ARTE NO MUNDO ANTIGO: UMA TENTATIVA DE COMPARAÇÃO ENTRE A ARTE ROMANA E A ARTE GREGA
Zulmira Gomes Costa de Carvalho
ÍNDICE
A arte romana: uma visão comparada
O objetivo deste trabalho é tentar construir uma forma de comparação entre a cultura artística que vigorou na Grécia antiga e a arte romana, que lhe sucedeu, temporalmente. Ao mesmo tempo, cumpre a funçãode servir como base de avaliação e créditos para a disciplina História da Arte l, do curso de Composição Paisagística da UFRJ.
A maior dificuldade da qual se queixam os estudiosos do assunto é justamente a distância que nos separa hoje da civilização grega e a precariedade de fontes, para não dizer das formas contraditórias com que tais fontes nos conduzem pelo assunto. Esta é a compreensão, por exemplo, de Janson, ao afirmar que a "complicação para o estudo da arte grega provém da existência de três fontes de informação diferentes e por vezes contraditórias entre si". No que tange à arte romana, a dificuldade, apesar de ser de outra natureza, não é menor: Diferentemente dos artistas gregos, que se tornaram conhecidos e assinavam os seus trabalhos artísticos, no mundo romano essa individualização perdeu significado, a ponto de muitos autores considerarem a obra artística romana como simples assimilação da arte grega.
Não se adotará aqui a forma clássica de descrever a arte grega e posteriormente a romana, mas, dada as peculiaridades próprias de um estudo comparativo, e as dificuldades antes referidas, adotou-se aqui uma forma mais simplificada e comumente utilizada neste tipo de estudo: em primeiro lugar, far-se-á um relato sintético do caso grego, seu sistema político-social, sua cultura e religião, aprofundando-se mais sobre a obra artística grega; posteriormente, e a partir de primeiro modelo, proceder-se-á uma comparação entre as duas escolas artísticas.
Elementos de sua formação social e política
A origem dos gregos é antiga, não tão antiga como a dos judeus, mas bem anterior aos acontecimentos que acabamos de narrar. Entretanto, é apenas por esta época, cerca de 600-500 AC, que eles passaram a ter importância no cenário dos acontecimentos mundiais. Até então, as verdadeiras forças políticas do mundo eram os egípcios e os povos mesopotâmicos.
O povo judeu politicamente era muito pouco importante; sua verdadeira grandeza estava nas idéias e nas leis contidas nos livros do Antigo Testamento, desconhecidas pelos povos da época, que iriam posteriormente revolucionar o mundo.
A origem dos gregos vem da Ilha de Creta. Por volta do ano 1.500 AC, quando os judeus eram escravos no Egito, desenvolveu-se nesta ilha uma civilização de marinheiros que construíam em Creta cidades famosas na antiguidade por não terem muralhas. A ilha de Creta era muito comprida e ao mesmo tempo muito estreita. Seus muros era a própria frota de seus navios. A civilização que nela se desenvolveu recebeu o nome de Minóica.
Na época em que Moisés recebeu as tábuas da Lei no Monte Sinai, cerca de 1.200 AC, uma explosão de um vulcão na Ilha de Santorini obrigou o povo cretense a fugir para o norte, fixando-se no sul da Grécia, num território chamado Peloponeso. Nele fundaram a cidade de Micenas e passaram a ser conhecidos pelos historiadores como povo micênico.
Este tipo de formação social diferiu profundamente do estado romano, de carater unitário e imperial: enquanto os gregos, a despeito de um forte sentido de parentesco, baseado na linguagem e nas crenças comuns expressadas por meio dos grandes festivais pan-helênicos, sempre se mantiveram separados em muitas pequenas cidades-estados independentes, o estado romano sempre se importou com a unidade política e territorial. Na verdade, os gregos organizaram-se através das cidades-estado, da polis, e "foram incapazes de alargar o conceito de estado para além dos limites da polis".
Por volta do ano 1.000 AC, pouco antes da época do rei Davi e Salomão, outro povo vindo do norte da Europa, chamado de Aqueus, invadiu a Grécia e obrigou o povo micênico a fugir novamente, espalhando-se pelo litoral da Anatólia, atual Turquia, para a Fenícia, atual Líbano, para a Sicília, ilha ao sul da Itália, e para a Etrúria, no norte da Itália, região onde atualmente fica a cidade de Pisa. De todas essas tribos que se estabeleceram nessa região, dois grupos se evidenciaram mais importantes: os Dórios, presentes sobretudo no continente e os Jônios, disseminados pelas ilhas e pelas costas da Ásia banhadas pelo Egeu.
Por esta época foi escrito o primeiro clássico da língua grega, os poemas de Homero conhecidos por Ilíada e Odisséia. No território da atual Grécia desenvolveram-se diversas cidades independentes, como Atenas, Esparte e Tebas, das quais as mais importantes foram Atenas e Esparta.
Esparta estava situada em uma Península grande que havia ao sul da Grécia chamada de Peloponeso. No ano 800 AC um membro da família real de Esparta, chamado Licurgo, que havia já ocupado o trono interinamente, após ter viajado por todo o mundo da época, voltou a Esparta e fez uma reforma política na cidade na qual instituiu pela primeira vez a educação por parte do governo às crianças, jovens e adultos. Era, porém, uma educação puramente militar, que viria a ser a característica da cidade na Idade Antiga.
No ano 600 AC, Sólon, implantou em Atenas uma reforma agrária e instaurou o regime de governo democrático mais arraigado que se tem notícia na história antiga. Foi justamente nesta época que surgiram os primeiros filósofos.
