Factualdo, o Garnisé Positivista
Nilo Odalia
Universidade Estadual Paulista, Unesp, câmpus de Araraquara
- Fatos são fatos.- Já lá debaixo, do portão de entrada do sítio, ouvíamos a vózinha esganiçada do galinho garnisé. Ele devia estar muito entusiasmado, pois não era sempre que fazia tanto barulho para falar. A Júlia ficou morrendo de curiosidade para saber o que estava acontecendo. Olhou para mim e eu levantei os ombros como a dizer que de nada sabia.
Todas as semanas nós vamos ao sítio que fica em Itatiba. É um lugar gostoso e tranqüilo. Descansamos da poluição de São Paulo e podemos conviver com nossos bichinhos. Pelo visto a coisa não estava muito fácil. Geralmente, eles nos esperavam para que pudessem contar o que havia acontecido durante a semana. Reclamavam quando o jardineiro, o bom Genésio, que com tanto carinho cuida do sítio, havia esquecido de lhes dar de comer, mas, mais freqüentemente, reclamavam das reclamações do "seu" Genésio.
Achavam que o "seu" Genésio implicava com eles, que não podiam nem passar perto dos jardins e da piscina, que por qualquer coisa pegava de uma vassoura velha e os enxotava. Sentiam-se humilhados. O mais veemente em suas reclamações era sempre o galinho garnisé, o Factualdo, que gostava de argumentar citando o seu mestre, o fundador da filosofia positivista, "Monsieur August Comte", como dizia arredondando o bico. Mal deixamos as coisas na casa, fomos direto aonde estavam os bichos reunidos. Queríamos saber as razões do alvoroço e a mais curiosa, como sempre, era minha neta, a Júlia.
- Fatos são fatos. Ninguém, ninguém, pode negar isso.- Pelo visto o galinho havia engolido uma vitrola e repetia constantemente a mesma coisa. Os outros bichos olhavam para ele, alguns com uma cara de sorriso, outros, meio intimidados. Dois pelo menos destoavam, um pela tranqüilidade: o burrinho Pedrês, esse mesmo, o do Guimarães Rosa; ele chegara no sítio para visitar uns amigos na região, gostara do lugar e foi ficando(entre nós, o que ele gostava mesmo era de discutir com o galinho - "Gostava de arreliá-lo", como dizia sempre); o outro, estava assustado e trêmulo, era o galo carijó. Bonito como ele, penas lustrosas, imponente, estufava o peito para cantar e encantar suas galinhas. Suas passadas eram vistosas e elegantes; esticava longamente as pernas e para pousar a pata no chão torcia levemente a perna. Parecia um brinquedo de mola. Mas não se podia negar o efeito de tudo isso... sobre as suas galinhas. E também sobre as pessoas que visitavam o sítio. Todas o achavam o lindo. E ele mais do que ninguém.
- Acho incrível que vocês não percebam as evidências empíricas do que aqui foi feito por esse posudo.- Certamente estava se referindo ao galo carijó, porque ele se encolheu todo e se pudesse sumia pelo chão a dentro.
- Mas Factualdo, disse pacientemente o burrinho Pedrês, mas em que consistem essas suas famosas evidências empíricas? Umas penas, umas pegadas no chão que mal pudemos identificar. Isso não é suficiente.
- Não são suficientes para você. Um animal idealista, que vive com a cabeça no ar. Que não sabe ver o que está diante do seu nariz. Comigo não, eu sou um animal de ciência, acostumado a pensar e agir em função do concreto, daquilo que me mostram os meus sentidos. Então, você - e isso me admira muito - não sabe reunir essas coisas todas e chegar a uma conclusão. Isso, se você não sabe, chama-se indução.
A Júlia voltou-se para mim e cochichou em meu ouvido: "Vovô, eu não estou entendendo nada de nada. O que são "evidências empíricas", "idealista", e todas essas coisas que o galinho está dizendo". Quando eu me preparava para responder, o galinho olhou para mim num tom zombeteiro e superior e disse:
- Creio que aqui existe mais gente, além dos ignorantes habituais, que não sabe coisas elementares a respeito do espírito e método científicos.- Devo confessar que o seu tom era intimidante e desafiador. Nunca havia visto o garnisé tão excitado e nervoso. Freqüentemente, conversávamos demoradamente sobre muitas coisas. Era um espírito fino e penetrante. Gostava de entremear suas exposições orais com inúmeros exemplos, que buscava no dia-a-dia do sítio. Tinha grande curiosidade por tudo. Observava cuidadosamente a natureza que o circundava: gostava de acompanhar o crescimento das plantas, das flores, de tudo o que havia no sítio. Um dia soube que o filósofo Tales de Mileto amassava folhas e observava o apodrecimento da madeira, para depois afirmar, face a essas evidências, que tudo era feito de água e disse convicto: "Esse tinha um espírito científico. Era um experimentador". Dizia essas coisas como se estivesse se referindo a si próprio.
