Arte Românica e a Arte Gótica – da solidez do chão à leveza do verticalismo
Zulmira Gomes Costa de Carvalho
ÍNDICE
Arquitetura na França românica
Escultura e Pintura românicas
Gótico - o nascimento de um novo estilo
Arquitetura Gótica
Escultura na França Gótica
A pintura gótica na França
Introdução
O objetivo deste trabalho é, a partir de uma pesquisa bibliográfica, realizar um estudo comparativo entre o estilo Românico, que imperou durante os séculos XI e XII e o estilo Gótico, dominante a partir do século XII. Ao mesmo tempo, cumpre a função de servir como base de avaliação e créditos para a disciplina História da Arte l.
Se o desenvolvimento artístico pouco apresentou de notável no período que vai do século VI ao século X, a partir do século XI irrompe um novo espírito artístico que tomou conta de praticamente toda a Europa, mas principalmente da França, Espanha e Inglaterra. Esse desenvolvimento representou uma nova tomada de consciência da importância do ser humano e de sua produção artística, que, retornando aos clássicos como fonte de inspiração, consegue sair dos anos de trevas imposto pelo padrão de pensamento hegemônico presente na Idade Média. Esta reação da produção artística foi tão forte neste período que Bazin considera o fenômeno surgido no século XI na França como o verdadeiro Renascimento, mais ainda que o movimento renascentista italiano do século XV.
A localização espacial e temporal do surgimento da arte românica dá-se na Franca, no segundo quartel do século XI. O termo, segundo ainda Bazin, foi criado em 1823 por Gerville, " por analogia com as línguas chamadas românicas". Iniciando-se em torno de 1050 DC, a arte românica atinge seu apogeu no século XII (exceto na Ile-de-France, onde a arte Gótica cedo lhe toma o lugar), assumindo variadas formas regionais para, ao final do mesmo século, entrar em declínio.
O Estilo RomânicoO românico irrompeu pela Europa Ocidental absorvendo uma ampla variedade de estilos regionais, com vários pontos comuns, mas sem uma fonte de referência central, como ocorreu, mais tarde, com o Gótico. É mais parecido com a arte da Europa Bárbara que com os estilos de corte. Nele se incluem a tradição carolino-otoniana, juntamente com muitas outras menos evidentes, tais como elementos tardo-romanos, paleocristãos e bizantinos, algumas incluências islâmiticas e a herança céltico-germânica.
Foram vários os fatores, que, convergentes, influenciaram para que tamanha vitalidade brotasse por todo o ocidente. Sem dúvida, o mais importante dentre eles foi a afirmação total do Cristianismo como o sistema religioso hegemônico, e a conseqüente disseminação do pensamento cristão junto aos povos bárbaros. Temos, por um lado, na Normandia e na Escandinávia, a conversão dos Vikings pagãos ao catolicismo, e por outro, a reconquista cristã da Península Ibérica.
O pensamento cristão original redirigiu todas as formas da atividade humana para uma idéia de uma vida futura, já que a alma cristã fora libertada pela Redenção de Cristo, dos laços terrestres. A partir desse princípio básico, os bens terrestres, o luxo, as formas humanas e, em especial, a escultura, perderam o valor e foram desestimulados. Entretanto, com a ampliação do domínio deste pensamento por toda a Europa Ocidental, a Igreja teve, necessariamente, que convergir e transigir com as grandes ordas bárbaras, as quais necessitavam de imagens físicas como veículos de fé, fornecendo a abertura necessária para o reaparecimento da arte escultorial.
Presenciava-se um enorme entusiasmo religioso, refletido, inclusive, no incremento das peregrinações, tão importante quanto foram a reabertura das vias comerciais do Mediterrâneo e o reavivamento do comércio, principal responsável pelo efetivo desenvolvimento da vida urbana.
As decadentes cidades do Império Romano do Ocidente começaram a readquirir importância, enquanto outras novas surgiam simultaneamente, explicando o aparecimento e estabelecimento de uma nova classe média urbana por toda parte, superior em poder à classe camponesa mas ainda sob o domínio da nobreza senhorial.
