ENERGIA

Indecisão já faz com que apagão tenha de durar mais; ministros da área econômica ignoravam real dimensão da crise

Atraso do governo agrava crise de energia

Eduardo Knapp/Folha Imagem
Fabio ferreira Porto trabalha na confecção de velas em fábrica de São Paulo; expectativa é que os cortes programados de energia aumentem as vendas em até 25%



DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

DA REPORTAGEM LOCAL

O atraso do governo federal, além de confusão e desencontros entre ministros a respeito do apagão programado, piora e continua a piorar a crise de energia.
Grandes empresas distribuidoras de energia, a empresa administradora do sistema nacional de eletricidade (ONS) e o secretário de Energia de São Paulo consideram que os apagões devem começar já. A indecisão do governo também já faz com que os cortes tenham de durar mais tempo.
O secretário de Minas e Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, afirma que, se o governo quer cortar 20%, que seja feito logo. Quanto maior o atraso, maior terá de ser o corte, alerta Arce.
A indecisão do governo sobre a adoção do racionamento de energia elétrica já agravou o problema. Se tivesse sido adotado em março, conforme avaliação do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), a redução no consumo seria de 10%. O ONS é uma empresa privada que supervisiona o fluxo de energia no país.
"As ações para o corte no consumo de energia estão demorando demais. Precisam ser implementadas logo", afirma Roberto Mário Dinardo, assistente da presidência da Bandeirante.

Ministros ignoravam crise
Mas o governo não sabe bem que atitudes tomar e seus ministros estão desinformados. David Zylbersztajn, diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo e genro do presidente disse que apenas na terça-feira os ministros da área econômica tiveram o primeiro contato "com a real extensão da gravidade da crise", "a pior em 60 anos".
Foi nessa reunião de terça-feira, um encontro do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que se evidenciou a descordenação na cúpula do governo. Ninguém assumiu a culpa pela crise e houve choques sobre providências a tomar. O ministro de Minas e Energia, o senador José Jorge (PFL-PE), disse ao presidente Fernando Henrique Cardoso que, em vez de multas, seriam pagos prêmios para quem poupasse energia. Presente à reunião, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, perguntou: "Quem pagará esse bônus?". Jorge respondeu: "Bom, presumivelmente, o Tesouro Nacional". Malan ponderou imediatamente que isso seria impossível. "Não temos margem para pagar nada", disse o ministro da Fazenda.

Ministro ignorava assunto
Ontem, em audiência pública na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, o secretário de energia do Ministério de Minas e Energia, Afonso Henriques Moreira Santos, disse que o ex-ministro de Minas e Energia Rodolpho Tourinho "cometia alguns equívocos técnicos, até porque era um neófito [novato"" na área. Tourinho não foi localizado ontem pela Folha para comentar a crítica.
O secretário se referia a implementação do programa de geração de energia por meio de termelétricas. Esse programa, que deveria minimizar o risco de desabastecimento, não andou durante a gestão de Tourinho (janeiro de 1999 a fevereiro de 2001) porque o problema do risco cambial não havia sido resolvido.
Tourinho foi defendido em plenário pelo deputado Clementino Coelho (PPS-PE), que considerou a postura de Moreira Santos "antiética".

Governo atrasou
O governo federal começou a programar cortes de energia na noite de terça-feira, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou que não haveria multas ou cotas de racionamento.
Desde fevereiro último que o ONS alerta o governo de que há risco de falta de energia no país. Caso o plano de racionamento tivesse entrado em vigor em maio, a redução do consumo teria de ser de aproximadamente 15%.
Com a decisão de começar o racionamento em junho, a necessidade de corte de consumo será de 20%. Se por algum motivo a implantação do racionamento demorar, haverá um incremento de três a quatro pontos percentuais por mês na necessidade de corte, de acordo com o ONS.
Antes de decidir pelo corte programa, o governo tentou uma plano para reduzir o consumo, que não deu resultados, e pensou em criar taxas extras para quem consumisse além de sua cota.

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