Diversidade Social e a Ética do Amor
O termo “diversidade” é utilizado no campo das ciências sociais
(como a Sociologia, Antropologia, Psicologia Social, História, etc) como um
conceito que permite refletir as diferenças subjetivas de experiências, idéias
e comportamentos que são vividos por cada pessoa e grupo social.
Sob essa ótica, cada pessoa vive um processo de subjetivação
particular, que vai culminar numa individualidade própria, única e que não se
repete. Esse processo envolve a articulação de inúmeras variáveis – biológicas,
psicológicas, sociais, culturais, energéticas, espirituais – que atuam umas
sobre as outras, num contexto relacional e dentro de um caminho histórico
peculiar.
Esse fator de historicidade é fundamental na compreensão das
diversidades sociais, porém, é lamentavelmente esquecido, especialmente,
quando o tema é tratado por pesquisadores que não possuem a devida crítica
sobre como os fatores sociais, históricos e culturais atuam no processo de
subjetivação dos indivíduos, em conjunto com as outras variáveis que
caracterizam a complexidade humana.
Sob a ótica Espírita, esse mesmo fator de historicidade ganha maior
importância ainda, pois não se limita apenas à história de vida atual do
ser, mas também, à história de suas encarnações passadas. Ora, do ponto de
vista psicossocial, uma única encarnação atual já é suficiente para
incrementar aprendizagens significativas o suficiente para tornar a nossa
personalidade bastante mais complexa, variada e expressiva. Porém, somos espíritos
encarnados que já vivenciaram milhares de encarnações, guardando em nossos
"arquivos espirituais" todas as contribuições assimiladas nessas
existências.
Isso significa que já vivemos os processos de nascimento e morte,
desintegração e reintegração milhares de vezes, com todas as conseqüências
psíquicas e espirituais que esses processos envolvem, e ainda, num sentido histórico,
vivenciamos as contingências das mais diversas culturas, em diferentes épocas
desse planeta, e também em outros planetas antes da atual encarnação na
Terra. Se tomarmos todo o processo histórico vivido ao longo das encarnações,
para cada ser, não devemos nos surpreender com a "diversidade social"
de idéias, tendências e expressões que encontramos na complexidade de toda
civilização e de toda individualidade.
Essa constatação é o primeiro elemento fundamental que permite
desconstruir (ou seja, desmontar, desfazer) o discurso da intolerância e do
preconceito, quando ele se faz presente como discurso ideológico da hipocrisia.
Tentarei explicar essa afirmação, concluindo a questão da reflexão sobre a
importância da Ética do Amor como elemento fundamental a ressignificar o campo
das relações humanas no projeto de uma sociedade crítica, esclarecida e
fraternal.
O preconceito e a intolerância se faz presente como "discurso ideológico
da hipocrisia" quando aquele que emite um julgamento preconceituoso sobre
alguém, se exclui de analisar as próprias atitudes negativas, limitações e
falhas. Parafraseando uma citação bíblica (São Mateus, cap. VII, v. 3,4,5),
é mais fácil olharmos o cisco no olho do outro, do que a trave em nossos próprios
olhos. O próprio Cristo apontava essa atitude como um exemplo de hipocrisia,
convidando cada um a retirar a "trave" do próprio olho, antes de
abordar o "argueiro" no olho dos outros irmãos (ver cap. X de "O
Evangelho segundo o Espiritismo", na seção "O argueiro e a trave no
olho").
Essa constatação bíblica, ainda é uma constatação bastante atual e
reconhecida por muitos pesquisadores sociais contemporâneos. Por exemplo, o
psicanalista argentino José Bleger, afirma que a sociedade tende a instalar uma
clivagem (ou seja, uma separação, uma cisão) entre o que considera como sadio
e como doente, como normal e anormal. Assim se estabelece um
"distanciamento artificial", porém muito profundo entre ela (a
sociedade supostamente "sadia") e todos aqueles que como os portadores
de deficiência mental, delinqüentes, prostitutas, etc, acabam produzindo
"desvios e doenças", que a ideologia dominante supõe
(hipocritamente), não têm nada a haver com a estrutura social. Bleger, então,
denuncia que na verdade, "a sociedade se autodefende, não dos loucos, dos
delinqüentes e das prostitutas, mas de sua própria loucura, de sua própria
delinqüência, de sua própria prostituição", e dessa maneira, a
sociedade os coloca fora de si mesma, e os ignora, e os trata como se lhe fossem
estranhos e não lhe pertencessem. Com isso, por fim, a sociedade ignora a sua
parcela de responsabilidade na criação de seus próprios problemas e
conflitos.
Essa segregação resultante - e que se estende aos homossexuais, aos
preconceitos raciais de todos os tipos, aos idosos, às mulheres, e diversas
outras "minorias" - historicamente foi transmitida pelos nossos
instrumentos e nossos conhecimentos, e é aí que se identifica outro aspecto do
discurso do preconceito e da intolerância na ideologia da hipocrisia,
pois o discurso preconceituoso pode tomar a forma, ou a "máscara" de
um "discurso científico", que procure validar de forma disfarçada as
incoerências do pensamento preconceituoso.
O filósofo Michel Foucault afirmou que isso ocorre quando a ciência é
alienada da sua função esclarecedora, e é apropriada como "um
instrumento de fetiche social" para justificar articulações de poder e
dominação sobre os grupos segregados em nossa sociedade. Ou seja, a
supervalorização que se dá ao saber científico (daí a sua conotação de
"fetiche social"), muitas vezes, foi historicamente manipulada de
forma a legitimar, explicar e justificar teorias de fundo preconceituoso, e
algumas vezes isso ocorre mesmo nos dias atuais. Nós devemos estar sempre muito
atentos, e com muito cuidado para não nos deixarmos enganar por esse tipo de
manipulação. O problema costuma ser a sutileza com que isso é feito. O
discurso preconceituoso é um discurso de contradições desencontradas. O indivíduo
afirma “Eu não sou preconceituoso...” e a sua fala seguinte é “... Mas,
a homossexualidade é uma doença”. Ou ainda, o indivíduo afirma de um lado
“que somos todos iguais como irmãos”, porém logo em seguida diz “tal raça
ou tal religião é inferior”, por esse ou aquele motivo qualquer. Na ausência
de reflexão, o indivíduo não consegue perceber as nuanças do preconceito
nessas expressões sutis, que às vezes invadem o corpo de conhecimentos até
mesmo das melhores doutrinas ou formas de saber (ainda que esses argumentem a
favor da razão e da ciência).
A ética do amor é o conceito que se opõe ao discurso do preconceito e
da intolerância. A ética inclui a reflexão sobre as conseqüências do
cultivo do amor, como um valor moral legítimo, capaz de contribuir para um
mundo melhor. É o amor o conceito que pode identificar uma unidade da
humanidade na diversidade social, pois quando nutrido pela devida reflexão que
leva à compreensão da complexidade humana na diversidade, o amor é capaz de
abrir espaço para a tolerância tanto de nossas próprias peculiaridades como
das particularidades do outro. Talvez quando a humanidade aprender essa pequena
e simples lição – que Jesus muito bem soube exemplificar na simplicidade e
humildade de suas atitudes – todos os tipos de preconceitos (inclusive os mais
sutis e mascarados) serão derrotados.
·
Bleger,
J. In temas de Psicologia: Entrevistas e Grupos. São Paulo,
Martins Fontes, 1980.
·
Kardec,
A. (1863). O Evangelho segundo o Espiritismo. São Paulo:
Instituto de difusão Espírita, 1978. (tradução de Salvador Getile).
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)