O primeiro filósofo de que se tem notícia foi Tales de Mileto, amigo pessoal de Sólon. Ele vivia na cidade de Mileto, cidade grega, embora não ficasse no território da atual Grécia, mas no litoral oeste da Turquia, a chamada Grécia Antólia na Antiguidade, um dos lugares para onde haviam fugido os povos micênicos quando da invasão dos Aqueus. Nesta época, floresceram em Mileto e em suas proximidades outros filósofos famosos, como por exemplo Anaximandro de Mileto.
Próximo do fim da vida de Tales e Anaximandro, um jovem nascido na Ilha de Samos, situada entre o litoral da Grécia Anatólia e a Grécia propriamente dita, chamado Pitágoras, chegou à cidade de Mileto para estudar com estes sábios. Depois de ter estudado com eles , dirigiu-se ao Egito onde ficou cerca de duas décadas estudando com os sábios daquela terra. Quando os persas derrotaram os egípcios e os levaram para o exílio na Mesopotâmia, e com isto a civilização egípcia chegou ao seu fim, parece que Pitágoras foi levado junto. Na Mesopotâmia continuou estudando por mais uma década. Voltou então para o sul da Itália, e fundou pela primeira vez uma e depois várias outras escolas de filosofia em que os alunos ingressavam para se dedicarem aos estudos pelo restante de suas vidas.
Foi então que os persas, que eram donos praticamente do mundo inteiro, quiseram invadir e conquistar também a Grécia. Por volta do ano 490 AC ela tentou por três vezes, com um exército de mais de um milhão de homens, subjugar os gregos. Este exército e sua armada naval foram derrotados nas três tentativas pelos gregos graças a uma grande frota naval que os atenienses haviam construído com o principal propósito de se defenderem.
Após terminar a guerra, à diferença do que costumava acontecer com outros povos, um homem, chamado Heródoto, viajou pelo mundo inteiro às suas custas entrevistando pessoas e conhecendo locais, apenas para escrever um livro contendo para a posteridade a história das guerras dos gregos contra os persas. Seu livro, intitulado A História de Heródoto, era lido em praça pública em Atenas.
Acabadas as guerras contra os persas, Atenas não desmontou a sua frota. Em vez disso, utilizou-a para montar um imenso império comercial entre a cidade de Atenas e uma série de cidades chamadas colônias, fundadas pelos gregos pelo mar Mediterrâneo mais ou menos nos locais onde tinham se instalado, séculos antes, os povos micênicos. Atenas assim tinha colônias comerciais na Grécia Anatólia (Turquia), na Fenícia (Líbano), nas Ilhas do mar Egeu, na cidade de Siracusa na Sicília, na cidade de Nápoles na Itália, e no sul da França, território na Antiguidade conhecido como Gália, a cidade de Marselha, também de fundação grega.
Nesta época o grego Péricles governou a cidade de Atenas durante longos anos. Foi a época de maior prosperidade entre os gregos, também conhecida como época de Péricles. Foi nesta época que apareceram os grandes arquitetos gregos, os grandes escultores, como Fídias, os grandes autores de peças teatrais, clássicas até hoje, como Ésquilo e Aristófanes. Todas as cidades gregas tinham teatros públicos em que se representavamconstantemente peças teatrais acompanhadas de corais em que se abordavam os grandes problemas da época.
Até aquele momento a filosofia somente tinha se desenvolvido na Grécia Anatólia, originalmente, e no sul da Itália, por obra de Pitágoras. Anaxágoras, primeiro filósofo a entrar em Atenas, vindo da Anatólia, fixou residência durante algumas décadas na cidade e teve como discípulo ao próprio Péricles, até ter sido expulso da cidade por um julgamento popular. Somente alguns anos mais tarde entraria novamente um filósofo em Atenas, na pessoa de Parmênides e Zenão de Eléia, estes vindos não da Anatólia, mas do sul da Itália, discípulos de alunos das escolas pitagóricas.
As guerras contra os persas se deram por volta do ano 490 AC. A prosperidade que se seguiu à vitória durou quase um século, durante a segunda metade da qual Péricles governou Atenas. Por volta do ano 400 AC a cidade de Esparta, com receio do poderio ateniense, começou uma guerra que se estendeu durante cerca de 30 anos entre Esparta e Atenas e ficou conhecida com o nome de guerra do Peloponeso.
Os atenienses que haviam conseguido derrotar por três vezes o Império Persa, perderam a Guerra do Peloponeso diante da cidade de Esparta, basicamente pela submissão das decisões da guerra à votação democrática que tinha se tornado lei na cidade. Tal como na guerra anterior, que teve em Heródoto seu historiador, a guerra do Peloponeso foi narrada em livro pelo general Tucídides, que em sua infância havia passado longas horas ouvindo em praça pública a narração dos livros de Horódoto pela boca de seu autor. Esta obra, a Guerra do Peloponeso, é considerada a obra de historiografia mais perfeita da Antiguidade.
Foi alguns anos antes da guerra do Peloponeso que entraram em Atenas, vindos do sul da Itália, dois filósofos chamados Parmênides e Zenão. Ambos travaram profundos debates com um jovem ateniense chamado Sócrates, homem pobre, filho de uma parteira. Pouco tempo depois, Parmênides e Zenão se retiraram da cidade. Sócrates lutou depois disso na guerra do Peloponeso. Finda a mesma, começou a fazer discípulos, entre os quais estava Platão, jovem rico da alta política de Atenas.
