Dissecando a Alma humana

 

         Acredito ser a abordagem do psicólogo suíço Carl Gustav Jung, a que oferece o maior leque de recursos, embasamento filosófico e consistência teórica e prática para instrumentalizar uma Psicologia que se proponha estudar a Alma Humana.

         A Psicanálise deu o primeiro passo decisivo ao tomar o inconsciente como objeto de estudo, e ao mesmo tempo, oferecer um corpo teórico doutrinário engenhoso e revolucionário. Jung, por sua vez, ampliou o alcance dessa primeira contribuição, oferecendo-nos um trabalho quase completo, que dispensa qualquer palavra.

         O Espiritismo, porém, já exerceu a sua influência antes mesmo da consolidação de qualquer uma das "quatro grandes forças na Psicologia" (que são a Psicologia comportamental, a Psicanálise, a Psicologia Humanista e a Psicologia Transpessoal); primeiro como precursora, observamos agora, que o avanço dos Estudos Espíritas delineia a peça que faltava para integrar todas essas contribuições em uma síntese holística bem coordenada, fundamentada e dinâmica.

         Iniciemos, então, pela ampla abordagem junguiana. A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung é uma ciência de vasto alcance, que a partir de um paradigma holístico, procura estudar e compreender a dimensão psíquica do ser humano, em sua totalidade.

         Para Jung, a Psicologia é uma ciência que tem como objeto de estudo a psique, a totalidade da estrutura anímica do ser humano englobando, portanto, tanto fenômenos conscientes quanto inconscientes. Lembremos aqui, que desde a Grécia Antiga, psique é o conceito “mentalista” que origina o termo Alma. Além da vinculação dos processos consciente e inconsciente, Jung, de modo específico incluía na psique a superposição e tensão entre elementos pessoais e coletivos no homem (Samuels, 1998).

         Segundo Edward F. Edinger, em seu livro Ego e Arquétipo (onde ele fala sobre a Individuação e a Função Religiosa da Psique) a “descoberta de caráter mais fundamental e de maior alcance, de Jung, é a do inconsciente coletivo ou psique arquetípica”. Afirma o autor, “... graças às pesquisas que ele realizou, sabemos atualmente que a psique individual não é apenas um produto da experiência pessoal. Ela envolve ainda, uma dimensão pré-pessoal ou transpessoal, que se manifesta em padrões de imagens universais, tais como os que se podem encontrar em todas as mitologias e religiões do mundo”.

         Jung mostrou que o nosso psiquismo se desenvolve em um sentido específico e progressivo. O ser humano, não é alguém sem direção; o funcionamento da mente se organiza de forma a dar uma direção à vida. A identificação dos objetivos centrais de nossa vida, entre outras coisas, caracterizam essa direção.

         Jung, porém, evidenciou a função religiosa da psique. Segundo ele – conforme comenta Edinger – os arquétipos do inconsciente coletivo equivalem aos nossos dogmas religiosos que estão sendo esquecidos. Assim, através da formulação das verdades religiosas da psique de um modo que se ajuste à mente moderna, Jung criou uma nova visão de mundo que faz justiça tanto à atitude científica e empírica como à necessidade humana de um sentido do suprapessoal. Esse sentido é o que mais falta no homem moderno. Portanto, segundo Jung, a “principal tarefa de toda educação (de adultos) é levar o arquétipo da imagem de Deus, ou de suas emanações e efeitos, à Mente Consciente”.

         Existe aqui, por parte do pensamento junguiano, a convicção de que o sucesso de uma psicoterapia depende fundamentalmente do encontro entre o ego e a imagem arquetípica de Deus.

         Na verdade, o mundo civilizado – como afirma Edinger – mal começa a despertar para a magnífica síntese de conhecimento humano realizada por C. G. Jung. Tendo iniciado a sua vida profissional como psiquiatra e psicoterapeuta, Jung descobriu nos seus pacientes, assim como em si mesmo, a realidade da psique e a fenomenologia de suas manifestações, num grau de profundidade que jamais havia sido observado de forma sistemática.

