Sobre a importância da reflexão filosófica na produção do conhecimento

 Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos. 

Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, do conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde, e a invenção das técnicas e das artes.

 Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana.

Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhece-lo para transforma-lo, transformação que traria justiça, abundância e felicidade para todos.

Merleau-Ponty escreveu que a filosofia é um despertar para ver e mudar o nosso mundo.

Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.

Esse esboço inicial demonstra que a Filosofia é conceituada de muitas maneiras, de acordo com a visão de um ou outro autor. A definição “strictu-sensu” de Filosofia, por outro lado, diz menos o que ela é, do que o seu conteúdo interno, desenvolvido por cada escola teórica e seus autores principais.

Poderíamos tentar a seguinte definição de Filosofia: conhecimento humano baseado na lógica e dedução, através do raciocínio ordenado, buscando explicar os fenômenos e fatos relativos ao Universo e ao próprio ser humano, procurando conhecer-lhes as causas – Primeiras, Intermediárias e Últimas. Aqui, enfatiza-se o fato de que na Filosofia o conhecimento é produzido através do exercício do “Livre-Pensamento”.

Encontramos também a Filosofia conceituada como “a ciência geral do ser, do princípio e das causas”. Nesse contexto, a filosofia é a ciência não das coisas (no sentido de fenômenos sensíveis), mas do “por-trás-das-coisas”. O indivíduo nunca se satisfaz só com as respostas imediatas e experimentais; sempre teve necessidade de ir “além disso”. Ele sabe que existe esse “além disso” e nada poderá impedi-lo de procurar compreender melhor sempre esse além. Quando as outras ciências param, cabe à Filosofia o ônus de continuar adiante na procura da verdade.

Ciência, aqui, é o mesmo que conhecimento certo ou conjunto organizado de conhecimentos certos (esse conceito é muito similar com a concepção de ciência pelos antigos pesquisadores Védicos e Hinduístas Indianos), e não sinônimo de conclusão ou conjunto de conclusões de processos experimentais.

Nesse sentido, a Filosofia é eminentemente uma ciência metafísica no sentido mais pleno da palavra. Ela vem após e vai além das ciências físicas ou experimentais, muito embora possa ter e tenha na experiência, principalmente na experiência científica, seus principais alicerces ou pontos de partida.   

A filosofia é a ciência, não dos seres como tais, mas dos seres enquanto seres, onde a univocidade experimental desaparece para deixar lugar às analogias ônticas. A ontologia – área de conhecimento da qual se origina o material para legitimar essas analogias – é a ciência que estuda a natureza do “ser” enquanto ser, considerado em si mesmo, independente da matéria e da especulação da essência; Parte da metafísica que trata dos entes em geral.

 A “taleidade” dos seres ocupa a filosofia até que outra ciência encampe esses aspectos desmembrando-se dela, como tem acontecido tantas vezes, de fato, na história da ciência. 

Filosofar pode ser considerado como sendo um esforço supremo da inteligência, na procura de uma verdade da realidade transcendental. Transcender é o mesmo que ser superior a, elevar-se acima de ou exceder algo, os limites de alguma coisa ou de alguém.  Observe-se aqui, que implicitamente esse discurso retoma a idéia da filosofia como uma ciência que busca aquilo que se encontra por trás do imediatamente aparente, resolvido e/ou esgotado, reforçando a idéia de que o homem jamais poderá ter suas indagações e sede de conhecimentos satisfeitos.

Podemos destacar três grandes áreas na Filosofia: Filosofia do Ser, do Conhecer e do Dever.

I. No campo do ser o filósofo enfrentou e ainda enfrenta problemas como:

1)   inércia ou movimento ou dinamicidade;

2)   unicidade e pluralidade;

3)   atualidade existencial e possibilidade;

4)   necessidade e contingência;

5)   espiritualidade e materialidade;

6)   tempo e eternidade;

7)   causalidade e indeterminação;

8)   e o próprio problema do monismo, dualismo ou pluralismo.