No ano de 399 AC Sócrates foi condenado à morte e Platão, seu principal discípulo, a partir daí abandonou Atenas e a vida pública, passando a viajar pelo mundo em busca de conhecimento. Visitou entre outros locais o Egito e as escolas italianas dos Pitagóricos. Voltou depois para Atenas e fundou, inspirado nas escolas pitagóricas, a primeira escola de filosofia que existiu em território ateniense. Ficou conhecida como a Academia de Platão, por causa do nome a quem tinha pertencido o terreno.
Foi aluno da Academia durante duas décadas o filho de um médico da corte do Rei Felipe da Macedônia, o jovem Aristóteles. Quando da morte de Platão, Aristóteles abandonou a Academia e fundou uma segunda escola de filosofia em Atenas, chamada Escola Peripatética, por causa das aulas que eram dadas em pórticos. Tanto a escola acadêmica como a peripatética não iriam morrer com os seus fundadores; quando da morte de Platão e Aristóteles, os alunos escolheram um sucessor dentre eles para estes mestres e desta maneira ambas as escolas duraram séculos. A Academia de Platão, em particular, durou quase um milênio.
Os macedônios formavam um grupo de povos que viviam ao norte da Grécia em uma região montanhosa. O rei Felipe havia lutado quase por uma vida inteira para unificá-los sob o seu comando. Seu filho Alexandre foi educado por Aristóteles, mandado vir de Atenas especialmente para a função de educador. Após a morte de Felipe e terminada a educação recebida por Aristóteles, Alexandre conquistou toda a Grécia, inclusive Atenas e Esparta, e preparou- se para conquistar o mundo.
Depois da Grécia , Alexandre tomou todos os portos da costa mediterrânea da Pérsia, um após outro. Tomou depois o Egito. Sua intenção era poder depois atacar a parte principal da Pérsia localizada na Mesopotâmia sem que ela pudesse atacar os gregos por mar .
A batalha final foi em Dardanelos, na qual a Pérsia foi vencida. Alexandre, o Grande, agora era senhor do mundo conhecido na época, desde a Grécia até a fronteira com a Índia.
Após a morte de Alexandre, iniciu-se uma disputa pelo trono, na qual toda a família de Alexandre foi morta pelo generais em disputa pelo poder.. Nenhum deles, porém, conseguiu ficar com o império todo que Alexandre havia conquistado. Ptolomeu ficou com o Egito, Seleuco com o Oriente, Antígono com a Síria e a Turquia, Casandro com a Macedônia. Mais tarde Antígono foi derrotado militarmente e os seleucidas ficaram também com a Síria.
O resultado final foi a divisão do mundo inteiro em monarquias de reis greco-macedônios.
A primeira conseqüência cultural deste processo foi que a língua grega se tornou a língua universal de todo o Oriente. Em todas as cidades importantes começaram a surgir escolas de grego. Foram abertos teatros onde se apresentavam peças gregas, ginásios de esporte se espalharam por estas cidades e adquiriu-se o gosto pelas obras de arte no estilo grego. Os poetas, os filósofos e os historiadores gregos passaram a ser lidos em todo o Oriente e na língua original. A cultura grega, muito superior e mais elaborada do que tudo quanto existia no mundo da época começou a se impor em todo lugar. No Egito foi construída em Alexandria a maior biblioteca do mundo antigo, com acesso aberto ao público. Em outras palavras, o que ocorreu no Oriente como conseqüência das conquistas de Alexandre foi o processo de helenização do mundo oriental, sendo este período da história conhecido, por causa disso, com o nome de período helenístico.
Este processo aconteceu também com o povo judeu que habitava na Palestina. Eles começaram a aprender o grego e a se esquecer do hebraico. Nesta época, os últimos livros da Bíblia, tais como o Livro da Sabedoria e os Livros dos Macabeus, foram escritos em grego e não em hebraico. O rei Ptolomeu do Egito convidou também neste período 70 rabinos judeus para virem até Alexandria, capital do Egito, traduzir o Velho Testamento do hebraico para o grego. Esta tradução, inicialmente feita a pedido e para a leitura do rei Ptolomeu, acabou se tornando mais comum entre os judeus do que o próprio original hebraico. Foi a primeira tradução da Bíblia de que a história tem notícia, chamada, por causa de seus autores, de Versão dos Setenta ou Septuaginta.
Foi nesta época que começou a entrar em cena no palco dos acontecimentos mundiais a civilização romana.
A arte na Grécia antiga
Os gregos foram os primeiros artistas realistas da história, ou seja, os primeiros a se preocupar em representar a natureza tal qual ela é. Para fazerem isso, foi fundamental o estudo das proporções, em cuja base se encontra a consagrada máxima segundo o qual o homem é a medida de todas as coisas. Podem-se distinguir quatro grandes períodos na evolução da arte grega: o geométrico ( séculos IX e VIII a.C. ), o arcaico ou orientalizante ( VII e VI a.C. ), o clássico ( V e IV a.C. ) e o helenístico ( do século III ao I a.C. ).
No chamado período geométrico, a arte se restringiu à decoração de variados utensílios e ânforas. Esses objetos eram pintados com motivos circulares e semicirculares, dispostos simetricamente.
A técnica aplicada nesses trabalhos foi herdada das culturas cretense e micênica. Passado muito tempo, a partir do século VII a.C., durante o denominado período arcaico, a arquitetura e a escultura experimentaram um notável desenvolvimento graças à influência dessas e outras culturas mediterrâneas.