Em muitos aspectos, a Europa Ocidental entre 1050 e 1200 tornou-se muito mais "românica" do que fora desde o século VI, recuperando algumas das formas do comércio internacional, a vida urbana e a força militar dos tempos imperiais antigos. A grande diferença entre esses dois períodos é a presença, agora, de uma unidade política central legada pela soberania espiritual do Papa.
Arquitetura na França românica
A arquitetura românica responde plenamente e é reflexo direto, como já se disse, da reorganização política e econômica que se opera na Europa do século XI. Estamos assistindo à época de proeminência dos mosteiros, "pois a época românica é a idade de ouro do monasticismo." Sobressairam, na França, as congregações monásticas de Cluny e de Cîteaux, situadas na Borgonha, cuja influência atingiu vários países.
A igreja românica caracteriza-se por linhas externas robustas e sóbreas, com a opção no desenvolvimento do plano basilical, ou seja, o crescimento espacial na horizontalidade, o que respondia às necessidades funcionalistas da época:
"Para responder às novas necessidades do culto, a igreja foi aumentada consideravelmente na diração leste; à simples abside da basílica latina foram acrescentadas uma parte direita (o coro) e capelas dispostas em escada (plano beneditino) ou alinhadas sobre o transcepto (plano cisterciense). Em alguns dos maiores e mais belos edifícios, a arte românica estabeleceu a forma definitiva da igreja do Ocidente, prolongando a nave lateral do coro em volta da abside (deambulatório) e fazendo irradiar as capelas (absidíolas) para essa nave lateral envolvente. A igreja ocidental da Idade Média será pois uma combinação harmoniosa do plano basilical com o plano irradiante.
O plano fundamental era basicamente o mesmo – uma nave central levando a uma abside e duas ou quatro naves colaterais. Estes planos simples podiam ser enriquecidos por certo número de adições. E para aquelas que eram construídas em forma de cruz, a galeria transversal recebeu o nome de transepto.
Na maioria dos casos, as igrejas românicas utilizavam-se de arcos redondos (semicírculos) assentes em maciços pés-direitos. A impressão que se têm delas, interna ou externamente, é de uma robustez compacta. Poucas são as decorações e as janelas estão presentes em número e tamanho reduzidos: as suas paredes e torres lembram-nos as fortalezas medievais.
Uma característica marcante na arquitetura basilical românica é a presença da abôbada, em todos os lados da basílica; aliás, fundamentalmente, é a abóboda que fornece todas as características desse tipo de construção. O estilo românico caracteriza-se por privilegiar o plano longitudinal, ou seja, as basílicas são bastante extensas no seu comprimento. Por isto, a abóboda de berço foi a solução mais lógica para esse tipo de construção e disso resulta também a necessidade de se utilizar pilares fortes, paredes espessas e por conseguinte, janelas estreitas.
A arquitetura românica procura articular vários elementos independentes os quais, adicionados uns aos outros, constituem um só edifício. Esses elementos, no plano horizontal, são o
tramo e no plano vertical, o andar. Os tramos são separados por colunas, que se apoiam sobre os pilares, e sobem até as abóbadas. Estas colunas permitem a visão alcançar toda a extensão longitudinal do edifício. No sentido vertical, os andares são delimitados uns dos outros por faixas emolduradas, que constituem grandes linhas horizontais, criando um efeito de perspectiva.Ao contrário dos monumentos bizantinos, onde a decoração cumpria apenas um papel de ornamentar as paredes, sem maiores ligações com a estrutura, a arte românica procurou valorizar a lógica, estabelecendo uma estreita ligação entre a decoração e a estrutura. Para isto, reinventou um recurso já usado pelos clássicos gregos: a arte do emolduramento, com o intuito de sublinhar as partes essenciais do edifício. Na verdade, o que sobressai na arquitetura românica são a força e o sentido da harmonia:
Souberam compor admiravelmente as massas monumentais: no interior, a progressão das naves; a leste, o ritmo irradiante da absides; a oeste, a sobreposição das fachadas.