- Quero dizer a todos os que aqui estão que quando falo em evidências empíricas estou me referindo às coisas, aos vestígios, etc. que encontrei na cena do crime.
Assim que a palavra crime foi mencionada, houve um constrangimento geral. Todos olharam de imediato para o garnisé, alguns meneando a cabeça, outros com um olhar de reprovação. O próprio garnisé sentiu que a barra pesava e que ele tinha ido longe demais. Pigarreou duas ou três vezes, mas nada disse. O pobre do galo carijó era quem estava mais desconfortável. Até suas lindas penas pareciam ter perdido o brilho, sua imponência elegante e tão medida desabara. Sentia-se culpado de uma culpa que não possuía. Olhava apenas para o burrinho Pedrês - a quem se afeiçoara tão logo ele chegara ao sítio. Sentia orgulho de estar perto de alguém que falava tão bem e tão bonito. Sabia que não entendia quase nada do que lhe dizia o burrinho, mas quando estava com suas galinhas, incentivado pelas palavras sábias dele, confessava, até com certo orgulho:
- Não entendi muito bem o que ele dizia. Mas ele fala tão bonito!
O burrinho Pedrês se sentia compelido a tomar a defesa do galo carijó, mas não escondia um certo constrangimento, pois o garnisé tinha suas razões e suas evidências empíricas, "Que diabo tinha de fazer esse galo presunçoso no galinheiro do garnisé". Estava convencido que não havia nenhuma maldade, era como sempre a vaidade do galo, seu irresistível desejo de se mostrar. Era apenas isso, mas como defendê-lo, sem entrar numa grande discussão filosófica, que sabia de antemão em que iria desembocar.
- Meu querido garnisé - finalmente disse o burrinho e um suspiro de alívio perpassou a assistência e o coração do carijó parou de bater tão fortemente - meu querido garnisé, creio que você está exagerando. Afinal, as suas evidências empíricas não demonstram que tenha havido um crime. Por outro lado, as penas que você encontrou podem ter sido levadas pelo vento. Não digo que tenham sido, mas é uma possibilidade, não é? Se existe essa possibilidade, você não pode deixar de levar em consideração. Seu mestre, August Comte, também admitiria isso. In dubio pro reo(Na dúvida, deve-se favorecer o réu), essa máxima jurídica pode ser bem aplicada no nosso caso.
- Espero que o meu querido amigo não venha me dizer que as pegadas também tenham sido carregadas pelo vento. Cientificamente, isso seria impossível.
O burrinho ficou por um pouco de tempo desconcertado e sem saber o que responder. Pensou, pensou e depois disse:
- É não posso deixar de concordar com você. Contudo, já que estamos falando em vento, gostaria de utilizar a imagem para dizer-lhe que, simbolicamente, talvez você tenha razão. - Quem agora não entendeu nada foi o garnisé e os outros que assistiam a discussão. O carijó fazia muito tempo que não ouvia, nem entendia nada, só esperava que o burrinho o defendesse.
- Senhor Burrinho Pedrês - seu tom era tão solene que as palavras precisam ser escritas em maiúsculas e prenunciavam uma longa discussão - Senhor Burrinho Pedrês, tenho certeza de que mais uma vez teremos a oportunidade de ouvir sua capacidade dialética para demonstrar o indemonstrável. O senhor vive ainda na idade metafísica. - O galinho garnisé disse tudo isso com um arzinho zombeteiro.
Júlia olhou mais uma vez para mim e muito de mansinho me perguntou o que o galinho estava dizendo. Como estava muito interessado no que iria acontecer em seguida, expliquei rapidamente que por "capacidade dialética" o galinho estava querendo fazer uma gozação em cima do burrinho, a quem ele considerava um irremediável seguidor do filósofo grego Platão, que vivera alguns séculos antes de Cristo. "Capacidade dialética" quer dizer capacidade de dialogar, de expor argumentos em defesa de uma causa; por idade metafísica estava se referindo a uma teoria de Comte, segundo a qual a humanidade passara por três estados diferentes, ou três idades diferentes: a idade religiosa, a idade metafísica e a idade científica. É a chamada teoria dos três estados. Na primeira, predomina o pensamento religioso, ou seja, todos os fenômenos naturais seriam explicados através dos deuses que enchem o mundo com a sua presença, daí terem existido o deus trovão, o deus raio; na segunda, há uma evolução, os deuses são substituídos por forças naturais e impessoais; na terceira, a ciência explicaria tudo. Acrescentei rapidamente que depois seria mais claro na minha explicação.