Também pesaram o estudo e a medição do antigo megaron, sala central dos palácios de Micenas a partir da qual concretizaram os estilos arquitetônicos do que seria o tradicional templo grego. Entre os séculos V e IV a.C., a arte grega consolida suas formas definitivas. Na escultura, somou-se ao naturalismo e à proporção das figuras o conceito do dinamismo refletido nas estátuas da atletas como o Discóbolo de Miron e o Doríforo de Policleto.
Na arquitetura, em contrapartida, o aperfeiçoamento da óptica ( perspectiva ) e a fusão equilibrada do estilo jônico e dórico trouxe como resultado o Partenon de Atenas, modelo clássico por excelência da arquitetura dessa época. No século III, durante o período helenístico, a cultura grega se difunde, principalmente graças às conquistas e expansão de Alexandre Magno, por toda a bacia do Mediterrâneo e Ásia Menor.
A arte grega não causa tanta estanheza a nossa percepção, pois existem muitas semelhanças entre um templo grego daquela época e faixadas de edifícios "clássicos" da nossa época. Uma estátua helênica lembra-nos muitas outras vistas na atualidade e que se preserva como influência grega.
O estilo geométrico não foi, segundo Janson, um prolongamento da tradição micénica, masum ponto de partida novo e completamente primitivo. Esse período acontece a partir de 800 a C., época que marca a institucionalização dos Jogos Olímpicos e ponto de partida da cronologia grega.
Esse estilo é conhecido pela cerâmica pintada e pela pequena escultura. Inicialmente esta decoração apresentava traçado abstrato - triângulos, quadrados, círculos concêntricos - mas posteriormente aos 800 a C as figuras humanas e de animais passam também a compor o quadro geométrico.
Um grupo especialmente importante que retrata esse estilo está representado pelas urnas funerárias. Neles estão presentes, tal como no vaso do cemitério de Dipylon, em Atenas, figuras representando o morto, as carpideiras, a procissão do enterro, guerreiros a pé e de carro. Não se vislumbra neles qualquer referência a uma vida além-túmulo, sendo a intenção meramente comemorativa.
Percebe-se neste estilo elementos figurativos e geométricos existentes no mesmo campo, sendo difíceis distinguir uns dos outros: os losangos tanto podem representar um homem como uma cadeira. Este estilo aparece na Grécia, Itália e no Oriente Próximo. Isto nos mostra uma indicação segura de que os comerciantes gregos se encontravam bem estabelecidos no Mediterrâneo central e oriental no século VIII a C. Nesta época, já haviam modificado o alfabeto fenício.
Este estilo da arte grega acontece por volta de 700 a C. e sofre fortes influências do Egito e do Oriente Próximo, devido ao crescimento do comércio entre essas regiões. Nesse período, a arte grega absorve uma multidão de idéias e temas orientais e sofre, por isso, profundas transformações. Através da comparação entre o Pote de Elêusis com o vaso de Dypilon, podemos perceber que a ornamentação geométrica não desapareceu de todo, mas ficou limitada às ondas periféricas; aparecem os frisos de animais em luta, devido ao repertório da arte oriental, como também as figuras ganham dimensão e rigor descritivos que os motivos ornamentais não lesam a ação. Surge um interesse maior pela articulação do corpo, muito mais além do estilo geométrico. Esta fase representa um período de experiência e de transição, em contraste com a estabilidade e coerência do estilo Geométrico. A assimilação dos elementos orientais marcou o início de um novo estilo, o estilo arcaico, que vigorou do final do século VII até 480 a C. Uma das mais importante das ídeias surgidas neste período foi o afã de esculpir e edificar obras perduráveis em pedra.
O final do século VII assistiu a uma eclosão do gênio artístico da Grécia, não só na cerâmica como na Arquitetura e Escultura..
A arte arcaica, apesar de não apresentar a perfeição e equilíbrio presentes no período Clássico (século V a C.), em compensação exerce uma grande atração para o expectador moderno.
A revolução do material e da técnica causaram modificações estilísticas decisivas na arte grega. Os vasos arcaicos são, em geral, bastante menores que os precedentes porque já não são utilizados como urnas funerárias (substituídas pelos monumentos de pedra), tendo uma decoração mais acentuadamente figurativa. Os temas preferidos são a mitologia, a lenda e a vida quotidiana. A qualidade artística de muitos exemplares é elevada, sobretudo nos de Atenas.
A pintura arcaica não ficou restrita aos vasos; existiram pinturas em murais e em painéis. Sendo essencialmente desenho preenchido com tintas lisas e cores simples.
A pintura em mural ganhou espaço após a guerra pérsica (475 -450 a C.) com o descobrimento progressivo do modelado e da profundidade espacial. Nesta época, a pintura de vasos perde qualidade por não haver técnica para obter esses efeitos, provocando um declínio no final do século V.
A origem da escultura arcaica é sombria: segundo Janson, não se sabe "porque se manifestou subitamente na Grécia o gosto pela arte monumental nem como os artista adquiriram a perícia egípcia do talhe da pedra. Talvez nunca se esclareça o mistério pois as estátuas e os edifícios mais antigos que chegaram até nós mostram que a tradição egípcia já fora completamente assimilada e helenizada, embora se mostrasse ainda bem visível".
Avaliadas pelas normas egípcias, as estátuas arcaicas parecem algo primitivas, rígidas, simplificadas, desajeitadas, pouco naturais quando comparadas com a arte egípcia. As estátuas gregas são as mais antigas estátuas humanas de vulto redondo, em tamanho natural e de pedra, que foram realizadas de pé, sem nenhum apoio. O escultor grego separa os braços do dorso e as duas pernas. Toda a pedra da estátua ganha sentido representativo, num todo orgânico, sofrendo transformações para que não transpareça matéria inerte. Não chega a ser apenas uma diferenciação da técnica e sim uma intenção artística.