Outra característica marcante do estilo românico é a presença do campanário, normalmente composta, em sua parte superior, por um telhado em forma de pirâmide que termina em uma agulha.
A arte escultórica também ressurge de forma surpreendente na fase românica, considerada até de forma mais notável que as realizações arquitetônicas, já que, ao contrário desta, não ocorreu este tipo de tendência na arte carolíngia nem na otoniana.
A única tradição escultórica contínua da Alta Idade Média foi a da pequena escultura, a presença de relevos reduzidos e estatuetas de metal e marfim.
Foi na França que as igrejas românicas começaram a ser decoradas com esculturas. Sua função, na verdade, era menos decorativa que expressiva: as esculturas francesas do período românico procuravam retratar uma idéia precisa, relacionada com os ensinamentos da Igreja.
Assim, a didática da Igreja acerca do objetivo final da vida terrena foram consubstanciada nas esculturas do pórtico das igrejas. Essas imagens perduravam no espírito das pessoas ainda mais poderosamente do que as palavras do sermão do pregador, ou seja, serviram como instrumento de intronização da fé cristã, principalmente junto às ordas recém-convertidas.
Apesar de sua mensagem direta à vida, as esculturas não tem um aspecto natural, por causa de sua solenidade maciça. Torna-se muito mais fácil ver de um relance o que está representado e ajustam-se muito melhor à grandeza da construção.
Todos os pormenores no interior da Igreja são pensados com igual esmero, de forma que se ajustam ao seu propósito e à sua mensagem. Então, atribuiu-se um significado bem definido às formas fantásticas. Mas por outro lado, quando penetramos nossos olhos na selva de estranhas criaturas, não só encontramos os símbolos evangelistas, como também figuras nuas de homens. Com isto, os artistas românicos deram asas à imaginação através de combinações ornamentais infinitas, "onde a figura humana se alia a elementos vindos dos reinos vegetal e animal e ao vocabulário fabuloso do Oriente para formar monstros. Essas figuras, sacudidas por um movimento endiabrado, são possuídas de uma vida frenética".
Outra característica da arte decorativa românica é o
capitel, (arremate superior, em forma escultural, de uma pilastra ou de um balaústre), de inspiração clássica. A estrutura do capitel normalmente expressa cenas evangélicas ou bíblicas e criações monstruosas. "A mais bela série de capitéis é a da nave de Vézelay, na Borgonha, denunciando também extraordinária fertilidade de invenções pitorescas".Essa promiscuidade na mistura de vários formatos deriva diretamente do desenvolvimento, da afirmação e do estabelecimento definitivo do primado da cristandade na Idade Média. Foi o século XII marcado pelas ação das Cruzadas, o que conduziu a um maior contato entre a arte ocidental e a arte bizantina, fato que levou muitos artistas do século XII tentarem imitar e emular as majestosas imagens sacras da Igreja Oriental. Disto decorreu que, em nenhuma outra época a arte européia se aproximou mais desse gênero de arte oriental do que no apogeu do estilo românico.
Já a pintura românica não teve um desenvolvimento súbito e revolucionário que a distinguisse logo da arte carolingia ou da otoniana. Isto não quer dizer que fosse uma arte menos importante para os séculos XI e XII que para a Idade Média. Houve, sim, maior continuidade na tradição pictural, sobretudo nas iluminuras de manuscritos.
O artista não estava empenhado numa imitação de formas naturais e sim com a disposição de executar os tradicionais símbolos sagrados, que era tudo o que ele necessitava para ilustrar os temas bíblicos e cristãos. Disto decorre que não devemos procurar na pintura românica a vívida ilustração de uma cena real.
Diante disto, abriam-se grandes possibilidades aos artistas, já que estes, aderindo à rígida fórmula do pensamento cristão, abriram mão da ambição de pintar o mundo assim como o vemos.
Muitas das cenas representadas estilizadamente neste período, foram, em fases mais próximas,, pintadas de forma mais realista e representadas com toda a sua crueldade.