         Em conseqüência dessa experiência, ele pôde reconhecer esta mesma fenomenologia expressa nos produtos culturais da humanidade – mito, religião, filosofia, arte e literatura. Ele penetrou na fonte última de toda religião e de toda cultura e descobriu, desta maneira, a base de um novo sincretismo orgânico da experiência e do conhecimento humanos.  A nova perspectiva, assim alcançada, reveste-se de um caráter tão exaustivo e abrangente que uma vez percebida, inevitavelmente produzirá conseqüências revolucionárias sobre a visão do homem com relação a si mesmo e ao mundo.

         A percepção da “realidade da psique”, que torna visível essa forma de perceber o mundo, só pode ser alcançada por um indivíduo de cada vez, ou mais precisamente ainda, por alguém que se dedique laboriosamente ao seu próprio desenvolvimento pessoal. Em caso contrário, a pessoa simplesmente não tem condições subjetivas de se aperceber de qualquer coisa relacionada a tais possibilidades.

         Esta obra de auto-aperfeiçoamento individual é denominada por Jung de individuação – um processo no decorrer do qual o ego vai tendo aumentada a consciência do fato de dever sua origem à psique arquetípica e dela depender. O diálogo que resulta entre o ego e o arquétipo é a característica essencial da individuação, que oferece uma nova forma de vida para o homem contemporâneo.

         Como foi dito, o psiquismo humano possui uma direção de desenvolvimento e organização. Por isso, a vida não prossegue num caminhar ao acaso, mas sim, em função de uma direção e um sentido, mais ou menos fixo ou flexível, segundo o padrão de personalidade de cada um. Quando não é assim que se processa a vida de um indivíduo, ou seja, quando a sua vida se encontra “perdida, sem direção”, é muito comum tratar-se de um indivíduo em que o processo comum e esperado de auto-regulação psíquica se encontre obstruído, podendo em casos mais agudos, configurar algum quadro psicopatológico conhecido (de neurose, psicose, ou outro). Essa, porém, é uma questão que daria material para outro projeto de estudo.

         A natureza auto-reguladora da psique se explica, na abordagem junguiana, através de um princípio estruturador ou organizador que unifica os vários conteúdos arquetípicos. Esse princípio é o arquétipo central ou arquétipo da unidade, ao qual Jung denominou Self.

         A existência desse princípio unificador não é definida do “nada” ou do “acaso”: ela é abstraída, enquanto constructo hipotético, da análise contínua de sonhos de pacientes, em contexto clínico. O caráter epistemológico da descoberta do Self, é portanto, caracterizado pela pesquisa clínica.

         O Self ou “Si-mesmo” é o centro ordenador e unificador da psique (ou alma) total (consciente e inconsciente), assim como o ego é o centro da personalidade consciente. O Self constitui a autoridade psíquica suprema, mantendo o ego submetido ao seu domínio. É descrita, de forma mais simples como a divindade empírica interna, equivalente à “imago Dei” ou imagem arquetípica de Deus.

         O Espiritismo propõe que uma das características que exatamente diferencia o homem dos animais, é que o primeiro está destinado a entrar em contato consciente com Deus, ou seja, o homem pode, diferente dos seres do reino animal, conhecer a Deus, à medida que se desenvolve espiritualmente para tanto.

         A psicologia junguiana corrobora essa idéia: o Self – na abordagem junguiana – é o conceito ou elemento psicológico que permite ao homem reconhecer a Deus. Em outras palavras, para que o homem possa acessar Deus, do ponto de vista psíquico, há a necessidade de uma prontidão psicológica para tal. O Self é a representação psíquica dessa prontidão, que na terminologia junguiana se desenvolve com o processo de Individuação, e na terminologia Espírita, se desenvolve gradualmente com o progresso do Espírito, em suas várias encarnações. 