As estátuas gregas rompem com aquela característica compacta e de aparência serena das egípcias, denotando tensão e vida interior. Estas estátuas são por nós conhecidas por meio do nome genérico de Korai (plural de Koré, mulher jovem) quando femininas, e Kourai (plural de Kouros, homem novo), quando masculinas. A figura feminina aparece sempre vestida; podemos pensar na questão de conjugar o corpo à roupagem refletindo como contribuição os diferentes hábitos do traje da época.
É difícil determinar o que elas representam para o doador ou qualquer pessoa favorecida pelos deuses, como exemplo, um vencedor dos Jogos Atléticos. A estranha ausência de diferenciação é uma característica essencial. Nem deuses nem homens, mas seres intermédios, referência a um ideal de perfeição física e de vitalidade.
Os gregos herdam dos egípcios a tradição da escultura arquitetural, que vinham desde a monarquia antiga, recobrindo paredes dos edifícios religiosos e funerários, com baixos relevos. Nas placas de pedra, técnicamente, são imagens em alto relevo; o escultor grego desejou afirmar a independência das suas figuras em relação à estrutura arquitetônica.
A escultura aparece confinada a uma zona emoldurada por membros estruturais mas que é estruturalmente vazia: o triângulo compreendido entre o teto e as duas vertentes do telhado.
Era o frontão o lugar mais adequado para receber a escultura arquitetural. Os Jônicos substituiram as colunas dos pórticos por estátuas femininas. As figuras são magras e musculosas cujos corpos dão uma ótima impressão funcional e orgânica.
O artista grego representa com grande êxito as formas humanas em movimento, mostrando a sua sensibilidade na representação da luta ou da morte.
As ordens arquitetônicas clássicas desde a Roma antiga são: Dórica, Jônica e Coríntia. A Coríntia é uma variação da Jônica. A Dórica é a ordem mais importante e foi criada na Grécia peninsular. A ordem Jônica se desenvolveu nas ilhas do Egeu e na costa da Ásia Menor.
Ordem Arquitetônica é um termo usado somente na arte grega. O templo dórico é uma entidade real e efetiva que se define no nosso espírito à proporção que compreendemos os movimentos. Segundo Janson, este é um conceito bem definido porque os elementos constitutivos são constantes em número, características e relações mútuas; devido a este repertório são de fácil reconhecimento.
Os edifícios são construídos de blocos de pedra, justapostos e sobrepostos sem argamassa. Os telhados, de duas águas, eram construídos de armação de madeira, cobertos com telhas de barro. O núcleo é a cella ou naos (recinto que contém a imagem da divindade) e o pórtico (pronaos) com duas colunas ladeadas por pilastras (antae). Em alguns casos é acrescentado um segundo pórtico, atrás da cella, para tornar a planta mais simétrica.
Os maiores templos da Grécia jônica chegam a ter uma coluna dupla. Os primeiros construtores de edifícios de pedra se inspiraram no Egito, Micenas e arquitetura grega pré-arcaica.
Os gregos aprenderam com os egípcios muito da sua técnica de talhar pedra e da construção de cantaria, e também a ornamentação arquitetural e os conhecimentos de geometria.
Portanto, não se pode compreender a história da arquitetura se a limitarmos a uma evolução abstrata do estilo, sem ter em conta os fins reais dos edifícios ou a sua base técnica ; e que as intenções puramente estéticas foram forças motivantes.
É o período de equilíbrio e de maturidade. Cerca do ano 450 a C. o ático Miron e o argiano Policleto elevam à perfeição a evolução do tipo atlético, realizando, o primeiro, a expansão do movimento, e o segundo, o cânone das proporções atléticas.
Em 480 a C., pouco tempo antes de serem derrotados, os persas destruíram os templos e as estátuas da Acrópole. A reconstrução da Acrópole ocorreu no final do século V a C., durante o governo de Péricles, na época do apogeu de Atenas, representando o maior empreendimento de toda a arquitetura grega.
O Parthenon, março da arquitetura grega, é de valor estraordinário como significação artística. Foi o único templo conhecido que serviu a quatro religiões diferentes, sendo constrúido pelos arquitetos Ictinos e Calicrantes (448 a 432 a C.).
O Parthenon é o modelo completo da arquitetura dórica clássica e forma um contraste elucidativo com o templo de Poseidon, de Paestum.
Durante os três séculos, entre o fim da guerra do Peloponeso até a conquista romana, a arquitetura mantém-se quase estacionária. Mesmo antes de Alexandre, a atividade mais intensa manifesta-se nas cidades helênicas da Ásia Menor, onde encontramos alguns monumentos de novo tipo, de influências orientais, como o enorme Mausoléu de Halicarnasso, o Altar de Zéus, e Pérgamo.
Ganham nova importância os pórticos municipais que delimitavam as praças do mercado, centro da vida cívica e comercial das cidades gregas. As casas de moradia tornam-se maiores, mais decoradas e com maior conforto.
Enquanto a fase arcaica da escultura os movimentos eram representados de forma mecânica e rígida, a escultura do período clássico apresenta uma vitalidade da estrutura corpórea que evoca a experiência donosso próprio corpo. Exemplo dessa evolução pode ser percebido na estátua de um jovem (Efebo de Kritios). A vida impregna a estátua e por isso o "sorriso arcaico" se torna desnecessário, sendo substituído por uma expressão séria e pensativa, característicos da primeira fase da escultura clássica.