Ao se observar um calendário ou iluminura românica, podemos, através de sua simbologia, entender uma passagem ou ensinamento totalmente representado. O artista pode prescindir de qualquer ilusão de espaço ou de qualquer ação dramática, pode arrumar as figuras e formas de um jeito puramente ornamental. A pintura estava, de fato, a caminho de se converter numa forma de escrita por imagens. Sem essas formas de estilização e composição não seria possível à Igreja traduzir seus ensinamentos em formas visíveis.
Não só as formas mas também as cores não estavam mais limitadas às verdadeiras gradações de tonalidades cromáticas presentes na natureza; estavam abertas as possibilidades de uso de qualquer cor de que gostassem para as ilustrações.
Foi essa emancipação da necessidade de imitar o mundo natural que capacitou a pintura e a iluminura do período românico a revelar o sobrenatural.
Embora na pintura românica, como ocorreu na arquitetura e na escultura, tivesse florescido uma larga variedade de estilos regionais, as suas mais belas realizações nasceram na "scriptoria" monásticas do norte da França, da Bélgica e da Inglaterra Meridional.
Gótico - o nascimento de um novo estilo
O chamado estilo gótico, ao contrario do românico, está bastante bem definido quanto ao seu nascimento. Janson chama a atenção para esta particularidade que surge a partir do gótico. Aqui já não basta mais definir a variável "tempo" do seu nascimento, mas é necessário também a determinação da dimensão espacial.
Inicialmente, em torno de 1.150 a região de predomínio do Gótico achava-se bastante limitada: correspondia apenas à província conhecida por Île-de-France, a qual compreendia Paris e seus arredores. Passado apenas um século, grande parte da Europa já se curvara diante do novo estilo, alcançando o Oriente Próximo, levado que foi pels Cruzados.
O Gótico começou o seu desenvolvimento através da arquitetura, seguido pela escultura e posteriormente, já em sua fase declinante, pela pintura.
Segundo Janson, o novo estilo nasceu entre 1.137 e 1.144, "da reedificação, dirigida pelo abade Suger, da abadia real de Saint-Denis, situada então às portas de Paris." O surgimento do gótico neste local e neste período foi condicionado pela transição de fatores políticos e econômicos, que, a essa altura, marcaram a fisionomia da Europa medieval. A idade das trevas já dava mostras de seu declínio e o poder real, eclipsado até então pelo dos senhores feudais e pelos nobres, começara a se impor. Na França de Luis VI, o abade Suger, conselheiro do rei, desempenhou um papel preponderante nessa nova composição de poder: conseguiu forjar uma aliança entre a Monarquia e a Igreja. Para conseguir isto, Suger defendeu uma significação religiosa à dignidade real, ou seja, a partir de então Igreja e Estado passaram a formar um único corpo. Isto significa, por outro lado, que o poder real dependia diretamente do renascimento do fervor religioso: "Suger quis fazer da Abadia o centro espiritual de França, uma igreja de peregrinação que ofuscasse o esplendor de todas as outras, o centro de todo o fervor religioso e patriótico".
A planta da igreja de Suger já aponta algumas das particularidades desse novo estilo que se impõe. Nota-se, de imediato, que uma nova espécie de ordem geométrica é adotada, possibilitando alcançar um espaço contínuo, mas muito bem articulado, cuja configuração está marcada por uma rede de arcos, nervuras e colunas. Em comparação à solidez das basílicas românicas, a igreja gótica apresenta formas arquitetônicas tremendamente mais leves e graciosas. As janelas tornam-se grandes e altas, ocupando quase toda a extensão das paredes, possibilitando alcançar uma nova dimensão arquitetural: os efeitos luminosos.
O fator primordial para alcançar esses resultados podem ser vistos na própria planta: "o impulso das abóbadas para o exterior é contido por pesados contrafores, salientes entre as capelas (na planta parecem espessas flechas negras apontadas para o centro da abside)." Ou seja, o peso principal da construção está concentrado nos apoios externos, propiciando assim, que a arquitetura do interior das igrejas góticas revelem uma leveza e uma atmosfera totalmente diferentes de tudo o que antes existiu.