            Como o Self possui natureza arquetípica (e o conceito de arquétipo engloba toda a gama de conteúdos simbólicos produzidos pela humanidade em todas as épocas e culturas, sendo que daí resulta o seu ligamento com o conceito de carma e reencarnação, na Doutrina Espírita e na Tradição Indiana), a prontidão psicológica para o reconhecimento de Deus é uma característica intrinsecamente humana (do ponto de vista junguiano, quando dizemos que uma característica é arquetípica, ao mesmo tempo estamos dizendo, que essa característica é profundamente humana).

         Assim, temos que o Espiritismo afirma ser essa prontidão uma tendência inata no homem, como um germe que precisa ser cuidado ou cultivado para se desenvolver; o conceito de Self corrobora essa hipótese, na medida, que o próprio Self (ou, o Arquétipo Central, como se queira chamar) também surge no psiquismo como um potencial arquetípico (ou seja, essencialmente humano), que se desenvolve no processo de individuação de cada um.

         Jung demonstrou, ainda, que o Self apresenta uma fenomenologia característica: ele é expresso por meio de determinadas imagens simbólicas típicas denominadas mandalas. Todas as imagens que enfatizam um círculo com um centro e que normalmente apresentam um elemento adicional referente a um quadrado, uma cruz ou outra representação de quaternidade se enquadra nessa categoria.

         Há ainda um certo número de outros temas e imagens associados que fazem referência ao Self. Temas como (1) a unidade, (2) a totalidade, (3) a união dos opostos, (4) o ponto gerador central, (5) o centro do mundo, (6) o eixo do universo, (7) o ponto criativo onde Deus e o homem se encontram, (8) o ponto em que as energias transpessoais fluem para a vida pessoal, (9) a eternidade – por oposição ao fluxo temporal -, (10) a incorruptibilidade, (11) a união paradoxal entre o orgânico e o inorgânico, (12) as estruturas protetoras capazes de gerar a ordem a partir do caos, (13) a transformação da energia, (14) o elixir da vida; isso tudo se refere ao Self, fonte central de energia da vida, origem do nosso ser, descrito de forma mais simples, como Deus. Na realidade, as mais ricas fontes do estudo fenomenológico do Self são as inúmeras representações que o homem faz da divindade.

         Como há dois centros autônomos do ser psíquico (o ego e o Self), o vínculo existente entre eles assume importância capital. Para a compreensão dessa relação vincular, é necessário discorrermos sobre o conceito de ego e consciência, partindo então para uma descrição da estrutura global da psique ou Alma Humana (segundo a terminologia junguiana).

         Ao definir o conceito de consciência, Jung afirma o seguinte: “... Por consciência entendo a relação de conteúdos psíquicos com o ego, desde que essa relação seja percebida pelo ego. Relações com o ego não percebidas como tais são inconscientes. A consciência é a função da atividade que mantém a relação de conteúdos psíquicos com o ego”.

         O ego, assim compreendido, é o centro da consciência ou o complexo central no campo da consciência. Mas, como será discutido posteriormente, é implícito ao conceito de ego as suas limitações e incompletude como algo menor que a personalidade inteira (ou seja, o Self) e, portanto, subordinado a esse.

         Sendo o Ego o centro da consciência, ele é também o sujeito de todos os atos pessoais da consciência. Qualquer conteúdo psíquico consciente deve estar em relação com o Ego, sendo esta conexão o próprio critério que define o conceito de Eu-consciente, pois para que um conteúdo seja conhecido ele deve ser representado para um sujeito. O ego, dessa forma, não é equivalente ao campo da consciência, mas antes é o seu ponto de referência.

         A partir dessas considerações, observamos em Jung uma conceituação do inconsciente bastante ampla (e perfeitamente lógica e racional), definida pela falta do atributo da consciência. O conceito é bastante amplo, na medida em que o limite da consciência é tão desconhecido, quanto o do inconsciente, restando-nos a opção de denominar tudo aquilo que não conhecemos, portanto não relacionado com o ego (ou o Eu-consciente), de inconsciente.

