Ética, Reflexão Crítica e Livre-Arbítrio

 

        Uma questão bastante debatida na religião e na filosofia Espírita é a questão dos valores éticos e morais na conduta do indivíduo autônomo. Segundo Marilena Chauí, professora de filosofia na Universidade de São Paulo (USP), o conceito de moral consiste nos “valores concernentes ao bem e ao mal, ao permitido e ao proibido, e à conduta correta, válidos para todos”. Já o conceito de ética é o de “uma filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais” (Chauí, 1995).

            A moral, portanto, refere-se à normatividade oriunda da sociedade, refere-se aos costumes, normas e regras que permeiam o cotidiano e que visam regular as relações entre os sujeitos. A ética, por sua vez, é a reflexão crítica sobre a moral, ou seja, pensar naquilo que se faz, repensar os costumes, normas e regras vigentes na sociedade.

            Tomemos, então, o livre-arbítrio como uma questão crucial para a definição do sujeito moderno, segundo a ótica cristã, e mesmo na concepção da psicologia científica contemporânea e do Espiritismo. Ao refletir criticamente sobre a moral, o sujeito assume uma postura ativa - condição essencial para a existência do sujeito ético - pois não limita sua ação às circunstâncias, à vontade de "um outro" externo a si mesmo, ou àquilo que é considerado "mecanicamente" como sendo certo ou errado.

            A Ética é, portanto entendida, não como a mera reprodução da moral, mas a reflexão, o pensamento, a revisão e a compreensão dos valores morais. Assim o sujeito ético é um sujeito ativo que indaga, problematiza, avalia e debate antes de agir. Nesse sentido, podemos falar de livre-arbítrio e autonomia.

            A palavra autonomia vem do grego autos, que significa "eu mesmo", "si mesmo" e nomos significa lei, norma, regra. "Aquele que tem o poder para dar a si mesmo a regra, a norma, a lei é autônomo e goza de autonomia ou liberdade" (Chauí, 1995). Nesse contexto, a moral implica a livre escolha do sujeito frente às diferentes possibilidades de solução de determinada situação. Kardec questionou se "o homem, por si mesmo, tem os meios para distinguir o que é bem e o que é mal" (questão 631 de "O Livro dos Espíritos"). A resposta que lhe foi dada é a de que quando o homem deseja saber sobre o bem e o mal, ele poderá utilizar da inteligência que Deus lhe concedeu para discernir um do outro.

            Assim sendo, tomemos como pressuposto que o homem é capaz de manifestar inteligência quando reflete criticamente sobre um assunto ou um objeto de conhecimento. Mas, "o que é refletir criticamente sobre algo" ? Qual é o conceito de reflexão crítica?

            Sinteticamente, "reflexão crítica" é a atividade de pensar e analisar uma temática de conhecimento, levando-se em conta a devida complexidade do conceito ou fenômeno abordado. Isso é comumente feito, abdicando-se de preconceitos, questionando-se idéias cristalizadas e estereotipadas, e abrindo-se mão das explicações simplistas e lineares, em favor de linhas de raciocínio mais completas, que avaliem um número amplo de variáveis que atuam sobre uma determinada situação ou questão.

            Isso é muito mais difícil de se fazer do que parece. No Brasil, o sistema educacional é muito deficiente, as grandes mídias sofrem de um sintoma que muitos cientistas sociais chamam de "processo de idiotização", muitas vezes com o objetivo tácito de manipular as massas (através da alienação), em favor das elites mais abastadas. Dessa forma, o raciocínio crítico deixa de ser estimulado na população. Esse processo, que na verdade se propaga em todo o planeta, demarca o nosso globo terrestre como um "mundo de provas e expiações" em sintonia com o psiquismo coletivo de seus habitantes. Esse quadro que parece pessimista à primeira vista, por denunciar um sistema de alienação coletivo num esquema de "ciclo vicioso", constitui na verdade uma grande prova para os Espíritos encarnados em todo o planeta.

            A alienação é o contrário do esclarecimento e da reflexão crítica, e nos dias atuais, é caracterizada pela adoção de uma percepção simplista da realidade (portanto, em detrimento da efetiva complexidade que a constitui), tendo como conseqüência, uma ação ineficaz sobre a mesma. Por isso, o conceito de mal na doutrina Espírita possui um caráter relativo (logo, não absoluto, em si mesmo), simbolizado pela ignorância das leis de Deus, enquanto o bem é o esclarecimento das leis espirituais ou naturais, e a ação eficaz e coerente com esse conhecimento - algo que só faz sentido, desde que se entenda que, num contexto existencial profundo não há separação tão nítida entre o mundo "material" ou "sensível" e o mundo espiritual.

            A reflexão crítica resulta, assim, de uma abordagem plural da realidade, que é multideterminada, e converge em si variáveis que se interrelacionam em vários níveis: químico, físico, biológico, energético, simbólico, psíquico, histórico, social, espiritual, cósmico, etc. Nenhum problema é resultado de uma causa única. Alcoolismo, Violência, Guerras, Loucura, etc. - qualquer problema envolve o encargo de múltiplas variáveis nos vários níveis citados, e por isso mesmo, se mostram como problemas aparentemente insolúveis ou de muito difícil solução.

            Mas, a bondade de Deus concedeu ao homem - como foi dito - a inteligência, enquanto um potencial para o exercício da reflexão crítica (e conseqüentemente, da autonomia). Porém, exatamente por ser um potencial, ele precisa ser desenvolvido, exercitado, e conquistado, para se expressar de forma efetiva, manifesta, ativa, adaptativa e construtiva. Para isso, a sedução do comodismo (tão utilizada pelas mídias e pelas elites, para manipular o inconsciente das populações) precisa ser deixado de lado, em favor da busca do esclarecimento, do estudo, da pesquisa e da ação, quebrando-se o "ciclo vicioso da alienação". 

             Concluindo-se, a possibilidade de escolha é o alicerce da autonomia. Para que exista uma ação autônoma é preciso que existam alternativas de ação, pois somente assim o sujeito poderá escolher o que considera melhor para si. Se só é permitido uma forma de pensar, não existe possibilidade do livre-arbítrio. A autonomia refere-se, portanto, a autodeterminação, a escolha individual, ao poder que a pessoa tem para tomar decisões que afetem sua vida, ou seja, suas relações, seu bem-estar, sua integridade físico-psíquica, e se desenvolve com o esclarecimento intelectual e ético-moral, que caracteriza um processo de evolução espiritual alicerçado no autoconhecimento (ver questão 919 de "O livro dos Espíritos"), e que reconhece que se não deliberamos e nem decidimos sobre aquilo que é regido pela Natureza (isto é, pelas leis de Deus), "deliberamos e decidimos sobre tudo aquilo que, para ser e acontecer, depende de nossa vontade e de nossa ação" (Chauí, 1995).

 
Referência Bibliográfica Complementar

 Chauí, M. de S. (1995). Convite à Filosofia. São Paulo: Ática.

 

Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

 

 

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