Entretanto, os elementos utilizados não eram totalmente novos. As abóbodas de aresta com nervuras e o arco quebrado são são conhecidos do mundo românico. No entanto, existem dois ingrediente de ordem filosófica que foram integrados ao complexo arquitetônico, e que conseguiram conferir ao estilo da Île-de-France toda uma magia que, rapidamente, tomou conta de toda o mundo ocidental: o rigor geométrico e a busca da luminosidade. Esses dois ingredientes, que se encaixavam perfeitamente dentro da simbologia da perfeição divina, originaram uma interpretação que, para Suger, derivava diretamente do poder de Deus. A harmonia das coisas, a "perfeita relação das partes em termos e proporções ou razões matemáticas" e a grande luz, "a luz miraculosa" que a tudo ilumina, ou seja, a luz, entrando e sendo modificada pelos efeitos dos vitrais de vidro, se apresentava como que a reveleção mística do espírito de Deus, forneciam os elementos necessários ao projeto grandiloquente que ora se afirmava.
A explicação para tamanho sucesso, entretanto, é bem mais complexa. Janson não concorda com a tese funcionalista, segundo a qual os progressos alcançados pela arquitetura e pela engenharia propiciaram a construção mais eficiente de abóbadas, de forma a tornar todo o complexo mais leve. Para aquele autor, ocorreu uma mudança fundamental nos conceitos de beleza, de harmonia e uma valorização extraordinária das proporções, que só se explicam pela fermentação de um fervor espiritual bem percebido e estimulado pelo abade Suger.
O estilo Gótico desenvolveu-se nas cidades. O vigoroso ressurgimento da vida urbana já se fazia sentir desde o começo do século XI, refletia o surgimento de uma nova forma de desenvolvimento econômico e de social, com o aparecimento de uma burguesia cada vez mais atuante e endinheirada.
Refletindo a proeminências dos centros urbanos, ganhavam importância os bispos e o clero das cidades. Declinavam os mosteiros, ascendiam em importância as escolas cadtedrais e as universidades. A catedral de Notre-Dame, cuja construção iniciou-se em 1.163 é um marco dessa tendência.
A planta, de eixo longitudinal bem acentuado é compacta e demonstra forte unidade; a dupla charola da cabeceira prolonga-se diretamente pelas colaterais e o curto transepto pouco excede a largura da fachada. No seu interior ainda restam elementos românicos: a nave de abóbadas sexpartidas e os tramos quase quadrados. Entretanto, sobressaem as grande janelas e as formas adelgaçadas que caracterizm o estilo Gótico. Como afirma Janson, Gótico é o verticalismo do espaço interior.
Ao contrário das igrejas construídas no período românico, marcadas pela solidez de suas colunas e pelo esforço exigido para suportar as abóbodas, nas igrejas góticas o que sobressai são as linhas verticais, a leveza das paredes, as grandes janelas que adentram toda a luminosidade e a sua profunda vocação para alcançar grandes alturas.
Estruturalmente, tanto em Notre-Dame quanto em Saint-Denis, os "botaréus e contrafortes" – o esqueleto estrutural dos edifícios, não são visíveis dentro do recinto. Aparecem na planta como blocos de cantaria envolvendo o edifício como "fiadas de dentes". A descrição de Janson é perfeita:

Figura 1 – Planta de Notre-Dame de Paris (1163-12500)
Note-se o conjunto de contrafortes e botaréus, ladeando toda a planta.
Fonte
: Jason, H.W. História da Arte. Pág. 286."Acima das colaterais, os contrafortes prolongam-se por arcobotantes, ‘pontes’ de um ou mais arcos, que sobem até aos pontos críticos situados entre as janelas do clerestório, onde se concentra a impulsão da abóbada para fora (...) Esse método de ‘ancorar’ ou escorar as abóbadas, uma realização característica da arquitetura gótica, deve certamente a sua origem a motivos funcionais."