         Magalhães (1984), de forma bastante sistemática, define o inconsciente a partir de dois parâmetros complementares na concepção analítica (junguiana), quais sejam:

         1)    O ponto de vista da Psicologia da Consciência;

2)    O ponto de vista da Psicologia da Personalidade Total (Self).

 Segundo o primeiro parâmetro – da psicologia da consciência – o inconsciente pode se dividir em 3 grupos de conteúdos.

                   I.      Conteúdos inconscientes, mas facilmente acessíveis à consciência. No plano fenomênico, esses conteúdos são acessados por um esforço de vontade, que permite ao indivíduo lembrar de coisas, ou trazer à consciência conteúdos que antes não estavam ocupando a sua mente. Corresponde ao conceito de pré-consciente no modelo psicanalítico de Freud.

                II.       Conteúdos inconscientes não acessíveis voluntariamente. A existência desse grupo é inferida a partir das irrupções espontâneas do inconsciente (por exemplo, em sonhos, lapsos, ou sintomas), ou seja, de manifestações independentes do Eu-consciente (às vezes, inesperadas ou inoportunas).

              III.      Conteúdos inconscientes que não são capazes de se tornarem conscientes. Este é um grupo hipotético, estabelecido a partir da existência do segundo.

De acordo com o segundo parâmetro de classificação – o da Psicologia da Personalidade Total (Self) – o inconsciente é definido como:

                   I.      Uma psique extraconsciente cujos conteúdos são pessoais;

                II.      Uma psique extraconsciente cujos conteúdos são impessoais e coletivos.

Observamos que como Freud, Jung usa o termo inconsciente tanto para descrever conteúdos mentais que são ou estão inacessíveis ao ego, e portanto à consciência, como topicamente para delimitar um lugar psíquico com seu caráter, suas leis e funções próprias.

A estrutura da psique seria esquematizada como abaixo:

Psique ó Self (ou Si-mesmo)

Consciência ¬ ego = centro da consciência

Inconsciente

Pessoal
  Coletivo

Self ó Arquétipo Central = centro da psique (ou Self)

Obs.: Jung utilizava o termo personalidade como sinônimo de dimensão psíquica do ser humano.

A) O inconsciente pessoal compreende:

1.     as percepções e sentimentos subliminares;

2.     traços de acontecimentos passados perdidos pela memória consciente;

3.     e, todo material que não atinge a consciência, por não possuir suficiente energia ou não estar devidamente diferenciado;

4.     a maior parte dos conteúdos do inconsciente pessoal (sendo todo um conjunto de material mental e afetivo), porém, são conteúdos rejeitados pela consciência, ao longo da vida pessoal de cada um, por ser incompatível com as intenções, ideais, ou sentimentos morais conscientes, sendo impedidos de se conscientizarem tornando-se, conseqüentemente, separados do ego, através do uso de mecanismos de defesa, tais como a repressão, a negação e o deslocamento, por exemplo.  

 

A noção de inconsciente pessoal de Jung corresponde aproximadamente ao conceito de inconsciente de Freud, sendo que a importante contribuição de Jung neste campo, foi com relação ao conceito dos complexos como conteúdos do inconsciente, identificados a partir de experimentos de associação verbal. Ou seja, Jung colaborou com Freud, oferecendo uma base empírica e experimental para a teoria psicanalítica do inconsciente, e a Psicanálise de Freud contribuiu com Jung, oferecendo uma sólida base teórica como ponto de partida inicial.

Nesse contexto, a noção de complexo foi a primeira grande formulação teórica de Jung, criado por ele e seus colaboradores do Burgholzli, a clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, chefiada por Breuler. Os complexos são conteúdos psíquicos (idéias, imagens mentais, conceitos, etc) carregados emocional e sentimentalmente, que com o correr do tempo, se acumulam ao redor de determinados símbolos psíquicos arquetípicos, em função de sua afinidade temática e energética. Quando esses complexos se constelam (ou seja, se ativam, segundo um padrão de energia específica, que se dirigem a uma ação comportamental ou reação emocional bem definida), fazem-se acompanhar invariavelmente pelo afeto, com uma ação manifesta relativamente autônoma, em todos os casos.

