Os cerca de mil lavradores que invadiram domingo a usina Aliança, na Zona da Mata de Pernambuco, destruíram na madrugada de hoje um carro e a casa dos donos da propriedade.
Utilizando pedaços de pau e picaretas, os sem-terra entraram no imóvel, de 14 quartos e cinco salas, depredaram o local e, em seguida, atearam fogo nos objetos.
Um Monza que pertencia à usina também foi incendiado. A casa estava desocupada no momento da invasão e ninguém se feriu. Não houve prisões.
Foi a segunda depredação promovida pelos sem-terra no local. No domingo, os agricultores quebraram vidros e incendiaram móveis, documentos e equipamentos de escritório do setor administrativo da usina.
Hoje, depois de destruir a casa e o carro, os invasores se reuniram em assembléia e decidiram deixar a propriedade. Às 13h45, iniciaram uma marcha de 80 quilômetros rumo a Recife.
O MST, que organizou a invasão, disse que a destruição foi uma "ação espontânea". Segundo o líder do movimento Jaime Amorim, a "casa grande" simbolizava a "repressão e a exploração dos trabalhadores".
"O povo aqui fez o que seus pais e avôs não fizeram", afirmou. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) diz ter encontrado na usina armas, munição, uma palmatória e nove fotos de oito trabalhadores rurais assassinados.
"Acusações ridículas"
O chefe do departamento jurídico da usina, Vaudrilo Guerra, classificou de "ridículas" as acusações do MST. Na propriedade, disse, havia apenas uma espingarda "de estimação".
"Não tenho dúvida de que eles trouxeram as armas, as fotos e a palmatória para nos acusar", declarou. "Não temos capangas, e a arma usada por nossos seguranças é o telefone celular."
O advogado afirmou também que a indústria entrou na Justiça com um pedido de indenização, de valor ainda não calculado. "Vamos apurar o prejuízo e entrar com uma ação penal contra os nossos acusadores."
O Ministério Público Federal solicitou hoje à Polícia Federal a instauração de inquérito para apurar supostos "delitos de coação e dano qualificado".
A usina Aliança, composta por 22 engenhos, possui 7.500 hectares. A propriedade, considerada improdutiva pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), está com o setor industrial paralisado desde 1996.
Este ano, os proprietários conseguiram na Justiça uma liminar para impedir a desapropriação. O Incra recorreu. Os trabalhadores rurais reclamam da demora na definição do processo.
Os sem-terra que participam da caminhada pretendem chegar a Recife no próximo dia 17 para lembrar, com uma manifestação, os cinco anos do massacre de Eldorado do Carajás (PA).
O grupo vai passar por seis municípios, onde planeja realizar atos públicos "pacíficos". A Polícia Militar vai acompanhar a movimentação dos lavradores.