         

II. No campo do conhecer, o indivíduo auto-analisa sua capacidade intelectual e sua maneira de entender e, assim, defronta questões:

1)   do abstrato e do concreto;

2)   do singular e do universal;

3)   do real e do ideal;

4)   do verdadeiro e do falso;

5)   da ciência (como posse da verdade) e do ceticismo;

6)   da difícil passagem, enfim, do conhecer ao ser;

 

III. No campo do dever, examina o filósofo a atividade mais complexa do homem e também a mais humana do mesmo homem, e suas conseqüências práticas. Estuda aqui:

1)   a liberdade e a predeterminação;

2)   o bem e o mal;

3)   o normalismo e o relativismo;

4)   o valor individual e o social;

5)   o belo e o feio;

6)   a vida e a morte;

7)   e mais outros problemas vitais relacionados com esses, como os educacionais, políticos, jurídicos, etc.

 

O caráter antropológico ou antropocêntrico, nas três áreas citadas, é visível na preocupação cada vez maior do homem, consigo mesmo. O homem só pode conhecer a si mesmo e aos outros seres com relação a ele mesmo. Muito embora consciente de não ser a cúpula do universo, sabe que é uma espécie de síntese importante dele, e que seu destino é tentar desvendar cada vez mais esse universo, partindo de si mesmo, e ao mesmo tempo avançando em seu processo cósmico e histórico de autoconhecimento. É essa concepção moderna tão arquetipicamente similar a dos filósofos místicos que discursavam sobre o macrocosmo e o microcosmo humano.

Nessa ebulição do pensamento humano transcendental há uma indiscutível evolução. Não só um progresso, um aprofundamento, como também uma dialética histórica, de avanço e de retorno (esse último, no sentido de retomada, não de recuo ou de volta para trás – é a lei da reflexão intelectual e do livre pensar).

Há também períodos cíclicos de predominância de área: do ser, do conhecer e/ou do dever. Essa última, porém, sempre está presente em maior ou menor intensidade.

Em outras palavras:

1)    Há uma direção dominante: antropocêntrica e antropológica;

2)    Há uma evolução: dada por uma dialética histórica de avanços e retomadas;

3)    Há uma constante: a presença em graus variados dos questionamentos e debates da Filosofia Moral. Aliás, nos períodos históricos da Humanidade, considerados como “humanistas”, por coincidência, tivemos as filosofias predominantemente moralistas.

 

Uma análise histórica demonstra a influência do passado no futuro. Por afinidade, um pensador confirma e amplia os conhecimentos dos que o precederam. Por antítese, um filósofo esclarece com sua crítica os erros do passado e, embora sendo causa de outros erros no futuro (causa ou pelo menos ocasião), é desbravador de novos caminhos para a posteridade.

Existem muitas categorias de classificação relativas a história da filosofia, sendo que nenhuma é definitiva, nem deveria ser adotada de forma rigorosa e unilateral. Uma classificação proposta é a seguinte:

1)    Da filosofia oriental, predominantemente moralista, desembocamos nos séculos VI e V antes de Cristo, onde os filósofos gregos, eleatas e jônios (Heráclito, Parmênides, Zenão, Demócrito, entre outros) preocupam-se com o ser que permanece e o que passa.

Ainda no século V a.C., os pitagóricos, os sofistas e Sócrates levantam questões sobre conhecimento humano, e Platão, por antítese, prepara, de imediato, a grande síntese de Aristóteles.

2)    Retornamos, ainda no século IV a.C., com Epicuro, aos problemas morais com caráter predominante, e nessa linha ética seguem os séculos I a.C. com Fílon, e os primeiros séculos da Era Cristã com os filósofos romanos e cristãos (Sêneca, Marco Aurélio, e depois Santo Agostinho, entre muitos outros);

3)    O século XII, após um longo período de gestação, ressuscita, com os árabes (Avicena, Averróis e outros) a metafísica aristotélica e com os chamados pré-escolásticos (João Escoto, S. Anselmo, Abelardo e outros) levantam-se os problemas decorrentes da harmonização entre fé e ciência.

Tudo isso vai resultar em uma nova grande síntese genial: a de S. Tomás de Aquino.

4)    Nenhuma fase apaga-se repentinamente. Não há interrupções bruscas, inexplicáveis. Com oscilações, filósofos eminentes continuam analisando a sistemática tomista. Análise que tem um ponto culminante em Suárez.

Mas agora, nos séculos XIV e XV o humanismo volta a tomar conta dos pensadores que, deixando num segundo plano os problemas metafísicos, procuram determinar um ideal de comportamento humano. Nesse grupo podemos colocar IBN Khaldun, Vives e ainda Montaigne.