O maior conjunto de escultura do estilo severo encontra-se nos dois tímpanos do templo de Zeus, em Olímpia, datando de 460 a C.
Não há pinturas murais nem painéis que nos esclareçam e a pintura dos vasos só de forma rudimentar podia refletir essa nova concepção da arte pictórica.
O período Helenístico ou Alexandrino
A quarta fase do desenvolvimento da arte grega, de 400 a C. até o primeiro século a C. O intervalo de 75 anos entre o fim da guerra de Peleponeso e a subida ao poder de Alexandre Magno costuma ser designado por Clássico Final ou Tardio e o período dos dois séculos e meio seguintes por helenísticos; esta palavra designa a difusão da civilização grega para sudeste através da Ásia Menor até o Egito, Mesopotâmia e as fronteiras da Índia.
O tipo dórico cai em decadência e o coríntio toma então o seu lugar. A partir do século III assiste-se ao desenvolvimento da arquitetura edilitária - composta de pórtico, sala de reuniões, biblioteca, museu - enquanto se edificam grandes conjuntos urbanos, permitindo uma idéia do urbanismo da época.
A escultura tem origem no expressionismo lisipiano, que irá se desenvolver no sentido do patético e do realismo.
A arte romana: uma visão comparada
A primeira diferença básica que salta aos nossos olhos, ao depararmos com a história romana é a sua maior acessibilidade: podemos acompanhar com bastante facilidade o desenvolvimento político, a expansão territorial, desde a cidade-estado ao Império, o desenvolvimento de suas instituições e a vida pública e privada das principais personalidades romanas.
Isto não ocorreu por acaso: os romanos tiveram sempre uma preocupação de registrar sempre os acontecimentos marcantes e mesmo os do seu dia-a-dia, deixando-nos uma grande herança literária, de elevada qualidade, seja na poesia, seja na filosofia. Ao mesmo tempo, chama a atenção a grande preocupação romana em evidenciar sua cultura nos grandes monumentos espalhados por todo o império, desde a Inglaterra ao Golfo Pérsico, desde a Espanha à Romênia.
Entretanto, tarefa bem mais difícil é definir o gênero romano nas Belas-Artes. A pergunta que se tenta responder é: existiu mesmo um estilo romano ? Enquanto a arte grega marcou presença pela perfeita definição, seja no estilo clássico, seja no helenístico, o mesmo não ocorre com os romanos. A começar pela ausência de individualização dos artistas romanos, os quais, quase sempre, se mantiveram na obscuridade. O que parece ocorrer é uma grande admiração dos romanos pela arte grega, evidenciada pela importação de originais arcaicos, clássicos e helenísticos, e pela prática da cópia desses originais.
"A produção artística romana assentava francamente em fontes gregas e muitos dos seus artistas, desde os tempos da Repúbklica até ao fim do Império, foram de origem helênica. Nunca cultivaram uma literatura especialmente consagrada à história, à teoria e à crítica da arte, como a que existiu entre os gregos. E nem sabemos de artista romanos que se tornassem famosos, embora os grandes nomes da arte grega – Policleto, Fídias, Praxíteles, Lísipo, etc. – fossem exaltados sempre com o mesmo fervor".
Entretanto, como já se afirmou inicialmente, este fatos não desmerecem nem podem obscurecer as grandes contribuições dos romanos no campo das artes, sendo inegável que a produção artística realizada pelos romanos tem um aspecto nitidamente diferente.
A sociedade romana teve um caráter cosmopolita em que as característias infra-nacionais foram absorvidas e fundidas em um modo de ser todo romano. Os romanos sempre foram bastante tolerantes para com as peculiaridades culturais dos povos conquistados, desde que tais diferenças não ameaçassem a unidade política do Estado. Desta forma, apesar da grande proeminência grega sobre o modo de ser romano, também os Etruscos, os Egípcios e a cultura do Oriente Próximo deixaram ali suas influências. Prova dessa extraordinária capacidade de absorver e agrupar culturas diversas é o Santuário de Mithras, exumado no centro de Londres: o deus é de origem persa, mas as feições são romanas, e o santuário revela-se totalmente romano.
Desta forma, diferentemente do que sucedera no Egito e na Grécia, não existiu um estilo coerente e bem delimitado, mas, o que chama atenção foi a sua capacidade de harmonizar tendências divergentes em um mesmo monumento, sem que nenhuma delas sobressaia a ponto de inibir ou encobrir as demais.
Segundo Bazin, foi no domínio da arquitetura que o espírito romano encontrou a sua mais forte expressão. A paz prolongada, a riqueza devida à intensa atividade comercial, os programas edílicos de uma administração preocupada com o bem público e o gosto romano pelo conforto deram origem a um enorme movimento de construções monumentais em todo o Império.
Exemplo valioso é o Templo da Fortuna Virilis, construído nos últimos anos do século II a C. Apesar de utilizar as colunas jônicas que revelam a influência helênica resultante da conquista da Grécia por Roma, não pode, entretanto, ser considerado uma simples réplica, já que estão presentes também elementos etruscos, como o alto podium, o profundo pórtico e a larga cella onde estão embebidas as colunas do peristilo. A cella aqui é única, ao contrário da etrusca, dividida em três ambientes, já que os romanos necessitavam de grandes ambientes utilizados não só para albergar a imagem da divindade, mas também para a exposição de troféus trazidos pelos seus exércitos conquistadores.
