Bezerra terá quarentena


Depois de demitido por suspeita de irregularidades administrativas e infração de normas funcionais de conduta, o ex-ministro Fernando Bezerra ainda terá de enfrentar um revés adicional no episódio: não poderá reassumir, nos próximos quatro meses, a presidência da Confederação Nacional da Indústria.

Ontem, por volta das 18h, Bezerra recebeu uma carta assinada pelo presidente da Comissão de Ética Pública, João Geraldo Piquet Carneiro, comunicando que, de acordo com o artigo 15 do Código de Conduta da Alta Administração Pública, ele terá de se submeter a uma quarentena antes de assumir qualquer atividade que não seja o mandato de senador.

Com isso, Fernando Bezerra precisará cancelar a festa de posse que tinha marcado para hoje, mostrando mesmo desconhecer as normas de conduta que devem ser observadas por altos funcionários. Involuntariamente, fará a alegria do deputado Carlos Eduardo Moreira Ferreira, que o substitui no cargo de presidente da CNI, e não exibia a menor vontade de passar esse bastão adiante, agora. Contribuirá também para aliviar o constrangimento dos convidados para a posse de um potencial signatário da CPI da Corrupção, com a qual não concorda o empresariado, de modo geral.

Do ponto de vista do governo, encerram-se na quarentena as restrições impostas ao ex-ministro. Embora ele tenha infringido o artigo 7 do Código de Conduta ao aceitar benefícios financeiros da confederação, depois de sua saída do ministério nada mais há a fazer. Como a punição máxima prevista naquelas normas é exatamente a exoneração, o caso fica resolvido por aí.

Passa a ser, pois, uma questão de foro íntimo do senador a compatibilização do exercício de um mandato de representação pública, com a obtenção de benefícios financeiros de uma entidade privada. Como ilegal esse procedimento não é - não obstante a evidente inadequação -, e Fernando Bezerra achava muito normal ser ministro, manter funcionários pagos pela CNI e ainda morar numa casa da entidade pagando aluguel abaixo do mercado, provavelmente não considerará a hipótese de alterar essa situação.

Se tivesse perguntado antes à Comissão de Ética se estava dentro das normas, Fernando Bezerra teria de responder apenas ao caso da concessão de empréstimos da Sudene a uma empresa de sua propriedade. Consultada na manhã de terça-feira pelo presidente Fernando Henrique, que buscava saber se a reportagem do JB sobre as mordomias dadas pela CNI a Bezerra, a comissão informou que, de fato, o então ministro estava na ilegalidade.

E esse foi, no entender de auxiliares mais próximos do presidente, o fato determinante para a demissão.

Donde se conclui que estarão sendo prudentes os integrantes do primeiro e segundo escalões que resolvam, por desencargo de consciência, consultar a comissão sobre suas respectivas situações. Entre outros motivos porque, na entrevista em que anunciou sua saída, Fernando Bezerra avisou também que, se transgrediu ao misturar o público com o privado, não era o único a cometer o mesmo tipo de transgressão na Esplanada dos Ministérios.

Pés pelas mãos

Não correspondeu à realidade a versão oficial da reunião de terça-feira do Conselho Nacional de Política Energética, na qual ficou decidido que, por sugestão do ministro Pedro Malan, o plano de racionamento de energia seria refeito e reapresentado no próximo dia 23.

Os ministros da Fazenda e do Planejamento ficaram absolutamente estupefatos com o desencontro de informações e a inconsistência dos dados técnicos exibidos na reunião.

Nenhum dos técnicos presentes conseguiu, por exemplo, explicar de que modo e porque haviam chegado ao percentual de 20% como patamar ideal de economia. Além disso, há 20 dias, aquela mesma equipe havia estado na Fazenda e nem de longe desenhou um quadro da gravidade daquele mostrado na terça-feira.

A falta de dados, é evidente, faz prevalecer a impressão de que decisões da dimensão de um racionamento de energia e, mais grave, de cortes que afetarão a vida das pessoas e a economia do país, estão sendo tomadas na base do improviso. Pior: parece que por alguma razão, a Agência Nacional de Energia Elétrica e mesmo o ministério de Minas e Energia esconderam do presidente da República informações que seriam fundamentais para que se tivesse elaborado um plano racional e eficiente de redução de consumo.

Presidente da Chesf em 1986, quando foi feito um racionamento no Nordeste, o deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA) considera que o recurso ao corte de energia, o chamado apagão, é a confissão do fracasso do poder público na execução de um plano de economia.

''É a forma mais desorganizada de se encarar o problema de desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia'', considera Aleluia, que lembra a experiência de 15 anos atrás, quando o racionamento começou a ser organizado em dezembro e entrou em vigor em março.

''Resultado, não houve cortes e as medidas puderam ser suspensas antes do prazo estipulado. Agora, o que vemos é a completa falta de ação.''

Na opinião de Aleluia, o corte coletivo e compulsório de energia criará o pior dos mundos, com prejuízos irreparáveis na economia e na política. Ontem ele fez chegar esse recado ao presidente Fernando Henrique.

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