B) Além do inconsciente pessoal, Jung concebe um substrato inconsciente mais profundo, que é comum a todos os seres humanos, denominado por ele de inconsciente coletivo.

Esta idéia é a transposição para o plano psíquico, da identidade anatômica e fisiológica existente entre os homens, independentemente das diferenças raciais, culturais e individuais. Assim, analogicamente, do mesmo modo como possuímos a potencialidade de termos dois braços, duas pernas, um coração, um fígado, etc., também temos a potencialidade de nos desenvolvermos o suficiente para cuidarmos de nós mesmos e de outros, de nos separarmos do mundo dos pais, de escolhermos uma profissão, etc. (Magalhães, 1984).

De tudo o que foi falado até agora, o conjunto de citações seguintes sintetiza bem a noção de Jung (MSR,1961) sobre o inconsciente: “Teoricamente é impossível fixar limites no campo da consciência, uma vez que ela pode estender-se indefinidamente. Empiricamente, porém, ele sempre atinge seus limites ao atingir o desconhecido. Este último é constituído por tudo aquilo que ignoramos, por aquilo que não tem qualquer relação com o eu, centro dos campos de consciência.

O desconhecido divide-se em dois grupos de objetos; os que são exteriores e os que seriam acessíveis pelos sentidos e dados interiores, que seriam o objeto da experiência imediata. O primeiro grupo constitui o desconhecido do mundo exterior; o segundo, o desconhecido do mundo interior. Chamamos inconsciente a este último campo.

Logo, (1) tudo o que conheço, mas não penso num dado momento, (2) tudo aquilo de que já tive consciência, mas esqueci, (3) tudo o que foi percebido pelo meus sentidos e meu espírito consciente não registrou, (4) tudo o que involuntariamente  e sem prestar atenção (isto é, inconscientemente), sinto, penso, relembro, desejo e faço, (5) todo o futuro que se prepara em mim, e que só mais tarde se tornará consciente, tudo isso é conteúdo do inconsciente. A esses conteúdos se acrescentam (6) as representações ou impressões penosas mais ou menos intencionalmente reprimidas. Chamo de inconsciente pessoal ao conjunto de todos esses conteúdos.

Mas, além disso, encontramos também no inconsciente (7) propriedades que não foram adquiridas individualmente; foram herdadas, assim como os instintos e os impulsos que levam a execução de ações comandadas por uma necessidade, mas não por uma motivação consciente... (Nesta camada ´mais profunda da psique` encontramos os arquétipos). Os instintos e os arquétipos constituem, juntos, o inconsciente coletivo. Eu o chamo coletivo porque, ao contrário do inconsciente pessoal, não é constituído de conteúdos individuais, mais ou menos únicos e que não se repetem, mas de conteúdos que são universais e aparecem regularmente.

Os conteúdos do inconsciente pessoal são parte integrante da personalidade individual e poderiam, pois, ser conscientes. Os conteúdos do inconsciente coletivo constituem como que uma ´condição ou base da psique em si mesma`, condição onipresente, imutável, idêntica a si própria em toda parte.

Quanto mais profundas forem as ´camadas` da psique, mais perdem sua originalidade individual. Quanto mais profundas, mais se aproximam dos sistemas funcionais autônomos, mais coletivas se tornam, e acabam por universalizar-se e extinguir-se na materialidade do corpo, isto é, nos corpos químicos. O carbono do corpo humano é simplesmente carbono; no mais profundo de si mesma, a psique é universo”.