Outra construção que revela o estilo romano é o Templo da Sibila, construído em Tivoli algumas décadas depois do anterior. Aqui as diferenças são ainda mais marcantes: as vergas, as ombreiras, as soleiras e peitoris das portas e janelas da cella são de pedra talhada. As paredes foram construídos segundo uma técnica que revela o caráter prático e econômicos dos romanos: são feitas de betão, amálgama de argamassa, saibro, cascalho e outras sobras da construção e recobertas de placas de pedra. Resistente, econômico e flexível, tornou possível os vastos empreendimentos arquiteturais que são ainda hoje os principais testemunhos da grandeza de Roma.
O mais antigo monumento utilizando essa técnica é o Santuário da Fortuna Primigenia, em Palestrina, nas colinas do sopé dos Apeninos, a leste de Roma. A sua grandiosidade revela traços tipicamente romanos, que ainda não tinham sido alcançados pelos gregos, como por exemplo, a abóboda de berço. Toda a encosta de uma colina, foi transformada e articulada de modo a aparentar como se a estrutura estivesse brotando da rocha. Essa modulação de grandes espaços abertos nunca foi possível nem desejável no mundo grego. O santuário de Palestrina não exprime o espírito do período republicano romano, mas marca uma época da ditadura absolutista (82-79 a C.), um período de transição do regime republicano para o governo pessoal de Júlio César e dos imperadores que lhe sucederam.
A arte romana revela uma nova tendência de ver o mundo, uma forma em que a eficiência e a economia predominam sobre o senso estético. Os arcos e as abóbodas de berço permitiram uma evolução do sistema de urbanização, com a construção de esgotos, pontes e aquedutos. Cita-se, como exemplo, o aqueduto conhecido como Pont du Gard, em Nîmes, na Provença, que, atravessando o vale, exprime a alta qualidade da engenharia romana e do sentido de ordem e de permanência que inspirou tais esforços.
A adoção dessas novas formas arquiteturais permitiram alterações nos interiores das construções, que se tornaram mais espaçosas. O exemplo mais expressivo dessa tendência é o Pantheon de Roma, vasto templo redondo do início do século II a D.
Outro exemplo também marcante da grandiosidade dos espaços interiores é revelada pela Basílica de Constantino, construída no primeiro quartel do século IV d C., que deve ter sido o mais vasto interior coberto de toda a Roma. A forma estrutural inovadora é marcada por uma abóboda de aresta, na qual todo o peso e empuxo acham-se concentrados nos quatro cantos do recinto. Isto permite que as paredes sejam rasgadas por grandes janelas, de modo que o interior da Basílica era amplamente iluminada e arejada. Esse estilo encontrou eco em muitos edifícios posteriores, desde igrejas a estações ferroviárias.
Também na arquitetura civil os romanos mostram diferenças substanciais em relação aos Gregos. Aqui a própria concepção particular de mundo adotado pelo romanos, com a redução do espaço público e avanço do privado, auxiliam a compreensão das residência romanas, nas quais a intimidade do lar e a independência eram primordiais para o romano mais abastado. Basicamente, dois tipos de residências doméstica sobressaem: a domus e a ínsula. A domus é uma casa independente para um só família, formada por uma grande sala – o atrium - no centro da qual existe o impluvium, área do teto aberta, sustentada por quatro colunas coríntias. Ao centro, no piso, um tanque para recolher a água da chuva – o compluvium. Os quartos estão agrupados à volta do atrium, estando o edifício totalmente isolado da rua por grandes paredes, revelando um desejo de intimidade e resguardo do particular sobre o público próprio do romano.
A insula ou bloco habitacional pode ser considerada como a precursora do moderno prédio de apartamentos. É um grande edífício que atingiam até cinco andares, construído em betão e tijolo, com um pequeno pátio central. O andar térreo apresenta lojas e casas de alimentação, enquanto as residências localizavam-se nos andares superiores.
Os romanos, entretanto, pelo menos até meados do século III a C., sempre conservaram-se fiéis às chamadas "ordens clássicas gregas", adotando em todos os monumentos as colunas, a arquitrave e o frontão. Essa atitude ordodoxa e reverente perante a gramática arquitetônica clássica passou então a ser questionada. Isto pode ser visto no peristilo do Palácio de Diocleciano em Split (Spalato), onde a arquitrave encurva-se entre as duas colunas centrais. À esquerda, outra característica ainda mais revolucionária: uma série de arcos repousando diretamente sobre colunas, estilo esse nunca antes adotado pelos gregos.
Se na arquitetura podemos observar claramente uma forma particular e própria da contribuição romana, na escultura essa tarefa não é das mais fáceis, devido à vasta importação e cópia de originais gregos, que renderam aos romanos a reputação de imitadores.
Apesar disto, alguns gêneros de escultura tiveram importantes funções na cultura romana. São eles o retrato e o baixo-relevo.
Um exemplo de retrato extremamente característico da era romana na figura do romano desconhecido, contemporâneo do retrato helenístico de Delos. Apesar da aparente semelhança, existem diferenças substanciais entre eles.
"Enquanto a cabeça helenística nos impressiona pela subtil captação da psicologia do modelo, a cabeça romana, à primeira vista, só nos chama a atenção por não aparecer mais que a transcrição pormenorizada de uma topografia facial: a personalidade do modelo emerge apenas incidentalmente, poderia dizer-se. Na verdade, não é assim: embora as rugas estejam fielmente reproduzidas, o escultor procedeu a uma acentuação selectiva, tratou-as com o desígnio de por em evidência um carácter especificamente romano – austero, rude e de férrea vontade no seu culto do dever".