Outras características importantes, no entanto, distinguem a igreja gótica da sua antecessora românica. Chama a atenção na catedral de Notre-Dame o cuidado e o esmero na integração dos pormenores, dando um sentido de equilíbrio e coerência a todo o conjunto. Os dois elementos basilares – harmonia e ordem – aqui sobressaem ainda mais que em Saint-Denis. Mesmo a arte escultural aqui presente não escapa ao domínio desses dois elementos. Ao contrário da decoração românica, onde o sentido chega a ser, como foi visto anteriormente, anárquico, na arte gótica não é permitido esses vôos da imaginação. À escultura é atribuído um papel definido com rigor de acordo com o enquadramento arquitetural.
Em contra-partida à solidez das fachadas românicas (tal como em St. Étienne de Caen), temos agora arcadas rendilhadas e grandes portais e janelões que "dissolvem a continuidade das paredes, dando-lhes o aspecto de um ligeiro cortinado à jour".
Enquanto Saint-Denis e Notre-Dame marcaram a arquitetura do gótico inicial, três outras catedrais exprimem o vigor do Gótico Pleno (Alto Gótico,Gótico Clássico). São elas: Chartres, construída em 1.145 e reconstruída em 1.194 a 1.220 reconhecida pela magia dos efeitos dos raios luminosos passando pelos filtros, dotando-a de valores poéticos e simbólicos, tão caros neste estilo. A catedral de Amiens chama atenção pela sua altura vertiginosa, com as abóbadas leves e delgadas como membranas, pelo alargamento da superfície ocupada pelas janelas. A catedral de Reims, famosa pelos seus portais que se projetam para fora, à maneira de alpendres. Todo o conjunto se eleva e se adelgaça, e, ao fim, uma floresta de pináculos acentua o movimento verticalista, em direção ao céu.
O derradeiro período do Gótico, na França, (Gótico Final) já se prenuncia na segunda metade do século XIII, que se expressa pela maior morosidade na condução dos projetos e na dissolução dos grandes grupos de pedreiros e construtores.
Como exemplo de arquitetura desse período temos a catedral de St. Urbain de Troyes. O projeto demonstra uma preocupação com o requinte dos pormenores e pouco om a imponente monumentalidade.
Em relação à arte escultórica, o que chama atenção em relação ao período românico é o novo sentido de ordenação que apresenta as esculturas góticas. Aqui cada peça tem o seu lugar e a sua importância. Nada é colocado em demasia. A harmonia e a ordem imperam como direcionadores maiores. Como afirma Janson, é "como se todas as figuras de súbito tomassem consciência da sua responsabilidade no conjunto arquitectural". Não há lugar no espaço escultural gótico para o amontoamento de formas e misturas de motivos presentes na arte escultural românica.
Começam a surgir verdadeiras estátuas, presas inicialmente às colunas, mas que, no Gótico Pleno, dela parecem se soltar e adquirir movimentos corporais, passando as colunas a serem literalmente eclipsadas pelo volume das estátuas. Como exemplo deste desenvolvimento, temos as estátuas das jambas, presentes no portal ocidental e no portal sul do transepto da catedral de Chartres. O realismo das expressões corporais constitue outro diferencial entre a arte gótica e a românica. Notamos já que os corpos das estátuas já não estão mais no rígido eixo vertical, mas ligeiramente encurvado em S, à maneira do contrapposto clássico, com os pés repousando em uma plataforma horizontal.
O realismo gótico deixa transparecer nas suas obras a emoção do semblante humano, como pode ser visto em Abraão e Mesquisedeque, esculpido pouco depois de meados do século XIII. Chama atenção a nova possibilidade trazida pela arte gótica que representa a comunicação entre dois personagens, o movimento dos corpos, as reentrancias das roupagens e a elegância dos gestos. Além disto, o artista explora ao máximo os efeitos das luzes e sombras, dando um aspecto predominantemente pictural ao conjunto.
Figura 2 – Abraão e Melquisedeque, interior da fachada ocidental, Catedral de Reins, depois de 1.251.