Clarke (1992) - filósofo que realizou um estudo crítico das bases históricas e epistemológicas da obra junguiana -, considera a mais importante contribuição de Jung ao pensamento moderno, em suas palavras, “o reconhecimento da realidade da mente e a redescoberta da idéia da psique como um cosmo igual e complementar ao mundo físico. Sem cair no dualismo da mente versus corpo, uma divergência que persegue o pensamento ocidental desde o tempo de Descartes, coube a Jung reconstruir, com ferramentas modernas e em tempos modernos, o conceito tradicional de mente como algo que tem um lugar na ordem natural das coisas, ´estabelecido de acordo com a estrutura do universo`, segundo afirmou. Ao mesmo tempo, ele rejeitou a tendência moderna de reduzir a mente a processos puramente físicos e, embora considere que as raízes da psique estão firmemente plantadas na natureza física, construiu um modelo da psique humana que reservou também lugar para a necessidade de um propósito mais alto e de realização espiritual. Essa visão da psique, se entrelaça com temas e contratemas do pensamento moderno”.

Ainda segundo esse autor (Clarke, 1992), “... Para Jung, o Si-mesmo, Self ou psique, é uma espécie de ser orgânico que passa por um ciclo natural de evolução e crescimento e que, conquanto surja do solo profundo do inconsciente coletivo, e seja parte integral dos processos vivos da natureza como um todo, atinge seu florescimento na vida do indivíduo autoconsciente e autônomo” (trata-se, nesse último caso, de uma menção ao processo de individuação, processo no qual um indivíduo torna-se cada vez mais, “ele mesmo”).

Observamos até aqui, que no processo de crescimento, do mesmo modo que temos padrões herdados em termos de desenvolvimento físico, herdamos padrões de estruturação da personalidade, nas diferentes fases da vida: (1) a infância, (2) a adolescência, (3) relação conjugal e profissional, (4) velhice, (5) e preparação para a morte (Magalhães, 1984).

Estes padrões foram chamados por Jung de arquétipos, os quais constituem o inconsciente coletivo. Para explicar o que são os arquétipos, Jung utilizou a comparação com os padrões herdados de comportamento nos animais – o modo como os pássaros fazem o ninho, por exemplo, é um código inato, assim como certos fenômenos simbióticos entre insetos e plantas. Da mesma maneira, o homem nasce com um certo funcionamento, um certo padrão de comportamento que o torna especificamente humano. Este padrão está expresso nas imagens arquetípicas, ou formas arquetípicas. Assim, dizer que uma determinada imagem, símbolo ou comportamento é arquetípico é afirmar que o mesmo é especificamente (ou tipicamente) humano.

Fenomenologicamente, para Jung (MSR,1961), o conceito de arquétipo deriva da observação reiterada de que os mitos e os contos da literatura universal encerram temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda parte. Encontramos esses mesmos temas nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes e ilusões dos indivíduos que vivem atualmente. Todo esse conjunto compõe o material empírico que permite a abstração do conceito de arquétipo. Quanto mais nítidas essas imagens e correspondências típicas (denominadas representações arquetípicas), mais são acompanhadas de tonalidades afetivas vívidas, o que é verificável pela maneira que elas nos impressionam, influenciam e nos fascinam.

As representações ou situações arquetípicas têm sua origem no arquétipo que, em si mesmo, escapa à representação, forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada e pode, portanto, manifestar-se espontaneamente sempre e por toda parte.

Os arquétipos são, portanto, propensões à formação de representações típicas de processos inconscientes que poderíamos comparar com os mitos. A mitologia é, então, para Jung, “a expressão de uma série de imagens por meio das quais se formula a vida dos arquétipos”. 

Assim, o arquétipo seria uma tendência a formar representações de um motivo, que podem variar muito em detalhe, sem perder o seu modelo básico. Por exemplo, o motivo da hostilidade entre irmãos: o motivo é sempre o mesmo, em diferentes culturas e épocas, embora as representações variem muito. Por isso, da mesma forma que o biólogo necessita da ciência da anatomia comparada, o psicólogo precisa de uma “anatomia comparada da psique” para chegar aos motivos comuns, e isso lhe é proporcionado pela mitologia.