5)    Nova crise do conhecimento humano irrompe com Descartes e se prolonga com Spinoza, Locke, Hume e outros, até encontrar em Kant uma grande síntese, muito embora não mais na linha aristotélico-tomista, mas que também não poderá evitar o confronto com ela.

6)    Cansados, em parte, das divergências intelectualistas do idealismo pós-kantiano, como acontecera antes com o escolasticismo, Rosseau e depois Nietzsche, Marx e Kierkegaard, para citar só alguns nomes da longa lista de eminentes filósofos que ocupam essa antologia dos três últimos séculos, retornam com vigor extraordinário aos problemas humanos morais, ao social e ao individual, à liberdade, à autonomia, ao dever, ao sentido da existência consciente, que não tinham encontrado ainda respostas satisfatórias.

7)    Vamos culminar em Sartre que considera o seu existencialismo (no seu fundo genérico) um humanismo.

 

Vivemos numa crise de comportamento humano e a preocupação dos filósofos das últimas gerações gira em torno dos problemas éticos com destaque especialíssimo, embora já apontando preocupações ônticas (especialmente direcionadas para o questionamento da natureza íntima do ser humano e o seu autoconhecimento); Não por acaso, essas são questões tratadas de forma privilegiada nesse trabalho de pesquisa, como um todo .

Eis onde nos encontramos: é o ser humano analisado em primeiro plano, pesquisado, anatomizado, olhado no conjunto social e na individualidade, tentando dar-lhe um sentido pleno e transcendental.

Nesse contexto, o paradigma cartesiano – proposto pelo filósofo francês René Descartes – nas últimas décadas vem dando vários sinais de esgotamento; vários autores da escola fenomenológica não se cansam de apontar esse fato. Sob vários aspectos e em diversas áreas, o paradigma cartesiano é insuficiente para responder aos anseios da humanidade atual.

Devido ao caráter utilitarista e imediatista dos indivíduos (especialmente das sociedades capitalistas ocidentais), costuma-se dizer que a filosofia e a metafísica são abstrações sem fins práticos, por isso inúteis. Porém, esse equívoco é claramente evidente quando observamos que, até mesmo o mais “objetivo” e empírico sistema científico necessita de um sistema filosófico que o fundamente.

Imaginemos o seguinte conceito de ciência: conhecimento humano baseado na experimentação, na medição, no método cartesiano, buscando sempre uma explicação racional e o controle dos fatos e fenômenos relacionados com os Seres Orgânicos, Inorgânicos, e com o próprio Universo, de maneira detalhada, geral e objetiva. Vemos que o sistema filosófico que fundamenta esse conceito de ciência é o sistema cartesiano de Descartes. Nesse sistema, considera-se que a descrição de um fenômeno é feita “a partir do exterior” por um observador, ou seja, existe um fenômeno da natureza independente do sujeito observador havendo, portanto, nítida separação entre sujeito e objeto.

Ou seja – segundo o psicanalista argentino José Bleger (1964) – nas ciências da natureza, segundo o ponto de vista cartesiano tradicional, a observação científica é objetiva, no sentido de que o observador registra o que ocorre, os fenômenos que são externos e independentes dele, com abstração ou exclusão total de suas impressões, sensações, sentimentos e todo estado subjetivo; um registro de tal tipo é o que permite (segundo a visão filosófica cartesiana) a verificação do observado por terceiros que podem reconstruir as condições de observação. Segundo o próprio Bleger, sabe-se que esse esquema filosófico se mostrou estreito e ingênuo, dentro das próprias ciências exatas e naturais, das quais se originou, e como tal já foi superado no início do século XX. Os cientistas de hoje que insistem nesse quadro referencial de forma unilateral, na verdade, já estão atrasados em mais ou menos um século. Isso é apontado continuamente, por exemplo, na Matemática e na Física Moderna, por diversos cientistas (Capra, 1983; Bohm, 1980).

