espírito, na verdade não dizem respeito a conceitos realmente distintos ou separados, mas antes, são “a cara e a coroa” de um mesmo e único fenômeno ou processo global. Nesse sentido, a psicologia parece caminhar para reencontrar o conceito de alma e de espírito, mas agora num novo contexto situacional. Para os gregos antigos, a Psicologia era o estudo da alma, mas o conceito de ciência que emergiu do Renascimento e do Iluminismo, num primeiro momento fez a Psicologia negar o seu próprio objeto de estudo, como vimos no Behaviorismo. Com a Psicanálise e a Psicologia Transpessoal parece que a psicologia está retomando o estudo da alma, porém agora apoiada por descobertas científicas tanto em sua própria área, como em outras. É aqui que o Espiritismo oferece a sua contribuição.
O conhecimento Espírita amplia ainda mais as implicações das descobertas realizadas pelas últimas teorias psicológicas em ascensão. Por exemplo, sob a ótica Espírita, o Inconsciente Coletivo (proposto por Jung) – que contém toda a herança de potencialidades (geneticamente) herdadas pela humanidade (como a capacidade de amar ou odiar, raciocinar, criar, etc) – ao abrir as portas da dimensão transpessoal (ou espiritual) da psique, também se apresenta como uma matriz estrutural de potencialidades humanas desenvolvidas em vidas passadas. Explicando: o saber Espírita reconhece no gene, mais do que uma estrutura biológica, um receptáculo da vontade psicocinética do Espírito (ou da alma) sob a matéria biológica observável, fenômeno este, factível através de complexos mecanismos biofísicos e psicossomáticos. Nesse sentido, quando Jung afirmava que a base dos “arquétipos” (ou estruturas) do inconsciente coletivo se situava no âmbito genético, para a visão Espírita, isso implica que na configuração genética da própria humanidade residem as “idéias inatas” que Kardec citava (entendamos, aqui, “idéias inatas” muito mais como sendo impulsos e tendências estruturais, do que conteúdos de idéias concretamente formadas ou prontas), e que por analogia podem corresponder à matriz estrutural de contribuições de vidas passadas do Inconsciente Coletivo (ou Transpessoal) de Jung. Isso faz sentido se utilizarmos o conceito de matéria, que muitos físicos modernos estão utilizando atualmente, ou seja, o de que sendo matéria e espírito, aspectos de um mesmo processo, do ponto de vista biofísico, os genes são receptáculos biológicos da energia (e, portanto da vontade) do espírito, e do ponto de vista psicossomático, constituem o elo orgânico da dimensão transpessoal com o inconsciente coletivo.
O Espiritismo, dentro dos limites de sua contribuição particular, inclui o paradigma da reencarnação e de Deus na explicação da alma humana. Por outro lado, observa-se que depois de Jung e da Psicologia Transpessoal, essa dimensão transpsíquica ou espiritual do homem a que chamamos Alma tem sido objeto de estudo de novas teorias psicológicas que vêm surgindo ou se renovando, como ocorre com a Psicanálise Integral de Norberto Keppe, a Psicologia Szondiana, e a Psicobiofísica fundada por Hernani Guimarães Andrade (este último a partir dos desdobramentos teóricos e experimentais da Parapsicologia e do Espiritismo). A visão Evolutiva Espírita antevê na Lei do Progresso que a Psicologia caminha em uma nova direção, que inclui a própria contribuição Espírita em contexto interdisciplinar com esses outros ramos da ciência. Tudo indica que o século XXI constituirá o momento histórico em que a Psicologia descobrirá, de forma definitiva, a Alma Humana. Juntas, a Psicologia e o Espiritismo deverão inaugurar aquilo que, em minhas próprias pesquisas, denominei “A Quinta Força”.
Ed. DPL
Adalberto Ricardo Pessoa
Chalmers, David J. O Enigma da Consciência. Scientific American Brasil, Edição Especial Segredos da Mente, São Paulo, número 4, p. 40-49, abril de 2004.