Deve-se cuidar, porém, que apesar de se falar, muitas vezes, de imagens, símbolos ou idéias arquetípicas, na verdade o arquétipo não é uma imagem ou idéia inata (Magalhães, 1984). Como afirma o próprio Jung (MSR, 1961), “... é muito comum o mal-entendido de considerar o arquétipo como algo que possui um conteúdo determinado; em outros termos, faz-se dele uma espécie de ´representação` inconsciente, se assim se pode dizer. É necessário, porém, sublinhar o fato de que os arquétipos não têm conteúdo determinado; eles só são determinados em sua forma e assim mesmo em grau limitado. Uma imagem primordial só tem um conteúdo determinado a partir do momento em que se torna consciente e é, portanto, preenchida pelo material da experiência consciente”.

O arquétipo é, portanto, uma possibilidade herdada – uma matriz onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma. É uma virtualidade que toma forma, traduzindo-se em imagens, a partir da interação com o ambiente, ou seja, ao ser preenchida por materiais da realidade.

Para Jung (MSR, 1961), “... O arquétipo em si mesmo é vazio; é um elemento puramente formal, apenas uma possibilidade de preformação, forma de representação dada a priori”. As representações não são herdadas; apenas suas formas o são. Assim consideradas, correspondem exatamente aos instintos que, por seu lado, também só são determinados em sua forma. É impossível provar a existência dos arquétipos ou dos instintos, a não ser que eles mesmos se manifestem de maneira concreta”.

 Essa consideração é de suma importância. Segundo Hillman (1981), os mesmos qualitativos universais, típicos, regulares, e conservadoramente repetitivos (através dos séculos) dos arquétipos – enquanto princípios organizadores das imagens que fornecem à realidade psíquica seus padrões específicos e suas formas habituais – aplicam-se também aos instintos. Para ele, a energia do arquétipo é instintiva, porque o arquétipo é o próprio instinto, ou melhor, é o seu “equivalente psíquico”. Hillman também referencia o arquétipo como o “padrão de comportamento” do instinto, e literalmente, como o seu “significado”.

Voltando às citações de Jung (MSR, 1961), conclui o autor que “... Provavelmente a verdadeira essência do arquétipo não pode tornar-se consciente; ela é transcendente, ou, como a chamei, psicóide. Não devemos, pois, entregar-nos à ilusão de que finalmente poderemos explicar um arquétipo e assim “liquidá-lo”. A melhor tentativa de explicação não será mais do que uma tradução relativamente bem-sucedida, num outro sistema de imagens”.

Além do estudo fenomenológico dos mitos e contos, Jung chegou ao conceito de inconsciente coletivo e dos arquétipos também a partir da observação clínica de seus pacientes e de suas vivências internas.

Embora haja uma distinção teórica entre inconsciente pessoal e coletivo, a despeito de sua pertinência, tal distinção na é tão fácil de delimitar em suas manifestações. Em todo material inconsciente que surge na consciência, sejam sonhos, fantasias, emoções, etc., há sempre algo de pessoal e algo de arquetípico, mesmo porque a própria dimensão pessoal se desenvolve a partir da dimensão coletiva ou arquetípica. Assim, para citar um exemplo, a relação de uma criança com a sua mãe estará sempre determinada pelo campo de ação do arquétipo materno, assim como pela realidade individual e particular daquela criança com aquela mãe.

Num complexo também ocorre o mesmo: apesar de sua conceituação inicial e fundamental estar ligada à noção de inconsciente pessoal, sempre podemos vislumbrar nos complexos um fundo arquetípico. Esta observação faz parte de uma elaboração posterior de Jung, no conjunto de sua obra, da teoria dos complexos. Quando começou a estudá-los (à época dos experimentos de associação de palavras), a questão do inconsciente coletivo ainda não se colocava, e Jung ainda se encontrava ligado à psicanálise. Com o estudo dos mitos e da produção literária, artística e religiosa coletiva, o avanço de suas observações clínicas, e a compreensão de suas vivências internas, Jung separa-se bastante da concepção de Freud, em que o inconsciente (como um todo) se constitui principalmente de conteúdos rejeitados pela consciência, substituindo-a “pela idéia da existência do inconsciente como um fato real, um fator autônomo, e capaz de ação independente (do ponto de vista fenomenológico)”. Isto é fundamental para a compreensão de como atuam os arquétipos. O fato de considerar o inconsciente como fator independente da consciência levou Jung a chamá-lo, em várias obras, de “psique objetiva”.