Se na arquitetura e na escultura góticas francesas o desenvolvimento ocorreu como um avassalador furacão, tomando a todos de um enorme sentimento de fervor, a pintura demorou a apresentar sua notoriedade. Bazin afirma que, apesar de ser a escola de pintura francesa inferior à italiana, seria porque os franceses dispunham de outros recursos para expressar o mundo das cores. Como exemplo, cita os vitrais, a iluminura, a tapeçaria que encheram as catedrais e casas principescas de imagens as mais variadas.
Os vitrais sobressairam na arte francesa da pintura. Como exemplo, temos o vitral de Habacuc, datado de 1.220, com uma altura de 4,27 m. Aliás, se examinarmos de perto uma das seções, verificamos que a janela não é composta por grandes vidraças, mas por centenas de pequenos pedaços de vidro colorido unidos por tiras de chumbo. Isto decorria do próprio nível de desenvolvimento da manufatura vidreira medieval. Desta forma, o artista não pintou sobre o vidro, mas pintou com pequenos pedaços de vidro, à moda de um mosaico ou de um grande jogo de quebra-cabeças (puzzle).
As mesmas normas adotadas para a arquitetura e para a escultura foram adotadas para a pintura gótica, ou seja, harmonia das formas geométricas e os efeitos luminosos dando o realismo aos trabalhos pictóricos.
Em Paris desenvolve-se a iluminura, que, graças à sua célebre Universidade, dispunha de um grande centro editor. Esta arte produz as suas obras mais graciosas no início do século XIV na oficina de Jean Pucelle, declinando a partir do reinado de Carlos V, para renascer ao final do século XIV graças aos Flamengos.
Foi uma preocupação constante durante todo o trabalho traçar linhas limítrofes entre o escopo da arte românica e da gótica, destacando os principais pontos que diferenciam ou que se aproximam esses dois estilos.
Procuramos, também, situar no tempo e no espaço, o desenvolvimento dos dois movimentos, mas, além disso, situar também as conjunções de fatores políticos, sociais e religiosos que contribuíram ou exerceram influência na propagação desse ou daquele estilo.
Foram estudadas as seguintes variáveis que podem ser consideradas para efeitos comparativos, inclusive para futuros trabalho comparativos: tipo de abóbada, forma e altura das paredes, tamanho das janelas, efeitos da luminosidade, efusividade religiosa, importância da ordem e da harmonia no projeto, presença ou não de realismo escultural, organização e importância de cada imagem no projeto arquitetônico.
Vimos que o estilo românico privilegiou, no que tange à arquitetura, formas mais robustas e simples, linhas quadradas, interiores com pouca ou nenhuma decoração, e construção baseada principalmente no plano horizontal. Em relação à escultura românica, destacamos a ausência do realismo e a presença desorganizada e mesmo amontoada de figuras e de imagens de monstruosidades.
O estilo gótico, ao contrário, surge ainda no século XII, na Île-de-France, a partir de um movimento de ascenção do poder real que estiva praticamente subjugado, durante toda a Idade Média, aos vassalos e senhores feudais. Esse movimento foi forjado com a contribuição do abade Suger, que conseguiu construir um sistema simbólico unindo a figura do rei com o sentimento de divindade, perfazendo um todo, onde Estado e Igreja tornavam-se inseparáveis. Esse fervor religioso aproveitou os conhecimentos românicos da técnica e da arte da construção, criticando, por outro lado, a desorganização e a desarmonia. Como resultado, surgiram edificações de aparência leve e graciosa, que procuravam subir em direção ao céu; como base do pensamento gótico, reinava uma preocupação permanente com o rigor geométrico que significa a harmonia divina e, ao mesmo tempo, com a luminosidade, onde os raios do sol simbolizavam a sagrada luz divina.
Bibliografia
BAZIN, Germain. História da Arte. Da Pré-história aos nossos dias. Amadora (Portugal), Livraria Martins Fontes Editora Ltda, 1980.
DUBY, Georges. História Artística da Europa, a Idade Média. São Paulo, Paz e Terra, 1995.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio, 1ª edição, Rio de Janeiro, Nova Fraonteira, 1975.
JANSON, H.W. A História da Arte. Panorama das Artes Plásticas e da Arquitetura da Pré-História à Atualidade. 3ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977.