Entretanto, à medida que se aproxima da era augustiniana (27 a 14 d C.) essa tendência copiativa do período anterior cede a um novo estilo, marcado pelas estátuas dos próprios imperadores. Essa forma de representar o imperador como um deus já vinha deste bem antes, passou pelo mundo grego, foi adotada por Alexandre, o Grande, que o transmitiu a Júlio César.
A imagem de Augusto, pela estátua de Primaporta, apresenta-o como uma divindade, mas com características claramente romanas, seja pelo gesto e pelos trajes, seja pelo rosto, marcadamente romano.
Outra forma utilizada pelos imperadores para comemorar suas façanhas foi os baixo-relevos narrativos em altares monumentais, arcos de triunfo e colunas. Estes traços delimitam uma diferença básica com escola grega, que não conheceu tais recursos. Enquanto os romanos procuravam resgatar cenas reais, que ocorreram em um determinado tempo e espaço, a representação grega pela escultura não utiliza esses recursos: "para se comemorar uma vitória sobre os Persas, esta seria representada, indirectamente, como m combate de Lápitas e Centauros ou de Gregos e Amazonas – um sucesso mítico fora do tempo e do espaço".
Essa concepção diferente também pode ser observada pela comparação entre as cenas representadas em duas obras primas do mundo antigo: o Parthenon gredo e a Ara Pacis da época de Augusto. Enquanto a descrição das esculturas no Parthenon representam uma procissão realizada num passado mítico, onde o tempo não tem representação, na Ara Pacis vemos uma procissão para celebrar um dado acontecimento recente, delimitado no tempo e no espaço.
Este aspecto torna-se plenamente evidente na Coluna de Trajano, erigida de 106 a 113 d.C., para celebrar as campanhas vitoriosas do imperador sobre os Dácios. A Coluna de Trajano distingue-se tanto pela sua grande altura (37,5 m), como pela faixa contínua, em espiral, de baixos-relevos que lhe reveste toda a superfície e que narra a história da Guerras Dácicas. A faixa do relevo desenvolada teria cerca de 200 metros de comprimento, e, pelo número de figuras e densidade da narração, este relevo é a mais ambiciosa composição em friso realizada até então no Mundo Antigo.
Problema maior em termos de comparação entre a arte grega e romana concerne à Pintura, já que pouco sabemos sobre a pintura grega ou helenística. Sabe-se, apenas, que os romanas copiaram obras gregas e que fizeram vir da Grécia tanto quadros quanto pintores.
O que temos da era romana são painéis e murais, que revelam o conhecimento do artista romano sobre a representação da realidade tridimensional. Fazem destacar efetivamente o aspecto distante dos edifícios, inundados de luz para causarem a impressão do espaço aberto e de ar livre. No entanto, os edifícios não se distinguem uns dos outros e são confusas as suas dimensões relativas. "O pintor romano não domina de modo sistemático a profundidade espacial e a sua perspetiva é de puro acaso e sem consistencia interna."
Apesar dos seus esforços, a arte romana da pintura, que não consegue alcançar os efeitos ilusivos no tratamento da luz, também deixa a deseja em relação à perspectiva. A ausência de uma visão coerente do mundo visível constitui uma diferença fundamental em relação à evolução alcançada pela pintura durante o Renascimento e na Idade Moderna.
Não é sem razão que, à primeira vista, a arte romana é, de certa forma, desfavorecida em relação à arte grega. O desenvolvimento cultural e político alcançado pelos romanos não pode ser comparado ao nível de desenvolvimento adquirido pela cultura grega, especialmente na sua fase clássica e helênica.
A arte grega parte de concepção de mundo bastante diferente do modo de ser romano. É um tipo de representação que não valoriza a realidade vivida, mas representa os acontecimentos através de mitos e valores transcendentais, como se quisesse ultrapassar o tempo e o espaço, na sua valorização dos valores e do senso estético. O espírito romano, ao contrário, é prático e realista. Valoriza sim a estética, mas esta acha-se subordinada a valores mundanos, como a eficiência, a economia, o aproveitamento de materiais mais baratos e práticos.
Outro fator, também já ressaltado, revela uma diferença básica entre romanos e gregos: diferentemente do que sucedera no Egito e na Grécia, não existiu um estilo coerente e bem delimitado, mas, o que chama atenção foi a sua capacidade de harmonizar tendências divergentes em um mesmo monumento, sem que nenhuma delas sobressaia a ponto de inibir ou encobrir as demais.
As técnicas arquitetônicas evoluíram bastante com as contribuições romanas: A adoção dessas novas formas arquiteturais – abóboda de berço e de aresta - permitiram alterações nos interiores das construções, que se tornaram mais espaçosas. O exemplo mais expressivo dessa tendência é o Pantheon de Roma, vasto templo redondo do início do século II a D.
Estas e outras características enfatizadas anteriormente, nos permite concordar com Janson, e aceitar plenamente a existência de um modo de ser romano também na área da Belas Artes. Afinal, como desconhecer a influência exercida no mundo moderno pelos bustos e retratos romanos, ou como não notar similaridades entre algumas estátuas presentes em nossas cidades e por exemplo, a Estátua Equestre de Marco Aurélio ?
BAZIN, Germain. História da Arte. Da pré-história aos nossos dias. Livraria Martins Fontes Editora Ltda, 1980.
JANSON, H. W. História da Arte. 3
ª edição, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1987.