- Em que pese sua fina ironia,- começou o burrinho-, volto a lhe dizer que o comportamento dos homens e dos animais não é determinado tão apenas pela realidade que os circunda, pelas coisas e objetos materiais que estão ao alcance da nossa mão e de nossos sentidos. Existem forças invisíveis, abstratas, que atuam sobre nós todos. Veja que o senhor mesmo, senhor Garnisé, - retribuía ao garnisé o tom solene que ele usara anteriormente - e sua esposa não cuidam de seus pintainhos apenas por que essa é uma obrigação dos papais e mamães. Vocês deles cuidam porque vocês os amam. É o amor, em primeiríssimo lugar, que os leva a cuidar de sua ninhada. O amor, a caridade, a justiça, também são forças, tão ou mais fortes do que aquelas que o senhor gosta de lembrar quando fala de ciências experimentais, de fatos, de evidências empíricas, etc. Mas essas são forças que nós podemos chamar de positivas, pois elas se dirigem ao que de mais nobre existe no animal e - concedamos - no homem também.
Eu e a Júlia nos demos uma olhada e o próprio burrinho virou sua cara para o nosso lado. Não sei dizer se seu olhar dizia que ele usava a imagem apenas como um reforço de argumentação, se queria mostrar a superioridade dos animais sobre os homens, ou se apenas queria nos lisonjear. Era muito mineiro esse burrinho.
- Mas todos nós, ele agora prosseguia com uma voz doce e matreira, estamos sujeitos a outras forças negativas, o orgulho, a arrogância, a prepotência, o egoísmo, e pior do que tudo, o narcisismo, isto é, a auto-estima excessiva. Todas essas forças são como o vento, elas nos arrebatam, nos conduzem. Levam-nos, muitas e muitas vezes, a lugares, a situações, que gostaríamos de evitar. Quem pode negar que, talvez, tenha sido uma dessas forças que conduziu o nosso querido galo carijó a fazer o que fez. Tenho certeza que não queria ofender ao galinho garnisé, nem as suas galinhas, quando foi, indevidamente, ao seu galinheiro. Ele queria - e isso é condenável - mostrar-se. Mostrar suas penas, seu porte, sua crista vermelha e brilhante. Não queria assustar nem galinhas, nem pintainhos. Ele, todos nós sabemos, é doce e inocente. Deixou-se arrebatar por ventos, que devemos evitar. Só isso.
Terminara o discurso com a voz embargada, o burrinho sentia realmente o que falava. O galo carijó encorujado, não entendera muito bem o que ele dissera, mas sentira que todos pareciam agora estar do seu lado. O porquinho da índia não deixou de fazer o seu comentário existencialista: "Cada um é responsável pelos seus atos". Mesmo o galinho garnisé perdera o tom de agressividade que até então demonstrara. Pigarreou, ciscou o chão com a patinha direita, olhou com uns olhos cheios de condescendência para o carijó e falou assim:
- Meu caro burrinho Pedrês, entendi o que você quis me dizer. É claro que não guardo agora nenhum rancor contra o meu amigo galo carijó. Compreendo e respeito os argumentos do sábio burrinho, mas não concordo que essas forças...
Quando ele ia começar um novo discurso, a Júlia o interrompeu, dizendo bem alto e empurrando todos:
- Bom, agora chega de conversa, de evidências empíricas, de forças abstratas, de dialética, de todas essas coisas. Neste sítio quem manda aqui sou eu e quero todo mundo amigo e todo mundo feliz. Eu quero é brincar de esconde-esconde, chupar uma boa laranja e correr atrás dos pintainhos... de brincadeirinha, bem entendido. Vamos, vamos...
Todos ficaram muito contentes com o final da história, o galo carijó retomou sua pose, suas penas estavam novamente brilhando, foi conversar com o garnisé e depois com o burrinho Pedrês. Era ele de novo, bonito, imponente, arrogante, mas uma boa alma, como lhe dizia freqüentemente o filosófico burrinho.
Tudo está bem, quando termina bem, diz o ditado popular. Como isso acabara de acontecer, pudemos, então, fazer o que mais gostamos de fazer quando vamos ao sítio, dar um bom mergulho na piscina. Tchibum...