Conclusão

 

         O alcance desse trabalho foi meramente o de debater alguns dos pressupostos filosóficos, históricos e científicos para a criação de uma Psicologia Espírita. Um outro trabalho igualmente ou mais complexo, ainda, seria a elaboração teórica dos conceitos próprios dessa abordagem teórica, a sua teoria de personalidade implícita, o seu modelo de funcionamento da psique, etc. Essa monografia pode servir de base para a realização desse trabalho, numa época futura.

         Certamente, a elaboração de uma Psicologia Espírita, pode motivar movimentos contrários de oposição e resistência, até mesmo entre alguns Espíritas. Um dos argumentos seria o de que o Espiritismo é uma religião e a Psicologia é uma ciência, e as duas coisas não se misturam. Creio, porém, que a quantidade de argumentos tratados nessa resenha, refutam eficazmente essa posição, não sendo necessário retomá-los.

         Porém, um aspecto adicional deve ser enfatizado aqui. O psicólogo Espírita não é uma pessoa que tenha a função de doutrinar os seus clientes, ou qualquer coisa desse tipo. Seria até ilógico, essa tentativa de intervenção, além de uma falta de ética. Também não é um psicólogo destinado a atender apenas Espíritas. Muito pelo contrário, o psicólogo Espírita é um profissional capacitado a atender indivíduos de qualquer religião ou posição ideológica, da mesma maneira, como qualquer psicólogo de qualquer abordagem teórica deve ser igualmente capaz. O que o diferencia dos outros psicólogos, é que realmente a interconexão entre psicologia e sentimento religioso é um dos seus objetos de estudo privilegiados. Além disso, os elementos científicos da Doutrina Espírita podem ampliar a sua visão de mundo, e com isso, o seu quadro de referências de trabalho, instrumentalizando-o de maneira peculiar. Porém, para que a psicologia Espírita, possa fazer o uso instrumental do dinamismo conceptual do Espiritismo, será necessário investir continuamente na pesquisa dos elementos de interconexão entre Psicologia e Espiritismo. O que foi feito, aqui, é apenas um começo, um esboço.

Os aspectos religiosos da Doutrina podem se relacionar especialmente, com os aspectos éticos e morais que o psicólogo deve considerar na sua relação com o cliente/paciente. Por outro lado, em termos interventivos, o psicólogo Espírita estará atento a diferentes modalidades de atuação que incentivem no cliente o desenvolvimento de seus aspectos morais criativos, não de uma maneira puritana, mas de uma forma a facilitar no cliente a emergência do desenvolvimento dos seus próprios potenciais de desenvolvimento psicológicos pessoais, seu amadurecimento, autoconhecimento e felicidade. Como foi dito, será uma intervenção baseada num conceito humanista de amor, tal como a arquetipia universalista cristã propõe. O foco de atenção inicia-se no processo de individuação entendido de forma mais ampla no contexto da evolução espiritual do indivíduo em suas várias vidas. Esse é um dos principais diferenciais do psicólogo espírita.

         Esse trabalho de pesquisa pode abrir espaço para a pesquisa de muitas outras áreas de conhecimento (científico e espiritualista), em contexto interdisciplinar. Algumas dessas áreas de pesquisa podem envolver a Acupuntura, as terapias bioenergéticas, diversas formas de terapias complementares (normalmente designadas de “terapias alternativas”), a Astrologia, etc. Assim, se processando, o trabalho ultrapassaria bastante dos limites teóricos abrangidos pela Psicologia Espírita, o que não impediria a sua interconexão e troca de contribuições mútuas, com essas disciplinas.         Outros trabalhos de pesquisa podem ser realizados, como a interconexão entre Psicologia, Espiritismo e Gnose (Alquimia e Cabala), Antroposofia, Teosofia, Homeopatia, etc. Nessa resenha foi realizada, apenas, uma “pincelada” sobre alguns aspectos dessa junção, que poderiam se desdobrar em um estudo muito rico ao aprimoramento de uma psicologia geral integrativa.

         Nessa monografia, talvez tenha faltado um capítulo especial à Filosofia Espírita propriamente dita. Estavam previstos a inclusão de capítulos específicos sobre Parapsicologia, Psicologia Junguiana, um aprofundamento sobre História crítica da Filosofia e conceitos de Filosofia Holística. Outras abordagens poderiam ser tratadas com mais detalhamento como as abordagens de Norberto Keppe (Psicanálise Integral), Wilhelm Reich, além da psicologia szondiana. A estrutura dessa monografia, porém, já se encontra bastante densa de material crítico de análise, e está coordenada de modo suficientemente consistente, para se associar a textos futuros que trabalhem com mais detalhe essas abordagens.

         Creio ter sido importante, ter mostrado que todas essas abordagens, junto com a Psicologia Espírita, podem formar um grande conjunto de abordagens transpessoais, num conceito ainda mais amplo, que o da escola teórica que “oficialmente” leva esse nome. Certamente, a Psicologia Espírita é uma Psicologia Transpessoal também, e enquanto conjunto de teorias, a força do movimento Transpessoal seria ainda maior com a adequada consideração de todas essas abordagens.