Evidentemente, há conteúdos inconscientes – sonhos, por exemplo –, que apresentam de modo mais evidente o lado pessoal, específico, e os que tratam mais claramente de problemas gerais da humanidade. Jung os distinguia, chamando os primeiros de “pequenos sonhos” e os últimos de “grandes sonhos”. Mesmo na prática clínica, Jung fazia uma distinção, considerando uma primeira fase da análise que girava mais em torno dos problemas individuais e pessoais, reminiscências  e fantasias infantis, e uma segunda fase, em que uma vez esgotada a análise de tais conteúdos, o indivíduo entra em contato com a “camada”  do inconsciente coletivo e dos problemas mais impessoais, que afetam a humanidade com um todo (como por exemplo, questões ligadas à religiosidade).

Com a continuação da obra de Jung por seus sucessores, e principalmente com a elaboração de uma teoria de desenvolvimento arquetípica, isto é, com o estudo de como os determinantes arquetípicos regem as diferentes fases de desenvolvimento infantil, foi possível ampliar uma compreensão que integre melhor essas duas “camadas” do inconsciente, sem considera-las como duas coisas tão separadas. Em termos práticos, isso configurou uma melhor integração das duas fases analíticas, descritas anteriormente no trabalho clínico.

Para finalizar, um aspecto clínico observável na relação ego-Self deve ser destacada, no campo de estudo da Psicologia do Desenvolvimento: de modo geral, os psicólogos analíticos admitem que a função da etapa que antecede a idade adulta (ou seja, a infância e a adolescência) envolve o desenvolvimento do ego, com a separação progressiva entre o Ego (dimensão humana consciente) e o Self (dimensão transpessoal totalizante, ao qual o ego deve se submeter na fase adulta posterior; simbolicamente, tal relação é uma representação metafórica da submissão do homem a Deus), ao passo que a idade adulta requer uma rendição (submissão) – ou pelo menos uma relativização – do ego em sua experiência do Self e na relação que mantém com este último.

Teoricamente, há porém, uma dificuldade representacional inerente ao assunto tratado: para falar de forma racional, torna-se inevitável traçar uma distinção entre o ego e o Self, que parece contradizer a própria definição de Self, pois na realidade, a concepção de Self é um paradoxo, já que se constitui simultaneamente como a totalidade psíquica, e o centro dessa totalidade. Representada pictoricamente como um círculo com um centro no meio, o Self constitui simultaneamente o centro e a circunferência do círculo da totalidade, e embora integrados, são conceitos distintos. No centro da circunferência, conceitualmente, estaria o elemento regulador ou condutor da totalidade psíquica, mas, Jung tanto chamava um como o outro de Self. Alguns psicólogos junguianos modernos preferem então chamar o centro regulador de “arquétipo central”, e a totalidade psíquica (envolvendo a subjetividade completa da alma, em nível consciente e inconsciente), de “Self ou Si-Mesmo”. Seja como for, deve ficar claro, que em termos pragmáticos, o Self e o Arquétipo Central agem de forma mutuamente coordenada e integrada. No mais, como o Self é uma totalidade psíquica homogênea de conteúdos e processos interrelacionados dialeticamente, a própria consideração do ego e do Self como duas entidades distintas constitui um mero recurso racional que a discussão torna necessário.

 

Texto produzido por:
Adalberto Ricardo Pessoa
Psicólogo Clínico e Analista Junguiano e Transpessoal formado pela USP
Membro da Associação Brasileira de Psicólogos Espíritas (ABRAPE)

E-mail: [email protected] - Site: www.psicologiaespirita.rg3.net
E-mail da Abrape: [email protected]

Hosted by www.Geocities.ws

1