Mas há muitos outros conjuntos de sistemas filosóficos e junto com eles, outros conceitos de ciência. Na fenomenologia ou filosofia fenomenológica, por exemplo, a descrição ou observação propriamente dita, contextualiza-se ou constitui-se enquanto tentativa de compreensão que se realiza no interior do próprio fenômeno, tal como percebido, experimentado e vivido ou organizado por aqueles que fazem parte integrante do fenômeno ou de um dado acontecimento. O termo fenomenologia significa estudo dos fenômenos, isto é, daquilo que aparece à consciência, daquilo que é dado. Trata-se de explorar este dado, a própria coisa que se percebe, em que se pensa, de que se fala, evitando forjar hipóteses, tanto sobre o laço que une o fenômeno com o ser de que é fenômeno, como sobre o laço que o une com o Eu para quem é fenômeno.

Na fenomenologia, portanto, temos um novo modelo e conceito de ciência: aqui, anula-se e supera-se a rígida separação entre sujeito (observador) e objeto (observado). Temos em contrapartida o sujeito participante (até se pode falar em um sujeito observador participante), sendo que a sua subjetividade é um elemento diretamente constituinte da compreensão fenomenológica – logo, no conceito de interpretação fenomenológica, há a valorização da subjetividade na construção do conhecimento científico, enquanto no modelo cartesiano o mais comum era a sua evitação, controle ou negação. O modelo de ciência baseada na filosofia fenomenológica é muito comum nas ciências humanas e interpretativas, por exemplo. A filosofia holística, porém, vai levar o paradigma da subjetividade e da intuição, inclusive ao campo das ciências exatas, como na Física Moderna, de onde é parcialmente derivado. 

O que marca a maioria dos sistemas filosóficos é a complexidade de seus conteúdos, e sua consistência e coerência internas. Nenhuma teoria filosófica pode ser caracterizada por uma simples definição teórica, mas sim pela consideração da complexidade de seu corpo doutrinário como um todo. Uma vez que existem vários sistemas filosóficos, também a ciência pode ser definida de diferentes formas. O conceito de ciência na filosofia fenomenológica não é o mesmo que no positivismo racionalista de Descartes.  Em outros sistemas filosóficos como na filosofia holística, por exemplo, o conceito de ciência adotado, ainda é outro. No mais, observamos que uma dada filosofia fundamenta não só um sistema científico, mas pode oferecer as bases de um sistema religioso ou místico, ou de um movimento artístico, social ou político.

Nesse contexto geral, tem surgido como Modelo emergente, o Paradigma Holístico, não sendo poucos, os que suspeitam que ele venha a ser o modelo dominante para as próximas épocas, contrapondo-se, ao ainda vigente, modelo paradigmático cartesiano.

A reunião da ONU (Organização das Nações Unidas) realizada no Rio de Janeiro, em 1992, sob o nome de Eco II, com a participação de quase 200 países e também, paralelamente, de centenas de Organizações Não-Governamentais (ONGS), seria um marco importante do movimento holístico representado por uma conferência de âmbito planetário, que anunciaria que a humanidade está começando a se nortear por novos sistemas de valores que questionam todas as barreiras e fronteiras estando, portanto, desatualizado e desinformado quem ainda não conseguiu atinar para o que está acontecendo, não sendo difícil que as novas gerações cada vez mais contribuam para a emergência dessa nova forma de apreensão do real, caracterizada pelo Paradigma Filosófico Holístico.

O próprio Codificador da Doutrina Espírita – Allan Kardec – ensinou que o mundo evolui através das sucessões de gerações (um artigo muito interessante é encontrado em suas Obras Póstumas). Segundo Kardec, novas gerações libertarão a Terra dos sistemas errôneos da vida, e outras gerações surgirão com idéias ainda mais novas e revolucionárias, substituindo as anteriores. Cada geração, herdeira da cultura adquirida das gerações anteriores, traz dentro de si mesma (porque se constitui de espíritos reencarnados) aptidões bastante desenvolvidas, para renovar a cultura da Terra e auxiliar na sua transformação, em todos os sentidos. Nas palavras do eminente filósofo Espírita Herculano Pires, “...Essas gerações, as gerações humanas, construirão na Terra um novo mundo. E na verdade, já o estão construindo. Nós vemos ao nosso redor que o mundo antigo está em derrocada. A civilização envelhecida está em processo de morte, de agonia, porque uma civilização nova vai surgir. Mas esta civilização nova surgirá sob o alvorecer das novas gerações, que construirão um mundo novo na Terra” (Pires, 2001).

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

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