         Deve-se ficar claro que o objetivo de uma Psicologia Espírita, não é o de culminar num relativismo absoluto, onde todas as posições se equivalem, sem qualquer parâmetro diretivo de organização. Do ponto de vista epistemológico, a Psicologia Espírita adota a posição do Pluralismo Crítico Inter-teórico, atentando para a coerência e consistência teórica dessas tentativas de interação, a partir dos questionamentos filosóficos que foram expostos nesse trabalho.

Isso fica claro quando abordamos especificamente a questão da metodologia e da epistemologia na abordagem holística do real, enquanto uma posição filosófica que mais se aproxima da Filosofia Espírita (campo de saber que fundamenta todo o conhecimento da Doutrina Espírita).

Assim, o filósofo existencialista e psiquiatra alemão Karl Jaspers (1883-1969) – pensador que aliás possui muitos pontos de contato com Kardec, apesar de terem surgido em épocas diferentes (por exemplo, Kardec propôs o conceito de “Fé Raciocinada”, enquanto Jaspers propôs o de “Fé Reflexiva” para caracterizar a interação dialética entre razão e fé, temas que também foram debatidos por psicólogos como Jung e Piaget, e pesquisadores como Einstein ou David Bohm) – discorrendo sobre a necessidade de se empreender reflexões sobre como se obter o melhor método em pesquisa científica, afirmava que na prática do conhecimento necessitamos de vários métodos simultaneamente, e enfatizava três grupos:

1)    Apreensão dos fatos particulares que implica na observação e descrição (análise) fenomenológica;

2)    Investigação das relações, onde explicar se refere ao conhecimento das conexões causais objetivas, vistas do exterior, enquanto compreender diz respeito à intuição interior;

3)    Percepção das totalidades, para não se cair no gravíssimo erro de se esquecer o todo, no qual e pelo qual a parte subsiste.

Portanto, a abordagem holística não é nem analítica e nem é puramente sintética; ela se caracteriza pelo uso simultâneo desses dois métodos, que são complementares. Quando os resultados e conclusões obtidas pelo uso simultâneo desses vários métodos, convergem para um mesmo ponto focal conclusivo, podemos presumir que a probabilidade de acerto é altíssima, mesmo recusando-se a adoção de uma conclusão referida como verdade absoluta, final e definitiva, até porque, tal não seria mais uma conclusão científica, mas estaria muito mais perto de uma linha de raciocínio teológica tradicional e ortodoxa.

 Essa metodologia se encontra por trás da concepção sistêmica de saúde (segundo o físico Fritjof Capra) e apóia a construção de uma Psicologia Espírita: assim, o psicólogo Espírita, não precisa ficar preso a uma abordagem teórica da Psicologia Clássica, mas pode transitar entre uma e outra, fazendo convergir conclusões teóricas e práticas, possibilitando interações conclusivas até mesmo no nível de suas implicações filosóficas e epistemológicas. O Psicólogo Espírita, apoiado em uma visão Holística, não necessita se amparar dogmaticamente sobre uma posição teórica, e tem liberdade de elaborar a sua melhor síntese pessoal, através de um método consistente – a convergência de dados e conclusões entre vários sistemas teóricos e práticos, simultaneamente – é assim, que a Psicologia Espírita pode formar o seu corpo teórico de conhecimento, mostrando que as conclusões da ciência formal definitivamente se encaminham para a confirmação dos postulados Espíritas. É a vitória do pensamento crítico, livre e reflexivo na ciência e na religião. A Psicologia Espírita forma o seu campo de conhecimento, a partir de todas as descobertas convergentes da Psicologia Contemporânea, da Ciência Moderna, e do saber Espírita, stricto-sensu.

A explicação da natureza e de todo o universo não pode ser mais puramente mecânica, pois está cada vez mais patente que existe um processo de síntese e de complexificação evolutiva, que leva a criação de sistemas altamente dinâmicos, como os sistemas biológicos – logo, muito longe de serem máquinas sujeitas à segunda lei da termodinâmica clássica.

Segundo Jan Smuts, o filósofo sul-africano criador da moderna concepção holística, e que exerceu profunda influência em Alfred Adler, o primeiro grande discípulo discidente de Freud, “o conceito mecanicista da natureza tem o seu lugar e sua justificação apenas na estrutura mais ampla do holismo”.

É nesse sentido que foi sugerido que a Psicologia Espírita pode se tornar uma espécie de “Quinta Força” na Psicologia – apenas o tempo dirá se todas essas idéias irão se firmar.

            Finalizando esse, que para mim foi um satisfatório trabalho, gostaria de concluir com a observação pessoal de que estudar o Espírito Humano em seu nível subatômico, e a realidade da Alma em tal grau de profundidade, foi um elemento adicional para aumentar ainda mais a convicção de minha fé. Espero poder ter contribuído para mostrar àqueles que lerem esse estudo, mais uma das faces ou dimensões arquetípicas de Deus, ao qual uma vez mais eu repito: De fato, DEUS TRANSCENDE O TRANSCENDENTE.

 

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